mando ou não mando?
mando ou não mando?
mando ou não mando?
bem me quer, mal me quer,
bem me quer, mal me quer,
bem me quer, mal me quer,
bem me quer, mal me quer,
bem me quer,
mal me quer.
o segredo é começar sempre pelo mal me quer. no caso de pétalas em número par.
pétalas arrancadas, próxima flor. mal me quer. droga, essa era ímpar.
amanhã eu boto a foto da flor que fiz enquanto cogitava as possibilidades dos quereres.
não mando. não mando. priscila, obedeça! não mande!
(mas se eu não mandar ele não vai saber)
(mas se vc mandar ele vai querer só por que vc quis)
(vc está sendo boazinha comigo)
(deixa ele querer primeiro)
(ele deve achar que eu sou louca)
(até aí)
(até aí, o que?)
(até aí todo mundo acha)
(mas eu não sou)
(claro que não, ninguém é)
(então)
(então que como sua amiga eu devo te lembrar que é sempre vc que começa as histórias)
(e o que tem isso demais?)
(tem que depois vc fica achando devia não ter feito nada)
(não é verdade)
(não?)
(meio verdade)
(então)
(então o que?)
(então fica na sua, vai bordar, vai ler um livro, esquece)
(eu vou. desligo tudo, apago as luzes, subo, pego um livro. na segunda página eu olho pro relógio e penso: será que ele tá on-line? aí desço, ligo tudo de novo, não, ele não está on-line)
(rsrs)
(que foi? não ri de mim, por favor)
(não estou rindo de vc)
(não?)
(não)
(tá rindo do que então?)
(da sua falta de noção)
(ah, vá)
(ele não vai achar vc louca)
(não?)
(não. vai é ficar com medo de vc!)
(e vc, não tem mais o que fazer, não?)
(tenho, te trazer de volta à realidade)
(pra que?)
(pra vc parar de viajar por causa de alguém que vc nem conhece)
(mas quero conhecer, ué)
(vcs já se beijaram, pelo menos)
(não)
(hahahahahahahahha)
(poxa, pára de rir de mim, por favor?)
(rsrsrs, desculpe. e se ele for chato? não era melhor conhecer primeiro e se apaixonar depois, maluquinha?)
(eu não estou apaixonada. quer dizer, não pode ser tudo junto?)
(não? rsrs)
(por que vc está falando entre parênteses?)
(não sei, vc que começou)
(vou dormir)
(sonhe com os anjos!)
(não é dos anjos o sobrenome dele)
(como é?)
(não vou te falar)
(por que não?)
(por que não)
sábado, 29 de janeiro de 2011
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
que rufem os tambores
e soem as cornetas
a partir desse momento em diante
eu, priscila moreno, me limito a proferir a palavra "eu" apenas 4 vezes por dia, não mais do que isso, sob pena de tomar óleo de rícino a cada infração.
além disso, fica aqui registrado que não citarei mais "a separação".
me liberto das amarras do passado para entrar no presente, enterro os mortos em suas tumbas,
e com toda a pompa e circunstância a que tenho direito, me declaro "perdoada".
amém.
e soem as cornetas
a partir desse momento em diante
eu, priscila moreno, me limito a proferir a palavra "eu" apenas 4 vezes por dia, não mais do que isso, sob pena de tomar óleo de rícino a cada infração.
além disso, fica aqui registrado que não citarei mais "a separação".
me liberto das amarras do passado para entrar no presente, enterro os mortos em suas tumbas,
e com toda a pompa e circunstância a que tenho direito, me declaro "perdoada".
amém.
de volta à estaca zero. dei um giro, mas foi com muita força, acabei nos 360º. eu queria dizer assim: abre seu coração, senão eu arrombo a janela, mas eu não sei onde fica a janela, e tb tem a questão que não adianta eu forçar o querer nem nadar contra a corrente. como foi mesmo que me disseram uma vez? á água corre pelo caminho mais fácil, mas não sou água, não deslizo lisa e mole, às vezes chego a ser áspera. eu sou a mulher que viu o cego e deixou a sacola com os ovos cair. eu sou a mulher que espera o professor chegar e não sabe que vestido colocar. eu sou a mulher que desenforma o bolo que se desfaz. eu sou a mulher que enche a banheira e submerge e se imagina morta. eu sou a mulher que desenforma o bolo que dá certo. eu sou a mulher que não planeja as coisas direito e que vê tudo dar errado. eu sou a mulher que não planeja as coisas direito e vê dar tudo certo. eu sou a mulher com fita no cabelo que canta louca enquanto o trem não vem. eu sou a mulher que sobe a escada do casebre imundo pra ter uma aventura. eu sou a mulher que atravessa a ponte correndo e rindo. eu sou a mulher que tem medo do mar. eu sou a mulher que se apaixona pelo padre. eu sou a mulher que vê o marido morrer. eu sou a mulher que é estuprada pelo policial na frente do marido. eu sou a mulher de saia azul na altura do tornozelo. eu sou a mulher que se enche de jóia. eu sou a mulher que não usa jóia nenhuma. eu sou a mulher que dança, eu sou a mulher que cai. eu sou a mulher que perde tudo. eu sou a mulher que grita atrás da cortina do banheiro, eu sou a mulher que chora atrás da cortina do banheiro, eu sou a mulher que ama atrás da cortina do banheiro. eu sou a mulher que abraça o travesseiro. eu sou a mulher que carrega o filho na cintura. eu sou a mulher que leva o filho pela mão. eu sou a mulher que vê o filho indo sozinho. eu sou a mulher que abandona o marido. eu sou a mulher abandonada pelo marido. eu sou a mulher que surta. eu sou a mulher que toma chuva. eu sou a mulher que dá risada com qualquer cantada barata. eu sou a mulher do retrato. eu sou a mulher do quadro. eu sou a mulher no alto da escadaria. eu sou a mulher morta no chão da sala. eu sou a mulher dando risada na cozinha. eu não sou a mulher que põe pedras nos bolsos e entra no rio.
sábado, 22 de janeiro de 2011
eu disse que ia fazer sociologia, ele disse não, minha filha, faz direito. eu disse que justamente hoje tinha feito minha matrícula num curso de direito da unip, unip por que eu não tô muito a fim de ter que fazer faculdade de verdade, quero um diploma, fui logo explicando, eu preciso explicar meu preconceito mais pra mim mesma do que pra qualquer pessoa. ele riu. antes disso me mostrou uma barata na parede, fez questão de me levar até onde estava essa barata, por que eu disse que não, que ele já tinha bebido demais, e que aquilo devia ser um besouro, um pernilongo, qualquer coisa menos uma barata. eu vi, tirei a sandália do pé e matei, pronto, problema resolvido, limpei a sujeira, tirei a barata esmagada do chão, com a maior naturalidade do mundo. sabe, a separação, nesse sentido, me fez muito bem. eu dou conta das coisas sozinha, agora. dos medos. ando sozinha na noite, no escuro, não tenho mais medo do escuro, antes eu deixava algumas luzes acesas. agora até prefiro o escuro. antes eu ouvia barulhos abomináveis, assustadores, via vultos (imaginava vultos), tinha pesadelos. agora os pesadelos são só meus. e quando uma coisa é só sua... agora tenho os ouvidos mais aguçados. escuto até os passinhos de uma barata na cerâmica fria da sala onde estou. perdi o medo dos bichos. perdi o medo do medo. a questão é: alguém tinha alguma dúvida de que eu era capaz de matar uma barata? de que eu era capaz de não perder tempo com bobagens como o medo? eu não. sempre tive certeza. e nesse sentido, a separação foi absolutamente inútil. é óbvio que eu sou capaz. bom, matei, enterrei, voltei para o meu lugar. depois pedi ele em casamento. perguntei: vc é casado? sim, há 32 anos. ah, que pena. se não, te pedia em casamento agora mesmo. é que ele olhou o meu brinco, que eu tenho há dez anos, e fez uma espécie de análise de cor e forma que eu achei muito bonito. e é mesmo por causa daquilo tudo que ele disse que eu nunca perdi esse brinco em dez anos, enquanto muitos outros já se quebraram, já se perderam. fiquei pensando no que isso diz a meu respeito. é claro, tenho consciência de que só dei importância para o discurso por que os olhares não costumam ser tão atenciosos aos detalhes como cor, forma, textura. percebi, hoje, que eu prefiro os homens mais velhos. por uma questão de repertório mesmo. e justamente por essa questão de repertório - ou de experiência - é que eu não confio em homem nenhum que prefira as mulheres muito mais novas do que ele. percebi também que minha maldade aumenta com a idade. e que não é o príncipe que vai morar no palácio, é a princesa que vai morar no pântano. invariavelmente.
acordei com uma gritaria, parecia que uma matilha toda comia uma menina viva. me enrolei no lençol, tudo escuro, tropecei, abri a janela, não tinha luz na rua, o poste queimado, só os gritos, agudos e incessantes, e a cachorrada que latia. então o grito durou mais do que dez segundos. e vieram mais dois gritinhos ritmados no final. juro, minha vontade é ir eu mesma morder essa filha da mãe e arrancar as suas cordas vocais no dente, pra ela aprender a não gritar desse jeito às nove da noite.
eu queria mesmo era ficar quieta, queria, queria, mas não consigo, sabe como é? quando a cabeça não pára? preciso aprender a meditar, preciso me acalmar, preciso respirar mais devagar. prestar atenção no que estou fazendo. mas não. e agora? me ferrei. de volta à estaca zero. mas dessa vez, sem outros bicos ao mesmo tempo - o que em geral me salvava, acabava um, tinha outro. agora acabou tudo. tudo. me ferrei. pra variar. não, não é um lamento. é uma constatação, só. consequências da inconsequência. viu, saturno, meia volta-volver. volta amanhã. eu sei, eu sei que a oportunidade que eu tive pra mudar tudo eu não aproveitei bem. ou melhor, mudei em 360 graus. acabei parada no mesmo lugar, não adiantou nada. e agora vou ter que fazer direito ou ficar patinando a vida toda. quero fincar meus pés no chão. é. ninguém disse que ia ser fácil. mas tb ninguém disse que ia ser difícil assim. é que não tem receita, não é? não, não é uma reclamação. ou é. é só que...
sabe quando vc sabe que está fazendo tudo errado? tudo, tudo. eu sou a mulher que viu o cego e deixou cair a sacola com os ovos. a diferença é que eu volto pra casa. ela não.
sabe quando vc sabe que está fazendo tudo errado? tudo, tudo. eu sou a mulher que viu o cego e deixou cair a sacola com os ovos. a diferença é que eu volto pra casa. ela não.
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
de receitas
um caderno de receitas não é só um caderno de receitas. é muito mais que isso. eu não sei dizer exatamente o que é, mas sei que um pedaço de mim fica ali. na letra às vezes caprichada, em geral corrida. nos respingos de leite ou água, meu caderno é um pouco farináceo, de tanta farinha que já caiu nele. as páginas já estão amassadas, rasgadas, está quase no fim o número de páginas em branco. meu caderno de receitas é meu pequeno tesouro. os nomes das receitas em caneta de cor diferente, pra ficar mais fácil de achar, as donas das receitas sempre citadas - pão de mandioquinha da tia liu, pão de batata da ana. no fim da página as observações: colocar menos água - trocar o leite por leite de coco - colocar mais raspas de limão - essa receita não funciona - divino!!! (assim, com três exclamações, acho que é um quindim) - não foi dessa vez. sem falar das receitas dadas em letra corrida num papel qualquer: um guardanapo, folhas diferentes de cadernos diferentes, uma receita que a amiga pegou da internet e mudou tudo, são duas receitas em uma. a lembrança do dia em que as crianças fizeram pão, eu trouxe a receita comigo, a receita do dia em que as crianças fizeram biscoitos, tem uma manchinha vermelha na página. goiabada? sim, goiabada. eu adoro meu caderno de receitas - 75 doces e 29 salgados, sem contar as folhas soltas. muito mais doces. tem também o que não está em nenhuma receita, mas que eu sempre me lembro: com a olívia aprendi a colocar cebola e alho bem picadinhos e douradinhos no purê de batata. tb aprendi a colocar cenouras cozidas e amassadas junto. e agora, se faço purê, coloco batata, cenoura e mandioquinha. com o rômulo, aprendi a colocar maçã e cenoura raladas na maionese, daquelas pra acompanhar churrasco. com a minha tia, a colocar tomate e pimentão no feijão. com a minha mãe, aprendi a misturar o fermento com um pouquinho de leite antes de juntar à massa do bolo e que qualquer coisa pode virar uma sopa deliciosa. uma chefe minha uma vez fez um creme de aspargos muito bom. mas na hora de fazer croutons, passou mateiga num pão de forma e fritou na frigideira. com a maior boa intenção do mundo, mas não deu certo. em casa, cortei os pães em cubinhos, coloquei sal, orégano e um tiquinho só de azeite. talvez nem precise de azeite. levei ao forno e pronto. minha mãe fazia isso quando a gente era criança, para aproveitar as cascas do pão de forma quando a gente pedia pra cortar. tem também as coisas que eu descaradamente roubo: o patê de gorgonzola da regina, o patê de ricota da mãe de um ex-namorado, o macarrão com parmesão e bacon que a avó dele fazia. a caponata que eu comi na casa de uma amiga - a amizade até já acabou, e eu morro de raiva e de saudade toda vez que eu penso nessa caponata. o grão de bico com um monte de coisa junto da talitha. o chá de abacaxi, o chá de maçã, raspas de laranja e canela, a torta de abobrinha com creme bechamel. as coisas que a gente faz por puro improviso, a brusqueta que cada dia tem um recheio diferente, por que cada dia tem um ingrediente diferente na geladeira. do macarrão com mostarda que a amiga não dá a receita de jeito nenhum, por que segundo ela "não precisa, é só juntar tudo" e que eu tento fazer de tudo quanto é jeito sem obter êxito! acho que meu caderno já teria umas duzentas páginas se eu escrevesse tudo. vou escrever. aos poucos, por que é um projeto um tanto quanto ambicioso. essas coisas todas que não entram num caderno de receitas.
domingo, 16 de janeiro de 2011
olha bem pra mim e me diz, vc acha que eu tenho cara de quem gosta de bege?
não, eu não gosto de bege. só que minha casa toda é bege. tem as paredes beges, e as portas e janelas são marrons. vê lá se eu tenho cara de quem gosta de marrom. bege e marrom são as cores da neutralidade. do bom senso. da discrição. de quem não quer dar o que falar, de quem quer passar despercebido. por que que minha casa é bege? não faz o menor sentido minha casa ser bege. pintei de azul e branco. não caí, dessa vez. mas o resultado ficou excessivamente "provence". olha bem pra mim e me diz: eu lá tenho cara de francesa romântica com vasinho de lavanda na mão? bem que eu queria, mas não é o caso. "antes de pintar, verifique se não há resíduos de mofo ou pó. lave com cândida e espere secar antes de iniciar a pintura". joguei a cândida pra tirar o musgo do muro, matei a samambaia que não tinha nada a ver com isso. esfreguei com a vassoura e a cor que eu queria apareceu: um tipo de laranja claro, com umas nuances esverdeas, cor de sujeira em cima de uma parede cor de abóbora desgastada. é essa a cor que eu quero.
não, eu não gosto de bege. só que minha casa toda é bege. tem as paredes beges, e as portas e janelas são marrons. vê lá se eu tenho cara de quem gosta de marrom. bege e marrom são as cores da neutralidade. do bom senso. da discrição. de quem não quer dar o que falar, de quem quer passar despercebido. por que que minha casa é bege? não faz o menor sentido minha casa ser bege. pintei de azul e branco. não caí, dessa vez. mas o resultado ficou excessivamente "provence". olha bem pra mim e me diz: eu lá tenho cara de francesa romântica com vasinho de lavanda na mão? bem que eu queria, mas não é o caso. "antes de pintar, verifique se não há resíduos de mofo ou pó. lave com cândida e espere secar antes de iniciar a pintura". joguei a cândida pra tirar o musgo do muro, matei a samambaia que não tinha nada a ver com isso. esfreguei com a vassoura e a cor que eu queria apareceu: um tipo de laranja claro, com umas nuances esverdeas, cor de sujeira em cima de uma parede cor de abóbora desgastada. é essa a cor que eu quero.
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
conteúdo adulto
- oi
- oi
- te conheço de algum lugar, mas não lembro de onde
- é, vc não me é estranho
- ah, que bom, fiquei com medo que vc achasse que era alguma cantada ruim
- não era?
- é... (pigarro) mas a gente se conhece de algum lugar, não?
- talvez.
- eu sou músico.
- eu trabalho num bar.
- hum. que bar?
- sagarana. é de lá, já sei quem vc é.
- ah, então é de lá.
- com certeza. vc é o moço do pintinho pequenininho, não é?
- sim! e vc é a moça da bruscheta vermelhinha!
- sou eu.
- meu pintinho tá aqui ó, quer ver?
- assim, no ônibus?
- que é que tem?
- tá bom, mostra aí.
nisso a velhinha que estava no banco da frente se levanta, olha feio pra trás, mas muito feio, como nem minha mãe olharia, e vai sentar longe de nós dois.
depois ele me mostrou outra tatuagem. era uma cobra enorme.
- oi
- te conheço de algum lugar, mas não lembro de onde
- é, vc não me é estranho
- ah, que bom, fiquei com medo que vc achasse que era alguma cantada ruim
- não era?
- é... (pigarro) mas a gente se conhece de algum lugar, não?
- talvez.
- eu sou músico.
- eu trabalho num bar.
- hum. que bar?
- sagarana. é de lá, já sei quem vc é.
- ah, então é de lá.
- com certeza. vc é o moço do pintinho pequenininho, não é?
- sim! e vc é a moça da bruscheta vermelhinha!
- sou eu.
- meu pintinho tá aqui ó, quer ver?
- assim, no ônibus?
- que é que tem?
- tá bom, mostra aí.
nisso a velhinha que estava no banco da frente se levanta, olha feio pra trás, mas muito feio, como nem minha mãe olharia, e vai sentar longe de nós dois.
depois ele me mostrou outra tatuagem. era uma cobra enorme.
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
deixei o jogo de xadrez montado em cima da mesa de centro da sala, pra lembrar de jogar. num relance vi as peças perfiladas, bispo, rei e rainha protegidos por torres, cavaleiros e peões. tive uma sensação ruim. a ordem, a fila, os soldados, a estratégia de guerra. os peões numerosos. morrem primeiro. pensei que o tabuleiro é um front. desarmei o jogo, guardei na caixa, coloquei a caixa dentro de um armário. já basta o que a gente vive.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Pequenas Epifanias (Caio F. Abreu)
Há alguns anos, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.
Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.
Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.
Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos.
Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.
Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania.
Há alguns anos, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.
Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.
Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.
Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos.
Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.
Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania.
o carnaval tá chegando!!!
mas a frase do mês é: pegou seu guarda-chuva listado e saiu por aí.
exemplo ao contrário
logo quando eu decido parar de ser a ovelha negra
tá vendo a vida dela, minha filha, que caos?
por isso que mamãe e papai te aconselham a fazer tudo ao contrário.
estranho
minha casa tá cheirando cachorro molhado
ah, juvenal.
ah, passei no vestibular da unip, já contei?
pois é, passei.
clássico, chega em casa do trabalho
mentira, do cinema
todos dormindo
não tem ninguém com quem falar
sobre o que eu vi na rua
sobre o filme
sobre amanhã
sobre ontem
e se tem
não quero falar
ou não sei o que falar
então digito o e-mail, a senha, conectar bate-papo, ahn, não quero falar com ninguém, desconectar. bate-papo (off-line)
então escrevo um monte de abobrinha que amanhã (ou daqui a pouco, ou agora) alguém vai ler e pensar: nossa, o carnaval tá chegando
ou
mais uma falando de chuva
ou
vai lembrar da música da rita lee
ou
vai achar que eu sou louca
ou
vai achar que eu não tenho mais o que fazer.
quase acertou. eu tenho, mas não me importo. vou ligar a tv, nada de interessante passando, vou querer sair, mas acabei de chegar, vou ficar com preguiça, vou pegar o livro que comprei e vou ler três páginas, as três páginas que eu já li outro dia e que já esqueci, eu leio cada página umas duas ou três vezes.
não há silencio que não termine, ingrid betancourt.
levanto ou não levanto pra ver como se escreve?
levanto, é assim mesmo, não precisava ter levantado.
mas a frase do mês é: pegou seu guarda-chuva listado e saiu por aí.
exemplo ao contrário
logo quando eu decido parar de ser a ovelha negra
tá vendo a vida dela, minha filha, que caos?
por isso que mamãe e papai te aconselham a fazer tudo ao contrário.
estranho
minha casa tá cheirando cachorro molhado
ah, juvenal.
ah, passei no vestibular da unip, já contei?
pois é, passei.
clássico, chega em casa do trabalho
mentira, do cinema
todos dormindo
não tem ninguém com quem falar
sobre o que eu vi na rua
sobre o filme
sobre amanhã
sobre ontem
e se tem
não quero falar
ou não sei o que falar
então digito o e-mail, a senha, conectar bate-papo, ahn, não quero falar com ninguém, desconectar. bate-papo (off-line)
então escrevo um monte de abobrinha que amanhã (ou daqui a pouco, ou agora) alguém vai ler e pensar: nossa, o carnaval tá chegando
ou
mais uma falando de chuva
ou
vai lembrar da música da rita lee
ou
vai achar que eu sou louca
ou
vai achar que eu não tenho mais o que fazer.
quase acertou. eu tenho, mas não me importo. vou ligar a tv, nada de interessante passando, vou querer sair, mas acabei de chegar, vou ficar com preguiça, vou pegar o livro que comprei e vou ler três páginas, as três páginas que eu já li outro dia e que já esqueci, eu leio cada página umas duas ou três vezes.
não há silencio que não termine, ingrid betancourt.
levanto ou não levanto pra ver como se escreve?
levanto, é assim mesmo, não precisava ter levantado.
domingo, 9 de janeiro de 2011
chuva, chuva, chuva. queria sair mas não podia. prédio bonito, cadeira confortável, mas o que ela fazia ali? ninguém sabia. esperava. esperava a chuva passar, esperava o teto cair, esperava alguém? duas horas, esperando. quatro horas, e nada da chuva acabar. eu imagino que ela esperasse a chuva passar, não tinha guarda-chuva, não tinha bota, não tinha capa. quando a chuva diminuiu, um movimento, achei que ela fosse se levantar. mas não. sem nada pra ler, nada, nada pra fazer. apenas a espera. terá se sentido num consultório médico? num funeral de tia de quinto grau? na fila da embaixada? na fila do banco? mesmo nessas esperas, há sempre um sentido. sua vez na fila vai chegar. mas quando se espera a chuva passar... é só a espera. tem gente que passa uma vida à espera.
se levantou, finalmente. depois de quatro horas. a chuva ainda caía de deixar a gente enxarcado em pouco tempo. e ela saiu. no meio da chuva. do outro lado da rua já estava pingando também, junto com a chuva. virou chuva, a mulher. parecia não se importar com isso. foi andando, passos firmes, braços cruzados no peito, desviando das poças mais cheias. como se fosse nuvem cheia de água, escolhia os lugares mais secos por onde passar. não queria chover onde já estava molhado. os carros buzinavam, só ela na rua sem guarda-chuva. quem passava olhava sem disfarçar a curiosidade. o descalabro. o despeito. a tresloucada. a transtornada. mas era só uma mulher que cansou de esperar por uma coisa que não acabava nunca numa tarde de verão. a chuva.
se levantou, finalmente. depois de quatro horas. a chuva ainda caía de deixar a gente enxarcado em pouco tempo. e ela saiu. no meio da chuva. do outro lado da rua já estava pingando também, junto com a chuva. virou chuva, a mulher. parecia não se importar com isso. foi andando, passos firmes, braços cruzados no peito, desviando das poças mais cheias. como se fosse nuvem cheia de água, escolhia os lugares mais secos por onde passar. não queria chover onde já estava molhado. os carros buzinavam, só ela na rua sem guarda-chuva. quem passava olhava sem disfarçar a curiosidade. o descalabro. o despeito. a tresloucada. a transtornada. mas era só uma mulher que cansou de esperar por uma coisa que não acabava nunca numa tarde de verão. a chuva.
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
vc quer me comer ou quer ouvir minha história? eu te conto, se vc quiser. senão, não precisa se entediar, a gente resolve isso logo. sempre ouvi coisas se partindo, em toda discussão, algo sempre se quebrava. uma xícara, uma televisão, uma janela. os dois. as coisas comigo continuam se quebrando. um copo, uma xícara, eu. as relações. deve ser pra não perder o hábito de ouvir o som do vidro se espatifando, que é de uma singeleza só. nem sei se essa palavra existe. existe agora, pois é. o som do vidro se quebrando começa devagar, se intensifica e diminui de novo. então vc tem que ser muito capaz de parar de prestar atenção em tudo o que vc está fazendo e se concentrar para ouvir apenas o baque e depois o tilintar ds cacos que rodopiam no chão. é muito rápido. a primeira vez que eu achei que minha mãe estava enlouquecendo foi quando ela começou a gritar que ia virar puta. que ia dar pro primeiro desgraçado que encontrasse na esquina. eu sempre achei que toda forma de loucura tem a ver com a repressão sexual. não tenho critério nenhum pra achar isso, mas é só observar nos loucos que isso é uma das primeiras coisas que explode. por isso tive dó da minha mãe. se ela tivesse dado mesmo, pela menos uma vez na vida, para o primeiro desgraçado que aparecesse na esquina, ela ia saber que isso não resolveria nenhum problema. como eu sei? sabendo. eu sei muitas coisas. mais do que vc, que fica aí me olhando com cara de quem está doido pra rir de mim. pode rir. eu não ligo. já riram tanto de mim, que um a mais, um a menos, não vai fazer diferença.
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
tem dias em que me sinto num comercial de absorventes. qualquer coisa me faz jogar a perna pra cima e rir que nem hiena. tem dias que me sinto num comercial de perfume romântico ou de cera pra depilação. fico languidamente deitada me espreguiçando, numa preguiça que não tem fim. engraçado, comercial de faxina é uma coisa que raramente rola aqui em casa. deve ser por causa dos sapatos de salto.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
tava lembrando de um moço que sempre tinha queijo prato na geladeira. um dia ele perguntou que queijo eu preferia. mussarela. desde esse dia, passou a comprar só mussarela, sempre. fofinho, né? mas aí eu fiquei com saudade do queijo prato e fui embora. teve um moço que ficou triste comigo, por que ele queria namorar, e eu não. aí ele que disse tchau. precisava muito de uma namorada. um outro ficou triste comigo por que eu apresentei ele pra uma amiga como "meu amante". ficou ofendidíssimo, tadinho. imagine, achei que ele fosse ficar feliz. não é qualquer um que eu chamo de amante. tb me disse tchau. tb queria namorar. levando em conta a idade dos sujeitos envolvidos, profissão, círculo social, tipo sanguíneo e grau de escolaridade, cheguei à seguinte conclusão: homens tb entram em crise com o avançar da idade.
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