quinta-feira, 4 de outubro de 2012

deus, deus está em toda parte, eu não queria ter que deixar a porta fechada, por que a luz, os pássaros, o barulho de criança brincando na rua, mas a campainha, a campainha toca nas horas mais impróprias, e estando a porta aberta, não dá pra fingir que não tem ninguém em casa, como faço toda vez que vejo pelo olho mágico duas mulheres bem arrumadas, sapatinhos de salto, bolsas grandes nos ombros, sacou da bolsa uma bíblia como se sacasse uma arma, o que me lembrou a tira do jornal: como castrar um homem com um livro? leia a bíblia. ela me disse bom dia, eu de pijama às onze da manhã, xícara de café na mão, cabelos desgrenhados, bom dia. hoje eu queria falar de qualidade de vida, e queria falar com vc. é que eu não fumo, mas só faltava um cigarro em uma das mãos pra compor o quadro "a personificação da decadência", não, eu ali não queria falar de qualidade de vida, muito menos com ela, e foi aí, depois dessa frase, que ela sacou a bíblia, olhando para os lados, como se pudesse ser punida por isso, como se fosse altamente subversivo o que ela ia me mostrar, e eu entendo que ser evangélico é mesmo altamente subversivo, ler a bíblia é de uma subversão comparável a ler o livro vermelho num regime neo-liberal, mas eu tb sei que não é a subversão da multiplicação os pães que a perturba, o que a perturba é que talvez eu diga não, e que talvez ela tenha que continuar andando para conseguir esgotar a cota de panfletos do dia, e que talvez ela não atinja a meta de fiéis conquistados na semana, por isso o olhar apressado de quem tem um segredo a revelar. eu só queria voltar para o meu bolo, quente, fumegando em cima da mesa, estou ocupada, eu disse, e ela abriu a bíblia e me disse um salmo, nem me lembro que salmo era, eu sorri meu sorriso de pedra e disse que não era uma boa hora, e então o ar subversivo se dissipou, e se formou uma névoa de desdém e raiva, e eu pensei, o que leva duas senhoras a zanzar debaixo do sol quente tentando conquistar mais fiéis, minha mãe sempre dizia a mesma coisa: já tenho minha religião, e é tão repressora quanto a de vcs, eu completava em voz baixa, nunca tive coragem de erguer a voz pra minha mãe, até que um dia tudo explodiu em gritos e choros, um barulho imenso no quintal, jogaram alguma coisa, uma revista, preciso sair para comprar luvas, estou com calos na mão, e embora eu diga com certa frequência que não se deve confiar em pessoas de mãos muito lisas, esses calos tem me incomodado um bocado. mas não saio, mas não faço, não, não, não. só escrevo. escrevo pedindo, escrevo agradecendo, escrevo informando, escrevo brigando, escrevo protestando. e leio. uma manhã inteira de letras e leituras. é horrível dizer isso, mas exceto por um ou dois textos, me sinto como se perdesse tempo. e deus, deus foi embora com a mulher do portão, mas parou na casa ao lado, e minha vizinha não me deixa esquecer que Ele é o glorioso e que vai voltar para me amar, e se eu não amá-Lo agora depois vou me arrepender. canta bem, minha vizinha. só não me convence.
tava tão carente de abraço, que pedi café com leite mesmo estando com calor, tava tão precisando de carinho, que quando o sinal ficou vermelho me escorei no poste sem perceber e me senti confortada, tava tão triste e à toa na vida que vim andando do paraíso até a vila madalena, e posso dizer que não me sinto nada confortável depois de duas horas andando com esses sapatos nada confortáveis, exceto pelo fato de que o cansaço do corpo ajuda a diminuir o volume da barulheira maldita que eu tenho na minha cabeça agora.