sexta-feira, 3 de abril de 2015
ontem cortei o babado de um vestido e guardei o retalho pra fazer um vestido de boneca com a sofia. puro reflexo, automático. hoje de manhã vi o retalho sobre a mesa e me dei conta de que era bobagem guardar, ela não vai voltar. e ele nem sabe atrás do que exatamente partiu. perguntei se ele tinha saudade de casa. disse que não. que o reencontro com ele mesmo está intenso. que a casa do amigo é acolhedora. que ele nem tem tido tempo de sentir saudade. doeu tanto de ouvir. espero nunca ter que passar por isso. espero nunca ter que abandonar meus filhos porque preciso me reencontrar. espero nunca ter que dizer adeus a quem eu amo porque preciso me reencontrar. mas eu não acho mais que ele me ame. diz ele que sim. mas eu não tô a fim desse amor que não sabe o que quer. que toda hora foge. que toda hora joga tudo pro alto e diz "isso não é bom pra mim". eu quero um amor que saiba que os conflitos são inevitáveis. e, sendo inevitáveis, que importância eles têm quando se sabe que existe amor entre a gente? a questão é que eu não sei mais. entende? não sei mais onde pisar. não sei mais se dá pra confiar. enquanto isso, enquanto ele se reencontra com ele mesmo, nossa familiazinha que se formava em volta da mesa se desfez. as crianças dele acham que a culpa pelo seu sofrimento é minha. e da categoria grande amor da vida, de pessoa por quem nunca se sentiu nada nem parecido, de repente a gente passa a pessoa com quem não dá mais. é triste isso. é muito transitório isso de amor. quase um não lugar. um supermercado, uma praça abandonada, uma via de passagem rápida. não chegou a um ano.
quarta-feira, 1 de abril de 2015
não sei mais cozinhar. o bolo de banana feito enquanto o marido arrumava as malas ficou seco. esqueci do leite. mas também, como lembrar do leite? que ideia, fazer bolo enquanto quem vc ama se prepara para ir embora. o suflê de queijo do jantar de ontem, que fracasso. a massa pesada, pesada. consistente demais. forte demais. tinha que ter sido leve. aerada. permeável. a massa e eu.
segunda-feira, 30 de março de 2015
e se eu pichasse a moto dele? com sprays multi-coloridos, em letras grandes eu chamava ele de tudo quanto é nome. cachorro, canalha, cretino, babaca. em vermelho, amarelo e azul claro. a roupa não consigo mais picar, já dobrei e guardei, com carinho e cuidado, numa mala que tinha aqui. já veio buscar. já chorou. já chorei. já saiu de novo sem falar nada. já encaixotei o que ficou na mesa do escritório. toda uma vida pra encaixotar. eu queria tanto arrumar a casa, pois então. as roupas de cama, talheres, panelas, etc, talvez fosse melhor vc separar, ou a gente faz junto, porque vc sabe melhor que eu o que é de quem, ele me escreveu. e eu guardando o que de roupa ficou aqui. ok. eu separo.
dobrei meticulosamente cada roupa que ficou aqui. arrumei organizadamente na mala. separei os sapatos, os cabides, as meias, as cuecas que eu adorava ver nele. guardei as blusas de lã, as jaquetas, os cintos. tudo que estava na cômoda e no armário: luvas, bolsas, como eu vou viver sem reclamar que janela de madeira não é lugar de pendurar toalha molhada? os ternos e casacos deixei em cima da mesa do escritório, não cabia tudo na mala. é difícil, isso. não lavei a roupa suja que ficou aqui. coloquei tudo no cesto que era dele. também não escondi nenhuma camiseta pra mim. acariciei o cachecol xadrez que ele mais usava. fiquei com saudade do futuro que não chegou. de tudo que era pra ser e que não foi. podia ouvir o álbum branco no repeat por horas e horas sem parar. quem era ele? quem eu era para ele?
copos vazios ficaram espalhados pela casa toda. os cinzeiros estão cheios de cigarros onde ele costumava ficar. a cama ficou desarrumada. tem roupa dele no chão do quarto, ao lado da cama. ainda não sei como as crianças vão ficar com isso tudo. não sei como eu vou ficar com tudo isso.
toda vez que ele dizia que ia embora, eu pedia que ele não fosse. no começo, eu achava que ele não queria realmente ir embora. só estava bravo, ia passar. mas essa conversa sempre se repetia. agora foi a gota d'água; agora chega; agora eu vou embora. e eu dizia: não diga isso, por favor. qualquer dia, isso vai entrar em mim, e eu vou começar a acreditar que o melhor mesmo é que vc vá de uma vez. sem falar que eu me acho muito boa nisso de ficar sozinha. a vida não anda, a vida galopa, quando estou sozinha. vai de vento em popa. e agora estou aqui, deixando de fazer o que gosto porque estamos invariavelmente brigando. por favor, não me lembre de como eu gosto de estar sozinha. vai que eu acredito nisso de novo. então hoje, quando discutimos por bobagem mais uma vez, e ele mais uma vez fez as malas, eu não disse nada. apenas esperei.
toda vez que ele dizia que ia embora, eu pedia que ele não fosse. no começo, eu achava que ele não queria realmente ir embora. só estava bravo, ia passar. mas essa conversa sempre se repetia. agora foi a gota d'água; agora chega; agora eu vou embora. e eu dizia: não diga isso, por favor. qualquer dia, isso vai entrar em mim, e eu vou começar a acreditar que o melhor mesmo é que vc vá de uma vez. sem falar que eu me acho muito boa nisso de ficar sozinha. a vida não anda, a vida galopa, quando estou sozinha. vai de vento em popa. e agora estou aqui, deixando de fazer o que gosto porque estamos invariavelmente brigando. por favor, não me lembre de como eu gosto de estar sozinha. vai que eu acredito nisso de novo. então hoje, quando discutimos por bobagem mais uma vez, e ele mais uma vez fez as malas, eu não disse nada. apenas esperei.
o problema de quando vc mente é que vc tira da pessoa pra quem vc mentiu o direito de existir. se vc mente, ela não pode lidar com o mundo como o mundo é. ela não pode lidar com as situações do modo que as situações realmente são. e, fatalmente, ela não poderá lidar com vc da maneira que vc realmente é. então, não sabendo com quem estamos de fato lidando, como estabelecer uma relação de confiança? como acreditar, se acredito no que não conheço? fé? mas e depois, quando tomo conhecimento, quando passo a saber? depois, não existe mais. não existe mais confiança, não existe mais relação, não existe mais a própria pessoa que mentiu. porque não há nada que garanta que essa pessoa não era mais do que um punhado de algumas versões. esse é o grande problema da mentira. ela corrompe o que há de verdade.
domingo, 29 de março de 2015
falei que ninguém mais me derrubava, eu menti. derrubaram lindamente.
ismália se apaixonou; se casou; enlouqueceu outro marido e ele, cansado, foi embora.
toda vez que ele dizia que ia embora, eu pedia que ele não fosse. no começo, eu achava que ele não queria realmente ir embora. só estava bravo, ia passar. mas essa conversa sempre se repetia. agora foi a gota d'água; agora chega; agora eu vou embora. e eu dizia: não diga isso, por favor. qualquer dia, isso vai entrar em mim, e eu vou começar a acreditar que o melhor mesmo é que vc vá de uma vez. sem falar que eu me acho muito boa nisso de ficar sozinha. a vida não anda, a vida galopa, quando estou sozinha. vai de vento em popa. e agora estou aqui, deixando de fazer o que gosto porque estamos invariavelmente brigando. por favor, não me lembre de como eu gosto de estar sozinha. vai que eu acredito nisso de novo. então hoje, quando discutimos por bobagem mais uma vez, e ele mais uma vez fez as malas, eu não disse nada. copos vazios ficaram espalhados pela casa toda. os cinzeiros estão cheios de cigarros onde ele costumava ficar. a cama ficou desarrumada. tem roupa dele no chão do quarto, ao lado da cama. eu ainda não sei como vai ser. ainda não sei como as crianças vão ficar com isso tudo. não sei como eu vou ficar com tudo isso. mas a gente fica. a gente sempre fica, de um jeito ou de outro.
ismália se apaixonou; se casou; enlouqueceu outro marido e ele, cansado, foi embora.
toda vez que ele dizia que ia embora, eu pedia que ele não fosse. no começo, eu achava que ele não queria realmente ir embora. só estava bravo, ia passar. mas essa conversa sempre se repetia. agora foi a gota d'água; agora chega; agora eu vou embora. e eu dizia: não diga isso, por favor. qualquer dia, isso vai entrar em mim, e eu vou começar a acreditar que o melhor mesmo é que vc vá de uma vez. sem falar que eu me acho muito boa nisso de ficar sozinha. a vida não anda, a vida galopa, quando estou sozinha. vai de vento em popa. e agora estou aqui, deixando de fazer o que gosto porque estamos invariavelmente brigando. por favor, não me lembre de como eu gosto de estar sozinha. vai que eu acredito nisso de novo. então hoje, quando discutimos por bobagem mais uma vez, e ele mais uma vez fez as malas, eu não disse nada. copos vazios ficaram espalhados pela casa toda. os cinzeiros estão cheios de cigarros onde ele costumava ficar. a cama ficou desarrumada. tem roupa dele no chão do quarto, ao lado da cama. eu ainda não sei como vai ser. ainda não sei como as crianças vão ficar com isso tudo. não sei como eu vou ficar com tudo isso. mas a gente fica. a gente sempre fica, de um jeito ou de outro.
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