segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
a gente se apaixona num dia, no outro lembra que tem um creme para os pés esquecido em alguma parte do armário do banheiro. quase em outra dimensão, é preciso inclusive checar se ainda está no prazo de validade. vai que o pé cai depois de usar. e vc se lembra que tem também nessa mesma dimensão, um artigo que seus pés há muito desconhecem: uma lixa. quem usa lixa, senão quem tem em casa um par de pernas que pode se arranhar, reclamar e fugir por causa do seu calcanhar solado, que de tanto vc andar descalça, criou uma nova sola, com o seu próprio couro. não, é melhor garantir que pelo menos os pés estejam livres das asperezas que a gente já encontra aos tantos por aí. a gente se apaixona num dia, e no outro já esqueceu o que era mesmo que queria fazer no próximo feriado. não tem feriado. ou todo dia é feriado. por que claro, não pense que o seu rendimento no trabalho será o mesmo. não será. mas existe uma vantagem, pelo menos se vc, como eu, for autônomo: é um novo mundo de necessidades, e se vc for uma pessoa atenta, novos itens surgirão na sua grade de produtos. vc vai chegar em casa correndo e fazer uma nova peça, às pressas, mas com tanta concentração e carinho, que não vai se esquecer de nenhum detalhe. depois vc vai levar isso tarde da noite, num lugar que não é nada perto da sua casa, mas e daí, é domingo e vc está apaixonada. o problema mesmo é ter que dizer: só posso ficar vinte minutos. e depois de duas horas, ir embora querendo ficar. a gente vê uma pessoa na rua, um dia, e no outro ela está dentro de vc. mas é claro que não estou apaixonada, assim, como estou dizendo. é só que aquele negocinho que as pessoas tem, que dosa a intensidade das emoções, em mim parou de funcionar. tem um tempo já. e até me disseram pra ir com calma, por que eu sou muito intensa, e posso assustar. ora, e eu não sei? e não é essa a minha trajetória até agora, de intensidades e sustos? na hora eu não disse nada além de - e daí onde vc está vc vê tudo isso? dá pra ver, pri. bom, então que bom que dá pra ver. que aí a pessoa já sabe que o que a espera é justamente isso: sustos e intensidades.
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
eu pensando em não deixar a sandália cair pelo vão das escadas, eu embaixo do viaduto, descalça na linha do trem, procurando as sandálias amarelas que caíram pelo vão da escadaria, nada difícil de acontecer quando se fala de mim, então eu me concentrava em prender a sandália no pé. também não podia deixar que a saia mais ou menos curta e rodada levantasse com o vento, sensualização no viaduto do brás não é qualquer uma que dá conta, eu não dou. no meio da escada, entre poças de mijo e restos de comida, um homem pedia esmola, as pernas tortas, atrofiadas, quase sem sangue que circulasse nelas, um boné e muitas blusas que me deixaram tonta de calor. no meio da escada o homem que quase jazia morto-vivo sorriu e disse de um jeito muito doce, mas que menina mais bonita. eu vi seus dentes amarelos e muitos e sorri de volta, ele sorriu com mais intensidade, e não me estendeu a mão como estendera para a pessoa que ia na minha frente, de mim não viriam moedas. não sei se compensava, mas o que eu tinha para lhe dar era um olhar que o reconhecesse como um ser humano, e que reconhecesse naqueles olhos azuis a doçura que o resto da humanidade teima em ignorar. sorri de volta. não tinha moeda nenhuma, de todo modo.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
se eu pelo menos soubesse tocar violão. ou se eu tivesse disposição pra assumir que não vou mesmo dormir, e descesse pra costurar um pouco. buscar a máquina, preciso ligar amanhã sem falta. podia lavar a louça, dobrar as roupas que ficaram espalhadas, cortar um vestido, passar a limpo as anotações de encomendas. por que será que me perco nos prazos, os montes de papeizinhos se amontoam até que somem da minha vista. então eu volto pros e-mails, anoto tudo de novo, tudo em folhas avulsas de novo, perco tudo de novo. não devia ter dado aquelas três moleskines pra ele, eram duas pretas e uma vermelha. devia ter pego pra mim. claro que isso quer dizer que somos todos assassinos, sebastião nunes. recomendo. num tapa durante a madrugada de ontem. hoje as meninas. em dezembro, aqui perto de casa, a cidade não cheira a pêssegos. tem uma fábrica da roche aqui perto, e embora meu irmão diga que não é uma fábrica, só uma distribuidora, a cidade aqui tem cheiro de xarope de maracujá. doce até o fim.
domingo, 24 de julho de 2011
e assim, de cama em cama, ficou sem brincos. nenhum. de orelhas peladas, saía por aí dizendo: viu meus brincos? de vidro. vidro russo, não qualquer vidro. não sei qual é a especialidade dos vidros russos, mas aqueles são de vidro russo. viu por aí? tem algum no bolso? se vir, guarda pra mim? são muito, muito importantes. não, valiosos, não. importantes. uma coisa brilhando no chão, pode ser meu brinco. me avisa? guarda pra mim? obrigada. muito obrigada. parava os homens de terno, viu meus brincos? as mulheres indo pro trabalho, ei, esse brinco. esse brinco é meu, vc... ah, não, não é. é parecido, mas não é o meu. me desculpe. os meus são de vidros russos, sabe? não sei o que tem demais os vidros russos, mas o meu é de vidro russo. desculpe. pode ir. parecia uma rainha vistoriando a guarda. examinando os empregados reais. usava uma saia toda feita de retalhos, que ela mesma costurava sem tirar a saia do corpo. por volta das cinco era fácil cruzar com ela zanzando perto da estação da luz. quando as confecções colocavam sacos e mais sacos de restos de tecido nas ruas, ela examinava um por um, escolhia a dedo o que renderia as melhores combinações. se sentava na calçada, abria uma caixinha cheia de linhas, tesourinhas, agulhas, tudo arrumado com ordem e método. não se sabe como ou por que ela chegou até aqui. conversava pouco, e no que era do entendível, não dizia nada de si. se filhos, se pai, se mãe, irmãos, namorados, maridos, nada, nada. só os brincos importavam. os brincos e a saia.
da espera
ele nunca me encara de frente, peito aberto. me olha sempre de lado, mesmo quando está falando comigo. e se olha, olha rápido, só pra dizer que não, que consegue falar comigo e me ver ao mesmo tempo. depois escolhe uma parada qualquer pra pousar o olhar. eu achava que ele não gostava de mim, do meu jeito. assim, sem nem conhecer direito, que não suportava, mesmo. mas outro dia, num relance, eu vi. estava escuro, era noite, mas eu vi ele me olhando. e entendi tudo. ok. eu topo.
é, entendi errado. isso já faz um ano. mais de um ano. que droga! eu achei que eu soubesse ler olhares.
é, entendi errado. isso já faz um ano. mais de um ano. que droga! eu achei que eu soubesse ler olhares.
domingo, 5 de junho de 2011
quarta-feira, 6 de abril de 2011
não vou mais procurar casa. não vou mais procurar trabalho, nem vou fazer entrevista nenhuma. não vou mais costurar, não vou mais cozinhar, não vou fazer mais nada. vou vender todas as minhas roupas, ficar só com sete mudas, uma para cada dia da semana. mais dois pijamas. uma mochila. vou vender todos os meus móveis, vou vender tudo o que seja possível botar um preço. vou fazer um grande garage sale, um enorme e gigante família vende tudo. vou dar minhas fotos pra quem quiser. vou picotar meus tecidos e vender em retalhos. vou cozinhar uma última vez, tudo o que tem nos armários, pra vender em porções. vou pedir pro pai do leo guardar na casa dele o que for do leo. vou pegar parte do dinheiro pra arrumar essa casa pra entregar pro dono. vou pagar minhas contas, quitar minhas dívidas, fechar a conta no banco. vou pagar a bicicleta, bloquear o celular, ver se meu irmão quer ficar com o telefone fixo. vou dar um beijo no meu filho e dizer daqui a um ano eu volto. ele vai estar banguela, mais alto, mais esperto, mais velho. não sei de mim. tudo vendido, contas pagas, mochila nos ombros, vou andar. não sei pra onde. não sei por que. não sei pra que.
terça-feira, 29 de março de 2011
até me esqueci que estava com fome, esqueci da roupa lavada pra estender, esqueci da roupa já seca pra recolher, da bolsa de água quente descongelando, a criança já dormiu, levou um tombo e tanto, deitada na cama fazendo carinho enquanto ele continha uma lagrimazinha que eu não sei direito do que era, me dei conta de que são quase oito anos de estrada, e fiquei feliz por ser parceira dele nessa empreitada, e digo isso por que ser mãe às vezes faz a gente se confundir, por que foi a gente que pariu, então é fácil se enganar e achar que temos direitos tais ou quais. de suprimir a individualidade do ser, eu falo.
esqueci dos cachorrinhos, do cachorrão, da gata, esqueci de tudo. me dei conta de que somos em sete aqui. eu sempre quis ter uma família grande. às vezes eles caem. eu ajudo a levantar. às vezes eu caio. tento fazer com que não saibam de nada. não acho que isso é bom ou ruim, não acho nada. foi só uma constatação.
quarta-feira, 23 de março de 2011
quase esqueci. sonhei que voltei, mas o lugar de origem acabou se tornando uma nova viagem, e vivíamos numa espécie de castelo, a família toda, mas chegou um mensageiro dizendo ao meu pai que deveríamos sair dali, pois os antigos donos se arrependeram da transação, qualquer coisa assim, e que se não saíssemos no mesmo dia, eles chegariam com um exército de cavaleiros e nos matariam, meu pai não quis sair, disse que nós os venceríamos facilmente, mas eu disse que não, que preferia partir, que não queria participar de batalha nenhuma, e ele disse que eu podia ir se quisesse, mas sozinha, e como eu sabia que o mundo ia acabar, por que isso era em 2012, eu escolhi deixá-los, por que cada um sabe como prefere morrer, e eu não disse isso para ninguém, mas eu achei que preferia morrer numa catástrofe do que degolada com uma espada por um cavaleiro cruel. se bem que acho que eles não fazem só isso com as mulheres, mas no sonho não veio nenhum tipo de conflito de gênero, isso eu que estou teorizando agora, enfim, no sonho eu tinha que fazer uma mala de roupas, e de repente todos os sapatos da minha mãe apareceram, sapatos que existiram mesmo e dos quais eu já havia me esquecido completamente, e eu pensava, mas por que raios esses sapatos ficaram guardados esse tempo todo, tinha até aquelas manchinhas verdes de mofo, e eu escolhendo quais sapatos eu levaria, mesmo sabendo que não teria oportunidade de usá-los, por que sabia perfeitamente que estávamos indo morrer num lugar diferente, apenas. peguei os sapatos que eu gostava mais, o leo ia fazendo a mala dele, disse que pegasse só o que ele gostava mais, botei tudo na mochila e partimos, eu, leo e um companheiro x que também tinha um filho, mas que não era meu, e fomos nós quatro embora do castelo. vimos chegar o grande exército, enfileirado, cavaleiros com espadas e plumas na armadura, eu temi pelo meu pai e minha mãe, mas não pensei se venceriam ou perderiam a batalha, pensei que estávamos todos perdidos de qualquer forma, então que cada um fizesse o que era de gosto, que é o regalo da vida, fazer o que é de gosto. só lamentei que eles não tivessem acreditado nessa conversa de que o mundo ia acabar, para que tomassem atitudes mais libertas, enfim, seguimos. passamos por uma praia e o mar levantava ondas gigantes, nós nos olhávamos assustados, mas ao mesmo tempo serenos, e não dizíamos nada às crianças, ele dirigia e eu conversava com os meninos, eram dois meninos, e depois de bastante tempo andando na estrada, paramos num supermercado. compramos comida, e eu disse aos meninos que fossem até a seção de brinquedos e escolhessem o jogo mais legal para eles brincarem na viagem, eles fizeram aquela cara de minha mãe é o máximo, e então o despertador tocou. e eu não sei mais o que aconteceu, a gente devia ter uma máquina que filmasse os sonhos. claro que não, acho que muita coisa devia ficar ali e só ali, mas eu queria ver o fim da história. é que a gente sempre acha que o fim demora pra chegar. e não é que o mundo ia acabar, a gente é que não ia sobreviver, de qualquer forma...
terça-feira, 22 de março de 2011
a gente estancou de repente, mas graças aos bons deuses, estamos desestancando. mesmo que tenha um ou outro rugindo ainda, e fazendo cara de mau, e dizendo que não pode, e que não vai, e que não dá, eu digo: eu posso, eu vou, eu dou. mentira, por que ninguém dá quando quer, ah não, a música diz que ninguém tá quando quer, expressão com a qual concordo em grau, número e todo o resto. e dar, bem, não ando dando muita coisa não, ando mais é querendo receber, pra ver se me recomponho direito, mentira, não quero receber nada de ninguém pra me recompor, então estou no modo econômico, entende, muito embora aquela outra música diga e na lei natural dos encontros, eu deixo e recebo um tanto, e parto aos olhos nus, mas não vou vestida de luneta, vou vestida de caleidoscópio, se quiser se alegrar, me veja, se não quiser, olhe para outro lado, que estou disposta a esquecer seu rosto de vez e acho que é tão normal. não digo que não tenho medo, mas é como a menina que tinha tanto medo do lobo, mas tanto medo, que começou a repetir, lobolobolobo e de repente se viu frente à frente com um enorme e delicioso bolo. o medo? dome. não é toa que é assim. eu acredito que as palavras carregam muito mais do que seu significado mais óbvio. mas não sei por que comecei a falar de medo.
sábado, 12 de março de 2011
de que adianta, uma boa idéia, uma boa intenção, como pode, viver assim, não entendo, mais que não entendo, eu não conseguiria. a fita desenrolada no chão, se ele ver vai ficar bravo, há quanto tempo não vejo fitas cassetes, eu conserto, ou melhor, eu trago um cd, ele tem como ouvir cds? sim, tem sim, vc traz? então traz, o L. estragou a fita sem querer, depois ficou assustado achando que ia levar uma bronca, eu deixei aqui, não sei se ele já viu, talvez já tenha visto e não tenha nem ligado, mas talvez não, talvez ele fique bravo comigo, não se preocupe, eu trago um cd. e por mais que eu me julgue forte, sempre desabo quando o vejo, tão inerte, tão dentro de si mesmo, queria tanto conversar com ele, dizer tio, me diz o que vc tá pensando, tio, me conta, o que é que dizem pra vc? e queria ouvir todas as suas histórias, tudo o que ele escuta dia e noite, sem parar, queria ajudar, queria que ele saísse um pouco de lá, queria que ele voltasse a escrever, escrevia tão bem, escrevia no jornal, "A Vitrine", era o nome da coluna dele, eu acho, e um dos artigos eu lembro que era "Panacéia Geral", eu acho, não tenho certeza, será que alguém guardou? por que eu não guardei? por que eu não achei que fosse acabar tão cedo, por isso eu não guardei, não disse nada que não sabia o que era panacéia, fingi entender tudo e depois fui procurar o que significava panacéia, nunca mais esqueci, tio, eu queria que Panacea descesse do Olimpo e te desse a mão, eu queria encontrar uma panacéia pra vc, mas acho que não tem, tio, então fico triste por não poder tornar sua vida menos miserável, mas eu vou tentar, ainda não sei direito como, mas olha, eu vou tentar. meu tio sempre foi meu herói. meu ídolo, as meninas gostavam dos caras de bandas, dos atores, eu admirava meu tio. por causa dele eu li tudo o que não devia ter lido, ouvi tudo o que não devia ter escutado. entrava escondido no quarto dele, a contragosto da minha avó, pegava os títulos dos livros e ia emprestar da biblioteca, olha tio, estou lendo demian. demian? gostou? vou te dar outro, leia esse, o lobo da estepe, gostou? então leia esse, o jogo das contas de vidro, olha tio, estou ouvindo jethro tull. gostou? escuta isso, animals, doors, janis, jefferson airplane, hendrix, bob, pink floyd, ramones, clash, smiths, stones, deep purple, caetano, milton. ah, tio. nem me pergunto o por quê. não acredito que possa haver um por quê. agora sou eu a dizer leia esse. mas ele não lê mais.
terça-feira, 8 de março de 2011
ele me disse, me lembro claramente disso, agora que seu cabelo cresceu vc vai voltar a ser quem era, e me lembrei disso de repente, à toa, quando pisava numa lajota solta que fez a água espirrar nas botas, enquanto segurava numa das mãos as novas chaves e apoiava o guarda-chuva no chão a cada passada no passeio molhado de chuva. as chaves antigas no bolso, ainda não antigas, portanto, por que ainda as uso, mas agora dois molhos, o novo molho com chaves pequenas apenas, sem aquela chave - como se chama mesmo, aquela grande, que às vezes trava, tinha na casa de uma tia, eu achava tão chique ter uma chave grande, decerto por que acreditava que guardava coisas de muito valor, chaves simples guardam coisas simples, chaves grandes guardam coisas grandes, vim pra cá pra fugir do complicado que invariavelmente acompanha o grande, quero tudo simples, casa simples, coisas simples, vida simples, chaves simples. sem segredos. voltar a ser quem eu era? não sei, você volta a ser quem vc era junto comigo? eu perguntei e não ouvi resposta nenhuma, mania de botar sempre a culpa em mim, decerto por que aceito sempre as culpas todas que podem caber em mim. tem volta? isso de voltar a ser quem a gente era dez anos atrás, não tem, se tivesse não queria - será que não, não sei - talvez quisesse, talvez por isso essa volta agora, pra tentar de novo acreditar que o mundo é grande e que a gente pode muito. não fico achando que voltei por medo, acho que voltei mesmo por coragem. coragem e confiança talvez excessiva de que o mundo é grande e de que a gente pode muito. a gente dá tanta volta. apesar do verbo no passado, nenhuma grande mudança ainda. um dia por vez, me disseram, e achei que fosse uma boa idéia acatar esse jeito de viver. pelo menos por enquanto. um dia por vez. dois molhos de chave, algumas idéias na cabeça e muito amor no coração. por que só assim. tetra. o nome da chave grande.
segunda-feira, 7 de março de 2011
tudo o que escrevi, devia ser reescrito. não arrumo, não conserto, não reescrevo. e peço desculpas por isso. falta de respeito com quem lê, eu acho. mas tudo passa tão rápido, e eu já faço tão pouco, se ficar consertando tudo o que faço de errado, não faço nada nunca. e eu faço tudo errado. tem dias em que só isso parece ser verdade. casei - casei vírgula - com o primeiro que apareceu, meses depois eu estava grávida, meses depois eu estava triste, e tudo o que eu queria fazer da minha vida enfiei num saco, dei um nó e guardei no maleiro do guarda-roupa. e agora, quase dez anos depois, não sei por onde começar a consertar as coisas. por que aí me questiono, será que foi tudo errado mesmo? e fico achando que não foi bem assim. estou sempre me dando uma colher de chá, estou sempre botando água na minha sopa. enfim. detesto aqueles blogs de tentativa de emoção. sabe, como é? quando o escritor se reveste de um tom lírico, prefiro as coisas simples. os escritos simples e claros, de quem não está tentando te convencer de que ali existe muito sentimento. de quem está escrevendo, apenas. se houver emoção em quem escreve, a gente vai perceber. se não, a gente vai perceber do mesmo jeito. é muito fácil saber se vc está sendo enganado ou não. desde que vc esteja prstando atenção. assim como também é muito fácil reconhecer a frivolidade dos eternamente emocionados. sabe, tudo é emoção? tudo é lirismo. tudo é sentimento. uma flor nasceu, ó! uma criança morreu, ó! flores e crianças nascem e morrem todos os dias.
domingo, 6 de março de 2011
No dia em que saí de casa sem botas, por que não as encontrava, tomei o primeiro ônibus que passou no primeiro ponto da rua, para que não machucasse muito os pés com os pedregulhos do caminho. não me sentei no primeiro banco, não haviam bancos disponíveis, fiquei de pé no corredor, logo depois de passar pela catraca. que obstáculo terrível é uma catraca. até no nome a catraca te prende, você abre a boca para dizer A, o som quer sair livre e solto, mas não pode, o som logo é trancado, percebe, a semelhança entre forma e conteúdo, entre catraca e trancada, mas enfim, de pé no corredor, olhando meu reflexo no vidro, tão bonita em reflexos, ao vivo não, mas nos traços gerais, com alguma sombra, bonita sem dúvida, era o que ele dizia quando sozinhos no quarto com a luz apagada, uma velhinha, velhinha, velhina mesmo, dessas que a gente vê em gravuras de livros infantis, de contos de terror, de ilustrações de bruxas da idade média, uma velhinha roía as unhas, as unhas não, roía a unha do mindinho da mão direita. cavocava, cavocava, era desesperador, não parava de comer, como se tirasse suculentos filetes de carne como se fosse fazer um bife tartar e matar sua fome, tinha fome do que será aquela mulher, sei que fui ficando com náuseas, era muita vontade de comer para se ver assim, num ônibus, principalmente quando se está descalça, e então, para que meu desespero aumentasse, ela tirou o dedo da boca, e já não havia mais unha, o dedo já não possuía mais três, mas apenas duas falanges, ela comia o dedo, um cotoco de dedo em carne viva, então me olhou, sorriu, e entre os dentes pedaços de carne rosa, eu contive o vômito, apertei o sinal e desci. assustada, não notei que pisei numa poça de lama, aliás, tinha ficado tão quente de estarrecimento dentro do ônibus com a mulher que comia o dedo, que talvez tenha mesmo gostado da sensação gelada, lisa e mole de pisar numa poça de lama, mas não contava que nessa poça houvessem filhotes de larva branca, na verdade sequer desconfiava da sua existência, sei que fiquei com uma coceira horrorosa nos pés, e esfregava um pé no outro tentando aliviar a coceira, outro ônibus chegou, subi, sentei no primeiro banco perto da janela, e de repente me deu uma fome, mas uma fome, não tinha nada para comer na bolsa nesse dia, por que acordei atrasada e não encontrei as botas, então olhei minhas mãos e vi duas irresistíveis e suculentas coxas de frango assadas, com um cheiro, um cheiro de recém saídas do forno, temperadas com alho, laranja e mel, com casquinhas crocantes e brilhantes, e eu só lambi, a princípio, cheirei, lambi, cheirei, e quando me dei conta uma menininha chorava assustada e apontava para a mãe o que ela via, e o que ela via era uma moça comendo os dedos, mas tudo isso eu estou supondo agora, a partir de um ou outro lampejo, não me lembro exatamente do que aconteceu, mas sabendo agora da existência dessas tais larvas brancas, e essas manchas de barro na minha calça, e estando apenas com metade da mão inteira, acho bem possível que tenha sido isso o que aconteceu, me lembro ainda do cheiro maravilhoso de coxas de frango assadas ao mel. achei minhas botas, estavam atrás do criado, devo tê-las chutado no escuro, sonâmbula que sou.
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
não combina com esse sorriso, não é? e o que combina com o que? nada combina. eram tantas as listras, cheguei a pensar que o mundo todo fosse listrado. andando rápido, as listras da grade se confundiam com o chão listrado de placas de concreto, e então vieram mais listras, do muro da ponte, e lá embaixo, carros e mais carros formavam um outro tipo de listras, e os carros ao meu lado, cada um na sua faixa, mais listras, pra onde vão tantas listras, o que fazer num mundo todo listrado,
comecei a chorar, e se acabasse tudo agora, mas não em cima de um dos carros, não queria estragar o dia de ninguém, no rio, então. nesse rio eu não tenho coragem, posto que não é rio, pensei no meu filho, chorei mais ainda, tonta com o excesso de listras no mundo, e então os carros da polícia, e o helicóptero, e o trem, e os carros, a ponte balançava, soldados nunca marcham em pontes, era tanto barulho, que parecia que não era pra eu escutar nem o que estava pensando, então continuei andando, acabaram as listras, acabou a tonteira, me vi quase me arranhando no muro, como se quisesse virar muro, como se quisesse virar tijolo, como se quisesse virar barro, como se quisesse virar pó.
comecei a chorar, e se acabasse tudo agora, mas não em cima de um dos carros, não queria estragar o dia de ninguém, no rio, então. nesse rio eu não tenho coragem, posto que não é rio, pensei no meu filho, chorei mais ainda, tonta com o excesso de listras no mundo, e então os carros da polícia, e o helicóptero, e o trem, e os carros, a ponte balançava, soldados nunca marcham em pontes, era tanto barulho, que parecia que não era pra eu escutar nem o que estava pensando, então continuei andando, acabaram as listras, acabou a tonteira, me vi quase me arranhando no muro, como se quisesse virar muro, como se quisesse virar tijolo, como se quisesse virar barro, como se quisesse virar pó.
domingo, 20 de fevereiro de 2011
saudade de tudo e saudade de nada
saudade de andar pela cidade inteira e por lugar nenhum
saudade de ser surpreendida por uma chuva de verão
pelo menos era o que dizia quando chegava em casa completamente ensopada
não gosto dessa palavra
ensopada não
completamente molhada
molhada também não
a caminhada fazia com que a roupa fosse secando aos poucos
descabelada sim
tinha uma sandália de plástico
por isso nunca ficava com os sapatos encharcados
andava procurando
andava a procurar
não sei o que era que buscava
nem sei se já encontrei
sei que andei, e bastante
às vezes buscando, às vezes só andando
saudade do começo, nenhuma saudade do fim
que não é fim, é meio, por que ainda não acabou
é meio mas não é metade
por que ainda não se sabe o que é o inteiro
é outono ou inverno?
é agosto
daqui a pouco é setembro
daqui a pouco o ano acabou
daqui a pouco
acabou
e aí saberemos (ou não, talvez não haja tempo pra isso) o que é o inteiro e o que ficou pelo meio
anda por que não sabe se passa ou se fica
sabe que canta
mal
mas canta
a plenos pulmões
não é exatamente um canto, é um encanto
não por que encanta
mas por que é encantado
por que expulsa demônios muitos
exorciza diábolos
o coisa-ruim
o sem nome
o inominável
o impronunciável
o filho que por ter caído, tenho certeza que é também o mais querido
senão o mais querido, o mais invejado
mas eu não acredito mais nessas coisas
da minha infância cristã
eu não acredito mais nessas coisas, mas não me fale de Jesus se me vir embriagada
por que Jesus protege os bêbados, os loucos e as criancinhas
e às vezes conto com ele pra que nenhuma merda aconteça
é melhor falar bobagens que calar besteiras, já dizia Guimarães
nisso eu acredito, estando embriagada ou não
preciso arranjar outro sapato de plástico
pra voltar a ser surpreendida por chuvas de verão
e não ficar com os pés molhados
que andar descalça às vezes dói
saudade de andar pela cidade inteira e por lugar nenhum
saudade de ser surpreendida por uma chuva de verão
pelo menos era o que dizia quando chegava em casa completamente ensopada
não gosto dessa palavra
ensopada não
completamente molhada
molhada também não
a caminhada fazia com que a roupa fosse secando aos poucos
descabelada sim
tinha uma sandália de plástico
por isso nunca ficava com os sapatos encharcados
andava procurando
andava a procurar
não sei o que era que buscava
nem sei se já encontrei
sei que andei, e bastante
às vezes buscando, às vezes só andando
saudade do começo, nenhuma saudade do fim
que não é fim, é meio, por que ainda não acabou
é meio mas não é metade
por que ainda não se sabe o que é o inteiro
é outono ou inverno?
é agosto
daqui a pouco é setembro
daqui a pouco o ano acabou
daqui a pouco
acabou
e aí saberemos (ou não, talvez não haja tempo pra isso) o que é o inteiro e o que ficou pelo meio
anda por que não sabe se passa ou se fica
sabe que canta
mal
mas canta
a plenos pulmões
não é exatamente um canto, é um encanto
não por que encanta
mas por que é encantado
por que expulsa demônios muitos
exorciza diábolos
o coisa-ruim
o sem nome
o inominável
o impronunciável
o filho que por ter caído, tenho certeza que é também o mais querido
senão o mais querido, o mais invejado
mas eu não acredito mais nessas coisas
da minha infância cristã
eu não acredito mais nessas coisas, mas não me fale de Jesus se me vir embriagada
por que Jesus protege os bêbados, os loucos e as criancinhas
e às vezes conto com ele pra que nenhuma merda aconteça
é melhor falar bobagens que calar besteiras, já dizia Guimarães
nisso eu acredito, estando embriagada ou não
preciso arranjar outro sapato de plástico
pra voltar a ser surpreendida por chuvas de verão
e não ficar com os pés molhados
que andar descalça às vezes dói
sábado, 19 de fevereiro de 2011
Não disse, estou sempre descabelada.
Ah é, é verdade, tem isso também.
Mas não é pelo decote que se sabe se uma mulher tem peito ou não.
Quem fala de si mente e sempre corre o risco de estar enganado.
Nem por isso eu deixo de falar.
Entre enganos e enganos, alguns acertos teremos.
Sou uma cachorra branca libriana enlaçadora de mundos.
Trago num laço mundos, seres e coisas conquistadas.
Ando sempre com um laço solto na bolsa, pronta para enlaçamentos inesperados, imprevisíveis e espontâneos.
Eu sou uma sombrinha que vira pro alto no meio do temporal.
Por que eu adoro pôr as pernas pro ar, e vivo de bom-humor, como as sombrinhas coloridas, mas eu nunca deixo ninguém na mão.
Anotado: a vida é imprevisível - coma a sobremesa antes.
Eu passarinho.
Ah é, é verdade, tem isso também.
Mas não é pelo decote que se sabe se uma mulher tem peito ou não.
Quem fala de si mente e sempre corre o risco de estar enganado.
Nem por isso eu deixo de falar.
Entre enganos e enganos, alguns acertos teremos.
Sou uma cachorra branca libriana enlaçadora de mundos.
Trago num laço mundos, seres e coisas conquistadas.
Ando sempre com um laço solto na bolsa, pronta para enlaçamentos inesperados, imprevisíveis e espontâneos.
Eu sou uma sombrinha que vira pro alto no meio do temporal.
Por que eu adoro pôr as pernas pro ar, e vivo de bom-humor, como as sombrinhas coloridas, mas eu nunca deixo ninguém na mão.
Anotado: a vida é imprevisível - coma a sobremesa antes.
Eu passarinho.
tô saindo, depois que eu lavar a louça do café, depois que eu regar as plantas, depois que eu estender a roupa no varal, só que tem que recolher a roupa de ontem antes, e se bem que é melhor já guardar essa roupa logo, por que eu não vou passar mesmo, então eu tô saindo depois que eu recolher e guardar a roupa, depois que eu colocar o peixe pra descongelar e colocar água no filtro, e acho que não arrumei minha cama, melhor arrumar, é sábado, dia de visita, vai que aparece alguém, não vai aparecer ninguém, eu é que vou sair, mas a gente nunca sabe se volta pra casa sozinha ou não, e não gosto que vejam como sou bagunceira e desorganizada, por que é como se me vissem por dentro, então é melhor deixar tudo mais ou menos no jeito, e pensar que quando o ex-marido foi embora teve a coragem de dizer pra minha mãe que eu não gostava de arrumar a casa, bem, ele estava certo, não gosto mesmo, embora goste do resultado, mas uma empregada resolveria minha vida, quem é que gosta de arrumar a casa, e depois, o que minha mãe tem a ver com isso, século 16, trago de volta a mão da sua filha por que ela não gosta de arrumar a casa como eu esperava que ela gostasse, ora, vá e me deixe em paz, foi o que eu disse, embora tenha me arrependido amargamente de ter dito isso depois, arrependimentos, muitos, e pra que servem senão para nos prender no passado, qual bola de ferro em canela de presidiário, mais tarde vou terminar a colcha maldita, nunca achei que fosse me dar tanto trabalho, melhor não falar assim dela, depois eu vendo e ela vai pra casa de alguém, e depois quem dorme coberto com ela tem pesadelos a noite toda, ou a colcha sufoca quem dorme com ela, a colcha maldita, podia ser um roteiro pro zé do caixão, então tá, a colcha bendita, quem dorme com ela tem sonhos alegres e felizes, queria poder encantar as coisas que faço. queria ser bruxa.
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
beijo, vó, era o que estava escrito no ponto de ônibus. eu não conseguia ficar parada, estava atrasada, o ônibus não passava, não passava, onze e meia, meia noite, meia noite e dez, meia noite e quinze, passou. entrei no ônibus, deixei pra trás as baratas, de novo as baratas, sempre as baratas. fiquei pensando que o que eu não gosto nas baratas é a sua prudência excessiva. veja, vc não vê uma barata a qualquer hora, em qualquer lugar. há sempre um tempo certo, um lugar mais ou menos certo, elas não andam displicentemente no meio da rua, chamando a atenção. andam com cuidado. atentas. anteninhas a captar movimentos suspeitos. saem. olham. voltam para o bueiro. e saem de novo.
eu queria ter um quinto da prudência de uma barata.
eu queria ter um quinto da prudência de uma barata.
o que fode é que na sala de espera tinha um jogo de espelhos. e eu vi que ele olhava pra mim. não gosto que ele olhe pra mim. eu mesma, nesse tempo todo, raras vezes sustentei o olhar na mesma direção do dele. sempre olho pra baixo, pra cima, pro lado, olho além dele, mas não olho pra ele. não ouso olhar pra ele. o que fode é que na real eu não me incomodo que ele me olhe. na real, ainda devia estar olhando. dos mesmos ângulos pelos quais sempre me olhou. da cama, da mesa, deitado no sofá. podia estar pensando em qualquer coisa, podia ser algo como o cabelo dela está comprido, ou ela está mais magra, ou não, podia ser um olhar qualquer. aquele olhar que a gente dá pra recepcionista, pro manobrista, pro gari. não é por que estamos olhando que estamos vendo. sabe como é? o olhar da auteridade invisível. não sei por que ele me olhava. mas ele me olhava. e isso fode com todas as minhas pretensas convicções. talvez eu devesse encará-lo. com toda a força do meu olhar. com toda a integridade do meu ser. e aí, talvez, seria ele, e não eu, a evitar o olhar.
ele vinha andando na minha direção, não tinha certeza se era ele ou não, de qualquer modo eu estava num atalho, se eu saísse da trilha ia dar muito na cara, não tinha rua pra atravessar, não tinha outro caminho, eu tinha que continuar em frente, ele já tinha me visto. fiquei pensando, não seja, não seja, não seja. mas era. sorriu, eu sorri tb, um pouco constrangida, priscila! vc me deu seu telefone errado? assim, na lata, caramba, ele ainda lembra meu nome, faz o que, uns oito meses? por aí, festa junina de onde mesmo? eca? história? enfim, não, eu? imagina, não dei não, vc que deve ter anotado errado! mais risinhos de constrangimento. quer ver? 9633-1618? sim, eu dei o telefone errado, sempre faço isso quando é um cara daqueles nada a ver, ou se não gosto muito do cara, acho mais fácil do que ter que dizer não, não vou te dar meu telefone, não, não gostei de vc, não, não gostei do seu beijo, etc. mais simples. o cara fica feliz, eu fico feliz, ficamos todos felizes, tá tudo certo. mas e agora? ele pegou o telefone, ia me ligar dali, naquela hora, na minha frente. eu falei peraí, vc disse o que? 9633-1618. ah, não, o final está invertido. não falei, vc anotou errado! que cara de pau que eu sou, é inacreditável. mas agora vc não me escapa mais, pegou no meu braço, jesus cristinho, ah, demorou demais, fica meio sem sentido agora, vc não acha? não, não acho. tô muito feliz de reencontrar vc. dei o sorriso mais amarelo de toda a minha vida. rsrs. ah, não fique feliz, não vai dar, estou meio enrolada (mais solteira que a tia da casa da cotia). nisso ele me abraçou, não! eu não sou ciumento, pode se enrolar, desde que não seja na minha frente (dessa parte eu gostei). eu não conseguia parar de rir meu risinho cínico e amarelo, fui me desvencilhando, ele é realmente forte, e alto, me dobrava no meio se quisesse. personal trainer, taí um tipo de cara que eu nunca achei que fosse pegar, totalmente fora dos perfis de sempre, professor - músico - skatista. vc fica linda de roupa de ginástica, tá malhando? pois é, engordei um bocado, acabei de sair da academia (conversa broxante estratégica, não funcionou). tô vendo. ofegante, suada, vermelha. delícia. ok, isso foi demais, meio que saí correndo, preciso ir. vou te ligar, hein? não vou te atender, tá? por que não? já disse. tchau. ele ficou parado um tempo, celular ainda na mão. eu corri. como ele chamava mesmo? diego? não, não era diego. não me lembro. desculpa aí, mano. mas não gostei de vc, não gostei do seu beijo, e vc tem o que de altura, 1,98 não é? então, eu tenho só 1,65. vc ia viver com dor no pescoço e eu, na batata da perna. mas vc é bonito, sim. maior gato, na real. mas se só isso bastasse.
E o Prêmio Estúpida do Ano vai para
>>>>>>>>>>>
Priscila Moreno!!!!
Uma salva de palmas para ela!!
clap clap clap clap clap
Obrigada! Obrigada!
Estou muito emocionada por receber ese prêmio tão importante, conferido anualmente pela Academia Internacional de Pessoas Estúpidas, às pessoas que realizam as maiores façanhas estúpidas. Na verdade eu nem esperava receber a estatueta neste ano, por que com certeza existe gente muito mais estúpida do que eu nesse mundo, mas depois do que fiz naquela manhã de domingo, eu pensei: eu tenho uma chance. Agarrei essa oportunidade com unhas e dentes, e aqui estou eu agora! Obrigada, muito obrigada! Estou muito, muito feliz!
Repórter: Priscila, o que vc diria para as pessoas que estão em casa nos assistindo agora?
Priscila: Eu queria aproveitar pra dizer que isso só aconteceu por que eu estava sem meu filho. Jamais, jamais façam coisas semelhantes se tiverem crianças em casa, isso é muito, muito perigoso. Crianças, nada de querer fazer igual em casa, hein?
R: Como vc se sentiu quando viu fumaça saindo da sua casa?
P: Eu imaginei que fosse o vizinho queimando as folhas do quintal dele de novo, então pensei: puxa, que bom que não estou com roupa no varal. Depois fui entrando em casa, e a sala estava tomada por uma névoa densa, e não estava cheirando gengibre, nem maçã, nem maracujá, estava cheirando queimado. Então eu estranhei. E enquanto eu cortava a névoa com um estilete, para conseguir chegar na cozinha, eu pensei que não devia ter deixado a calda de gengibre no fogo enquanto ia na feira, mesmo que fosse só pra comprar cheiro verde e carambola. O problema é que aproveitei para comprar tb chuchu, melancia, espinafre, maçãs e pimenta, e parei para conversar com o marido da vizinha. Por outro lado, se não fosse por isso, e embora eu tenha perdido uma panela muito boa para caldas de açúcar, eu não estaria aqui hoje, recebendo este prêmio tão importante!
R: Essa foi Priscila Maria, diretamente do tapete amarelo, dando as suas dicas! Quem sabe vc, telespectador, no ano que vem não é o próximo ganhador do...
Troféu Estúpido do Ano!!
P: Posso aproveitar pra mandar um beijo pro meu filho? É que o juiz suspendeu minha guarda, depois que me acusaram de incendiária.
R: Claro.
P: Filhinho, mamãe te ama, viu? Traz um bolo com uma serrinha dentro pra mamãe fugir do manicômio?
R: Corta, Corta.
P: Ei, peraí, deixa eu falar com meu filho! Filho!! Fiiilhooo!!
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Priscila Moreno!!!!
Uma salva de palmas para ela!!
clap clap clap clap clap
Obrigada! Obrigada!
Estou muito emocionada por receber ese prêmio tão importante, conferido anualmente pela Academia Internacional de Pessoas Estúpidas, às pessoas que realizam as maiores façanhas estúpidas. Na verdade eu nem esperava receber a estatueta neste ano, por que com certeza existe gente muito mais estúpida do que eu nesse mundo, mas depois do que fiz naquela manhã de domingo, eu pensei: eu tenho uma chance. Agarrei essa oportunidade com unhas e dentes, e aqui estou eu agora! Obrigada, muito obrigada! Estou muito, muito feliz!
Repórter: Priscila, o que vc diria para as pessoas que estão em casa nos assistindo agora?
Priscila: Eu queria aproveitar pra dizer que isso só aconteceu por que eu estava sem meu filho. Jamais, jamais façam coisas semelhantes se tiverem crianças em casa, isso é muito, muito perigoso. Crianças, nada de querer fazer igual em casa, hein?
R: Como vc se sentiu quando viu fumaça saindo da sua casa?
P: Eu imaginei que fosse o vizinho queimando as folhas do quintal dele de novo, então pensei: puxa, que bom que não estou com roupa no varal. Depois fui entrando em casa, e a sala estava tomada por uma névoa densa, e não estava cheirando gengibre, nem maçã, nem maracujá, estava cheirando queimado. Então eu estranhei. E enquanto eu cortava a névoa com um estilete, para conseguir chegar na cozinha, eu pensei que não devia ter deixado a calda de gengibre no fogo enquanto ia na feira, mesmo que fosse só pra comprar cheiro verde e carambola. O problema é que aproveitei para comprar tb chuchu, melancia, espinafre, maçãs e pimenta, e parei para conversar com o marido da vizinha. Por outro lado, se não fosse por isso, e embora eu tenha perdido uma panela muito boa para caldas de açúcar, eu não estaria aqui hoje, recebendo este prêmio tão importante!
R: Essa foi Priscila Maria, diretamente do tapete amarelo, dando as suas dicas! Quem sabe vc, telespectador, no ano que vem não é o próximo ganhador do...
Troféu Estúpido do Ano!!
P: Posso aproveitar pra mandar um beijo pro meu filho? É que o juiz suspendeu minha guarda, depois que me acusaram de incendiária.
R: Claro.
P: Filhinho, mamãe te ama, viu? Traz um bolo com uma serrinha dentro pra mamãe fugir do manicômio?
R: Corta, Corta.
P: Ei, peraí, deixa eu falar com meu filho! Filho!! Fiiilhooo!!
eu acho que o que é ruim já vem logo no jeito que se diz. por exemplo: contrair matrimônio. quem fica com vontade de casar, se pensar que vai contrair um matrimônio? e casar é tão legal! não era pra vir assim, com nome de contaminação. imagino uma carteira de vacinação, contraiu matrimônio? se não, tem que tomar vacina, mas quem já teve uma vez, não pega nunca mais.
- oi, vc já contraiu matrimônio?
- eu não, e vc?
- ah, eu já.
- e deixou sequela?
- ih, uma pior que a outra.
- oi, vc já contraiu matrimônio?
- eu não, e vc?
- ah, eu já.
- e deixou sequela?
- ih, uma pior que a outra.
às vezes eu tenho a nítida sensação de que já li minha vida em algum lugar. graças a deus não foi num livro do eça de queirós ou do machado de assis, embora já tenham me dito mais de uma vez que os olhos de ressaca são meus. nunca traí ninguém, gente! mentira. já traí, sim. já fui traída, tb. e nada disso importa, agora. deve ter sido em algum livro do nelson rodrigues, mesmo. ou da clarice, talvez? não, nelson. as relações, pra mim, os laços, são mais importantes do que meus próprios conflitos internos. aliás, que conflitos internos? enfim. espero apenas que a última página demore a chegar. estou nos prolegômenos, ainda. no intróito. capítulo 2.
ponto de ônibus do padrão, vital brasil. umas cinco crianças pulando um restinho de carnaval na calçada, uns cinco adultos esperando o ônibus. todos bem vestidos, todos brancos. todos brancos, menos um. um moço negro, lindo, alto, forte, sentado na guia sem camiseta. a camiseta branca, branquíssima, limpíssima, nas mãos, braços apoiados no joelho. até que pára um carro da rota, saem cinco homens do carro armados daquele jeito, encosta, mão na cabeça, abre as pernas, porra. as crianças páram de brincar imediatamente. os adultos vão o mais longe possível. todo mundo finge que nada está acontecendo: de repente acabou a brincadeira, de repente os adultos seguram as crianças pelas mãos, de repente ninguém fala mais nada. só cochichos. o ônibus não pode parar no ponto, por que o carro da rota com todas as portas abertas ocupa duas faixas. eu anoto a placa, pego o telefone, o policial que fuma joga o cigarro no chão e vem em minha direção, me olhando fixamente. não desvio o olhar. vou ser presa por olhar? olhe. pode me olhar. eu não vou fingir que isso é normal, eu não vou fingir que vc está apenas cumprindo seu trabalho, eu não vou fingir que o moço é um assaltante de banco dos mais procurados. não vou fingir. anotei sua placa, EMF 4814. 18h00, av, vital brasil, esqueci de ver a numeração, mas eu olho depois o endereço do padrão. eu não sei o que vou fazer com isso. provavelmente nada. o que eu poderia fazer? mas eles viram que eu vi. quem estava no ponto viu que eu vi, e começou a ver também. e eu não pude fazer nada quando o policial pisou na camiseta branca jogada no chão. mas quem sabe, se um ou outro parar de fingir, quem sabe se um ou outro, de repente muitos - e por que não, todos? - quem sabe se a gente começar a ver, a estupidez acaba. quando eu vejo um policial agindo assim, tenho ganas de lhe tomar a arma. e o resto vcs podem imaginar. se é que já não sabem.
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tem tanta louça em cima da pia da cozinha que não sei nem por onde começar. por isso, não começo. fica pra hora da coragem extrema. descendo a rua, distraída, esqueci que em algum momento eu teria que atravessar. fui andando sem pensar aonde ia, até que cheguei numa rua por onde não passo habitualmente e só aí me dei conta de que deveria ter atravessado lá atrás. acordei, café da manhã na mesa, criança comendo por si só, eu corto a melancia, quer, filho? quero. espera aí. provo antes pra saber se está boa, está, pode comer. andando na rua, me dou conta de que foi a única coisa que eu coloquei na boca antes de sair, uma garfada de melancia. fazendo exercícios, esqueço de parar no quinze, sinto uma resistência do meu corpo em fazer o movimento, e então percebi que contava até o cinquenta e três. saio andando, o dia não tem vento, não tem sol, não tem barulho. tudo quieto e morno. um dia perfeito para enlouquecer ou morrer. quem dizia que o vento é a voz dos mortos? é ou traz, não me lembro direito. bibiana terra, será? não lembro, mais um pra lista dos precisam ser relidos um dia. se já não bastasse que nunca vou conseguir ler tudo o que quero, ainda me esqueço do que já foi lido. não, não acho que o vento traz a voz dos mortos. quando tudo está quieto assim, é que duvido da concepção de vida e morte que tenho. é nesses dias mornos e silenciosos, em que nada prende nossa atenção, que a gente quase pode ouvir a alma.
tem tanta louça em cima da pia da cozinha que não sei nem por onde começar. por isso, não começo. fica pra hora da coragem extrema. descendo a rua, distraída, esqueci que em algum momento eu teria que atravessar. fui andando sem pensar aonde ia, até que cheguei numa rua por onde não passo habitualmente e só aí me dei conta de que deveria ter atravessado lá atrás. acordei, café da manhã na mesa, criança comendo por si só, eu corto a melancia, quer, filho? quero. espera aí. provo antes pra saber se está boa, está, pode comer. andando na rua, me dou conta de que foi a única coisa que eu coloquei na boca antes de sair, uma garfada de melancia. fazendo exercícios, esqueço de parar no quinze, sinto uma resistência do meu corpo em fazer o movimento, e então percebi que contava até o cinquenta e três. saio andando, o dia não tem vento, não tem sol, não tem barulho. tudo quieto e morno. um dia perfeito para enlouquecer ou morrer. quem dizia que o vento é a voz dos mortos? é ou traz, não me lembro direito. bibiana terra, será? não lembro, mais um pra lista dos precisam ser relidos um dia. se já não bastasse que nunca vou conseguir ler tudo o que quero, ainda me esqueço do que já foi lido. não, não acho que o vento traz a voz dos mortos. quando tudo está quieto assim, é que duvido da concepção de vida e morte que tenho. é nesses dias mornos e silenciosos, em que nada prende nossa atenção, que a gente quase pode ouvir a alma.
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
eu li isso e tudo mudou.
“O mar carmesim às vezes como o fogo e os poentes gloriosos e as figueiras nos jardins da Alameda sim e as ruazinhas esquisitas e casas rosas e azuis e amarelas e os jasmins e gerânios e cactos e Gilbraltar eu mocinha onde eu era uma Flor da montanha sim quando eu punha a rosa em minha cabeleira como as garotas andaluzas costumavam ou devo usar uma vermelha sim e como ele me beijou contra a muralha mourisca e eu pensei tão bem a ele como a outro e então eu pedi a ele com meus olhos para pedir de novo sim e então ele me pediu quereria eu sim dizer sim minha flor da montanha e primeiro eu pus os meus braços em torno dele e eu puxei ele pra baixo pra mim para ele poder sentir meus peitos todos perfume sim o coração dele batia como louco e sim eu disse sim eu quero Sins”
(Ulisses, de Joyce. Tradução de Antonio Houaiss)
(Ulisses, de Joyce. Tradução de Antonio Houaiss)
felicidade discreta
que não se arreganha
que não se escancara
que não mostra os dentes
felicidade de quem se satisfaz com pouco
até por que é pouco o que tem
felicidade decente
dormente
contente
mas não muito
que é pra não parecer cínica
que é pra não ofender
que é pra não atrapalhar
que é pra não dizer
que esqueceu que a tristeza existe.
que não se arreganha
que não se escancara
que não mostra os dentes
felicidade de quem se satisfaz com pouco
até por que é pouco o que tem
felicidade decente
dormente
contente
mas não muito
que é pra não parecer cínica
que é pra não ofender
que é pra não atrapalhar
que é pra não dizer
que esqueceu que a tristeza existe.
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
rapazes do meu coração, ou mesmo os que nem chegaram a fazer parte dele, venho aqui prestar um serviço de utilidade pública. sim, utilidade pública, por que vai ser bom não só para vcs, mas também (e principalmente) para as próximas mulheres dos vossos corações.
eu não ia dizer nada, mas resolvi falar por que acho que vai ser de grande ajuda. até por que nós, mulheres, temos já bastante ajuda das revistas especializadas, das conversas com as mães e com as amigas. vejam bem, eu não sou assim uma sumidade no quesito relacionamentos. muito pelo contrário. tenho apenas um relacionamento frustrado depois de sete anos e um pouco mais de uma dezena de casos de um ano pra cá. no entanto, a recorrência de algumas histórias me fez pensar que talvez ninguém nunca tenha dito isso pra vcs. eu imaginava que não precisava muito mais do que bom senso, mas tenho visto que a noção de bom senso tem sofrido uma certa alteração ao longo do tempo. bem, não deixemos que os prolegômenos se estendam demasiadamente. vamos aos fatos:
1. se vc vai sair com uma moça pela primeira vez, não é de bom tom demonstrar muita insatisfação com sua vida: vc pode assustar a moça. afinal, quem gosta de gente triste é o psicólogo.
2. eu sei que um casamento fracassado levanta inúmeras questões, sobre vc, sobre ela, sobre a instituição casamento, mas olha, se uma moça saiu com vc, é por que ela quer conhecer vc, e não a sua ex-mulher. se ela quisesse saber como foi que vcs se conheceram, por que vcs se separaram, por que vcs voltaram, por que vcs se separaram de novo, bem, ela podia sair com a sua ex-mulher, não com vc. então, evite pronunciar a palavra "ex-mulher". se pronunciar mais de cinco vezes num mesmo encontro, meu amigo, não se espante se a moça se levantar e deixar vc falando sozinho. isso é o mínimo que ela poderia fazer. vc merecia coisa bem pior.
3. a especulação imobiliária na cidade de são paulo é um horror. fato. mas vc não tem mais nada pra falar além de o quanto vc paga ou deixa de pagar de aluguel? ou de prestação, ou de plano de saúde? amigo, foi-se o tempo em que as mulheres procuravam apenas um lugar para amarrar seu burrico. hoje, não sei se vc percebeu, as mulheres tem conquistado cada vez mais autonomia financeira, e competem no mercado de igual para igual. essa não é uma boa tática. a moça pode achar que vc é um chato de galocha metido a besta. além disso, se era pra discutir a especulação imobiliária, ela poderia procurar um corretor de imóveis para conversar.
4. o seu cachorrinho ficou paraplégico? puxa vida, que coisa chata. e vc pretende conquistar essa moça como, fazendo carinha de triste e pedindo carinho? amigo, acorda! não tente apelar para a maternidade adormecida das mulheres. eu, no seu lugar, procuraria um psicólogo. vc tem problemas com a sua mãe.
5. é muito desagradável saber que vc só trabalha com gente incompetente. muito mesmo. por que se vc só trabalha com gente burra, falsa, que não te valoriza, etc, bem, ela só pode achar que incompetente mesmo é vc, ou por que vc ainda não arrumou outro emprego melhor, ou por que ninguém no seu trabalho te suporta, de tão incompetente que vc é. sacou? de qualquer jeito, vc perde.
6. não se fala em tentativa de suicídio em primeiros encontros. ponto final.
bom, em linhas gerais, era isso o que eu queria que vcs soubessem. tenho certeza que seguindo esses pequenos conselhos, vcs vão se dar muito bem. estou torcendo por vcs! boa sorte!
eu não ia dizer nada, mas resolvi falar por que acho que vai ser de grande ajuda. até por que nós, mulheres, temos já bastante ajuda das revistas especializadas, das conversas com as mães e com as amigas. vejam bem, eu não sou assim uma sumidade no quesito relacionamentos. muito pelo contrário. tenho apenas um relacionamento frustrado depois de sete anos e um pouco mais de uma dezena de casos de um ano pra cá. no entanto, a recorrência de algumas histórias me fez pensar que talvez ninguém nunca tenha dito isso pra vcs. eu imaginava que não precisava muito mais do que bom senso, mas tenho visto que a noção de bom senso tem sofrido uma certa alteração ao longo do tempo. bem, não deixemos que os prolegômenos se estendam demasiadamente. vamos aos fatos:
1. se vc vai sair com uma moça pela primeira vez, não é de bom tom demonstrar muita insatisfação com sua vida: vc pode assustar a moça. afinal, quem gosta de gente triste é o psicólogo.
2. eu sei que um casamento fracassado levanta inúmeras questões, sobre vc, sobre ela, sobre a instituição casamento, mas olha, se uma moça saiu com vc, é por que ela quer conhecer vc, e não a sua ex-mulher. se ela quisesse saber como foi que vcs se conheceram, por que vcs se separaram, por que vcs voltaram, por que vcs se separaram de novo, bem, ela podia sair com a sua ex-mulher, não com vc. então, evite pronunciar a palavra "ex-mulher". se pronunciar mais de cinco vezes num mesmo encontro, meu amigo, não se espante se a moça se levantar e deixar vc falando sozinho. isso é o mínimo que ela poderia fazer. vc merecia coisa bem pior.
3. a especulação imobiliária na cidade de são paulo é um horror. fato. mas vc não tem mais nada pra falar além de o quanto vc paga ou deixa de pagar de aluguel? ou de prestação, ou de plano de saúde? amigo, foi-se o tempo em que as mulheres procuravam apenas um lugar para amarrar seu burrico. hoje, não sei se vc percebeu, as mulheres tem conquistado cada vez mais autonomia financeira, e competem no mercado de igual para igual. essa não é uma boa tática. a moça pode achar que vc é um chato de galocha metido a besta. além disso, se era pra discutir a especulação imobiliária, ela poderia procurar um corretor de imóveis para conversar.
4. o seu cachorrinho ficou paraplégico? puxa vida, que coisa chata. e vc pretende conquistar essa moça como, fazendo carinha de triste e pedindo carinho? amigo, acorda! não tente apelar para a maternidade adormecida das mulheres. eu, no seu lugar, procuraria um psicólogo. vc tem problemas com a sua mãe.
5. é muito desagradável saber que vc só trabalha com gente incompetente. muito mesmo. por que se vc só trabalha com gente burra, falsa, que não te valoriza, etc, bem, ela só pode achar que incompetente mesmo é vc, ou por que vc ainda não arrumou outro emprego melhor, ou por que ninguém no seu trabalho te suporta, de tão incompetente que vc é. sacou? de qualquer jeito, vc perde.
6. não se fala em tentativa de suicídio em primeiros encontros. ponto final.
bom, em linhas gerais, era isso o que eu queria que vcs soubessem. tenho certeza que seguindo esses pequenos conselhos, vcs vão se dar muito bem. estou torcendo por vcs! boa sorte!
tinha uma moça linda no ônibus, linda mesmo, linda tipo sofia loren, não é qualquer coisa ter um rosto que lembra a sofia loren. mas ela usava um jeans que era uns três números menor do que o que serviria nela, pra que, né? aí ficava a barriga saltando por cima do jeans, mina, tira esse jeans! bota uma saia, um vestidinho, é verão, tá calor, vc é linda, calça jeans justa assim dá celulite, encrava os pêlos que é um horror. sem falar que deve até machucar, cruzei as pernas só de imaginar o desconforto da moça. sabe, quando dói em vc? depois subiu um cara, cabeludo, barbudo, cara de militante dos anos setenta, no esquema que eu gosto. sentou do meu lado, eu pensei puxa assunto que eu dou continuidade. mas graças a deus ele não puxou assunto de imediato. primeiro ele começou a bater nos pratos de um bateria imaginária, e depois humilhou numa guitarra imaginária, e eu pensei nego, quantos anos tu tem? depois ele perguntou se eu gostava de metal. não. eu não gosto de metal, e eu não gosto de caras que tocam instrumentos imaginários como se estivessem tocando pr'uma platéia de 100 mil pessoas. tá, eu ando cantando na rua, não posso falar nada da alegria do moço, eu sei. ah, a moça que parecia a sofia loren tirou um halls da bolsa, desembrulhou, pôs a bala na boca e... jogou o papel pela janela. feia. o que que custa enfiar no bolso, na bolsa, tinha um lixinho na porta do ônibus! e na academia? mano, só o que me faltava, o instrutor puxando mais assunto do que deveria. sentou na minha frente enquanto eu estava na bicicleta, se abanou com as mãos, ergueu as duas sobrancelhas, fez uh! calor né. sabe aquele risinho, não me atrapalha, nego? só levantei o canto da boca, rs. aí vem de novo, nossa, tá calor que nem dá vontade de trabalhar. nem rs, r. aí se espreguiça, ergue a camisa pra eu ver os tríceps, bíceps e sei lá mais o quê, mano, tu pode ser forte, mas tu é feio! eu não gosto de caras feios, o departamento de caridade fechou há dois anos. agora eu quero só os top de linha. homem feio dá azar. homem feio me olhando dá aflição, neca. e olha que meu padrão de beleza é dos mais inconvencionais (lembra do antepenúltimo homem mais lindo do mundo? então, ele tinha os dois dentes da frente meio encavalados um no outro, saca? a princípio não passava no teste de qualidade priscila. a princípio. depois virou o homem mais lindo do mundo, até o dia 5 de janeiro, pelo menos). mas no seu caso não dá, sinto muito, tu é feio mesmo. além de terrivelmente chato, o que te coloca no mesmo patamar dos macaquinhos alados da bruxa má do oeste: não rola.
Era uma bailarina muito, muito vaidosa, que um dia se apaixonou por um mago. O mago a obrigava a dançar todos os dias, até a exaustão, para que ela aprendesse a dominar seu orgulho. Cansada, a bailarina resolveu fugir. Mas o mago a mantinha presa na torre mais alta do castelo, sem portas ou janelas por onde ela pudesse escapar.
A bailarina então decidiu que preferia morrer a dançar até o fim da vida para um único homem, e implorou ao mago que a matasse. Ele disse que ela poderia ir embora, se quisesse. Mas antes deveria preparar um jantar - o rei a rainha viriam visitá-los naquela noite, por que tinham ouvido falar de como dançava espetacularmente a mulher do mago. O ego da bailarina se inflou de novo, e ela se pôs a preparar mil gostosuras, mal se contendo de alegria. Finalmente teria uma platéia, uma platéia à sua altura, o rei e a rainha. Depois de pronto o pequeno banquete, se sentou no chão da cozinha e começou a chorar devagarzinho, consigo mesma. Era uma quase saudade da paixão pelo mago, e uma quase vontade de não ir embora. O rei e a rainha chegaram. Deliciaram-se com o jantar da bailarina, e na hora da sobremesa, o mago sugeriu que fossem ao jardim. A bailarina estranhou - o mago dizia que o jardim era encantado, e que nele moravam suas ex-esposas. Ela nunca deveria ir até o jardim, ou as outras esposas por ciúme a matariam. Vendo o olhar de medo da bailarina, o mago lhe disse: não se preocupe, minha querida. Coma esta semente, que nada poderá lhe fazer mal.
Desconfiada da bondade repentina do marido, a bailarina deixou a semente embaixo da língua. No jardim, as árvores pareciam ter vida própria. A bailarina dançou como se dançasse pela última vez, dançou com toda a sua alma, deixando todos comovidos, e o mago, arrependido. O mago então pediu que ela tomasse rapidamente uma poção, que desfizesse o encanto da semente, que a transformaria em árvore em poucas horas. Ela disse que lhe bastava um beijo. O mago, emocionado, a beijou, e ela passou a semente para o mago, que só percebeu depois que já tinha engolido. Ele tentou correr para a poção, mas suas ex-esposas, as árvores do jardim, agarraram seus braços e suas pernas, e fincaram-no no chão. No dia seguinte, no meio das roseiras, havia um carvalho. O rei e a rainha, estupefados com a maldade do mago, convidaram a bailarina para ir morar no palácio. Ela agradeceu o convite gentil, mas disse que não, que seu lugar era ali. E todo dia ela ia regar o jardim, sem que nada de mal lhe acontecesse, e nos dias muito quietos, ela quase ouvia um sussurro: dance... dance... dance para mim...
A bailarina então decidiu que preferia morrer a dançar até o fim da vida para um único homem, e implorou ao mago que a matasse. Ele disse que ela poderia ir embora, se quisesse. Mas antes deveria preparar um jantar - o rei a rainha viriam visitá-los naquela noite, por que tinham ouvido falar de como dançava espetacularmente a mulher do mago. O ego da bailarina se inflou de novo, e ela se pôs a preparar mil gostosuras, mal se contendo de alegria. Finalmente teria uma platéia, uma platéia à sua altura, o rei e a rainha. Depois de pronto o pequeno banquete, se sentou no chão da cozinha e começou a chorar devagarzinho, consigo mesma. Era uma quase saudade da paixão pelo mago, e uma quase vontade de não ir embora. O rei e a rainha chegaram. Deliciaram-se com o jantar da bailarina, e na hora da sobremesa, o mago sugeriu que fossem ao jardim. A bailarina estranhou - o mago dizia que o jardim era encantado, e que nele moravam suas ex-esposas. Ela nunca deveria ir até o jardim, ou as outras esposas por ciúme a matariam. Vendo o olhar de medo da bailarina, o mago lhe disse: não se preocupe, minha querida. Coma esta semente, que nada poderá lhe fazer mal.
Desconfiada da bondade repentina do marido, a bailarina deixou a semente embaixo da língua. No jardim, as árvores pareciam ter vida própria. A bailarina dançou como se dançasse pela última vez, dançou com toda a sua alma, deixando todos comovidos, e o mago, arrependido. O mago então pediu que ela tomasse rapidamente uma poção, que desfizesse o encanto da semente, que a transformaria em árvore em poucas horas. Ela disse que lhe bastava um beijo. O mago, emocionado, a beijou, e ela passou a semente para o mago, que só percebeu depois que já tinha engolido. Ele tentou correr para a poção, mas suas ex-esposas, as árvores do jardim, agarraram seus braços e suas pernas, e fincaram-no no chão. No dia seguinte, no meio das roseiras, havia um carvalho. O rei e a rainha, estupefados com a maldade do mago, convidaram a bailarina para ir morar no palácio. Ela agradeceu o convite gentil, mas disse que não, que seu lugar era ali. E todo dia ela ia regar o jardim, sem que nada de mal lhe acontecesse, e nos dias muito quietos, ela quase ouvia um sussurro: dance... dance... dance para mim...
sábado, 29 de janeiro de 2011
mando ou não mando?
mando ou não mando?
mando ou não mando?
bem me quer, mal me quer,
bem me quer, mal me quer,
bem me quer, mal me quer,
bem me quer, mal me quer,
bem me quer,
mal me quer.
o segredo é começar sempre pelo mal me quer. no caso de pétalas em número par.
pétalas arrancadas, próxima flor. mal me quer. droga, essa era ímpar.
amanhã eu boto a foto da flor que fiz enquanto cogitava as possibilidades dos quereres.
não mando. não mando. priscila, obedeça! não mande!
(mas se eu não mandar ele não vai saber)
(mas se vc mandar ele vai querer só por que vc quis)
(vc está sendo boazinha comigo)
(deixa ele querer primeiro)
(ele deve achar que eu sou louca)
(até aí)
(até aí, o que?)
(até aí todo mundo acha)
(mas eu não sou)
(claro que não, ninguém é)
(então)
(então que como sua amiga eu devo te lembrar que é sempre vc que começa as histórias)
(e o que tem isso demais?)
(tem que depois vc fica achando devia não ter feito nada)
(não é verdade)
(não?)
(meio verdade)
(então)
(então o que?)
(então fica na sua, vai bordar, vai ler um livro, esquece)
(eu vou. desligo tudo, apago as luzes, subo, pego um livro. na segunda página eu olho pro relógio e penso: será que ele tá on-line? aí desço, ligo tudo de novo, não, ele não está on-line)
(rsrs)
(que foi? não ri de mim, por favor)
(não estou rindo de vc)
(não?)
(não)
(tá rindo do que então?)
(da sua falta de noção)
(ah, vá)
(ele não vai achar vc louca)
(não?)
(não. vai é ficar com medo de vc!)
(e vc, não tem mais o que fazer, não?)
(tenho, te trazer de volta à realidade)
(pra que?)
(pra vc parar de viajar por causa de alguém que vc nem conhece)
(mas quero conhecer, ué)
(vcs já se beijaram, pelo menos)
(não)
(hahahahahahahahha)
(poxa, pára de rir de mim, por favor?)
(rsrsrs, desculpe. e se ele for chato? não era melhor conhecer primeiro e se apaixonar depois, maluquinha?)
(eu não estou apaixonada. quer dizer, não pode ser tudo junto?)
(não? rsrs)
(por que vc está falando entre parênteses?)
(não sei, vc que começou)
(vou dormir)
(sonhe com os anjos!)
(não é dos anjos o sobrenome dele)
(como é?)
(não vou te falar)
(por que não?)
(por que não)
mando ou não mando?
mando ou não mando?
bem me quer, mal me quer,
bem me quer, mal me quer,
bem me quer, mal me quer,
bem me quer, mal me quer,
bem me quer,
mal me quer.
o segredo é começar sempre pelo mal me quer. no caso de pétalas em número par.
pétalas arrancadas, próxima flor. mal me quer. droga, essa era ímpar.
amanhã eu boto a foto da flor que fiz enquanto cogitava as possibilidades dos quereres.
não mando. não mando. priscila, obedeça! não mande!
(mas se eu não mandar ele não vai saber)
(mas se vc mandar ele vai querer só por que vc quis)
(vc está sendo boazinha comigo)
(deixa ele querer primeiro)
(ele deve achar que eu sou louca)
(até aí)
(até aí, o que?)
(até aí todo mundo acha)
(mas eu não sou)
(claro que não, ninguém é)
(então)
(então que como sua amiga eu devo te lembrar que é sempre vc que começa as histórias)
(e o que tem isso demais?)
(tem que depois vc fica achando devia não ter feito nada)
(não é verdade)
(não?)
(meio verdade)
(então)
(então o que?)
(então fica na sua, vai bordar, vai ler um livro, esquece)
(eu vou. desligo tudo, apago as luzes, subo, pego um livro. na segunda página eu olho pro relógio e penso: será que ele tá on-line? aí desço, ligo tudo de novo, não, ele não está on-line)
(rsrs)
(que foi? não ri de mim, por favor)
(não estou rindo de vc)
(não?)
(não)
(tá rindo do que então?)
(da sua falta de noção)
(ah, vá)
(ele não vai achar vc louca)
(não?)
(não. vai é ficar com medo de vc!)
(e vc, não tem mais o que fazer, não?)
(tenho, te trazer de volta à realidade)
(pra que?)
(pra vc parar de viajar por causa de alguém que vc nem conhece)
(mas quero conhecer, ué)
(vcs já se beijaram, pelo menos)
(não)
(hahahahahahahahha)
(poxa, pára de rir de mim, por favor?)
(rsrsrs, desculpe. e se ele for chato? não era melhor conhecer primeiro e se apaixonar depois, maluquinha?)
(eu não estou apaixonada. quer dizer, não pode ser tudo junto?)
(não? rsrs)
(por que vc está falando entre parênteses?)
(não sei, vc que começou)
(vou dormir)
(sonhe com os anjos!)
(não é dos anjos o sobrenome dele)
(como é?)
(não vou te falar)
(por que não?)
(por que não)
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
que rufem os tambores
e soem as cornetas
a partir desse momento em diante
eu, priscila moreno, me limito a proferir a palavra "eu" apenas 4 vezes por dia, não mais do que isso, sob pena de tomar óleo de rícino a cada infração.
além disso, fica aqui registrado que não citarei mais "a separação".
me liberto das amarras do passado para entrar no presente, enterro os mortos em suas tumbas,
e com toda a pompa e circunstância a que tenho direito, me declaro "perdoada".
amém.
e soem as cornetas
a partir desse momento em diante
eu, priscila moreno, me limito a proferir a palavra "eu" apenas 4 vezes por dia, não mais do que isso, sob pena de tomar óleo de rícino a cada infração.
além disso, fica aqui registrado que não citarei mais "a separação".
me liberto das amarras do passado para entrar no presente, enterro os mortos em suas tumbas,
e com toda a pompa e circunstância a que tenho direito, me declaro "perdoada".
amém.
de volta à estaca zero. dei um giro, mas foi com muita força, acabei nos 360º. eu queria dizer assim: abre seu coração, senão eu arrombo a janela, mas eu não sei onde fica a janela, e tb tem a questão que não adianta eu forçar o querer nem nadar contra a corrente. como foi mesmo que me disseram uma vez? á água corre pelo caminho mais fácil, mas não sou água, não deslizo lisa e mole, às vezes chego a ser áspera. eu sou a mulher que viu o cego e deixou a sacola com os ovos cair. eu sou a mulher que espera o professor chegar e não sabe que vestido colocar. eu sou a mulher que desenforma o bolo que se desfaz. eu sou a mulher que enche a banheira e submerge e se imagina morta. eu sou a mulher que desenforma o bolo que dá certo. eu sou a mulher que não planeja as coisas direito e que vê tudo dar errado. eu sou a mulher que não planeja as coisas direito e vê dar tudo certo. eu sou a mulher com fita no cabelo que canta louca enquanto o trem não vem. eu sou a mulher que sobe a escada do casebre imundo pra ter uma aventura. eu sou a mulher que atravessa a ponte correndo e rindo. eu sou a mulher que tem medo do mar. eu sou a mulher que se apaixona pelo padre. eu sou a mulher que vê o marido morrer. eu sou a mulher que é estuprada pelo policial na frente do marido. eu sou a mulher de saia azul na altura do tornozelo. eu sou a mulher que se enche de jóia. eu sou a mulher que não usa jóia nenhuma. eu sou a mulher que dança, eu sou a mulher que cai. eu sou a mulher que perde tudo. eu sou a mulher que grita atrás da cortina do banheiro, eu sou a mulher que chora atrás da cortina do banheiro, eu sou a mulher que ama atrás da cortina do banheiro. eu sou a mulher que abraça o travesseiro. eu sou a mulher que carrega o filho na cintura. eu sou a mulher que leva o filho pela mão. eu sou a mulher que vê o filho indo sozinho. eu sou a mulher que abandona o marido. eu sou a mulher abandonada pelo marido. eu sou a mulher que surta. eu sou a mulher que toma chuva. eu sou a mulher que dá risada com qualquer cantada barata. eu sou a mulher do retrato. eu sou a mulher do quadro. eu sou a mulher no alto da escadaria. eu sou a mulher morta no chão da sala. eu sou a mulher dando risada na cozinha. eu não sou a mulher que põe pedras nos bolsos e entra no rio.
sábado, 22 de janeiro de 2011
eu disse que ia fazer sociologia, ele disse não, minha filha, faz direito. eu disse que justamente hoje tinha feito minha matrícula num curso de direito da unip, unip por que eu não tô muito a fim de ter que fazer faculdade de verdade, quero um diploma, fui logo explicando, eu preciso explicar meu preconceito mais pra mim mesma do que pra qualquer pessoa. ele riu. antes disso me mostrou uma barata na parede, fez questão de me levar até onde estava essa barata, por que eu disse que não, que ele já tinha bebido demais, e que aquilo devia ser um besouro, um pernilongo, qualquer coisa menos uma barata. eu vi, tirei a sandália do pé e matei, pronto, problema resolvido, limpei a sujeira, tirei a barata esmagada do chão, com a maior naturalidade do mundo. sabe, a separação, nesse sentido, me fez muito bem. eu dou conta das coisas sozinha, agora. dos medos. ando sozinha na noite, no escuro, não tenho mais medo do escuro, antes eu deixava algumas luzes acesas. agora até prefiro o escuro. antes eu ouvia barulhos abomináveis, assustadores, via vultos (imaginava vultos), tinha pesadelos. agora os pesadelos são só meus. e quando uma coisa é só sua... agora tenho os ouvidos mais aguçados. escuto até os passinhos de uma barata na cerâmica fria da sala onde estou. perdi o medo dos bichos. perdi o medo do medo. a questão é: alguém tinha alguma dúvida de que eu era capaz de matar uma barata? de que eu era capaz de não perder tempo com bobagens como o medo? eu não. sempre tive certeza. e nesse sentido, a separação foi absolutamente inútil. é óbvio que eu sou capaz. bom, matei, enterrei, voltei para o meu lugar. depois pedi ele em casamento. perguntei: vc é casado? sim, há 32 anos. ah, que pena. se não, te pedia em casamento agora mesmo. é que ele olhou o meu brinco, que eu tenho há dez anos, e fez uma espécie de análise de cor e forma que eu achei muito bonito. e é mesmo por causa daquilo tudo que ele disse que eu nunca perdi esse brinco em dez anos, enquanto muitos outros já se quebraram, já se perderam. fiquei pensando no que isso diz a meu respeito. é claro, tenho consciência de que só dei importância para o discurso por que os olhares não costumam ser tão atenciosos aos detalhes como cor, forma, textura. percebi, hoje, que eu prefiro os homens mais velhos. por uma questão de repertório mesmo. e justamente por essa questão de repertório - ou de experiência - é que eu não confio em homem nenhum que prefira as mulheres muito mais novas do que ele. percebi também que minha maldade aumenta com a idade. e que não é o príncipe que vai morar no palácio, é a princesa que vai morar no pântano. invariavelmente.
acordei com uma gritaria, parecia que uma matilha toda comia uma menina viva. me enrolei no lençol, tudo escuro, tropecei, abri a janela, não tinha luz na rua, o poste queimado, só os gritos, agudos e incessantes, e a cachorrada que latia. então o grito durou mais do que dez segundos. e vieram mais dois gritinhos ritmados no final. juro, minha vontade é ir eu mesma morder essa filha da mãe e arrancar as suas cordas vocais no dente, pra ela aprender a não gritar desse jeito às nove da noite.
eu queria mesmo era ficar quieta, queria, queria, mas não consigo, sabe como é? quando a cabeça não pára? preciso aprender a meditar, preciso me acalmar, preciso respirar mais devagar. prestar atenção no que estou fazendo. mas não. e agora? me ferrei. de volta à estaca zero. mas dessa vez, sem outros bicos ao mesmo tempo - o que em geral me salvava, acabava um, tinha outro. agora acabou tudo. tudo. me ferrei. pra variar. não, não é um lamento. é uma constatação, só. consequências da inconsequência. viu, saturno, meia volta-volver. volta amanhã. eu sei, eu sei que a oportunidade que eu tive pra mudar tudo eu não aproveitei bem. ou melhor, mudei em 360 graus. acabei parada no mesmo lugar, não adiantou nada. e agora vou ter que fazer direito ou ficar patinando a vida toda. quero fincar meus pés no chão. é. ninguém disse que ia ser fácil. mas tb ninguém disse que ia ser difícil assim. é que não tem receita, não é? não, não é uma reclamação. ou é. é só que...
sabe quando vc sabe que está fazendo tudo errado? tudo, tudo. eu sou a mulher que viu o cego e deixou cair a sacola com os ovos. a diferença é que eu volto pra casa. ela não.
sabe quando vc sabe que está fazendo tudo errado? tudo, tudo. eu sou a mulher que viu o cego e deixou cair a sacola com os ovos. a diferença é que eu volto pra casa. ela não.
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
de receitas
um caderno de receitas não é só um caderno de receitas. é muito mais que isso. eu não sei dizer exatamente o que é, mas sei que um pedaço de mim fica ali. na letra às vezes caprichada, em geral corrida. nos respingos de leite ou água, meu caderno é um pouco farináceo, de tanta farinha que já caiu nele. as páginas já estão amassadas, rasgadas, está quase no fim o número de páginas em branco. meu caderno de receitas é meu pequeno tesouro. os nomes das receitas em caneta de cor diferente, pra ficar mais fácil de achar, as donas das receitas sempre citadas - pão de mandioquinha da tia liu, pão de batata da ana. no fim da página as observações: colocar menos água - trocar o leite por leite de coco - colocar mais raspas de limão - essa receita não funciona - divino!!! (assim, com três exclamações, acho que é um quindim) - não foi dessa vez. sem falar das receitas dadas em letra corrida num papel qualquer: um guardanapo, folhas diferentes de cadernos diferentes, uma receita que a amiga pegou da internet e mudou tudo, são duas receitas em uma. a lembrança do dia em que as crianças fizeram pão, eu trouxe a receita comigo, a receita do dia em que as crianças fizeram biscoitos, tem uma manchinha vermelha na página. goiabada? sim, goiabada. eu adoro meu caderno de receitas - 75 doces e 29 salgados, sem contar as folhas soltas. muito mais doces. tem também o que não está em nenhuma receita, mas que eu sempre me lembro: com a olívia aprendi a colocar cebola e alho bem picadinhos e douradinhos no purê de batata. tb aprendi a colocar cenouras cozidas e amassadas junto. e agora, se faço purê, coloco batata, cenoura e mandioquinha. com o rômulo, aprendi a colocar maçã e cenoura raladas na maionese, daquelas pra acompanhar churrasco. com a minha tia, a colocar tomate e pimentão no feijão. com a minha mãe, aprendi a misturar o fermento com um pouquinho de leite antes de juntar à massa do bolo e que qualquer coisa pode virar uma sopa deliciosa. uma chefe minha uma vez fez um creme de aspargos muito bom. mas na hora de fazer croutons, passou mateiga num pão de forma e fritou na frigideira. com a maior boa intenção do mundo, mas não deu certo. em casa, cortei os pães em cubinhos, coloquei sal, orégano e um tiquinho só de azeite. talvez nem precise de azeite. levei ao forno e pronto. minha mãe fazia isso quando a gente era criança, para aproveitar as cascas do pão de forma quando a gente pedia pra cortar. tem também as coisas que eu descaradamente roubo: o patê de gorgonzola da regina, o patê de ricota da mãe de um ex-namorado, o macarrão com parmesão e bacon que a avó dele fazia. a caponata que eu comi na casa de uma amiga - a amizade até já acabou, e eu morro de raiva e de saudade toda vez que eu penso nessa caponata. o grão de bico com um monte de coisa junto da talitha. o chá de abacaxi, o chá de maçã, raspas de laranja e canela, a torta de abobrinha com creme bechamel. as coisas que a gente faz por puro improviso, a brusqueta que cada dia tem um recheio diferente, por que cada dia tem um ingrediente diferente na geladeira. do macarrão com mostarda que a amiga não dá a receita de jeito nenhum, por que segundo ela "não precisa, é só juntar tudo" e que eu tento fazer de tudo quanto é jeito sem obter êxito! acho que meu caderno já teria umas duzentas páginas se eu escrevesse tudo. vou escrever. aos poucos, por que é um projeto um tanto quanto ambicioso. essas coisas todas que não entram num caderno de receitas.
domingo, 16 de janeiro de 2011
olha bem pra mim e me diz, vc acha que eu tenho cara de quem gosta de bege?
não, eu não gosto de bege. só que minha casa toda é bege. tem as paredes beges, e as portas e janelas são marrons. vê lá se eu tenho cara de quem gosta de marrom. bege e marrom são as cores da neutralidade. do bom senso. da discrição. de quem não quer dar o que falar, de quem quer passar despercebido. por que que minha casa é bege? não faz o menor sentido minha casa ser bege. pintei de azul e branco. não caí, dessa vez. mas o resultado ficou excessivamente "provence". olha bem pra mim e me diz: eu lá tenho cara de francesa romântica com vasinho de lavanda na mão? bem que eu queria, mas não é o caso. "antes de pintar, verifique se não há resíduos de mofo ou pó. lave com cândida e espere secar antes de iniciar a pintura". joguei a cândida pra tirar o musgo do muro, matei a samambaia que não tinha nada a ver com isso. esfreguei com a vassoura e a cor que eu queria apareceu: um tipo de laranja claro, com umas nuances esverdeas, cor de sujeira em cima de uma parede cor de abóbora desgastada. é essa a cor que eu quero.
não, eu não gosto de bege. só que minha casa toda é bege. tem as paredes beges, e as portas e janelas são marrons. vê lá se eu tenho cara de quem gosta de marrom. bege e marrom são as cores da neutralidade. do bom senso. da discrição. de quem não quer dar o que falar, de quem quer passar despercebido. por que que minha casa é bege? não faz o menor sentido minha casa ser bege. pintei de azul e branco. não caí, dessa vez. mas o resultado ficou excessivamente "provence". olha bem pra mim e me diz: eu lá tenho cara de francesa romântica com vasinho de lavanda na mão? bem que eu queria, mas não é o caso. "antes de pintar, verifique se não há resíduos de mofo ou pó. lave com cândida e espere secar antes de iniciar a pintura". joguei a cândida pra tirar o musgo do muro, matei a samambaia que não tinha nada a ver com isso. esfreguei com a vassoura e a cor que eu queria apareceu: um tipo de laranja claro, com umas nuances esverdeas, cor de sujeira em cima de uma parede cor de abóbora desgastada. é essa a cor que eu quero.
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
conteúdo adulto
- oi
- oi
- te conheço de algum lugar, mas não lembro de onde
- é, vc não me é estranho
- ah, que bom, fiquei com medo que vc achasse que era alguma cantada ruim
- não era?
- é... (pigarro) mas a gente se conhece de algum lugar, não?
- talvez.
- eu sou músico.
- eu trabalho num bar.
- hum. que bar?
- sagarana. é de lá, já sei quem vc é.
- ah, então é de lá.
- com certeza. vc é o moço do pintinho pequenininho, não é?
- sim! e vc é a moça da bruscheta vermelhinha!
- sou eu.
- meu pintinho tá aqui ó, quer ver?
- assim, no ônibus?
- que é que tem?
- tá bom, mostra aí.
nisso a velhinha que estava no banco da frente se levanta, olha feio pra trás, mas muito feio, como nem minha mãe olharia, e vai sentar longe de nós dois.
depois ele me mostrou outra tatuagem. era uma cobra enorme.
- oi
- te conheço de algum lugar, mas não lembro de onde
- é, vc não me é estranho
- ah, que bom, fiquei com medo que vc achasse que era alguma cantada ruim
- não era?
- é... (pigarro) mas a gente se conhece de algum lugar, não?
- talvez.
- eu sou músico.
- eu trabalho num bar.
- hum. que bar?
- sagarana. é de lá, já sei quem vc é.
- ah, então é de lá.
- com certeza. vc é o moço do pintinho pequenininho, não é?
- sim! e vc é a moça da bruscheta vermelhinha!
- sou eu.
- meu pintinho tá aqui ó, quer ver?
- assim, no ônibus?
- que é que tem?
- tá bom, mostra aí.
nisso a velhinha que estava no banco da frente se levanta, olha feio pra trás, mas muito feio, como nem minha mãe olharia, e vai sentar longe de nós dois.
depois ele me mostrou outra tatuagem. era uma cobra enorme.
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
deixei o jogo de xadrez montado em cima da mesa de centro da sala, pra lembrar de jogar. num relance vi as peças perfiladas, bispo, rei e rainha protegidos por torres, cavaleiros e peões. tive uma sensação ruim. a ordem, a fila, os soldados, a estratégia de guerra. os peões numerosos. morrem primeiro. pensei que o tabuleiro é um front. desarmei o jogo, guardei na caixa, coloquei a caixa dentro de um armário. já basta o que a gente vive.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Pequenas Epifanias (Caio F. Abreu)
Há alguns anos, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.
Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.
Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.
Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos.
Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.
Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania.
Há alguns anos, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.
Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.
Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.
Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos.
Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.
Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania.
o carnaval tá chegando!!!
mas a frase do mês é: pegou seu guarda-chuva listado e saiu por aí.
exemplo ao contrário
logo quando eu decido parar de ser a ovelha negra
tá vendo a vida dela, minha filha, que caos?
por isso que mamãe e papai te aconselham a fazer tudo ao contrário.
estranho
minha casa tá cheirando cachorro molhado
ah, juvenal.
ah, passei no vestibular da unip, já contei?
pois é, passei.
clássico, chega em casa do trabalho
mentira, do cinema
todos dormindo
não tem ninguém com quem falar
sobre o que eu vi na rua
sobre o filme
sobre amanhã
sobre ontem
e se tem
não quero falar
ou não sei o que falar
então digito o e-mail, a senha, conectar bate-papo, ahn, não quero falar com ninguém, desconectar. bate-papo (off-line)
então escrevo um monte de abobrinha que amanhã (ou daqui a pouco, ou agora) alguém vai ler e pensar: nossa, o carnaval tá chegando
ou
mais uma falando de chuva
ou
vai lembrar da música da rita lee
ou
vai achar que eu sou louca
ou
vai achar que eu não tenho mais o que fazer.
quase acertou. eu tenho, mas não me importo. vou ligar a tv, nada de interessante passando, vou querer sair, mas acabei de chegar, vou ficar com preguiça, vou pegar o livro que comprei e vou ler três páginas, as três páginas que eu já li outro dia e que já esqueci, eu leio cada página umas duas ou três vezes.
não há silencio que não termine, ingrid betancourt.
levanto ou não levanto pra ver como se escreve?
levanto, é assim mesmo, não precisava ter levantado.
mas a frase do mês é: pegou seu guarda-chuva listado e saiu por aí.
exemplo ao contrário
logo quando eu decido parar de ser a ovelha negra
tá vendo a vida dela, minha filha, que caos?
por isso que mamãe e papai te aconselham a fazer tudo ao contrário.
estranho
minha casa tá cheirando cachorro molhado
ah, juvenal.
ah, passei no vestibular da unip, já contei?
pois é, passei.
clássico, chega em casa do trabalho
mentira, do cinema
todos dormindo
não tem ninguém com quem falar
sobre o que eu vi na rua
sobre o filme
sobre amanhã
sobre ontem
e se tem
não quero falar
ou não sei o que falar
então digito o e-mail, a senha, conectar bate-papo, ahn, não quero falar com ninguém, desconectar. bate-papo (off-line)
então escrevo um monte de abobrinha que amanhã (ou daqui a pouco, ou agora) alguém vai ler e pensar: nossa, o carnaval tá chegando
ou
mais uma falando de chuva
ou
vai lembrar da música da rita lee
ou
vai achar que eu sou louca
ou
vai achar que eu não tenho mais o que fazer.
quase acertou. eu tenho, mas não me importo. vou ligar a tv, nada de interessante passando, vou querer sair, mas acabei de chegar, vou ficar com preguiça, vou pegar o livro que comprei e vou ler três páginas, as três páginas que eu já li outro dia e que já esqueci, eu leio cada página umas duas ou três vezes.
não há silencio que não termine, ingrid betancourt.
levanto ou não levanto pra ver como se escreve?
levanto, é assim mesmo, não precisava ter levantado.
domingo, 9 de janeiro de 2011
chuva, chuva, chuva. queria sair mas não podia. prédio bonito, cadeira confortável, mas o que ela fazia ali? ninguém sabia. esperava. esperava a chuva passar, esperava o teto cair, esperava alguém? duas horas, esperando. quatro horas, e nada da chuva acabar. eu imagino que ela esperasse a chuva passar, não tinha guarda-chuva, não tinha bota, não tinha capa. quando a chuva diminuiu, um movimento, achei que ela fosse se levantar. mas não. sem nada pra ler, nada, nada pra fazer. apenas a espera. terá se sentido num consultório médico? num funeral de tia de quinto grau? na fila da embaixada? na fila do banco? mesmo nessas esperas, há sempre um sentido. sua vez na fila vai chegar. mas quando se espera a chuva passar... é só a espera. tem gente que passa uma vida à espera.
se levantou, finalmente. depois de quatro horas. a chuva ainda caía de deixar a gente enxarcado em pouco tempo. e ela saiu. no meio da chuva. do outro lado da rua já estava pingando também, junto com a chuva. virou chuva, a mulher. parecia não se importar com isso. foi andando, passos firmes, braços cruzados no peito, desviando das poças mais cheias. como se fosse nuvem cheia de água, escolhia os lugares mais secos por onde passar. não queria chover onde já estava molhado. os carros buzinavam, só ela na rua sem guarda-chuva. quem passava olhava sem disfarçar a curiosidade. o descalabro. o despeito. a tresloucada. a transtornada. mas era só uma mulher que cansou de esperar por uma coisa que não acabava nunca numa tarde de verão. a chuva.
se levantou, finalmente. depois de quatro horas. a chuva ainda caía de deixar a gente enxarcado em pouco tempo. e ela saiu. no meio da chuva. do outro lado da rua já estava pingando também, junto com a chuva. virou chuva, a mulher. parecia não se importar com isso. foi andando, passos firmes, braços cruzados no peito, desviando das poças mais cheias. como se fosse nuvem cheia de água, escolhia os lugares mais secos por onde passar. não queria chover onde já estava molhado. os carros buzinavam, só ela na rua sem guarda-chuva. quem passava olhava sem disfarçar a curiosidade. o descalabro. o despeito. a tresloucada. a transtornada. mas era só uma mulher que cansou de esperar por uma coisa que não acabava nunca numa tarde de verão. a chuva.
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
vc quer me comer ou quer ouvir minha história? eu te conto, se vc quiser. senão, não precisa se entediar, a gente resolve isso logo. sempre ouvi coisas se partindo, em toda discussão, algo sempre se quebrava. uma xícara, uma televisão, uma janela. os dois. as coisas comigo continuam se quebrando. um copo, uma xícara, eu. as relações. deve ser pra não perder o hábito de ouvir o som do vidro se espatifando, que é de uma singeleza só. nem sei se essa palavra existe. existe agora, pois é. o som do vidro se quebrando começa devagar, se intensifica e diminui de novo. então vc tem que ser muito capaz de parar de prestar atenção em tudo o que vc está fazendo e se concentrar para ouvir apenas o baque e depois o tilintar ds cacos que rodopiam no chão. é muito rápido. a primeira vez que eu achei que minha mãe estava enlouquecendo foi quando ela começou a gritar que ia virar puta. que ia dar pro primeiro desgraçado que encontrasse na esquina. eu sempre achei que toda forma de loucura tem a ver com a repressão sexual. não tenho critério nenhum pra achar isso, mas é só observar nos loucos que isso é uma das primeiras coisas que explode. por isso tive dó da minha mãe. se ela tivesse dado mesmo, pela menos uma vez na vida, para o primeiro desgraçado que aparecesse na esquina, ela ia saber que isso não resolveria nenhum problema. como eu sei? sabendo. eu sei muitas coisas. mais do que vc, que fica aí me olhando com cara de quem está doido pra rir de mim. pode rir. eu não ligo. já riram tanto de mim, que um a mais, um a menos, não vai fazer diferença.
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
tem dias em que me sinto num comercial de absorventes. qualquer coisa me faz jogar a perna pra cima e rir que nem hiena. tem dias que me sinto num comercial de perfume romântico ou de cera pra depilação. fico languidamente deitada me espreguiçando, numa preguiça que não tem fim. engraçado, comercial de faxina é uma coisa que raramente rola aqui em casa. deve ser por causa dos sapatos de salto.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
tava lembrando de um moço que sempre tinha queijo prato na geladeira. um dia ele perguntou que queijo eu preferia. mussarela. desde esse dia, passou a comprar só mussarela, sempre. fofinho, né? mas aí eu fiquei com saudade do queijo prato e fui embora. teve um moço que ficou triste comigo, por que ele queria namorar, e eu não. aí ele que disse tchau. precisava muito de uma namorada. um outro ficou triste comigo por que eu apresentei ele pra uma amiga como "meu amante". ficou ofendidíssimo, tadinho. imagine, achei que ele fosse ficar feliz. não é qualquer um que eu chamo de amante. tb me disse tchau. tb queria namorar. levando em conta a idade dos sujeitos envolvidos, profissão, círculo social, tipo sanguíneo e grau de escolaridade, cheguei à seguinte conclusão: homens tb entram em crise com o avançar da idade.
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