quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
acho engraçado quando vc me pergunta se eu vou aguentar. como se eu tivesse opção. sabe? eu não tenho opção. não se trata de escolha a ser feita. por que se fosse escolha, desculpa falar, eu não escolhia vc. não. eu escolhia o mais fácil. escolhia um homem alto, forte e bonito. e rico. já que é pra escolher. sem choques. sem grandes sustos. sem grandes problemas. mas não. então não me pergunte se eu vou aguentar. eu tenho que. eu quero. quer dizer, agora não mais. agora já é sacanagem. por que sabe, eu já esperei uma pessoa uma vez, por dois anos. por dois anos eu não desisti. esperei, fiquei, insisti. então, quando vc diz - espera, eu preciso me recompor - eu entendo crueldade. é crueldade comigo. chega, né? chega de esperar alguém se recompor. prefiro ir junto estraçalhada mesmo. por que a gente sempre se estraçalha. então e daí o estraçalhamento, entende? não é? e daí? vc disse que vinha e não veio. nem ligou. não mandou e-mail, sinal de fumaça, pombo correio, telegrama. então vamos fazer assim: fica aí. se consuma na sua dor, se quiser. eu vou fingir que não me importo. até que vai passar tanto tempo, que um belo dia eu vou perceber que já não me importo mesmo. e fim.
sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
estava ouvindo o rádio de manhã: segundo a OMS, uma mulher que tem três parceiros sexuais por ano é uma mulher promíscua, por que na verdade ela está tendo relação com outras 27: cada uma das 3 teve relação com outras 3, e assim vai. deixa eu te falar uma coisa, senhor relator da OMS: promíscua é a senhora sua mãe, que devia estar dando em vez de te educar direito. imagina, ser promíscua por causa de 3 pessoas. 3 pessoas não é nada. num ano, então? aff. e depois ainda veio uma reportagem sobre histerectomia e os benefícios da remoção total do aparelho reprodutor feminino, que pode ser abdominal ou anal. mulheres: não transem. pensando bem, melhor ainda: vamos tirar seu útero? pelo cu.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
e assim termina outra história que nem começou. não começou pra vc. mais respeito com que os outros sentem, por favor. mais respeito com que os outros sentem por vc.
enxuguei as lágrimas, arrumei o cabelo e fui, faminta. não abortei nem um filho, com 20 anos de idade, vou abortar amor? não é aborto. é assassinato. não a queima-roupa, mas a sangue frio. é que não tinha amor. entendo. ou tinha, mas era pouco. não deu pra muito. morreu antes de vingar. meu amor não vai escorrer vermelho e quente se misturar água desinfetante anti-séptico de clínica clandestina de enfermeira rabugenta carniceiro médico mercenário e quase-mães dopadas de medo e dor. meu amor hoje vai para o tom zé. e pra quem mais quiser.
por que o amor existe. vc que não quis.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
deus, deus está em toda parte, eu não queria ter que deixar a porta fechada, por que a luz, os pássaros, o barulho de criança brincando na rua, mas a campainha, a campainha toca nas horas mais impróprias, e estando a porta aberta, não dá pra fingir que não tem ninguém em casa, como faço toda vez que vejo pelo olho mágico duas mulheres bem arrumadas, sapatinhos de salto, bolsas grandes nos ombros, sacou da bolsa uma bíblia como se sacasse uma arma, o que me lembrou a tira do jornal: como castrar um homem com um livro? leia a bíblia. ela me disse bom dia, eu de pijama às onze da manhã, xícara de café na mão, cabelos desgrenhados, bom dia. hoje eu queria falar de qualidade de vida, e queria falar com vc. é que eu não fumo, mas só faltava um cigarro em uma das mãos pra compor o quadro "a personificação da decadência", não, eu ali não queria falar de qualidade de vida, muito menos com ela, e foi aí, depois dessa frase, que ela sacou a bíblia, olhando para os lados, como se pudesse ser punida por isso, como se fosse altamente subversivo o que ela ia me mostrar, e eu entendo que ser evangélico é mesmo altamente subversivo, ler a bíblia é de uma subversão comparável a ler o livro vermelho num regime neo-liberal, mas eu tb sei que não é a subversão da multiplicação os pães que a perturba, o que a perturba é que talvez eu diga não, e que talvez ela tenha que continuar andando para conseguir esgotar a cota de panfletos do dia, e que talvez ela não atinja a meta de fiéis conquistados na semana, por isso o olhar apressado de quem tem um segredo a revelar. eu só queria voltar para o meu bolo, quente, fumegando em cima da mesa, estou ocupada, eu disse, e ela abriu a bíblia e me disse um salmo, nem me lembro que salmo era, eu sorri meu sorriso de pedra e disse que não era uma boa hora, e então o ar subversivo se dissipou, e se formou uma névoa de desdém e raiva, e eu pensei, o que leva duas senhoras a zanzar debaixo do sol quente tentando conquistar mais fiéis, minha mãe sempre dizia a mesma coisa: já tenho minha religião, e é tão repressora quanto a de vcs, eu completava em voz baixa, nunca tive coragem de erguer a voz pra minha mãe, até que um dia tudo explodiu em gritos e choros, um barulho imenso no quintal, jogaram alguma coisa, uma revista, preciso sair para comprar luvas, estou com calos na mão, e embora eu diga com certa frequência que não se deve confiar em pessoas de mãos muito lisas, esses calos tem me incomodado um bocado. mas não saio, mas não faço, não, não, não. só escrevo. escrevo pedindo, escrevo agradecendo, escrevo informando, escrevo brigando, escrevo protestando. e leio. uma manhã inteira de letras e leituras. é horrível dizer isso, mas exceto por um ou dois textos, me sinto como se perdesse tempo. e deus, deus foi embora com a mulher do portão, mas parou na casa ao lado, e minha vizinha não me deixa esquecer que Ele é o glorioso e que vai voltar para me amar, e se eu não amá-Lo agora depois vou me arrepender. canta bem, minha vizinha. só não me convence.
tava tão carente de abraço, que pedi café com leite mesmo estando com calor, tava tão precisando de carinho, que quando o sinal ficou vermelho me escorei no poste sem perceber e me senti confortada, tava tão triste e à toa na vida que vim andando do paraíso até a vila madalena, e posso dizer que não me sinto nada confortável depois de duas horas andando com esses sapatos nada confortáveis, exceto pelo fato de que o cansaço do corpo ajuda a diminuir o volume da barulheira maldita que eu tenho na minha cabeça agora.
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
o jardim quebrado com as pedras expostas a me lembrar das minhas próprias pedras, internas, por hora também reviradas ao ar livre. o subterrâneo, decomposto e exposto, me traz à superfície; me traga para a profundeza. eu: dois. é preciso terminar logo a reforma do que vai ser um jardim. pra ser só grama, flor, passarinho, cadeiras ao sol. sem pedras. sem pedras.
por hora. que mentira.
por hora. que mentira.
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
eu vejo minhas amigas pedindo por um amor. eu também já disse qualquer coisa parecida. mas eu não queria um amor. amor é pouco. eu queria era uma catarse, uma reviravolta, como chama mesmo, na estrutura da novela, o ponto de virada na vida de uma heroína?
tenho certeza de que o que o incomodava eram os sapatos apertados. já não bastava trabalhar de pé o tempo todo, com terno e gravata neste calor dos trópicos, cuidando da segurança de gente que nem de longe lembrava a sua, ainda precisava usar aqueles sapatos. a cunhada comprou numa promoção, olha, zé, pra você ir pro seu trabalho novo. se pelo menos desse pra trocar, esses bico-fino maldito tão me mastigando os dedos, mas sapato da liquidação não trocamos, senhor. melhor que sapato furado nesse dia de chuva, então vai assim mesmo. dia que não acaba, chegar em casa e tirar os sapatos. procurar outro emprego, esse não vai dar.
não, não é epifania. epifania é outra coisa, é quando se dá um momento de descoberta.
- outra stelinha?
- por favor.
- moça, tem um cinzeiro bem aqui.
- nossa, desculpa moço, não vi.
carne de segunda cheia de nervo, cê sente mesmo tando moída, mal dá pra comer sem interromper a mastigada. comi um pouco na cozinha sem que o cozinheiro visse, preço de primeira, bando de trouxa pagando caro só pra dizer que comeu fora. e queria que trouxesse ela aqui, zé, me leva no restaurante chique que vc tá trabalhando? não é chique, dira, é só um restaurante na rua. é chique sim, zé! vai, me leva, nem que seja um vez só, com seu décimo terceiro, me leva? dira, eu acabei de entrar, cê já tá pensando no décimo terceiro? é, ué. a gente tem que pensar a longo prazo.
a longo prazo, a longo prazo eu queria ter pensando quando te conheci, mas não disse nada, melhor ficar quieto, te levo, dira, se eu chegar a um ano e o dono não encrespar, te levo.
vai chegar, meu amor! nesse você vai ficar! e saiu pra fazer as unhas de sei lá quem, ganha até mais que eu em dia de natal e ano novo, sem falar das formaturas, dos casamentos, dos encontros de casais com cristo, do raio que parta, e vem me falar do meu décimo terceiro.
se eu pelo menos lembrasse o autor, ficava mais fácil procurar. aristóteles? será? não era aristóteles. e o professor, em que aula eu vi isso? introdução aos estudos literários, com a... a... esqueci o nome da professora. ou foi em literatura brasileira II, com o hansen? pode ser. procurar as anotações LBII.
yudith. o nome da professora era youdith. mas não foi com ela.
sexta-feira, 4 de maio de 2012
parei tudo o que estava fazendo. larguei mão, deixei pra lá, desencanei do tempo, pouco. depois limpei a mesa maior. fui empilhando cada coisa: o que já está quase pronto, o que ainda está só cortado, roll bag, alforje, bolsa de guidão, resto de tecido que ainda dá pra aproveitar, lona, nylon, algodão, plásticos. enchi a mesa de pequenos montes. esvaziei as caixas, esvaziei os lixos, arrumei a mesa de dentro. guardei os retalhos de couro, os zíperes, os botões, as garras, as fitas de nylon, os rolos de velcro e de viés. tirei tudo o que não era do ateliê. blusas, brinquedos, copos, coisas que já estavam prontas. depois tirei o pó das mesas e limpei as máquinas. voltei para as prateleiras os montes organizados. coloquei as cadeiras para o alto, arrastei as mesas e varri muito bem varrido o chão da oficina e uma parte do quintal. depois voltei tudo para o lugar. olhando agora, tudo faz sentido. eu sei exatamente o que devo fazer e por onde tenho que começar. nada como uma faxina.
quarta-feira, 2 de maio de 2012
fui na oficina de uma das costureiras, uma que eu não via há 3 anos.
tudo bem, tudo bem, nossa, priscila, como vc tá diferente.
é?
é...
parari, parará, preciso que faça assim, assado, e ela me olhando fixamente: mas vc tá muito diferente mesmo.
é? vai ver é o cabelo, eu fico com preguiça de pintar, a tinta velha desbota e eu fico meio grisalha, meio ruiva, meio castanha.
hum.
parari, parará, então amanhã eu trago tudo cortado e...
cê tá muito diferente mesmo.
nossa senhora, três vezes cê já me disse isso, eu fiquei com vontade de falar.
mas depois ela emendou: cê tá bem mais mulher.
hum. é que agora eu sou solteira, eu pensei. mas não falei nada, que mais uma costureira me dizendo que eu sou muito nova pra não ter namorado eu não aguento. são os trinta anos que se aproximam.
terça-feira, 1 de maio de 2012
futuro do pretérito
e o tempo se mostrou um grande causador de intrigas: a mim, dizia: insista mais um pouco. ainda há tempo. a ela, que o tempo já era passado, e que nada mais tinha jeito de ser, no de novo. e assim o tempo intrigueiro foi passando, passando, até que foi-se de vez embora pra longe, criar outras intrigas em outras histórias, com outros personagens. na divisão dos bens, ela ficou com o pretérito perfeito. eu fiquei com o futuro do pretérito.
domingo, 29 de abril de 2012
não chora.
não. não choro. mas é o que eu faço de melhor. então sim, eu choro. choro por que não sei mais o que fazer, por que tenho medo de insistir e não dar conta depois, medo, choro basicamente por medo. uma besteira sem tamanho. concentre-se no presente, ele disse, e no presente tudo vai bem. mas eu fiz uma confusão tão grande. também não vejo muita vantagem quando alguém se vangloria por não chorar. outra bobagem. por que não chorar? a inflexibilidade. nunca diga a uma mulher louca onde vc mora, onde seus pais moram, onde sua avó mora. como saber se uma mulher é louca ou não? não tem como saber, de antemão. mas acredite quando te digo, todas são. sem exceção. todas as que são assim como eu, pelo menos. ela continua linda.
não. não choro. mas é o que eu faço de melhor. então sim, eu choro. choro por que não sei mais o que fazer, por que tenho medo de insistir e não dar conta depois, medo, choro basicamente por medo. uma besteira sem tamanho. concentre-se no presente, ele disse, e no presente tudo vai bem. mas eu fiz uma confusão tão grande. também não vejo muita vantagem quando alguém se vangloria por não chorar. outra bobagem. por que não chorar? a inflexibilidade. nunca diga a uma mulher louca onde vc mora, onde seus pais moram, onde sua avó mora. como saber se uma mulher é louca ou não? não tem como saber, de antemão. mas acredite quando te digo, todas são. sem exceção. todas as que são assim como eu, pelo menos. ela continua linda.
sexta-feira, 23 de março de 2012
um escândalo sem tamanho, eu queria poder dizer vem cá, meu bem, me dê um beijo, me abrace, amo tanto você. fica comigo pra sempre. mas nada se diz, nada se escuta, nada se faz. um sonda o outro. mas nada, mais nada. quem é ele, eu me pergunto. o vento bate com força, em breve voltaremos às echarpes, penduradas há meses, esperando o verão acabar. e logo passaremos às grossas blusas de lã, e só no fim do ano teremos roupas leves de novo. uma ansiedade sem fim, logo ao fim. nada é mais inevitável do que aquilo que nós mesmos provocamos. por isso a certeza. não me interessa se faz sentido, interessa... me interessa desinteressar. então eu fecho tudo, desligo o fogo, desisto de comer, apago as luzes, saio de casa.
terça-feira, 20 de março de 2012
assim, de chofre, não sei responder. o que eu quero pra minha vida?
mais uns três filhos, pelo menos. coisa que eu vou pensar a sério a
partir do ano que vem. quero jardim. sempre. quero ficar velhinha, inha.
quero gente perto de mim pra comer as comidas que eu gosto de fazer,
mesmo que nem sempre dê muito certo. quero cantar. quero ver esse filho
que eu já tenho feliz por que está amando, sofrendo por alguma paixão, preocupado
com a espinha no rosto, arrumando um trabalho, chegando em casa com a
primeira namorada. tendo o filho dele. já pensou? quero que meu trabalho
deixe as pessoas felizes, que faça alguma diferença na vida delas.
quero conseguir viver do que eu gosto de fazer - e essa, por enquanto, é
parte mais difícil. que mais? sei lá. é tanta coisa. quero continuar tendo
ânimo para pintar as paredes, quando eu achar que é preciso mudar a cor
das paredes. quero achar um cabelereiro bom, pelo menos uma vez na vida.
quero continuar andando de bicicleta, quero plantar um monte de árvore
aqui na rua de casa. quero um dia poder sair sem lugar definido pra
chegar. quero também poder voltar.
mais uns três filhos, pelo menos. coisa que eu vou pensar a sério a partir do ano que vem. quero jardim. sempre. quero ficar velhinha, inha. quero gente perto de mim pra comer as comidas que eu gosto de fazer, mesmo que nem sempre dê muito certo. quero cantar. quero ver esse filho que eu já tenho feliz por que está amando, sofrendo por alguma paixão, preocupado com a espinha no rosto, arrumando um trabalho, chegando em casa com a primeira namorada. tendo o filho dele. já pensou? quero que meu trabalho deixe as pessoas felizes, que faça alguma diferença na vida delas. quero conseguir viver do que eu gosto de fazer - e essa, por enquanto, é parte mais difícil. que mais? sei lá. é tanta coisa. quero continuar tendo ânimo para pintar as paredes, quando eu achar que é preciso mudar a cor das paredes. quero achar um cabelereiro bom, pelo menos uma vez na vida. quero continuar andando de bicicleta, quero plantar um monte de árvore aqui na rua de casa. quero um dia poder sair sem lugar definido pra chegar. quero também poder voltar.
sexta-feira, 9 de março de 2012
me incomoda a quantidade de sapatos num canto da sala. não muito, não a ponto de me fazer levantar para guardá-los, embora eu já tenha me levantado para juntá-los num canto só, ao menos. são quatro os pares, e eu não sei tocar piano. a mulher era uma informante. dessas histórias, a informante se apaixona. se, se, se. ir ao cinema. semana que vem. o espião se apaixona também. ela não foi. ele vai se sentar com ela. ela é atriz. e bebe conhaque. ele diz a verdade? ela tem o nariz grande. mas só quando usa óculos. há uma certa idade em que todas as mulheres são bonitas.
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
nesses dias a gente tira as roupas velhas do armário. troca toda a roupa de cama, põe tudo pra lavar. lembra que daqui a pouco é hora de tirar as cobertas pesadas do alto, logo vem o frio, depois que passar a época de chuva convém lavar e deixar secar ao sol. passa a vassoura na casa toda, nas paredes, tira as teias das aranhas, me sinto mal por tirá-las. é verdade que aranhas comem pernilongos? nesses dias a gente limpa a casa como quem tira espinhos da pele. com cuidado, pra não doer. amanhã deve chegar uma notícia boa. e a gente reza pra que a dor que a gente provocou não dure muito tempo. não há de durar.
quando fechei a porta, girei a chave e pensei que a fechadura logo ia começar a dar problema. de costas para a minha casa, senti um cheiro esquisito de casa que não é minha. cheiro de tijolo velho molhado misturado com pimenta do reino. nem gosto muito de pimenta do reino, mas usei um pouco nesse dia. depois me virei, essa casa não é mesmo minha. embora eu mesma tenha escolhido morar aqui. por isso a gente pinta as paredes, pra tentar se apropriar da casa. hoje não vou pintar nada. está tudo vazio. vazio e sem sentido.
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
claro que o que eu penso é mas o que estou fazendo? um pouco aflita, depois eu respondo com mais calma: vivendo, oras. eu me atrapalho, me engano, troco as palavras, me expresso mal e não me incomodo se não me entenderam direito. esse não é o problema central da questão. quem gosta de escrever não deveria nunca fazer terapia. atrapalha. mas a vida em sociedade pede certos sacrifícios, a vida em sociedade devia ser basicamente catar piolho nas crias, mas que besteira, meu filho nunca teve uma lêndea sequer na cabeça.
olha, eu não sou daqui. ninguém é. a tevê ligada, só pelo barulho de gente falando, a ideologia política, mas ideologia de que? casa pra morar, lazer, lugar para criar seus filhos, era só isso. eles dizendo. dinheiro não é, não é, não é nada divino. dinheiro é um contrato universal, foi isso o que ele disse? dinheiro é uma coisa que devia ser muito respeitada, eu concordo, principalmente por que chegou em casa uma guia de recolhimento da contribuição sindical da indústria do vestuário feminino e infanto juvenil, que merda é essa, eu pensei. respeitem o meu dinheiro. mas o programa acabou, e agora uma música triste é cantada por um sujeito triste e uma mulher igualmente triste assiste de longe. quase escrevi lonje. que coisa. parei por um segundo, coisa que ninguém nunca diz, parei por um segundo e pensei se longe era longe ou lonje. lonje. quase não existe. quase. como eu.
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
tem umas coisas que a gente lê que é muito mais do que uma leitura. é quase uma fecundação. a gente fica gestando, gestando, gestando. quando nasce, reconhece os traços do pai e da mãe, dos tios e dos avós na coisa criada. sabe de quem vem o olhar, a boca, as unhas. não tem nada a ver uma coisa com a outra (exceto a coincidência de que a progenitora nesses casos sou eu mesma), mas ontem eu me lembrei da primeira risada do leo. e de como ele ria da risada, e de como de repente ele se assustou com a própria risada, e riu mais, num crescendo que evoluiu pra uma gargalhada, que gerou outro susto, e junto com esse susto um choro, que de repente cessou, por que se acostumou com a nova descoberta. e isso é assim, um livro bom e uma lembrança boa. justifica toda uma existência. só por que não estou de mau humor, claro.
Assinar:
Postagens (Atom)