quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Gente, tive outra idéia. Vou desistir do novo livro de auto-ajuda comentado. Vou escrever aqueles romancinhos eróticos que vende em banca de jornal!
O primeiro título vai ser... hum.. vou pensar no enredo primeiro.
Ele era discreto, mas num relance percebi que me comia com os olhos.
Fiquei arredia.

Quer dançar?
Não, não quero dançar, eu seguro seu copo enquanto você dança.
Não, Priscila, eu só quero dançar se for com você. Viu, Priscila? Eu só quero dançar com você.

Não o olhei nos olhos enquanto me dizia isso. Mas sei muito bem que tipo de olhar era. Elogiou meu vestido, riu das minhas histórias. Pegou no meu braço, roçou minhas costas, falou baixo no meu ouvido, nada me convencia a olhá-lo de frente. Sabia que eu me trairia, que meus olhos diriam pode vir, que consentiriam sem que eu tivesse consentido ainda. Continuei olhando pra baixo a noite toda, e de manhã... De manhã eu bem que gostaria de ter suas pernas entrelaçando as minhas. Acordei convencida. Mas aí - talvez já fosse tarde demais.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Na próxima encarnação, eu quero nascer Tom Zé ou Itamar Assumpção.

EU SOU MALUCA

maluca maluca maluca malu
ca ma la ca mu lu lu ma la ca

mas me divirto mesmo assim.
tirou os sapatos, lavou as mãos, subiu três degraus e parou. sentou na escada azul, tirou a blusa e ficou. subiu dois degraus, desceu um, no meio da escada, não sabia se ia ou vinha, ficou. tirou a saia, o brinco, o anel, a pulseira e o relógio. uma coisa de cada vez, devagar, pensava se tirava ou se colocava. não pensava em nada. se colocou no meio. ficou de batom. desceu, pegou uma maçã, sentou. não comeu a maçã. sexual demais para a fome. pegou um pedaço de pizza fria. não comeu. comida demais para o sensual. comeu ar. a única coisa que parava no estômago. estômago. estômago para quem. sentada na escada, se pudesse, tirava também os olhos, a boca, as veias, fazia um tricô com as veias e as artérias, fazia um cachecol e mandava de presente. com dois olhos pendurados como franjas. com o pulmão, fazia um gorro, pra você se proteger do frio, ela pensa, eu protejo você do frio com meu corpo. com meu descorpo. com meu não-corpo. descorporadamente te incorporo. meu corpo no seu, matéria. seu corpo no meu, sangue.
quero, não quero, quero, desquero, quero de novo, talvez sem querer.
passo rímel, três horas no espelho pra acertar o traço do delineador líquido,
fica bom, mas me acho mais bonita quando acordo borrada pela manhã.
a beleza é um borrão de tinta. preta.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Reengenharia

(Itamar Assumpção e Sérgio Guardado)

Meu amor eu tive uma idéia genial
Que tal inserir nosso lar na economia global
É muito simples não tem filosofia
É só fazer a tal reengenharia
No mundo todo vai que é uma beleza
Por que não fazer igualzinho lá em casa, hein princesa
É só jogar no lixo o que não precisa
A tua mãe, por exemplo, a gente terceiriza
Não se preocupe com a culinária
Agora ficou chique comer porcaria
Ter urticária o que que há de mal afinal
É só um bocadinho de mesquinharia
Meu bem não vejo a hora de fazer economia de escala
O mala do nosso vizinho pegamos botamos fora
A mulher dele a gente incorpora
Vamos acabar com todo desperdício
Afinal qual é o mal é só a beira do precipício
Os amigos a gente elimina
E traz só de brinquedinho baratinho lá da China
Vamos criar um lar bem competitivo
Um lar que seja voltado só para um objetivo
Ente o ativo e o passivo
Vamos ver qual de nós dois ainda continua vivo
Vamos cair de boca no pragmatismo
Afinal qual é o mal, é só a beira do abismo
Querida vamos acabar com todo sossego
Dar um basta nos sentimentos e nos momentos de aconchego
Pulmão otimizado coração desativado no seguro desemprego
Nosso lar vai virar uma operação enxuta
Com muito mais inveja, com muito mais disputa
Afinal qual é o mal em ser só um tiquinho filho da puta
Vamos concentrar nossa vocação meu bem
Ficar querendo o que a gente não tem
Oh! Meu amor eu quero detonar o quarteirão o mundo o bairro
Só pra comprar nosso segundo carro
Oh! Meu amor quando tudo der certo
Ficaremos só nós dois num lindo deserto
Vai ser legal ser moderno aqui no meio do inferno
Poderemos gravar tudo isso em vídeo
Afinal qual é o mal é só um pouquinho de suicídio
Teu irmão eu aniquilo teu pai jogamos no asilo
É, só vamos comer por quilo
tem dias que eu não tenho o que dizer

nesses dias
tudo está bem
ou tudo vai ficar bem

e eu sinto uma paz enorme

e aí eu entendo
que isso faz parte

do meu ciclo menstrual - há!
daqui a quinze dias nem tudo estará tão bem assim

me sinto tão bicho, fico pensando por que toda essa falsa civilidade e esses prédios altos e essas calças jeans apertadas e um monte de gente morando tão perto uns dos outros e tão longe ao mesmo tempo, e quase todo mundo querendo ser loiro de cabelo liso, ficam um tempão no salão aqui do lado, máquinas ligadas o dia todo, um puta calor, vem aquele cheiro de tinta e de secador de cabelo, cheira queimado às vezes, também pudera...

os carros buzinam, as pessoas passam, às vezes entram, às vezes são simpáticas, em geral não, mas como as pessoas dentro de seus carros buzinam!
isso, amor. buzina que voa.

eu estaria agora sem problemas debaixo de uma árvore catando piolhim na cabeça do meu filhim. que nem macaquim.

vindo pro trabalho vi um homem deitado no chão de costas para a rua. pelos movimentos ritmados, ele batia uma. na frente de uma loja fechada, a fachada moderna. De tarde, as clientes chiques com seus cabelos loiros, lisos e chiques pisarão na porra seca de um mendigo que de manhã batia uma.

e aí eu fico pensando que não adianta maquiagem salto etiqueta modos maneiras trejeitos. a gente é porra, menstruação e esgoto. a gente anda desviando de merda, a gente anda respirando merda, toda a nossa merda vai pro rio, se eu fosse Deus explodia tudo, ele rio a gente merda.

tem um cara que diz que cocô é vida, ok, por que o rio morreu então?

pronto, acabou o meu tão adorável sentimento de paz.
já quero ir embora de novo, e agora não tem mais nada a ver com meu ciclo menstrual.
não, não vou, vou ficar, é mais difícil, sempre, ficar do que sair, mas vou ficar. sou forte.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Vou comprar um dicionário de rima

pra te dizer

de forma alexandrina

que você não combina

comigo.

Você já sabia

ou ao menos

pressentia.
correu, chorou, choveu, chegou.
Depois foi embora porque senão não dava tempo de comer feijão.

2007

eu queria morar no castelo do conde drácula para ouvir astor piazzolla com eco

usar vestidos diáfanos e esvoaçantes de dia e de noite

eu queria ser uma personagem de andersen e dançar até que alguém cortasse meus tornozelos e me livrasse de meus sapatos vermelhos e dançantes

queria também ser a moça que teve sua beleza e sua vida roubados em um retrato

eu queria estar num filme noir

ser a heroína estonteante de um filme policial dos anos 40

queria ser uma bailarina de tango na argentina da mesma época

queria morar na casa da frida kahlo

queria ter nome de bailarina de flamenco - magdalena, carmen, rosa maria

queria ser escritor e viver em botequins imundos e livrarias discutindo arte literatura e política

queria ter estado nas escadarias do municipal na semana de arte moderna

queria ter dançado o jazz nos bailes de terça-feira gorda

e o rock'and'roll também

e ainda o fox trot, por que não?

queria ter sido bibiana terra
amar o capitão rodrigo eu já amei

e agora que eu já disse isso, posso confessar:

ocorre que eu moro mesmo é numa casa esquisita no jaguaré onde quem passa na rua escuta um astor piazzolla sufocado.

uso uma camisa xadrez com gola dos anos setenta que me custou 2 reais em um brechó e um short (que era uma calça e eu cortei e que está manchado de cândida e tinta) que me custaram 10 reais na ponta de estoque da luigi bertolli 5 anos atrás.

não pareço exatamente uma diva.

ainda não tive coragem de cortar meus próprios pés, por isso tenho um caroço que me impede de dançar e um motivo no qual creditar todas as desditas de minha vida.

eu jamais ficaria sentada na mesma posição durante dias para que me pintassem um retrato, a menos que eu pudesse me deitar.

dizem que eu faço fotosssíntese.
dias chuvosos são insuportavelmente tristes .
preciso de dia ensolarado para ter inspiração e vontade de viver - o que significa que num filme noir eu seria uma heroína suicida com um grito estonteante pulando do empire state.

ainda quero dançar tango.

um dia ainda vou construir uma casa igual à da frida Kahlo.

e de uns anos pra cá até que comecei a gostar do meu nome.

nasci priscila e nasci mulher, mas não creio que isso me impeça de ser um escritor. posso começar a passar gilete no rosto e colocar ovos nas calças. mas também não creio que vá ser uma experiência agradável. meu filho iria me estranhar . gosto de ter nascido mulher. desde que eu nunca mais precise parir.

na verdade, duas semanas por mês eu gosto, em outras duas eu só suporto.

ocorre também que nasci em 1982, sessenta anos depois da semana de arte moderna. bem longe de conhecer tarsila, minha querida tarsila, que eu achei que ia me dar sorte numa prova e confundi com santa e usei de amuleto. agora vai. só que não foi.

bem longe também dos bailes de terça-feira gorda.

queria ser um pinguim na antártica. talvez assim o imutável não me incomodasse tanto.

Da coerência na vida humana

Escrevi isso em 2007, num outro blog que, em favor da humanidade, deletei. Dois textos ficaram perdidos num limbo digital, e agora eu os encontrei de nvo. E não é que eu estranhamente gostei do que escrevi? Em geral me arrependo amargamente de permitir que alguém leia o que escrevo, e depois de um tempo me sinto absolutamente ridícula. Por isso nunca leio minhas postagens depois de publicá-las. Primeiro por causa desse sentimento de ridicularidade, depois por que dá uma vontade incontrolável de reescrever.

Mas desse aqui eu continuo gostando: é sobre a maternidade e sua fulgurante resplandecência:


o léo teve otite pela primeira vaz na vida (ele começou a fazer aula de natação) e esperneava de dor.
depois ainda me dizem que ser mãe é padecer no paraíso!
se quem disse isso foi uma mãe - o que eu duvido - era daquelas que tinha trinta aias pra cada rebento!
e eu até imagino essa mãe tomando chá às cinco com suas amigas na varanda de um casarão, com um penteado impecável, um vestido levemente esvoaçante na brisa fresca, um chapéu branco para proteger-se do sol das 5 (já tinha horário de verão em 1850?) e aí entra uma aia e diz:
"sinhá, o luís felipe tá com catapora".
ao que a mãe responde:
"oh! chame o doutor ribeiro fontes! pobre criança!"
e, virando-se para as amigas, solta a frase da qual as mães menos crédulas viriam a desconfiar mais tarde:
"ha,ha, ha! ser mãe é padecer no paraíso!"
Não, para a escola pública o Leo não vai.
Vem aí...

CAMARIM!

Aguardem!
Entrei outro dia na conta de uma amiga, sem querer, ela usou o pc antes e não fechou.
Dei de cara com uma foto de uma moçoila descolada, dizendo algo do tipo "tem gente que eu gostaria que estivesse no Haiti durante o terremoto". Achei isso tão horrível. Não por que ela deseje talvez que alguém morra (às vezes todo mundo deseja isso mesmo), mas por que é um jeito tão vil de entender uma calamidade. E aí ela publica, serelepe e faceira, um pensamento assim cheio de inspiração, e um monte de gente "curte"! Um monte de gente! Eu imagino que seria tão bom se essas coisas não tivessem acontecido, lá e aqui, em São Luís do Paraitinga, no Rio, na favela perto de casa. Eu imagino o que eu posso fazer pra ajudar.

Fiquei tão, tão orgulhosa dos amigos que tenho. Um comentário de um amigo foi: "O prêmio do bbb equivale a 860 mil dólares. A ajuda do bid pro Haiti, a 200 mil". Percebem a diferença? Agora não pode mais falar de joio e trigo, não é? Viva o arroz integral.

Mas aí me lembrei que sou quase stalinista. Paredão, Dona Eulália, paredão - só não sou mesmo porque não tenho o sangue frio o suficiente para eu mesma pegar em armas, nem sou tão estúpida a ponto de querer ver (mais) um para-exército. Mas que dá vontade, dá.
Pensei que a gente é tudo farinha do mesmo saco.
Mas nosso pão é diferente. Espero.

Mais uma da seção correspondência:

Querida amiga;

O STALINISMO acaba de ganhar mais uma FIEL PARTIDÁRIA!!

(não me lembro exatamente por que, mas eu estava bem brava nesse dia, como podem ver)

assombro natalino que uma amiga pediu para eu guardar, e eu vou guardar mesmo, pra ver se me acontece isso de novo (vai que)

Ah, estou sim um pouco assombrada!
Bem assombrada na verdade!
Tem até um pinheirinho falso com penduricalhos e piscas-piscas. Coisa da avó do Leo, é claro. Mas estou assombrada por que estou com vontade de fazer um monte de comida no dia 24 pra comer um monte de coisa à noite e passar mal no dia seguinte. Também estou com uma vontade muito estranha de comprar presentes para todo mundo e colocar os pacotinhos embaixo do pinheiro ridiculinho, mas que já que aqui está ...
Que medo!
E mesmo que tudo o mais não falhe, vamos ao cinema?
é... deixa pra lá!
Cai uma chuvinha tão boa agora!
Dá vontade de ir lá fora molhar um pouco, e erguer os braços e dizer "estou feliz"!
E se alguém me perguntar por que, vou dizer que é porque estou feliz, oras!
Quero ficar parada no meio da rua, de braços abertos, com a chuva batendo no rosto, bem clichê. Bem clichê. E daí? Tem coisa mais clichê que felicidade, tristeza, chuva e pantufa?
Tem. Ter um blog e falar disso.
Mas eu não estou nem aí, eu não estou nem aqui...

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

se for sem rasgar,
agora deixo que venham -

devagar.
O pote de açúcar encheu de formiga, o que era branco ficou cinza.
Tem muita casca de laranja na massa do bolo. O arroz queimou, a roupa não secou, o tanque transbordou. A pia entupiu, a torneira continua pingando. E era tanta tristeza, mas tanta tristeza, que o sol ficou azul no meio-dia, o passarinho gritou e morreu, e eu comi um pedaço de bolo com muita casca no meio da massa.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Respiro fundo e me proíbo de chorar, mas as lágrimas insistem em aparecer.
Saco, por que eu tenho que ser tão chorona?
Depois de passar o ano todo escolhendo escola, na hora h o Leo vai para uma escola pública. Entro no caos e penso ok, está essa bagunga por que é férias. Tem um cachorro solto se coçando perto da minha perna. Escola pública sempre tem um cachorro solto por perto. A escola lembra a que eu estudei. Seca, áspera, imponente, paredes que te olham e te vigiam. É claro que não tem janelas, tem grades. Como no presídio. Afinal, o que são crianças senão futuros delinqüentes? Ah, é para evitar furtos. Claro. Mas por que essa necessidade de grades cinzas? Tinta branca ou colorida é mais cara, precisa retocar no meio do ano? Tinta cinza dá menos trabalho. Esconde a imundície.
No refeitório, mais grades: a portinhola de onde sai a merenda tem uma grade que só permite a passagem de um prato. Decerto para proteger as merendeiras de ataques dos futuros drogadinhos transviados.

- Tem APM?

- Tem sim, moça.

- E funciona?

- É... era pra funcionar melhor, né? he he.

- Ahn... E já tem uma data para a próxima reunião?

- É... Não, ainda não.

- Hum.

- Mas parabéns pela iniciativa, é muito importante para a escola ter pessoas participativas.

Minha vez de dizer - É...

Ok, moço simpático, mostrou a escola toda na maior boa vontade (devo dizer que em escola pública pai e mãe não entra pra conhecer, foi boa vontade mesmo), inclusive um coelhinho tão tristinho preso numa gaiola. Por que, eu me pergunto, por que ter um coelho preso numa gaiola? Pra dizer que os alunos tem educação ambiental?
O pátio é tão triste. É tanto cimento, pra quê tanto cimento? Pras crianças não se sujarem? Pra não levarem lama para a sala de aula em dia de chuva? Mas a secretaria é uma imundície só! Tem um cachorro pulguento e um monte de gatos soltos, por que as crianças não podem ter um pouco de grama e árvore?

- Ah, mas temos bastante árvores.

É, depois do muro do pátio, onde ficariam os xaropes do colegial, se tivesse 2º Grau na escola.

Mas nunca devemos reclamar, não é? O pior talvez ainda esteja por vir. E estava mesmo.

O leo está tirando medidas para o uniforme (ok, dou o braço a torcer, é bem menos deprimente do que o uniforme de muita escola de bacana que tem por aí. Só me entristece o tecido, que é um sintético de quinta, deve ser quente pra dedel).

Chega uma loira na secretaria. É claro que ela é loira de luzes. Uma mulher iluminada, de tantas luzes na cabeça. Mulher que quer ter poder é quase sempre loira. Ela é super estúpida com o moço simpático.

- Põe a régua na frente, pra ter mais precisão, ô R.
(na hora de medir o pé do leo - infelizmente eu não escrevo bem o suficiente para reproduzir aqui o tom exato que ela usou.)
Ah, você veio tirar medida, é?
Pois eu vou medir seu cabelo pra cortar. (hã?)

- Ah, não vai não, eu não vou cortar meu cabelo de jeito nenhum.

- Ah, vai sim, senão não vai estudar aqui.
Vai querer voltar pra emei?

- Não.

- Ah, mas se você não cortar, vai voltar pra emei, quer, voltar a usar fralda? (?)

O leo começa a ficar sem graça, mas se mantém firme.

- Então eu vou pra outra escola.

- Ah, então vai mesmo, por que aqui tem que cortar o cabelo.
Ela pega uma régua, mede o cabelo do leo e fala: olha só, 15 centímetros.

Minha vontade: dizer "tire as suas patas do lindo cabelo comprido do meu filho, sua bruxa".

Meu filho:
- Mas vc tem cabelo comprido e está aqui.

A resposta:
- Mas eu sou mulher, eu posso. (ah, ótimo! Outra interrogação estampada na minha testa).

O leo:
- Meu pai também tem cabelo comprido (não tem, mas contra-argumentar é preciso).

O pai:
- Ã, eu tenho? ÃÃ, então eu preciso cortar, hã. hã. hã.

O leo:
- Eu vou estudar aqui sim, e não vou cortar o meu cabelo não.

A sonsa:
-Ih, esse aí vai dar trabalho! ha. ha. ha.

Eu penso: Eu é que vou, sua vaca higienista. Vamos lhe dar muito trabalho. Aguarde.

Minha cara ficou sem o sorrisinho cordial na primeira fala dela, é claro. Detesto gente estúpida, detesto. E o que foi isso que se seguiu?

Teve uma hora em que ela apontou pra mim e disse:

- E essa aí, quem é? Você sabe quem ela é? É a mãe, é?

Não, eu sou a Dona Morte e vim te buscar. BU! (POW, SOC, TUM, AI!, BUM, PLAN!)
Acho que minha cara não estava muito boa.

Eu sou mulher. Grande merda no seu caso.

Porra! Eu é que vou ter muito trabalho. MUITO!
Inclusive pra me segurar e não partir para a agressão física.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Deu Flor! Ou quem deu flor foi eu...


É domingo. Tem muita coisa pra fazer, pra costurar, mas eu não quero fazer nada. Quero ficar com meu filhote, quero sair na rua colorida e tomar sorvete e banho de sol.
Estou terrivelmente feliz hoje! Uma das minhas bromélias finalmente vai dar flor!
Já são quatro irmãs, a mãe morreu há cinco meses (nada curioso, todas as minhas plantas quase morreram há cinco meses, mas agora estão mais fortes e mais bonitas - qualquer semelhança com o meu caso é mera coincidência!).
A adotei quando meu filho tinha alguns meses. E agora descobri que vamos ter uma linda flor cor-de-rosa enfeitando meu já florido jardim!
Fiquei tão feliz, mas tão feliz, que fiz minha sobremesa favorita: sorvete, chantilly, muitos morangos, suspiros, sorvete, mais chantilly e ainda mais morangos!
Fiz um sorvete de baunilha, bati o chantilly e assei os suspiros. Tem um gosto diferente quando a gente faz tudo de verdade e dá certo. Não tem a ver com ficar mais ou menos gostoso. Tem a ver com satisfação.
Me ouvi cantando uma coisa diferente hoje. "Excuse me, I wanna kiss the sky"!
Não lembro se a letra é assim mesmo, mas eu gosto de pensar nisso assim. Vou beijar o céu!
Esqueci que tem mais suspiros no forno!

Beijos felizes e açucarados pra vocês!

Corporalidade

O estômago dói, o peito arde, o estômago não dói, o estômago arde. Os músculos ardem. Sua cabeça não te dá descanço, e você deseja ficar um minuto sozinha, no sem si mesma. Um minuto apenas, fora de si. Nessas horas, minha alma torna-se palpável, pode ser cortada a faca. Acho que é isso que chamam angústia. Quando o corpo dá nó. Quando o silêncio faz muito barulho. Quando você sente que seu coração parou de bater no peito, saiu do lugar e está próximo demais da atmosfera. É morno, mole, não sobe nem desce, está entalado e palpita, provoca soluços e você não pode respirar direito. Nunca mais quero sentir o coração na boca.

Mentira.

Foi com o coração na boca que eu mastiguei você e te degluti.
O processo digestivo já está quase no fim.
pintei minhas unhas com cor de pin'up
na parede um tom de abacate
me dá fome

Não era amarelo?

pintei nosso quarto de azul e cor de rosa
azul do meu lado
cor de rosa do seu

Pra ver se te inspira.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Rímel à prova d'água

Para um amor mal acabado
Rímel à prova d'água
Evita que borre
Mas não impede que você chore

Rímel

Olhou bem para ele. Não o reconhecia mais. Tentou ver algum traço familiar. Nada. Aquele era outro. Nenhum sinal que a lembrasse dos sete anos de convívio. Só a voz era a mesma. Mas a entonação era outra. Foi morar do outro lado da ponte. Usava outras roupas. Passou a usar sapato de couro. Preto. Camisa bonita como nunca tivera antes. Calça do seu tamanho, nem maior nem menor. Cinto. Um cara de trinta anos, como outro qualquer. Agora ele ia ao cinema. Agora ele comprava roupas. Agora ele cozinhava e até fazia pão. Agora. Ela evitava pensar nisso. A deixava ainda um pouco desconcertada, o não saber. Disse a ela que estava mudando de "preferência literária". Ela riu por dentro. Achou estranho alguém mudar de preferência literária. Ficou feliz por que o achou um pouco ridículo. Finalmente. Ela sentiu muito a falta dele. Acordava de noite (quando conseguia dormir), passando a mão no espaço vazio da cama e pensava que ele estava lendo no escritório, como sempre. No meio da tarde, se tinha uma idéia, uma inspiração qualquer, pensava que precisava se lembrar daquilo mais tarde para lhe contar no café. Mas não havia mais café nenhum no fim da tarde, nem luz acesa no escritório na madrugada.
Agora ela já não sofre mais. Percebeu que não mudou muita coisa. Ela já era sozinha antes, mas achava que era o mestrado dele, a cirurgia se aproximando, a doença, o trabalho, qualquer coisa, menos ela. E era mesmo, qualquer coisa menos ela. Ele gostava de qualquer um, menos dela. E agora, sabendo disso, ela sente uma grande vontade de felicidade. Uma fome enorme, por que ficou com o estômago vazio por tempo demais. A tristeza a deixou mais bonita, mais amadurecida, mais mulher. Se sabe livre. Agora é ele quem sente falta dela.

Batom

O carrinho do churrasqueiro pegava fogo. A labareda subia até o segundo andar e assustou a criança, que saiu correndo da casa. Ela freou a tempo. Bateu a testa no vidro, ficou com a cabeça latejando o dia todo. Tinha posto saltos altos naquele dia. Queria parecer mais alta e mais bonita para ele. Para que ele visse como estava melhor desde. Não quis ir ao médico, um corte pequeno na testa, mas que deixaria uma cicatriz no seu rosto. Uma cicatriz no rosto é, para as terrivelmente feias, uma lástima: nunca poderia ter sido Miss de qualquer modo, mas talvez fosse menos feia se não tivesse essa cicatriz dividindo o nariz.
Ela é feia, mas se achou linda a vida toda. Até que.
Subiu os quatorze andares do prédio imaginando-se terrivelmente sedutora. Seus sapatos com saltos altos faziam toc toc toc toc... Subia devagar. A cada passada, seu vestido branco manchado com uma gota de sangue da sua testa se desajustava para um lado e para o outro, marcando o movimento dos quadris e subindo um pouco. Deixou que subisse. Chegou no terraço, e não esperou que lhe abrissem a porta. Jogou os cabelos para trás, arrumou a franja para o lado, de modo que lhe cobrisse um pouco os olhos. Para o mistério. Abriu a porta devagar.
Entrou, sentou, não cruzou suas pernas normais. Esperou por 16 horas. Depois tirou os sapatos, rezou um terço e tomou duas caixas de comprimidos. Ele não viria.

Rouge

O carrinho do churrasqueiro pegava fogo. A labareda subia até o segundo andar e assustou a criança, que saiu correndo da casa. Ela freou a tempo. Bateu a testa no vidro, ficou com a cabeça latejando o dia todo. Tinha posto saltos altos naquele dia. Queria parecer mais alta e mais bonita para ele. Para que ele visse como estava melhor desde. Foi ao pronto-socorro. Três pontinhos bem no alto, do lado esquerdo. Não queria ficar com nenhuma cicatriz. Uma cicatriz no rosto é, para as excessivamente lindas, um estigma horroroso. Eu quase fui Miss, mas me desclassificaram por causa dessa cicatriz.
Ela é linda, mas se achou feia a vida toda. Até que.
Subiu os quatro andares do prédio imaginando-se terrivelmente sedutora. Seus sapatos com saltos altos faziam toc toc toc toc... Subia devagar. A cada passada, seu vestido preto se desajustava para um lado e para o outro, marcando o movimento dos quadris e subindo um pouco. Deixou que subisse. Chegou no terraço,tocou a campainha e esperou que ele viesse abrir a porta. Jogou os cabelos para trás e arrumou a franja para o lado, de modo que lhe cobrisse um pouco os olhos. Para o mistério.
Entrou, sentou, cruzou suas belas pernas. Acendou um cirrago, apagou, pediu um copo d'água. Ele se levantou.
Ela tirou o revólver da bolsa e descarregou o tambor nas costas do filho da puta que a deixou cinco meses atrás. Se arrependeu depois. Devia ter atirado quando ele voltasse com o copo.

O carrinho do churrasqueiro pegava fogo. A labareda subia até o segundo andar e assustou a criança, que saiu correndo da casa. Ela freou a tempo. Bateu a testa no vidro, ficou com a cabeça latejando o dia todo. Tinha posto saltos altos naquele dia. Queria parecer mais alta e mais bonita para ele. Para que ele visse como estava melhor desde. Não quis ir ao médico, um corte pequeno na testa, mas que deixaria uma cicatriz no seu rosto. Uma cicatriz no rosto é, para as nem tão lindas, um alívio: Não pude nunca ser Miss por que quando tinha 4 anos sofri um acidente e fiquei com essa cicatriz no nariz.
Ela é linda, mas se achou feia a vida toda. Até que.
Subiu os quatro andares do prédio imaginando-se terrivelmente sedutora. Seus sapatos com saltos altos faziam toc toc toc toc... Subia devagar. A cada passada, seu vestido vermelho se desajustava para um lado e para o outro, marcando o movimento dos quadris e subindo um pouco. Deixou que subisse. Chegou no terraço, e não esperou que lhe abrissem a porta. Jogou os cabelos para trás, arrumou a franja para o lado, de modo que lhe cobrisse um pouco os olhos. Para o mistério. Abriu a porta devagar. Ele estava sentado de costas.
Girou a poltrona e atirou cinco vezes no esbelto corpo da mulher de vestido vermelho.

Letra sobre tela nº1

Na frente do casario
um desatino - um desvario.

Pulou a janela,
roubou uma bicicleta.
Fugiu.

Pra ser atriz de novela.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Agora falando sério

Quanto mais eu leio, menos tenho vontade de escrever.
Já disseram tudo o que eu queria dizer. Melhor do que eu diria.
Infinitamente melhor.
E quando eu penso nisso, me dá uma preguiça de vida!
Uma vontade de deitar na rede e dormir, dormir, coçar, esticar, espreguiçar.
Macu!

pessimismosinho de fim de noite

Inventaram

a

I n t e r t e x t u a l i d a d e

por

que

A C A B O U

a

cri

a

tivi

da

de?

Sinapses

Já rimaram amar e cantar
Já rimaram amar e chorar
Já rimaram amar e tentar

Mas não há rima para amar eu.

Já rimaram amar e sofrer
Já rimaram amar e ceder
Já rimaram amar e enlouquecer

Mas não quero rima se quem enlouquece sou eu.

Já rimaram amar e sorrir
Já rimaram amar e sentir
Já rimaram amar e cair

Mas não quero rima se quem cai sou eu.

Já rimaram amor e dor
Já rimaram amor e flor
Já rimaram amor e cor

Mas não há rima para amor e eu.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

D. Baratinha

E agora o que eu faço
se dei nó no que era laço
se errei o compasso
e perdi o passo

E agora o que eu faço
se estou solta na vida
sem laço nem fita
sem José, sem Maria e sem João

E não há dinheiro na caixinha
que me dê uma solução.
Seria uma rima, mas não...

Obrigada, Aline.

"O senhor me pergunta se os seus versos são bons. Pergunta isso a mim. Já perguntou a mesma coisa a outras pessoas antes. Envia os seus versos para revistas. Faz comparações entre eles e outros outros poemas e se inquieta quando um ou outro redator recusa suas tentativas de publicação. Agora (como me deu licença de aconselhá-lo) lhe peço para desistir de tudo isso. O senhor olha para fora, e é isso sobretudo que não devia fazer agora. Ninguém pode aconselhá-lo e ajudá-lo, ninguém. Há apenas um meio. Volte-se para si mesmo. Investigue o motivo que o impele a escrever; comprove se ele estende as raízes até o ponto mais profundo do seu coração, confesse a si mesmo se o senhor morreria caso fosse proibido de escrever. Sobretudo isto: pergunte a si mesmo na hora mais silenciosa da sua madrugada: preciso escrever? Desenterre de si mesmo uma resposta profunda. E, se ela for afirmativa, se o senhor for capaz de enfrentar essa pergunta grave com um forte e simples 'Preciso', então construa sua vida de acordo com tal necessidade; sua vida tem de se tornar, atá na hora mais indiferente e irrelevante, um sinal e um testemunho desse impulso. Então se aproxime da natureza. Procure, como o primeiro homem, dizer o que vê e vivencia e ama e perde. Não escreva poemas de amor; evite a princípio aquelas formas que são muito usuais e muito comuns: são elas as mais difíceis, pois é necessária uma força grande e amadurecida para manifestar algo de próprio onde há uma profusão de tradições boas, algumas brilhantes. Por isso, resguarde-se dos temas gerais para acolher aqueles que seu próprio cotidiano lhe oferece; descreva tudo isso com sinceridade íntima, serena, paciente, e utilize, para se expressar, as coisas de seu ambiente, as imagens de seus sonhos e os objetos de sua lembrança. Caso o seu cotidiano lhe pareça pobre, não reclame dele, reclame de si mesmo, diga para si mesmo que não é poeta o bastante para evocar suas riquezas; pois para o criador não há nenhuma pobreza e nenhum ambiente pobre, insignificante".

Rainer Maria Rilke, Cartas a um jovem poeta.