acho que não quero viajar. já adiei duas vezes, já desisti uma vez, não consigo fazer a mala, fico enrolando. acho que é por que no fim das contas, 2010 foi um ótimo ano. e eu não queria que ele acabasse já. conheci tanta gente bacana! apertei mais um pouquinho os laços com os amigos de sempre, estendi laços novos, que foram se apertando ao longo do ano. outros laços deram uma afrouxada, natural.
em vez de deixar tudo arrumado, fiz uma bagunça ainda maior. resolvi costurar, tem tecido e linha pra tudo quanto é lado.
então é isso, hora de ir, descobri por que eu não queria ir. não é que não queria ir, é que eu queria não voltar... ai! queria tanto ser uma pessoa sensata na hora de fazer as malas! mas não. tem roupa pra três anos. quando foi que eu virei aprendiz de perua? agora eu tenho rouge. blush. deixei tudo quase arrumado. se arrumar mais alguma coisa, não vou hoje. de novo. hora de ir.
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
meu nariz é um pouco grande, talvez, mas o da minha avó era assim, o do meu pai é assim, esse calombinho é a marca dos gomes santiago, minhas olheiras, dos bosco moreno, eu podia me chamar priscila bosco gomes. ou priscila bosco moreno, se fosse só filha da minha mãe, ou priscila gomes santiago, se fosse só filha do meu pai, não, se eu fosse só filha do meu pai, acho que ia me chamar lina, nome da mãe dele, a avó que eu não conheci, dona da cara de brava que herdei. lina santiago, vai ser o nome da minha filha se um dia eu tiver uma. o sorriso eu herdei da minha mãe, acho, os dentes perfilados sem precisar de aparelho... a boca carnuda da família do meu pai, os olhos pequenos tb, as bochechas. meu corpo é da família da minha mãe, corpo de matrona renascentista, se bem que a irmã mais velha do meu pai tb é assim, rechonchuda, branquelinha. sou a filha mais velha, tenho o corpo igual ao das duas irmãs mais velhas das duas famílias, engraçado, não é? meu avô paterno se chamava ezequiel. franzino, olhos de um azul nebuloso que só os muito velhos tem, tão cordato, manso, tão diferente do meu pai, sujeito explosivo, desses que soltam faíscas até imerso em água. mas não sei se era da idade avançada essa cordialidade, ou se da personalidade mesmo. minha avó lina dizia que se pudesse faria uma plástica pra puxar todas as peles, o marido era tão magrinho, ela cheia de formas, devia achar que o casal não ornava, vai saber. minha outra avó se chama branca, dona branca, bosco moreno, olheiras profundas, meu avô é o seu angelim, angelim moreno, de sobrancelhas assustadoras. tem um nome italiano no meio, que eu não lembro, da minha bisavó rosa, rosa moreno e mais alguma coisa que termina em celi, deli, como era mesmo, esqueci. nome do marido dela que era italiano, parece que foi embora. ela espanhola. lindos, lindos, meus avós maternos. minha avó parecia uma moura, árabe, num deserto cheio de vegetação. meu avô queria ser galã da vera cruz. era um galã mesmo. não deu pra ser galã de cinema, mas agora vive em fantasia, cismou que minha avó tem um amante, minha avó, tadinha, que tem um filho doente, que não sai de casa, e que fez um bolo só a vida toda, um bolo que a gente ohava e falava, esse bolo da dona branca, tão torto, sempre torto do mesmo jeito, massa branca com recheio de leite condensado cozido e cobertura branca de clara em neve com açúcar coberto com coco. o bolo que tem todo final de semana, religiosamente, o bolo que meu filho adora e pede que eu faça, pediu para levar numa festa da escola, ele levou todo orgulhoso, como se carregasse uma fina iguaria, o bolo mais gostoso do mundo, voltou pra casa todo feliz, seus pares reconheceram o bolo como se fosse, de fato, uma fina iguaria. o bolo que minha avó fez a vida toda, o bolo torto da vó branca, é agora o bolo que eu faço para meu filho, mas por mais que eu me esforce, não consigo deixá-lo torto.
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
já li todo o capítulo dedicado a virgem, já fiz a análise libra&virgem, não sei se estou indo muito rápido, será? de domingo pra cá, todos os manuais astrológicos consultados. tá, são dois só, e não é de domingo pra cá, é de uma festa de são joão pra cá, tem uns seis meses já que eu combino nossos signos, verdade seja dita. e tem também as consultas internéticas, vou tirar o tarô, esqueci de ver o signo maia dele qual é, o chinês é igual ao meu, a gente tem tudo pra se dar bem, se tivermos paciência para superar o início que pode ser turbulento, libra tende a achar que o parceiro de virgem é desinteressado e virgem pode achar que libra é muito dispersivo e que não dá importância ao relacionamento. a primeira parte confere, achei mesmo que o moço não tava nem aí pra mim, mas tb, ele namorava. quando ele me disse que não, tive certeza do contrário. batata. bom, a segunda parte eu não sei. mas que besteira, danem-se os tratados astrológicos, a gente já se deu bem. muito bem. ele não vai ver de imediato que eu sou assim doida, vai ter um tempo pra se acostumar, se bem que talvez fosse melhor se já soubesse logo, se gostar disso, serve pra mim, se não gostar, não é meu número. simples assim. mas olhando assim, ah... é meu número, certinho. sem tirar nem por. isso me lembra um poeminha, acho que da doidivana: eu gosto de vc assim, assim, sem tirar nem por. se for pra tirar e por, tirar e por, tirar e por... ah... aí eu gosto muito mais!
tenho que acordar cedo por causa do lixeiro, queria me espreguiçar mais um pouco, mas não, o lixeiro. ainda não abri a janela do quarto, não tenho mais fome assim que acordo, fico uma, duas horas sem comer nada, até que quase dói, aí eu como, uma migalha, uma gota, e não preciso de mais nada. entro de férias hoje. e talvez hoje o moço venha aqui, e eu, boboca, fico pensando o que fazer. o que fazer pra ele gostar de mim, quando na verdade é muito simples, eu só tenho que ser eu, se ele gostar do meu jeito, pronto, se não gostar, não serve pra mim, então eu resolvi ser eu mesma, e em vez de esperar ser convidada, como minha mãe diria pra eu fazer, eu convidei, ser eu mesma significa também assumir uma certa urgência, significa assumir os riscos, inclusive de ser vc mesma, seria mais prudente esperar, mas a prudência no meu caso é um adicional que não vem de fábrica. e agora fico pensando se faço uma massa, se faço um suflê, que sobremesa eu faço? será que ele gosta de gengibre, será que ele gosta de espinafre, será que ele gosta de chocolate, será que ele vai gostar de mim, a pergunta na verdade é essa. lembro de mim criança, sonhando com um moço bonito, eram três os moços bonitos com quem eu sonhava acordada, mas só me lembro de dois. um casou, o outro sumiu no mundo. eu continuo sonhando acordada. e então, colocar tela nas janelas de casa, para os pernilongos não entrarem, fazer os slings, tecido tão bonito, não usei sling quando tive meu filho, tadinho do meu filho, fui mãe tão despreparada para ser mãe. acho que tá tudo indo bem, tá tudo certo, se tem amor acho que tá certo, mas eu podia ter lido mais, mas que besteira, não há livro no mundo que ensine a ser mãe. como toda boa mãe cristã que se preze, eu carrego toda a culpa que me dão. a separação foi culpa minha, então meu filho sofreu por culpa minha, então meu filho vai fazer terapia por culpa minha. e se meu filho não quiser nada com nada, a culpa é minha, se ele se drogar, a culpa é minha, se ele se matar de tanta tristeza, a culpa é minha, é culpa demais pra uma pessoa só. tiro as culpas das costas como se tirasse uma manto de rainha. se ele for uma pessoa feliz, a culpa não será minha. es erá, ao mesmo tempo. é difícil dar o peso certo pras coisas.
ele foi tudo, e agora volto pro moço em questão, me perguntou se eu já estava pronta para me apaixonar. já. já tá é passando da hora, aliás. a gente se ilude dizendo já não há mais coração, se bem que eu nunca disse que já não havia mais coração, quem dera, pelo menos por alguns momentos, eu ficar sem coração, o coração ficou aqui esse tempo todo, apertadinho, magoado, quebrado, e eu tentando manter ele inteiro a todo custo, e sabe quando falam do buraco que fica dentro da gente, agora eu sei que não é sentido figurado. fica um buraco mesmo.
o que fazer no ano que vem, é a questão. o leo vai estudar de manhã, não posso continuar no meu trabalho, ia ser muita loucura. nem vi se fui aprovada nas disciplinas, e não é que no fim do semestre esqueci de ir falar com o professor para passar minha nota para o professor com quem fui matriculada, e o que fazer agora. continuo querendo ir embora, mas o tempo passa, a hora da mudança se aproxima, e eu fico com medo. vai ver o medo é um aviso, não vá, fico me sentindo a maior filha da puta do universo por que vou de certo modo privar meu filho da companhia do pai, e isso eu não quero que aconteça. mas são roque é tão perto, ele pode vir pra cá, o pai pode ir pra lá, enfim. não sei. espero um sinal divino, ligo pra minha terapeuta, converso com os amigos, mas nada parece clarear aqui. as nuvens não se dissipam. vou fazer cookies para levar para a aracy, a terapeuta que eu abandonei. ela foi tão importante. era o maior barato, na verdade nem sei se era pra ser assim, sei que entre lágrimas e lágrimas, eu ria, ria contando minhas histórias, e ela ria tb, e teve um dia que eu até pensei em propor que invertessemos a situação, eu pagava pra fazer ela rir. acho que isso revela em certa medida o meu modus operandi. de rir até da tristeza, mas não aquele riso nervoso pra disfarçar a tristeza. rir de da situação, rir da cara de espanto, de susto, de tristeza. minha mãe não gosta disso, acha que não tem nada de engraçado na tristeza, nem na vida, aliás. minha mãe era tão engraçada, não sei se não é mais, ou se eu parei de ver graça. não é mais. começou a doer. o estômago. hora do café. vou fazer os slings, cuidar das plantas, lavar a roupa, varrer, tirar o pó, passar um pano, lavar a louça, guardar os livros, arrumar a bagunça. um dia inteiro vai ser pouco.
ele foi tudo, e agora volto pro moço em questão, me perguntou se eu já estava pronta para me apaixonar. já. já tá é passando da hora, aliás. a gente se ilude dizendo já não há mais coração, se bem que eu nunca disse que já não havia mais coração, quem dera, pelo menos por alguns momentos, eu ficar sem coração, o coração ficou aqui esse tempo todo, apertadinho, magoado, quebrado, e eu tentando manter ele inteiro a todo custo, e sabe quando falam do buraco que fica dentro da gente, agora eu sei que não é sentido figurado. fica um buraco mesmo.
o que fazer no ano que vem, é a questão. o leo vai estudar de manhã, não posso continuar no meu trabalho, ia ser muita loucura. nem vi se fui aprovada nas disciplinas, e não é que no fim do semestre esqueci de ir falar com o professor para passar minha nota para o professor com quem fui matriculada, e o que fazer agora. continuo querendo ir embora, mas o tempo passa, a hora da mudança se aproxima, e eu fico com medo. vai ver o medo é um aviso, não vá, fico me sentindo a maior filha da puta do universo por que vou de certo modo privar meu filho da companhia do pai, e isso eu não quero que aconteça. mas são roque é tão perto, ele pode vir pra cá, o pai pode ir pra lá, enfim. não sei. espero um sinal divino, ligo pra minha terapeuta, converso com os amigos, mas nada parece clarear aqui. as nuvens não se dissipam. vou fazer cookies para levar para a aracy, a terapeuta que eu abandonei. ela foi tão importante. era o maior barato, na verdade nem sei se era pra ser assim, sei que entre lágrimas e lágrimas, eu ria, ria contando minhas histórias, e ela ria tb, e teve um dia que eu até pensei em propor que invertessemos a situação, eu pagava pra fazer ela rir. acho que isso revela em certa medida o meu modus operandi. de rir até da tristeza, mas não aquele riso nervoso pra disfarçar a tristeza. rir de da situação, rir da cara de espanto, de susto, de tristeza. minha mãe não gosta disso, acha que não tem nada de engraçado na tristeza, nem na vida, aliás. minha mãe era tão engraçada, não sei se não é mais, ou se eu parei de ver graça. não é mais. começou a doer. o estômago. hora do café. vou fazer os slings, cuidar das plantas, lavar a roupa, varrer, tirar o pó, passar um pano, lavar a louça, guardar os livros, arrumar a bagunça. um dia inteiro vai ser pouco.
marylin no metrô vila madalena, no topo da escadaria. era eu mostrando as pernas e um pouco mais. lembrei da minha mãe me falando, meio em tom de brincadeira, que a gente nunca deve sair de casa com uma calcinha feia ou velha, nunca se sabe o que pode acontecer. sou uma filha obediente, no fim das contas. segui os conselhos de mamãe. pelos menos alguns deles, eu segui.
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
dezembro
acordei com uma fome do tamanho do mundo, eu podia comer o mundo e tudo o que existe nele, mas não comi nem três quartos do que preparei, minha fome não era fome, era vontade, era felicidade, e agora cá estou eu espanando a poeira, arrastando os móveis, separando as roupas que eu não quero mais usar, que daqui pra frente, tudo vai ser diferente. saí de casa pra bater papo e dar uma volta, voltei com marias-sem-vergonha, brincos-de-princesa, mosquitinhos, onze-horas e uma dama da noite. ontem amassei barro com os pés descalços, sentei perto de uma fogueira, fiquei com o rosto fogueado, tinha tanto vagalume que era inacreditável, agora eu gosto mais de purpurina, vagalume é que nem purpurina, ou brocal, brilhando na mata, comprei um jornal, que não li, comprei mudas, que ainda não plantei, e voltei pra casa sentindo uma vontade enorme de carinho, de beijo, de abraço, mas sem tristeza, resignada, por que afinal ainda não estou pronta para amar, aquela babaquice e etc, então é assim, às vezes me sinto só, terrivelmente só, e é assim. mas a gente nunca sabe quem a gente vai encontrar pelo caminho, até que a gente encontra. ontem, no meio do meu caminho, encontrei o moço mais lindo do mundo. na verdade, ele era o moço mais lindo da festa na casa de um amigo, mas agora. depois de muitos, muitos beijos, abraços e carinhos, me perguntou se já estou pronta pra me apaixonar de novo. pode apostar que sim.
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
quase um mês, quase morri de saudade, tanta coisa que passou pela minha cabeça (eu não sei se é bom, ruim, chato, etc, sei que me passam umas coisas pela cabeça que eu penso putz, isso devia ser escrito).
e são tantos os devaneios, e os sonhos, que eu penso que talvez fosse o caso de uma internação.
mas é claro que não.
estranho ver como eu estava mal. me deixa um pouco triste, e um pouco alegre. vou encher de posts aqui pr'aquilo ficar mais pro passado. mas não agora. em breve.
e são tantos os devaneios, e os sonhos, que eu penso que talvez fosse o caso de uma internação.
mas é claro que não.
estranho ver como eu estava mal. me deixa um pouco triste, e um pouco alegre. vou encher de posts aqui pr'aquilo ficar mais pro passado. mas não agora. em breve.
será que a gente consegue estragar tudo com uma só palavra, assim, eu digo uma coisa, ele não gosta, e aí pára de achar graça, mas eu não disse nada demais, foi só um automatismo, como boa-tarde, vc não pensa pra falar boa tarde, eu sou muito maluca mesmo pra pensar nessas coisas assim, como se uma palavra fosse suficiente para desencantar, não, que nada, esse encanto ainda vai durar um tempinho. mas sim, uma palavra é suficiente pra desencantar, pra mim, é. até menos que isso, é. quando a gente não tá a fim, um suspiro do tamanho de uma vírgula é suficiente pra desencantar.
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
então o que a gente faz? se acostuma, a vida é assim mesmo? nunca mais fui feliz de verdade, será a idade? por que é assim? tá tudo errado, estou fazendo tudo errado, mas o que seria certo eu sei que não vou conseguir fazer. então assumo a responsabilidade.
mas eu sei que depois vou me arrepender. queria achar outro caminho. queria fazer outras coisas. mas não faço, não faço e nem sei se não faço por medo ou por ncompetência ou por preguiça. sei que não quero fazer nada e isso dói, dói não querer nada, é como passar uma vida em vão, não costuro, não pinto, não bordo há um tempão já. não faço nada. meu material tá estragando, as tintas vão vencendo os tecidos tomando pó. e eu não faço nada, nada, nada, nada. o que eu faço? um amigo disse que eu preciso de um namorado. mais romântico que eu, o amigo. não preciso de um namorado. até seria legal um abraço agora, mas só de pensar que pra isso eu vou ter que sorrir e fingir ser feliz, ai. eu vejo no bar os casais em ritual, é como assistir um documentário do mundo animal. é tudo igual. tudo, tudo, tudo igual. tudo rima no fim das contas, ritual, animal, igual, tá tudo igual.
só que diferente. clichê - chavão. eu continuo triste só que agora só penso em dormir. antes eu pensava em deixar de ser triste. não tenho mais esperança de que. talvez ela volte amanhã, quem sabe. espero.
só queria dormir
dormir
e quando eu acordasse
tudo podia estar bem diferente
mas eu não vou poder dormir se quiser ver as coisas mudadas
vou ter que ficar bem acordada
e trabalhar pra que isso aconteça
e justamente aí começam os problemas:
mas eu sei que depois vou me arrepender. queria achar outro caminho. queria fazer outras coisas. mas não faço, não faço e nem sei se não faço por medo ou por ncompetência ou por preguiça. sei que não quero fazer nada e isso dói, dói não querer nada, é como passar uma vida em vão, não costuro, não pinto, não bordo há um tempão já. não faço nada. meu material tá estragando, as tintas vão vencendo os tecidos tomando pó. e eu não faço nada, nada, nada, nada. o que eu faço? um amigo disse que eu preciso de um namorado. mais romântico que eu, o amigo. não preciso de um namorado. até seria legal um abraço agora, mas só de pensar que pra isso eu vou ter que sorrir e fingir ser feliz, ai. eu vejo no bar os casais em ritual, é como assistir um documentário do mundo animal. é tudo igual. tudo, tudo, tudo igual. tudo rima no fim das contas, ritual, animal, igual, tá tudo igual.
só que diferente. clichê - chavão. eu continuo triste só que agora só penso em dormir. antes eu pensava em deixar de ser triste. não tenho mais esperança de que. talvez ela volte amanhã, quem sabe. espero.
só queria dormir
dormir
e quando eu acordasse
tudo podia estar bem diferente
mas eu não vou poder dormir se quiser ver as coisas mudadas
vou ter que ficar bem acordada
e trabalhar pra que isso aconteça
e justamente aí começam os problemas:
eu não quero abrir email, não quero sair de casa, não quero ficar em casa, não quero lavar a louça nem arrumar a sala, não quero lavar roupa, não quero, não quero, não quero, não quero. ou quero. quero um abraço, quero dormir, quero não voltar pra casa hoje, quero dançar, quero morrer, quero existir, quero beber, beber até cair, nada é mais indigno e digno do que beber até transfigurar, quero sair de mim, quero ser maior do que eu sou, e não quero ser nada, quero dar uma volta no quarteirão de mão dada com meu filho, quero ir pra praia, quero que ele pare de chorar por isso ou por aquilo, quero ser uma boa mãe, não quero mais ter crises existenciais de que não sou boa mãe etecétera, quero tomar café, quero dormir, quero sambar, quero ir num forró, quero que alguém me queira e me dê a mão, às vezes sinto falta de estar apaixonada e toda vez escrevo falat em vez de falta, e aí volta e escreve de novo, falta, sonhei com uma máquina de escrever, não quero participar de pesquisa nenhuma sobre gatos, nem sobre combustíveis, não, eu não dirijo, sim, eu dirijo, mas menti por que não quero participar de pesquisa nenhuma sobre combustível. hoje eu não quero ser eu. posso, não ser eu? hoje eu quero sair só, mas quero que vc vá até a esquina me esperar, eu volto. em uma hora não vai dar tempo de fazer nada. não é mais fácil quando é fácil? eu prefiro quando é fácil, quando é difícil dá muito trabalho.
doce assassina
Rodoviária
Personagens: Mulher/ Mendigo / Deus / Homem Assassinado
Mulher:
Depois vesti o meu vestido florido, o mais bonito, bem rodado. Decote e salto alto. Saí pisando firme, pretendendo uma firmeza que era só por fora, por que por dentro eu era geléia. Geléia de morango, que tava tudo vermelho. Devia mesmo era estar tudo cinza, brilhante feito diamante, que é o que parecia aquele pozinho tão fino, com uns granuladinhos no meio. Pó de vidro. Não sei como é a morte com vidro moído, não sei se vai doer, não sei ele vai sofrer, não sei nem se ele vai morrer. Talvez só faça um estrago, mas não o mate, por isso estou indo embora. E ele nunca mais vai me achar. Mas tomare que ele morra. Devagar, com dor, com sofrimento, ele vai chamar meu nome e eu não vou mais estar lá. Foi por isso que eu voltei com ele, pra ele aprender que mulher não se abandona. Nunca abandone sua mulher, ouviu bem? Você nunca, nunca sabe do que uma mulher é capaz. Talvez eu tenha exagerado, é, acho que exagerei, por que que tipo de lição é essa que o aluno só pode errar uma vez? Tinha que ter dado mais chances, por que esse aprendeu, mas morreu, quer dizer, de que adianta? Como a gente vai saber se ele aprendeu mesmo? Será que dá tempo de chamar uma ambulância? Será que ele já morreu? Ai meu Deus, será que eu matei ele? Por que era pra ser só um susto, sabe? Não queria matar. Claro que eu queria mesmo era matar, mas não matar, assim matado, entende? Era pra ser uma morte simbólica, devia ter pego um pato e feito um sacrifício, e agora? Eu matei ele! Eu matei ele! Vou me entregar, chama a polícia? Não, não chama a polícia. Olha, tá vendo o que vc tá fazendo? Vc está me desequilibrando, tava tudo certo, tudo resolvido, matei por que ele foi um filho da puta lazarento e tinha que morrer, eu só adei uma ajudinha, ainda falei, não sei não, esse espinafre tá com um cheiro meio azedo, se eu fosse vc, não comia, não. Mas não, cheirou, cheirou, falou que não tinha cheiro ruim nenhum, então tá, eu avisei, e quando ele comeu eu subi, me troquei e saí de casa. Estou aqui agora. E vc, com essa sua cara, está fazendo com que eu me sinta culpada, olha, ele não era nenhum santo não, viu? Peraí, vou comer alguma coisa, cuida da minha bolsa pra mim? Já volto....Ai, não sei não, será que botaram alguma coisa nisso aqui?Fiquei com medo agora, acho que não vou comer isso não. Vou jogar fora. Não? Não por que? Vc quer? Tá, tudo bem, pode comer, eu comprei ali na esquina, mas não sei, fiquei com medo, sabe a lei do retorno da vida? Não? É assim, tudo o que vc faz volta pra vc. Aí que eu acabei de matar um sujeito com vidro moído na comida, quer dizer, e se, por acidente, caiu desinfetante na carne moída da esfiha? Aí fodeu, já era, vou morrer intoxicada, não come isso aí não, vai. Daqui, vou jogar no lixo. Não, te dou dinheiro, vc vai lá e compra uma coisa pra vc, não vou deixar vc comer isso por que isso era pra mim, pode ter uma zica qualquer, do retorno da vida, não quero que vc sofra por minha causa. Toma, vai lá.
Ei, cuidado com a rua. Ei, olha antes de atravessar. Ei! Ei! O ÔNIBUS!!!!!
Caralho! Matei dois! Meu Deus! Meu Deus! Sou uma serial killer!! Meu Deus! E agora? O que faço? Droga!!! Mas que tonto, como atravessa a rua sem olhar? Não, a culpa é minha. Eu dei o dinheiro, eu disse vai lá, a culpa é minha! Se eu não tivesse dado o dinheiro, ainda tava aqui, vivo. Indigente, mas vivo. Morador de rua, mas vivo. Mendigo, e bêbado, mas vivo. Meu Deus! Será assim, agora? Todos que cruzarem meu caminho morrerão? Deus!! Sua ira é comigo!! Ninguém tem mais nada a ver com isso! É entre nós dois!! Desce aqui, pra vc ver só! Te faço um almocinho maneiro. Capricho na sobremesa, faço seu prato preferido. Deus. Deus? Deus, me escute! Eu não queria ter matado, Deus. Nenhum dos dois! Quer dizer, o primeiro eu queria sim, Deus, isso não se faz!! O que ele fez comigo, não se faz!! Imagine, vc acha que eu não pensei no sofrimento dos meus dois filhos? Órfãos de pai! Pobrezinhos! Como sentirão a falta dele! Nos domingos à tarde, quando ele saía para levá-los ao parque! Mas Deus, se vc estava atento, vc é testemunha de que foi ele quem nos deixou! Foi ele que não se importou com o sofrimento das crianças no vazio que ficou nos domingos à tarde. Fez um buraco nas nossas vidas. É justo que tenhamos feito um buraco no seu estômago. Não, não diga nada, nem me fale de justiça, Deus! Nem me fale, que aí eu tenho mais umas coisinhas pra conversar com o senhor. Acho bom que mudemos de asssunto, e nem pense em me condenar! Eu matei um, dois, mas o último ainda não tenho certeza se foi minha culpa mesmo ou não, e também, um mendigo a mais, um mendigo a menos. E o senhor? Permitiu a morte de quantos? É, né? Veja bem, né? Agora é veja bem. Eu vejo bem sim, vejo bem que tô fodida, com fome, e nunca mais vou conseguir comer nada com tranquilidade. Vou ter que me mudar para um síto, plantar tudo o que vou comer, e eu mesma vou ter que preparar toda a minha comida, por que nunca mais vou ter sossego. E meus filhos? Não ouse encostar num fio de cabelo dos meus filhos, ouviu? Não, não me arrependo. É melhor ter pai morto do que pai banana. Iam aprender o que com aquele lá? Que se não gosta mais vai embora? Que mulher é lixo, que joga fora, é carro que fica velho e a gente troca por coisa mais nova? Não. Morreu, virou herói, pronto, vai virar exemplo, eu garanto que só vão ter motivo de orgulho do pai. Agora, se ele continuasse vivo, ia ser um mar de decepções. Tá melhor assim, vai por mim. Eu garanto. Agora, preciso ir embora. Preciso comer alguma coisa. E se eu ligasse lá? Vou ligar. Não, não vou ligar. E se ele vier puxar meu pé de noite? Meu Deus, morro de medo de espíritos. Morro, morro! Deus me livre e guarde. Isola. Patuá três veses, cruz-credo, ave-maria. Olha, vc não se atreva, viu? Não se atreva, que eu te mandei pro além uma vez e é aí que vc deve ficar. Não volte, nunca mais, nem pra dizer que se arrepende, não adianta! O que está feito, está feito, vc foi um cretino, calhorda, cachorro, filho da mãe, sacripanta! Cachorro! Mas eu te amava tanto! Tanto! Ah! Vida! Por que vc fez isso comigo? Por que? Ah! Como eu te amava! Como eu te amava! Vc tinha que estragar tudo. Tomare que tenha doído, viu? Tomare que vc tenha vomitado sangue, borbulhando que nem nos filmes que eu odiava ver, e que vc me obrigava a assistir com vc. Doeu? Como foi? Ai! Não era pra doer. Era só pra vc deixar de existir, assim, pluft, mas infelizmente as pessoas não deixam simplesmente de existir, assim, pá, estourou uma bolha. Então eu tive que intervir, mas não queria que vc sofresse, não. Ai! Eu queria tanto seu abraço agora! Mas vc não ia me abraçar se estivesse aqui agora, ia reclamar que eu tive uma idéia estúpida, ia dizer que eu fui tonta, que eu não penso, que eu fiz tudo errado, que a rodoviária é muito longe, que o ônibus não chega, que a esfiha tá fria. Como vc reclamava, Deus do céu! Eta homenzinho bom de reclamação. Bom, acho que é esse o ônibus. Olha, não me leve a mal. Fiz isso pela nossa família. Espero que um dia vc possa entender, e me perdoar. As crianças vão ficar bem. Criança é forte, supera tudo. Eu vou seguir meu caminho, tomando cuidado pra não matar mais ninguém. Mas esse aí, já era. Coitado, ficou estrebuchando ainda uns cinco minutos. Mas recolheram rápido. Indigente, sabe como é. Ai, ai. Espero que esteja tudo bem aí com vc. Saiba que eu te amo, sempre te amei, sempre te amarei. Mas infelizmente, vc pisou na bola. É isso. Hora de ir embora. Vou buscar as crianças, estão com a mamãe, no interior. Veja pelo lado bom, vc não tem mais sogra! Fique com Deus, querido. Que Ele tenha piedade de nossas pobres almas. Adeus!
....
Sobe no ônibus, uma lágrima escorre.
Rodovia
Ônibus
Um raio acerta o motorista, que morre. Gritos, ela grita "Droga, matei mais um! Que desgraça!". O ônibus em que ela estava capota três vezes, câmera fecha nela com os braços pra cima, torta, rosto de lado, morta, a mala aberta em cima, potes de geléia de morango quebrados na pista.
Sobem os créditos
Trilha: http://www.youtube.com/watch?v=wPoPMXY4Yyo
Personagens: Mulher/ Mendigo / Deus / Homem Assassinado
Mulher:
Depois vesti o meu vestido florido, o mais bonito, bem rodado. Decote e salto alto. Saí pisando firme, pretendendo uma firmeza que era só por fora, por que por dentro eu era geléia. Geléia de morango, que tava tudo vermelho. Devia mesmo era estar tudo cinza, brilhante feito diamante, que é o que parecia aquele pozinho tão fino, com uns granuladinhos no meio. Pó de vidro. Não sei como é a morte com vidro moído, não sei se vai doer, não sei ele vai sofrer, não sei nem se ele vai morrer. Talvez só faça um estrago, mas não o mate, por isso estou indo embora. E ele nunca mais vai me achar. Mas tomare que ele morra. Devagar, com dor, com sofrimento, ele vai chamar meu nome e eu não vou mais estar lá. Foi por isso que eu voltei com ele, pra ele aprender que mulher não se abandona. Nunca abandone sua mulher, ouviu bem? Você nunca, nunca sabe do que uma mulher é capaz. Talvez eu tenha exagerado, é, acho que exagerei, por que que tipo de lição é essa que o aluno só pode errar uma vez? Tinha que ter dado mais chances, por que esse aprendeu, mas morreu, quer dizer, de que adianta? Como a gente vai saber se ele aprendeu mesmo? Será que dá tempo de chamar uma ambulância? Será que ele já morreu? Ai meu Deus, será que eu matei ele? Por que era pra ser só um susto, sabe? Não queria matar. Claro que eu queria mesmo era matar, mas não matar, assim matado, entende? Era pra ser uma morte simbólica, devia ter pego um pato e feito um sacrifício, e agora? Eu matei ele! Eu matei ele! Vou me entregar, chama a polícia? Não, não chama a polícia. Olha, tá vendo o que vc tá fazendo? Vc está me desequilibrando, tava tudo certo, tudo resolvido, matei por que ele foi um filho da puta lazarento e tinha que morrer, eu só adei uma ajudinha, ainda falei, não sei não, esse espinafre tá com um cheiro meio azedo, se eu fosse vc, não comia, não. Mas não, cheirou, cheirou, falou que não tinha cheiro ruim nenhum, então tá, eu avisei, e quando ele comeu eu subi, me troquei e saí de casa. Estou aqui agora. E vc, com essa sua cara, está fazendo com que eu me sinta culpada, olha, ele não era nenhum santo não, viu? Peraí, vou comer alguma coisa, cuida da minha bolsa pra mim? Já volto....Ai, não sei não, será que botaram alguma coisa nisso aqui?Fiquei com medo agora, acho que não vou comer isso não. Vou jogar fora. Não? Não por que? Vc quer? Tá, tudo bem, pode comer, eu comprei ali na esquina, mas não sei, fiquei com medo, sabe a lei do retorno da vida? Não? É assim, tudo o que vc faz volta pra vc. Aí que eu acabei de matar um sujeito com vidro moído na comida, quer dizer, e se, por acidente, caiu desinfetante na carne moída da esfiha? Aí fodeu, já era, vou morrer intoxicada, não come isso aí não, vai. Daqui, vou jogar no lixo. Não, te dou dinheiro, vc vai lá e compra uma coisa pra vc, não vou deixar vc comer isso por que isso era pra mim, pode ter uma zica qualquer, do retorno da vida, não quero que vc sofra por minha causa. Toma, vai lá.
Ei, cuidado com a rua. Ei, olha antes de atravessar. Ei! Ei! O ÔNIBUS!!!!!
Caralho! Matei dois! Meu Deus! Meu Deus! Sou uma serial killer!! Meu Deus! E agora? O que faço? Droga!!! Mas que tonto, como atravessa a rua sem olhar? Não, a culpa é minha. Eu dei o dinheiro, eu disse vai lá, a culpa é minha! Se eu não tivesse dado o dinheiro, ainda tava aqui, vivo. Indigente, mas vivo. Morador de rua, mas vivo. Mendigo, e bêbado, mas vivo. Meu Deus! Será assim, agora? Todos que cruzarem meu caminho morrerão? Deus!! Sua ira é comigo!! Ninguém tem mais nada a ver com isso! É entre nós dois!! Desce aqui, pra vc ver só! Te faço um almocinho maneiro. Capricho na sobremesa, faço seu prato preferido. Deus. Deus? Deus, me escute! Eu não queria ter matado, Deus. Nenhum dos dois! Quer dizer, o primeiro eu queria sim, Deus, isso não se faz!! O que ele fez comigo, não se faz!! Imagine, vc acha que eu não pensei no sofrimento dos meus dois filhos? Órfãos de pai! Pobrezinhos! Como sentirão a falta dele! Nos domingos à tarde, quando ele saía para levá-los ao parque! Mas Deus, se vc estava atento, vc é testemunha de que foi ele quem nos deixou! Foi ele que não se importou com o sofrimento das crianças no vazio que ficou nos domingos à tarde. Fez um buraco nas nossas vidas. É justo que tenhamos feito um buraco no seu estômago. Não, não diga nada, nem me fale de justiça, Deus! Nem me fale, que aí eu tenho mais umas coisinhas pra conversar com o senhor. Acho bom que mudemos de asssunto, e nem pense em me condenar! Eu matei um, dois, mas o último ainda não tenho certeza se foi minha culpa mesmo ou não, e também, um mendigo a mais, um mendigo a menos. E o senhor? Permitiu a morte de quantos? É, né? Veja bem, né? Agora é veja bem. Eu vejo bem sim, vejo bem que tô fodida, com fome, e nunca mais vou conseguir comer nada com tranquilidade. Vou ter que me mudar para um síto, plantar tudo o que vou comer, e eu mesma vou ter que preparar toda a minha comida, por que nunca mais vou ter sossego. E meus filhos? Não ouse encostar num fio de cabelo dos meus filhos, ouviu? Não, não me arrependo. É melhor ter pai morto do que pai banana. Iam aprender o que com aquele lá? Que se não gosta mais vai embora? Que mulher é lixo, que joga fora, é carro que fica velho e a gente troca por coisa mais nova? Não. Morreu, virou herói, pronto, vai virar exemplo, eu garanto que só vão ter motivo de orgulho do pai. Agora, se ele continuasse vivo, ia ser um mar de decepções. Tá melhor assim, vai por mim. Eu garanto. Agora, preciso ir embora. Preciso comer alguma coisa. E se eu ligasse lá? Vou ligar. Não, não vou ligar. E se ele vier puxar meu pé de noite? Meu Deus, morro de medo de espíritos. Morro, morro! Deus me livre e guarde. Isola. Patuá três veses, cruz-credo, ave-maria. Olha, vc não se atreva, viu? Não se atreva, que eu te mandei pro além uma vez e é aí que vc deve ficar. Não volte, nunca mais, nem pra dizer que se arrepende, não adianta! O que está feito, está feito, vc foi um cretino, calhorda, cachorro, filho da mãe, sacripanta! Cachorro! Mas eu te amava tanto! Tanto! Ah! Vida! Por que vc fez isso comigo? Por que? Ah! Como eu te amava! Como eu te amava! Vc tinha que estragar tudo. Tomare que tenha doído, viu? Tomare que vc tenha vomitado sangue, borbulhando que nem nos filmes que eu odiava ver, e que vc me obrigava a assistir com vc. Doeu? Como foi? Ai! Não era pra doer. Era só pra vc deixar de existir, assim, pluft, mas infelizmente as pessoas não deixam simplesmente de existir, assim, pá, estourou uma bolha. Então eu tive que intervir, mas não queria que vc sofresse, não. Ai! Eu queria tanto seu abraço agora! Mas vc não ia me abraçar se estivesse aqui agora, ia reclamar que eu tive uma idéia estúpida, ia dizer que eu fui tonta, que eu não penso, que eu fiz tudo errado, que a rodoviária é muito longe, que o ônibus não chega, que a esfiha tá fria. Como vc reclamava, Deus do céu! Eta homenzinho bom de reclamação. Bom, acho que é esse o ônibus. Olha, não me leve a mal. Fiz isso pela nossa família. Espero que um dia vc possa entender, e me perdoar. As crianças vão ficar bem. Criança é forte, supera tudo. Eu vou seguir meu caminho, tomando cuidado pra não matar mais ninguém. Mas esse aí, já era. Coitado, ficou estrebuchando ainda uns cinco minutos. Mas recolheram rápido. Indigente, sabe como é. Ai, ai. Espero que esteja tudo bem aí com vc. Saiba que eu te amo, sempre te amei, sempre te amarei. Mas infelizmente, vc pisou na bola. É isso. Hora de ir embora. Vou buscar as crianças, estão com a mamãe, no interior. Veja pelo lado bom, vc não tem mais sogra! Fique com Deus, querido. Que Ele tenha piedade de nossas pobres almas. Adeus!
....
Sobe no ônibus, uma lágrima escorre.
Rodovia
Ônibus
Um raio acerta o motorista, que morre. Gritos, ela grita "Droga, matei mais um! Que desgraça!". O ônibus em que ela estava capota três vezes, câmera fecha nela com os braços pra cima, torta, rosto de lado, morta, a mala aberta em cima, potes de geléia de morango quebrados na pista.
Sobem os créditos
Trilha: http://www.youtube.com/watch?v=wPoPMXY4Yyo
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
maria tem quase trinta anos.
desce a rua com fones, ouvindo another one bites the dust, do queen. gosta de queen. usa uma saia vermelha justa e curta que marca sua bunda, é gostosa. entra no bar em que trabalha, fala bom dia, pega o avental e se serve de um copo de café.
josé, seu colega de trabalho, chega junto e fala no ouvido:
- tá bonita hoje.
ela diz:
- obrigada, vc tb tá lindo nesse avental que já foi branco um dia. não vai lavar não?
josé fica bravo, chateado, diz:
- poxa, eu tenho futuro, apesar desse avental, sabe? eu tenho talento, a mulher que ficar comigo vai ser de muita sorte. eu sei cozinhar, eu lavo e passo minha roupa, que homem que sabe cozinhar? eu sou prendado, até já costurei uma barra de calça uma vez.
- isso não é talento, josé, isso é necessidade, quando casar vc esquece que sabe cozinhar, lavar, passar, esquece tudo. vai esquecer até de trepar, vc vai ver.
- ah, não, isso não se esquece. isso não. eu nunca vou deixar de comparecer pra minha esposa, nunca.
- a gente nunca sabe o futuro, josé.
- isso eu sei. de trepar eu não vou deixar nunca.
- limpa o cardápio pra mim?
- pra vc eu faço tudo, broto.
- broto é foda.
- foda vai ser eu e vc junto, broto.
- não vai ter foda com eu e vc junto, gato. toma, limpa a pimenta tb.
- mas eu vou fazer tudo pra vc?
- ué, não quer me comer? tem que trabalhar pra isso.
- mas por que vc não bota um preço logo em dinheiro?
- por que eu não sou prostituta, amor, nunca cobrei nada de ninguém. tô te pedindo um favor, só isso.
- se é assim, eu faço. mas por que vc não vai dar pra mim?
maria canta: "dá pra mim, o seu amor, dá pra mim"
- não é seu amor que eu quero, gata. é sua buceta.
- e assim vc tá muito perto de conseguir, continue assim.
- tô mesmo, jura?
- ô. se tá.
- vc tá me zoando.
- imagina!
maria começa a lavar a louça, josé limpa os cardápios em silêncio, reclamando de vez em quando.
maria desce a porta de ferro e caminha até o ponto de ônibus. josé se aproxima de moto, pergunta se ela quer carona.
- tô de saia.
- melhor ainda.
- deixa de ser bobo, tá tarde, eu quero ir embora.
- vem comigo.
- hoje não.
- hoje não quer dizer que outro dia sim?
- hoje não quer dizer hoje não.
maria acende um cigarro
- voltou a fumar?
- vai embora josé, meu ônibus já vai passar.
- vc um dia vai se arrepender.
- é? por que?
- porque meu pau é enorme e ia rachar vc no meio.
- suas cantadas são irresistíveis, nossa! preciso me segurar pra não dar pra vc.
joão vai embora bravo.
maria acorda no meio da noite. sai no quintal com uma coberta, deita no chão e fica olhando a lua. joão senta do seu lado,
- que foi?
- não sei, acordei.
- pesadelo?
- não.
- tá tudo bem?
- não.
- que foi?
- não sei. triseza, só.
- triseza, só? joão passa a mão no cabelo dela, ela tira a mão dele.
- não quer carinho?
- seu, não.
- ah é? de quem vc quer?
- de ninguém.
- vem dormir.
- daqui a pouco eu vou.
continua.
desce a rua com fones, ouvindo another one bites the dust, do queen. gosta de queen. usa uma saia vermelha justa e curta que marca sua bunda, é gostosa. entra no bar em que trabalha, fala bom dia, pega o avental e se serve de um copo de café.
josé, seu colega de trabalho, chega junto e fala no ouvido:
- tá bonita hoje.
ela diz:
- obrigada, vc tb tá lindo nesse avental que já foi branco um dia. não vai lavar não?
josé fica bravo, chateado, diz:
- poxa, eu tenho futuro, apesar desse avental, sabe? eu tenho talento, a mulher que ficar comigo vai ser de muita sorte. eu sei cozinhar, eu lavo e passo minha roupa, que homem que sabe cozinhar? eu sou prendado, até já costurei uma barra de calça uma vez.
- isso não é talento, josé, isso é necessidade, quando casar vc esquece que sabe cozinhar, lavar, passar, esquece tudo. vai esquecer até de trepar, vc vai ver.
- ah, não, isso não se esquece. isso não. eu nunca vou deixar de comparecer pra minha esposa, nunca.
- a gente nunca sabe o futuro, josé.
- isso eu sei. de trepar eu não vou deixar nunca.
- limpa o cardápio pra mim?
- pra vc eu faço tudo, broto.
- broto é foda.
- foda vai ser eu e vc junto, broto.
- não vai ter foda com eu e vc junto, gato. toma, limpa a pimenta tb.
- mas eu vou fazer tudo pra vc?
- ué, não quer me comer? tem que trabalhar pra isso.
- mas por que vc não bota um preço logo em dinheiro?
- por que eu não sou prostituta, amor, nunca cobrei nada de ninguém. tô te pedindo um favor, só isso.
- se é assim, eu faço. mas por que vc não vai dar pra mim?
maria canta: "dá pra mim, o seu amor, dá pra mim"
- não é seu amor que eu quero, gata. é sua buceta.
- e assim vc tá muito perto de conseguir, continue assim.
- tô mesmo, jura?
- ô. se tá.
- vc tá me zoando.
- imagina!
maria começa a lavar a louça, josé limpa os cardápios em silêncio, reclamando de vez em quando.
maria desce a porta de ferro e caminha até o ponto de ônibus. josé se aproxima de moto, pergunta se ela quer carona.
- tô de saia.
- melhor ainda.
- deixa de ser bobo, tá tarde, eu quero ir embora.
- vem comigo.
- hoje não.
- hoje não quer dizer que outro dia sim?
- hoje não quer dizer hoje não.
maria acende um cigarro
- voltou a fumar?
- vai embora josé, meu ônibus já vai passar.
- vc um dia vai se arrepender.
- é? por que?
- porque meu pau é enorme e ia rachar vc no meio.
- suas cantadas são irresistíveis, nossa! preciso me segurar pra não dar pra vc.
joão vai embora bravo.
maria acorda no meio da noite. sai no quintal com uma coberta, deita no chão e fica olhando a lua. joão senta do seu lado,
- que foi?
- não sei, acordei.
- pesadelo?
- não.
- tá tudo bem?
- não.
- que foi?
- não sei. triseza, só.
- triseza, só? joão passa a mão no cabelo dela, ela tira a mão dele.
- não quer carinho?
- seu, não.
- ah é? de quem vc quer?
- de ninguém.
- vem dormir.
- daqui a pouco eu vou.
continua.
mas eu fico feliz por ele, então, já que foi por isso. por que eu não conseguiria deixar alguém por que a pessoa briga de mais ou de menos, amar é tão mais que isso. eu mesma não consegui deixá-lo por que ele brigava de menos, embora me deixasse um pouco nervosa aquela bananice toda, parece que não tem sangue nas veias, vai ver é isso mesmo, falta sangue na veia. deve ser por isso que pra cada pergunta é uma resposta diferente, aí ela diz que ele me deixou por que eu não limpo a casa, acho que adora que ele me deixou por que agora tem uma espécie de reforço para as broncas, em qualquer conversa vem: seu marido te deixou por isso, tá na hora de vc mudar. mas por mais que eu faça merda (quem é enrolado se enrola até cantando parabéns pro filho), a questão que eu me faço é: eu quero ser diferente? sinceramente? não. alguma ou outra coisa sim, mas em linhas gerais... não. não me deixam por mim. me deixam por si. por lá, por dó, por ré. por mi, não.
com a corda mi do meu cavaquinho fiz uma aliança pra ela prova de carinho. eu quero provas de carinho.
com a corda mi do meu cavaquinho fiz uma aliança pra ela prova de carinho. eu quero provas de carinho.
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
de sonhos
vim correndo escrever, antes que eu me esqueça: tenho sonhos que se repetem desde a infância. graças a deus o homem de chapéu com faixa preta, camisa listrada em branco e vermelho, mala nas mãos e olhar fixo nunca mais voltou para me assustar. o sonho era assim: estávamos brincando, sentados no chão, irmãos e eu. na oficina que meu pai tinha. a oficina ocupava um espaço enorme. o muro era baixo, e dava uma impressão horrível, por que dava pra ver só a cabeça de quem passava na calçada. pois bem. no sonho, o problema mesmo era a música. era uma espécie de sino, uma musiquinha de realejo muito sombria que avisava que o homem estava vindo. e ele vinha para me matar. o que me deixava assustada não era mais a música do que a expressão serena, fixa e determinada do sujeito. era assustador. nem lembro quando foi a última vez que tive esse pesadelo, mas foram muitas e muitas vezes. a música, o homem andando com passos firmes e olhar determinado, ele nunca virou a esquina, só descia a rua, antes que ele virasse a esquina eu acordava. mas eu sabia que se ele virasse a esquina e alcançasse o portão, tinha alguma coisa dentro da mala, não sei o que era, mas sei que ele me mataria. queria sonhar com isso de novo, pra ver agora com olhos de gente adulta.
sonho recorrente 2: eu tinha uns três, quatro anos. minha mãe e eu. meu irmão brincando na água. era um riachinho, riachinho mesmo, que tinha atrás da casa onde morávamos. na verdade, não sei se era naquela casa, ou se era em outro lugar e eu juntei os dois riachos. um filete de água que brotava de uma mina mais pra cima cortava a chácara toda, e ia formar um lago na chácara vizinha.
bem, o sonho era: estávamos seguindo a trilha para ir até a fonte. numa parte do caminho, eu fiquei com medo, minha mãe segurou minha mão e disse: olha filha, dá pra ver o fundo, tem pedrinhas. e peixinhos. e nós duas abaixávamos e ficávamos alguns segundos vendo os peixinhos. e aí o riacho começava a encher. era um lugar muito agradável. estava calor, mas tinha muita árvore e samambaia, e o riacho deixava o ar fresco. muitas folhas secas e pedriscos no chão. pedriscos marrons, que nem argila expandida. parecia um pouco uma área pantanosa, o riacho não tinha um leito regular. tínhamos que desviar, pisando em pedras. eu sempre sonhava com isso: minha mãe segurando a minha mão, a gente abaixando para ver o fundo do riacho, os peixinhos nadando, os peixinhos saíam da ágaua e começavam a voar, criavam asas de borbotas, peixinhos miudinhos, borboletinhas. e a gravidade deixava de existir, e a água do riacho flutuava, os peixes voavam, só as árvores permaneciam imóveis. minha mãe continuava a andar, desatenta pro que acontecia, me puxando, e eu parada, olhando os peixes-borboletas com uma margaridinha na mão. de saia branca transpassada e "bustiê", como eu dizia, do piu-piu, eu acho. branco, com um desenho do piu-piu. tem foto minha com essa roupa, eu tinha 3, 4 anos. sandália, cabelo preso no alto, do lado direito, tudo preso num rabicó. mas isso tudo quase não importa, o que interessa é que esse sonho muda. esse lugar é como se fosse um refúgio pra mim, e ao mesmo tempo, reflexo: às vezes, essa área pantanosa inunda, vira lama, não consigo ver o fundo. em outras vezes seca, completamente, morre tudo. às vezes fica de noite e eu ainda estou lá, e não consigo sair, e me sinto presa, asfixiada, e assustada com a noite.
fazia muito tempo que eu não tinha esse sonho. mas hoje sonhei de novo, por isso me lembrei dele, já tinha esquecido. a água estava límpida e cristalina, haviam peixinhos, e eu disse para a minha mãe: olha mãe, os peixinhos voltaram a nadar, encheu de peixinho.
eram cor-de-abóbora. borboletinhas brancas voavam minúsculas, passarinhos cantavam, as samambaias estavam viçosas e tinha um cheiro fresco de eucalipto molhado no ar. o sol entrava entre as folhas e fazia o riacho brilhar. e nós estávamos felizes.
o terceiro sonho recorrente é esquisitíssimo: areia, areia, areia. areia de ampulheta, dunas e mais dunas de areia que desliza, apenas desliza, o sonho inteiro é areia deslizante. mas se algo dá errado, a areia deixa de deslizar fina e constante, e engrossa, fica granulada, áspera, não desliza mais, enrosca, machuca, é como se eu estivesse tecendo algo e de repente aparecesse um nó. ficava muito angustiada quando sonhava com isso, era exasperador. era quase tão ruim quanto o pesadelo do homem de mala, só que uma angústia interna, não era medo de que alguém me matasse. era medo da minha incapacidade de manter a areia deslizando fina e macia. vai entender. dá pra entender um monte de coisa com esses sonhos.
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sonho recorrente 2: eu tinha uns três, quatro anos. minha mãe e eu. meu irmão brincando na água. era um riachinho, riachinho mesmo, que tinha atrás da casa onde morávamos. na verdade, não sei se era naquela casa, ou se era em outro lugar e eu juntei os dois riachos. um filete de água que brotava de uma mina mais pra cima cortava a chácara toda, e ia formar um lago na chácara vizinha.
bem, o sonho era: estávamos seguindo a trilha para ir até a fonte. numa parte do caminho, eu fiquei com medo, minha mãe segurou minha mão e disse: olha filha, dá pra ver o fundo, tem pedrinhas. e peixinhos. e nós duas abaixávamos e ficávamos alguns segundos vendo os peixinhos. e aí o riacho começava a encher. era um lugar muito agradável. estava calor, mas tinha muita árvore e samambaia, e o riacho deixava o ar fresco. muitas folhas secas e pedriscos no chão. pedriscos marrons, que nem argila expandida. parecia um pouco uma área pantanosa, o riacho não tinha um leito regular. tínhamos que desviar, pisando em pedras. eu sempre sonhava com isso: minha mãe segurando a minha mão, a gente abaixando para ver o fundo do riacho, os peixinhos nadando, os peixinhos saíam da ágaua e começavam a voar, criavam asas de borbotas, peixinhos miudinhos, borboletinhas. e a gravidade deixava de existir, e a água do riacho flutuava, os peixes voavam, só as árvores permaneciam imóveis. minha mãe continuava a andar, desatenta pro que acontecia, me puxando, e eu parada, olhando os peixes-borboletas com uma margaridinha na mão. de saia branca transpassada e "bustiê", como eu dizia, do piu-piu, eu acho. branco, com um desenho do piu-piu. tem foto minha com essa roupa, eu tinha 3, 4 anos. sandália, cabelo preso no alto, do lado direito, tudo preso num rabicó. mas isso tudo quase não importa, o que interessa é que esse sonho muda. esse lugar é como se fosse um refúgio pra mim, e ao mesmo tempo, reflexo: às vezes, essa área pantanosa inunda, vira lama, não consigo ver o fundo. em outras vezes seca, completamente, morre tudo. às vezes fica de noite e eu ainda estou lá, e não consigo sair, e me sinto presa, asfixiada, e assustada com a noite.
fazia muito tempo que eu não tinha esse sonho. mas hoje sonhei de novo, por isso me lembrei dele, já tinha esquecido. a água estava límpida e cristalina, haviam peixinhos, e eu disse para a minha mãe: olha mãe, os peixinhos voltaram a nadar, encheu de peixinho.
eram cor-de-abóbora. borboletinhas brancas voavam minúsculas, passarinhos cantavam, as samambaias estavam viçosas e tinha um cheiro fresco de eucalipto molhado no ar. o sol entrava entre as folhas e fazia o riacho brilhar. e nós estávamos felizes.
o terceiro sonho recorrente é esquisitíssimo: areia, areia, areia. areia de ampulheta, dunas e mais dunas de areia que desliza, apenas desliza, o sonho inteiro é areia deslizante. mas se algo dá errado, a areia deixa de deslizar fina e constante, e engrossa, fica granulada, áspera, não desliza mais, enrosca, machuca, é como se eu estivesse tecendo algo e de repente aparecesse um nó. ficava muito angustiada quando sonhava com isso, era exasperador. era quase tão ruim quanto o pesadelo do homem de mala, só que uma angústia interna, não era medo de que alguém me matasse. era medo da minha incapacidade de manter a areia deslizando fina e macia. vai entender. dá pra entender um monte de coisa com esses sonhos.
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sexta-feira, 15 de outubro de 2010
faz duas horas que eu acordei, não sei se tomo café ou se almoço. daqui a pouco, janto. não sei se lavo a louça ou se faço café, preciso lavar a louça para fazer café, ou posso procurar o outro coador, limpo, e coar direto numa xícara, deve ter ainda uma xícara limpa, o coador é de papel. tanto o que fazer, e fizemos apenas isto. não sei se passo ou se fico, a cidade cheira pêssegos em dezembro, não consigo avançar na leitura, estou empacada, a cidade cheira pêssegos em dezembro. é melhor eu cozinhar as batatas logo, antes que elas estraguem. e estender a roupa, antes que fique cheirando mal dentro da máquina, o caos impera, mas do caos surgiu o mundo, não tem uma história que é assim? mas daqui de casa, desse caos, o mais provável é que surjam ratos e baratas, é melhor eu arrumar a casa antes que ela estrague. não, são as batatas que estragam. a casa... a casa cai? a casa desmancha? quem dera, era mais fácil arrumar se a casa se desmanchasse, e aí, com um sopro, a gente erguia a casa de novo, limpa, arrumada, como cores novas nas paredes, móveis novos na sala, e pessoas felizes na cozinha. pessoas felizes na cozinha mas quem seriam essas pessoas, pessoas que me olhariam como se eu fosse uma estranha, por que vc entrou aqui? eu fiz essa casa, ora, coloquei vcs aí para que me fizessem companhia, risos, vc nos colocou aqui? gargalhadas, por favor, vá embora antes de chamarmos a polícia, não queremos confusão, mas por que chamar a polícia, se eu esperava que vcs me convidassem para o café? eu os criei, veja, você usa o cabelo como minha avó usava quando eu era criança, e vc, tem os mesmos trejeitos e expressões da minha mãe, vc é o meu pai quando jovem, e esse menino fiz loiro como meu filho, mas com os olhos castanhos, como são os meus. não me mandem embora, ou eu os desfaço, assim como os fiz. silêncio. as pessoas já não estão mais tão felizes, não se ouve mais riso nem conversa, as pessoas estão mudas, paradas, apáticas, esperando um aceno, uma ordem, continuem, eu digo, mas elas começam a ficar transparentes, começam a reluzir, vem uma luz forte e estou só de novo, na casa suja, bagunçada, feia, triste e envelhecida, que tem apenas uma xícara limpa, nenhuma água no filtro e roupas espalhadas por todos os cantos, parece até um cenário, não é possível que eu tenha tanta roupa assim, vou fazer um café, meu estômago dói, de fome.
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
arrumo a casa, dessas arrumações em que tudo sai do lugar, podia ir passear, é meu aniversário, almoçar fora, talvez vá, mas agora arrumo a casa. papéis, documentos, boletim de ocorrência, cds com fotos, coisas devidamente escondidas para que não fossem lembradas por causa da violência que contém. agora são vistas, mas não necessariamente revistas. arrumo a casa e arrumo eu, tão mulher isso, eu acho, tirar as rendas do armário mesmo com um coturno preto nos pés, é rendar a vida. mas não arrendar a vida, não esquecer disso na próxima. saudade do solista que deixava minha noite mais cheia e mais vazia ao mesmo tempo, em cima do telhado do prédio vizinho ele chorava, às vezes ria, mas em geral chorava, ou pelo menos eu ouvia aquilo como um lamento. me pergunto por que nunca tive vontade de atravessar a grama e subir os sete andares para fazer companhia, eu só achava bonito, não precisava estar perto, nunca quis ficar muito perto da tristeza. a gente devia contratar saxistas para tocar de noite, de longe eu ouvia um solo de sax que me fazia ficar apoiada na janela do corredor, que me fazia pegar uma coberta e ficar do lado de fora do prédio, sentada na escada de incêndio ouvindo. lembrei que isso já tem nove anos. não posso esquecer de não esquecer as histórias que a gente vive.
domingo, 26 de setembro de 2010
incrível como a gente pode se apropriar tanto de um livro, não é?
um dos, um dos não, o livro mais importante da minha vida, aquele que tá sempre ali, que eu já li umas quatro vezes, que eu não esqueço nunca, e que não sai de mim, é o livro "as meninas", da lígia fagundes telles. lia de mello shultz, ana clara e lorena, minhas três amigas, minhas três eus, minhas três. pensei nisso por que no último post eu escrevi a coisa mais gostosa do mundo é, e fizeram um espetáculo desse livro, lançaram uma reedição, teve palestra, debate, festa, etc, e eu não fui, faz tempo já, mas a peça pelo menos ainda está em cartaz. queria ter ido hoje, não deu, quero ir semana que vem, mas enfim, peguei o livro pra reler, e na primeira página está: a coisa mais gostosa do mundo é. e eu nem lembrava mais que a lião falava isso, que a lorena falava isso. mal me lembro da história, por isso peguei pra ler de novo. a coisa mais gostosa do mundo é ler um livro e esquecer que aquilo veio de um livro que vc leu, a coisa mais gostosa do mundo é aumentar a vida. por que como o moço disse, só a realidade não basta.
um dos, um dos não, o livro mais importante da minha vida, aquele que tá sempre ali, que eu já li umas quatro vezes, que eu não esqueço nunca, e que não sai de mim, é o livro "as meninas", da lígia fagundes telles. lia de mello shultz, ana clara e lorena, minhas três amigas, minhas três eus, minhas três. pensei nisso por que no último post eu escrevi a coisa mais gostosa do mundo é, e fizeram um espetáculo desse livro, lançaram uma reedição, teve palestra, debate, festa, etc, e eu não fui, faz tempo já, mas a peça pelo menos ainda está em cartaz. queria ter ido hoje, não deu, quero ir semana que vem, mas enfim, peguei o livro pra reler, e na primeira página está: a coisa mais gostosa do mundo é. e eu nem lembrava mais que a lião falava isso, que a lorena falava isso. mal me lembro da história, por isso peguei pra ler de novo. a coisa mais gostosa do mundo é ler um livro e esquecer que aquilo veio de um livro que vc leu, a coisa mais gostosa do mundo é aumentar a vida. por que como o moço disse, só a realidade não basta.
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
A coisa mais gostosa do mundo é ler um livro.
A coisa mais gostosa do mundo é ler um livro sabendo que ele foi feito pra vc ler. Pra vc. Não o conteúdo, eu digo, mas o formato livro mesmo. Páginas coladas, encadernadas, tecido fazendo as vezes de capa. Trabalho de artesão, de paciência, de cuidado, de carinho mesmo.
A coisa mais gostosa do mundo fica com um gostinho todo particular.
A coisa mais gostosa do mundo é ver um nascimento. É ver que o parto deu certo. Há mais luz agora, apesar da neblina e da vista turva dos sonhos, e a coisa mais gostosa do mundo é ver isso de perto.
A coisa mais gostosa do mundo é ler um livro sabendo que ele foi feito pra vc ler. Pra vc. Não o conteúdo, eu digo, mas o formato livro mesmo. Páginas coladas, encadernadas, tecido fazendo as vezes de capa. Trabalho de artesão, de paciência, de cuidado, de carinho mesmo.
A coisa mais gostosa do mundo fica com um gostinho todo particular.
A coisa mais gostosa do mundo é ver um nascimento. É ver que o parto deu certo. Há mais luz agora, apesar da neblina e da vista turva dos sonhos, e a coisa mais gostosa do mundo é ver isso de perto.
terça-feira, 14 de setembro de 2010
sábado, 11 de setembro de 2010
obcecada pela vingança, priscila maria só se estrepa. vive mal-humorada reclamando do sol, do calor, do frio, da chuva e da falta de chuva. se um passarinho vem lhe dizer bom dia, ela acende a churrasqueira e bau-bau passarinho. se um cãozinho atravessa seu caminho, ela chuta, sai da frente filho da puta. um gatinho diz miau, miau o caralho, e o gatinho voa longe.
de noite, sozinha, priscila maria chora e abraça seu ursinho de pelúcia encardido e sem um braço, único resquício de uma infância miserável perdida em algum lugar do passado.
[flashback: crianças brincando na rua, priscila maria criança sorrindo feliz com seu ursinho na mão, sentada na guia numa rodinha de crianças felizes até que chega ele, grande, gordo, forte, sem os dentes da frente, pára a bicicleta em cima do pé dela, pega o ursinho dizendo deixa eu ver isso aqui, ela chora, ele ri, ela diz devolve meu ursinho, ele abre a bocarra, ela grita não, não, meu ursinho não, tarde demais, ele arranca fora o braço do ursinho numa dentada só, e sai pedalando sua bicicleta dando uma risada que nas noites de chuva ela ouviria durante anos e anos]
se ela soubesse que chegando em casa ele foi severamentre castigado pela mãe, que colocou sua cabeça no forno aceso, ela talvez o perdoasse, mas o perdão é uma coisa que vem só no último capítulo. por enquanto priscila maria cozinha um plano diabólico para destruir seu arqui-inimigo que usa uma máscara por que tem uma marca horrorosa de queimadura do lado direito do rosto. seu nome é... lucius hammer, filho de lúcifer, o diabo em corpo de gente, se é que pode-se chamar aquilo de gente, ele é alto, ele é forte, ele é hot, as mulheres o amam e o temem, mas sobretudo o desejam. ele consegue as mulheres que quer, tem os carros que quer, ele é rico, é poderoso, mas tem um terrível complexo de inferioridade, por que tem um pau minúsculo, e por isso ele usa seu poder e sua influência para o mal. ele é do mal. mas ele não é mau.
[flashback: lucius hammer criança está se lambuzando com um xis-burguer quando seu pai entra na sala e diz: você comeu meu lanche?! lucius larga o resto do lanche e sai correndo, se esconde em baixo da mesa, o pai puxa seus pés, lucius segura o pé da mesa tentando escapar do castigo iminente, lucius vai arranhando chão, o pai é alto, é forte, é poderoso, arranca lucius de lá e bota sua cabeça no forno aceso. desde então, lucius nunca mais foi uma criança feliz e até hoje não chega perto de fornos. vive num apart-hotel, come fora todos os dias da sua vida, e nunca, nunca come xis-burguer]
sem saber disso, priscila maria abre uma lanchonete na frente do hotel onde vive lucius, para espionar os hábitos de seu arqui-inimigo. priscila não poderá nunca ser feliz se não desistir dessa vingança tola, mas o ódio consumiu seu ser franzino (ela tem um metro e meio de altura, pesa quarenta quilos e calça 32). além disso, não poderá nunca ser feliz por que usa peruca, chapéu, sobretudo e óculos escuros para não ser reconhecida, num calor infernal da cidade de piripiri, no piauí.
- três anos depois -
priscila maria comeu o pão que lucius hammer amassou, priscila maria quase moreu de desitratação por que suou em bicas durante três anos embaixo do sobretudo, da peruca e do chapéu, mas um dia... eis que lucius hammer entra na lanchonete. priscila maria tremeu. priscila maria quase desfaleceu. priscila maria fechou a mão em torno do anel que trazia nos dedos. e sentiu a glória da justiça se aproximando. tinha um gosto de sangue na boca, seu coração disparado soava mais forte que um cuco suíço, mas priscila se controlou. sorriu. e com muito sangue frio anunciou a oferta recém lançada: meus parabéns! o senhor é o milésimo freguês a entrar na casa hoje! ganhou o prato do dia: xis-burguer!
um calafrio percorreu a espinha de lucius hammer. xis-burguer. o ponteiro do relógio da lanchonete marcava nove horas e trinta minutos de um dia ensolarado porém amaldiçoado pelos deuses. lucius hammer rapidamente percebeu que se tratava de uma cilada. piripiri fora evacuada uma semana antes para a construção de uma hidrelétrica, só restavam os dois na cidade. por isso naquela manhã ele precisou entrar na - argh - lanchonete. era o único lugar da cidade que vendia algum tipo de comida. virou-se rapidamente para fugir, mas não conseguiu: priscila maria já estava postada na porta com um enorme e suculento xis-burguer envenenado nas mãos, dizendo:
- vc precisa provar meu xis-burguer, querido...
lucius hammer tenta sair pela janela, mas ela aciona o fechamento automático de todas as saídas, e os dois ficam cara a cara, exatamente como sonhara priscila maria.
[tudo pára ao redor deles. na falta de gente, xícaras e pires, pratos e talheres começam a voar em câmera lenta]
priscila maria tira os óculos escuros, o chapéu e a peruca, jogando o cabelo de modo sexy e provocante
[também em câmera lenta]
tira seu sobretudo e exibe uma lingerie branca e aí fecha rapidamente seu sobretudo, envergonhada por que esqueceu que não usava nada por baixo além do espartilho e da cinta-liga.
[corte brusco do clima, xícaras, pratos e talheres caem de repente no chão]
-lucius hammer, sou eu, priscila maria.
-vc é quem?
-como quem? priscila maria, sua arqui-inimiga.
-quem?
-não finja que não sabe quem eu sou. hoje é meu dia de glória. coincidentemente, é tb o último dia dessa sua vida de prazeres, de luxúria, de pecados. hoje é o dia em que vc pagará por todo o mal que me fez.
[priscila maria faz um discurso enorme, gesticula os braços e mantém o olhar num ponto fixo como se olhasse o horizonte e vislumbrasse um futuro glorioso. termina o discurso com os pés em lucius, que está sentado numa cadeira com as mãos amarradas. começa a ficar excitado quando o sobretudo de priscila maria se abre]
-desculpe, deve ser algum engano, olha, sinceramente, me perdoe, mas eu não me lembro de vc.
[lucius hammer imagina que seja alguma mulher com quem ele tenha tido relações que ficou insatisfeita por que seu pau era pequeno]
- não minta!! [gritando] eu esperei durante anos, tenho vigiado vc durante meses, e finalmente, hoje é o meu dia!! muahuahuahuhauhuahauhua [risada maligna]
lucius tenta se lembrar mas não consegue.
ela o obriga a comer o xis-burguer.
-coma, ande.
ele começa a chorar.
-suas lágrimas de crocodilo não vão me convencer. vc merece morrer!!
-mas se eu nem sei o que fiz... e é pra comer ou para andar? se vc me desamarrar, eu consigo andar.
-hahahahaha [outra risada maligna] morra, desgraçado.
e ameaça enfiar o xis-burguer goela abaixo de lucius hammer.
lucius hammer fecha a boca, chora, não come de jeito nenhum. e decide lutar por sua vida.
dá um chute em priscila maria e ela cai desacordada sobre os engradados de cerveja.
do bolso do seu sobretudo cai o ursinho todo desmilinguido.
lucius hammer se lembra de tudo vendo o ursinho.
quando acorda, priscila maria está amarrada de ponta cabeça no freezer da lanchonete.
não, quando acorda, priscila maria está deitada sobro o balcão enquanto lucius hammer passa um café. o anel sumiu de seu dedo.
lucius hammer sorri e diz:
- me desculpe. vc está bem? os olhos de priscila maria flamejam, ela pega a chaleira e dá na cabeça dele. mas ele é alto, ele é forte, ele é poderoso, ele segura seu bracico de nada antes do golpe. e a obriga a sentar.
-sabe, eu não gosto muito de mulher assim sem carnes, mas vc fica muito bem com essa cinta-liga.
ela se dá conta de que está seminua, e se abraça tentando esconder a nudez.
ele pega o ursinho e diz:
-então, é por causa disso que vc quer me matar?
-seu desgraçado, você vai me pagar!
ele a segura com um braço, seus chutes e pontapés não o alcançam.
- eu posso te comprar todos os ursinhos do mundo, se vc quiser.
- eu não quero! eu quero minha infância, que vc roubou de mim.
não, melhor ainda, quando acorda, priscila maria está no apart-hotel de lucius. clima de novela mexicana:
- eu posso te comprar todos os ursinhos do mundo, se vc quiser.
- eu não quero! eu quero minha infância, que vc roubou de mim.
priscila maria começa a chorar compulsivamente. lucius hammer a abraça. ela o rejeita. ele a abraça mais forte, quase sufocando-a, por que ele é alto, ele é forte, e ela é do tipo mignon. priscila maria chora tanto, que eles começam a sentir água nos pés.
ela se afasta.
-não me abrace!
ele se aproxima:
-abraço! vc é a vilã magra e sem graça mais gostosa que eu já vi.
ela se surpreende:
-o que? vc não está zangado comigo por eu querer te matar? (fazendo vozinha de princesa debilóide)
- não, priscila maria. sabe... nessa vida, todos nós blábláblábláblá
[discurso de meia hora em tom soturno, sisudo. conta a história toda, dos fornos, etc, anda pela casa, sempre de costas para ela, chuta uma cadeira quando fala da mãe, que morreu de sífilis um ano antes. se recompõe, e quebra um copo na mão quando cita o pai, que morreu atropelado por um trator quando ele tinha quinze anos.
priscila maria de compadece de sua dor, e desiste de matá-lo.
rola um clima.
os dois se aproximam, e a água já está nos tornozelos.
ele a pega pelos braços e a coloca em cima de uma cadeira. clímax chegando - os dois se aproximam lentamente:
- oh, lucius hammer, por tanto tempo te odiei
- oh, priscila maria, por tanto tempo eu... nem desconfiei da sua existência...
ela ri,
- é que a roteirista não é boa em fazer vilãs.
ele faz shiu:
- está ouvindo?
- não, o que?
- esse barulho... priscila maria, temos que fugir! a cidade será inundada para a construção da hidrelétrica, vamos!
- não, lucius hammer, é tarde! olhe!
[água na cintura dela ( e no joelho dele), cardumes de peixe palhaço e tartarugas marinhas nadam tranquilamente entre carros e objetos flutuando]
eles se dão as mãos, se abraçam e esperam pacificamente pelo fim. ele diz:
-eu seria muito grosseiro se dissesse que estou com um tesão louco por vc?
-hihihi, que é isso, lucius...
(a vilã, como boa vilã de novela, de repente torna-se puritana e cora)
- deixe de bobagem querida. pega aqui.
- lucius, que pau enorme!
lucius não entende
- nossa, acho que vai até me machucar...
lucius então percebe que ela era a mulher perfeita pra ele. com seu metro e meio, lucius realmente tinha um pau enorme para a sua vagina minúscula.
lucius se sentiu o fodão pelo menos uma vez na vida, priscila maria caiu de boca e foram felizes até que a água chegou no teto.
o fim.
fim!
de noite, sozinha, priscila maria chora e abraça seu ursinho de pelúcia encardido e sem um braço, único resquício de uma infância miserável perdida em algum lugar do passado.
[flashback: crianças brincando na rua, priscila maria criança sorrindo feliz com seu ursinho na mão, sentada na guia numa rodinha de crianças felizes até que chega ele, grande, gordo, forte, sem os dentes da frente, pára a bicicleta em cima do pé dela, pega o ursinho dizendo deixa eu ver isso aqui, ela chora, ele ri, ela diz devolve meu ursinho, ele abre a bocarra, ela grita não, não, meu ursinho não, tarde demais, ele arranca fora o braço do ursinho numa dentada só, e sai pedalando sua bicicleta dando uma risada que nas noites de chuva ela ouviria durante anos e anos]
se ela soubesse que chegando em casa ele foi severamentre castigado pela mãe, que colocou sua cabeça no forno aceso, ela talvez o perdoasse, mas o perdão é uma coisa que vem só no último capítulo. por enquanto priscila maria cozinha um plano diabólico para destruir seu arqui-inimigo que usa uma máscara por que tem uma marca horrorosa de queimadura do lado direito do rosto. seu nome é... lucius hammer, filho de lúcifer, o diabo em corpo de gente, se é que pode-se chamar aquilo de gente, ele é alto, ele é forte, ele é hot, as mulheres o amam e o temem, mas sobretudo o desejam. ele consegue as mulheres que quer, tem os carros que quer, ele é rico, é poderoso, mas tem um terrível complexo de inferioridade, por que tem um pau minúsculo, e por isso ele usa seu poder e sua influência para o mal. ele é do mal. mas ele não é mau.
[flashback: lucius hammer criança está se lambuzando com um xis-burguer quando seu pai entra na sala e diz: você comeu meu lanche?! lucius larga o resto do lanche e sai correndo, se esconde em baixo da mesa, o pai puxa seus pés, lucius segura o pé da mesa tentando escapar do castigo iminente, lucius vai arranhando chão, o pai é alto, é forte, é poderoso, arranca lucius de lá e bota sua cabeça no forno aceso. desde então, lucius nunca mais foi uma criança feliz e até hoje não chega perto de fornos. vive num apart-hotel, come fora todos os dias da sua vida, e nunca, nunca come xis-burguer]
sem saber disso, priscila maria abre uma lanchonete na frente do hotel onde vive lucius, para espionar os hábitos de seu arqui-inimigo. priscila não poderá nunca ser feliz se não desistir dessa vingança tola, mas o ódio consumiu seu ser franzino (ela tem um metro e meio de altura, pesa quarenta quilos e calça 32). além disso, não poderá nunca ser feliz por que usa peruca, chapéu, sobretudo e óculos escuros para não ser reconhecida, num calor infernal da cidade de piripiri, no piauí.
- três anos depois -
priscila maria comeu o pão que lucius hammer amassou, priscila maria quase moreu de desitratação por que suou em bicas durante três anos embaixo do sobretudo, da peruca e do chapéu, mas um dia... eis que lucius hammer entra na lanchonete. priscila maria tremeu. priscila maria quase desfaleceu. priscila maria fechou a mão em torno do anel que trazia nos dedos. e sentiu a glória da justiça se aproximando. tinha um gosto de sangue na boca, seu coração disparado soava mais forte que um cuco suíço, mas priscila se controlou. sorriu. e com muito sangue frio anunciou a oferta recém lançada: meus parabéns! o senhor é o milésimo freguês a entrar na casa hoje! ganhou o prato do dia: xis-burguer!
um calafrio percorreu a espinha de lucius hammer. xis-burguer. o ponteiro do relógio da lanchonete marcava nove horas e trinta minutos de um dia ensolarado porém amaldiçoado pelos deuses. lucius hammer rapidamente percebeu que se tratava de uma cilada. piripiri fora evacuada uma semana antes para a construção de uma hidrelétrica, só restavam os dois na cidade. por isso naquela manhã ele precisou entrar na - argh - lanchonete. era o único lugar da cidade que vendia algum tipo de comida. virou-se rapidamente para fugir, mas não conseguiu: priscila maria já estava postada na porta com um enorme e suculento xis-burguer envenenado nas mãos, dizendo:
- vc precisa provar meu xis-burguer, querido...
lucius hammer tenta sair pela janela, mas ela aciona o fechamento automático de todas as saídas, e os dois ficam cara a cara, exatamente como sonhara priscila maria.
[tudo pára ao redor deles. na falta de gente, xícaras e pires, pratos e talheres começam a voar em câmera lenta]
priscila maria tira os óculos escuros, o chapéu e a peruca, jogando o cabelo de modo sexy e provocante
[também em câmera lenta]
tira seu sobretudo e exibe uma lingerie branca e aí fecha rapidamente seu sobretudo, envergonhada por que esqueceu que não usava nada por baixo além do espartilho e da cinta-liga.
[corte brusco do clima, xícaras, pratos e talheres caem de repente no chão]
-lucius hammer, sou eu, priscila maria.
-vc é quem?
-como quem? priscila maria, sua arqui-inimiga.
-quem?
-não finja que não sabe quem eu sou. hoje é meu dia de glória. coincidentemente, é tb o último dia dessa sua vida de prazeres, de luxúria, de pecados. hoje é o dia em que vc pagará por todo o mal que me fez.
[priscila maria faz um discurso enorme, gesticula os braços e mantém o olhar num ponto fixo como se olhasse o horizonte e vislumbrasse um futuro glorioso. termina o discurso com os pés em lucius, que está sentado numa cadeira com as mãos amarradas. começa a ficar excitado quando o sobretudo de priscila maria se abre]
-desculpe, deve ser algum engano, olha, sinceramente, me perdoe, mas eu não me lembro de vc.
[lucius hammer imagina que seja alguma mulher com quem ele tenha tido relações que ficou insatisfeita por que seu pau era pequeno]
- não minta!! [gritando] eu esperei durante anos, tenho vigiado vc durante meses, e finalmente, hoje é o meu dia!! muahuahuahuhauhuahauhua [risada maligna]
lucius tenta se lembrar mas não consegue.
ela o obriga a comer o xis-burguer.
-coma, ande.
ele começa a chorar.
-suas lágrimas de crocodilo não vão me convencer. vc merece morrer!!
-mas se eu nem sei o que fiz... e é pra comer ou para andar? se vc me desamarrar, eu consigo andar.
-hahahahaha [outra risada maligna] morra, desgraçado.
e ameaça enfiar o xis-burguer goela abaixo de lucius hammer.
lucius hammer fecha a boca, chora, não come de jeito nenhum. e decide lutar por sua vida.
dá um chute em priscila maria e ela cai desacordada sobre os engradados de cerveja.
do bolso do seu sobretudo cai o ursinho todo desmilinguido.
lucius hammer se lembra de tudo vendo o ursinho.
quando acorda, priscila maria está amarrada de ponta cabeça no freezer da lanchonete.
não, quando acorda, priscila maria está deitada sobro o balcão enquanto lucius hammer passa um café. o anel sumiu de seu dedo.
lucius hammer sorri e diz:
- me desculpe. vc está bem? os olhos de priscila maria flamejam, ela pega a chaleira e dá na cabeça dele. mas ele é alto, ele é forte, ele é poderoso, ele segura seu bracico de nada antes do golpe. e a obriga a sentar.
-sabe, eu não gosto muito de mulher assim sem carnes, mas vc fica muito bem com essa cinta-liga.
ela se dá conta de que está seminua, e se abraça tentando esconder a nudez.
ele pega o ursinho e diz:
-então, é por causa disso que vc quer me matar?
-seu desgraçado, você vai me pagar!
ele a segura com um braço, seus chutes e pontapés não o alcançam.
- eu posso te comprar todos os ursinhos do mundo, se vc quiser.
- eu não quero! eu quero minha infância, que vc roubou de mim.
não, melhor ainda, quando acorda, priscila maria está no apart-hotel de lucius. clima de novela mexicana:
- eu posso te comprar todos os ursinhos do mundo, se vc quiser.
- eu não quero! eu quero minha infância, que vc roubou de mim.
priscila maria começa a chorar compulsivamente. lucius hammer a abraça. ela o rejeita. ele a abraça mais forte, quase sufocando-a, por que ele é alto, ele é forte, e ela é do tipo mignon. priscila maria chora tanto, que eles começam a sentir água nos pés.
ela se afasta.
-não me abrace!
ele se aproxima:
-abraço! vc é a vilã magra e sem graça mais gostosa que eu já vi.
ela se surpreende:
-o que? vc não está zangado comigo por eu querer te matar? (fazendo vozinha de princesa debilóide)
- não, priscila maria. sabe... nessa vida, todos nós blábláblábláblá
[discurso de meia hora em tom soturno, sisudo. conta a história toda, dos fornos, etc, anda pela casa, sempre de costas para ela, chuta uma cadeira quando fala da mãe, que morreu de sífilis um ano antes. se recompõe, e quebra um copo na mão quando cita o pai, que morreu atropelado por um trator quando ele tinha quinze anos.
priscila maria de compadece de sua dor, e desiste de matá-lo.
rola um clima.
os dois se aproximam, e a água já está nos tornozelos.
ele a pega pelos braços e a coloca em cima de uma cadeira. clímax chegando - os dois se aproximam lentamente:
- oh, lucius hammer, por tanto tempo te odiei
- oh, priscila maria, por tanto tempo eu... nem desconfiei da sua existência...
ela ri,
- é que a roteirista não é boa em fazer vilãs.
ele faz shiu:
- está ouvindo?
- não, o que?
- esse barulho... priscila maria, temos que fugir! a cidade será inundada para a construção da hidrelétrica, vamos!
- não, lucius hammer, é tarde! olhe!
[água na cintura dela ( e no joelho dele), cardumes de peixe palhaço e tartarugas marinhas nadam tranquilamente entre carros e objetos flutuando]
eles se dão as mãos, se abraçam e esperam pacificamente pelo fim. ele diz:
-eu seria muito grosseiro se dissesse que estou com um tesão louco por vc?
-hihihi, que é isso, lucius...
(a vilã, como boa vilã de novela, de repente torna-se puritana e cora)
- deixe de bobagem querida. pega aqui.
- lucius, que pau enorme!
lucius não entende
- nossa, acho que vai até me machucar...
lucius então percebe que ela era a mulher perfeita pra ele. com seu metro e meio, lucius realmente tinha um pau enorme para a sua vagina minúscula.
lucius se sentiu o fodão pelo menos uma vez na vida, priscila maria caiu de boca e foram felizes até que a água chegou no teto.
o fim.
fim!
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
III
tinha as mãos ocupadas e tentou guardar as tigelas na prateleira do alto assim mesmo. enquanto levantava o braço pensava que aquilo ia dar merda. antevia a catástofre, mas continuava a ação, esperando talvez que alguma habilidade sobre-humana de repente se desenvolvesse. não ouviu outra coisa senão as tigelas se estatelando no chão. e ela pensou que sabia que aquilo ia acontecer. não se assustou, por que afinal aquilo já estava previsto, mas deu um pulo pra trás e cortou o pé numa ponta da tigela esfacelada. merda. ela às vezes tinha um acesso de inteligência, como quem tem um acesso de apendicite. mas não era frequente. em geral andava à toa, desavisada, sem planos ou projetos. tinha mania de se vestir sem enxugar o corpo depois do banho, estava sempre atrasada, e de vez em quando caía enquanto punha a roupa, perdia o equilíbrio, a calça enroscava no corpo molhado e ela tombava pro lado, atrasava ainda mais e tinha sempre algum roxo marcando o corpo. tinha um corpo bonito, era modelo numa escola de desenho, magra, o professor sugeriu que ela engordasse um pouco para que tivesse mais dobrinhas para serem desenhadas, e ela que os alunos desenvolvessem a imaginação além da técnica, e ele respondeu que se era pra usar a imaginação não precisariam mais dela ali e ela perderia o único trabalho que pagava direito, ela sorriu e ficou quieta, não falou mais nada, aquiesceu com a cabeça e sorriu. chegou em casa e comeu uma lata inteira de leite condensado, a avó fazia um único bolo, a vida toda fez um único bolo, religiosamente aos sábados e domingos havia o mesmo bolo sobre a mesa, uma massa um pouco dura, recheio de leite condensado cozido e cobertura de clara em neve com açúcar e coco ralado. lembrou de quando raspava a lata de leite condensado. cozinhou uma lata de leite condensado. chegou em casa e comeu duas latas de leite condensado, uma cozida, a outra não. se perguntava o que é que tinha dado errado, era uma criança tão promissora na casa da avó raspando a lata de leite condensado, e agora vivia tão à toa, se sentia triste por não ter uma razão para viver, e de vez em quando até pensava que a razão para viver é mesmo estar vivo, ficava tranquila uns dois ou três dias, mas isso não era suficiente, e ela logo se entristecia de novo. ela era ambiciosa.
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
II
o maior equívoco da teoria literária é o narrador onisciente. não existe nem um narrador que seja onisciente. por que a onisciência é uma mentira. é uma fábula. o narrador não sabe tudo da vida de seus personagens, ainda que sejam seus os personagens: para saber tudo, tudo teria que existir. mesmo a história mais bem contada não existe inteira. ou por que não existe uma verdade, ou por que existam muitas verdades. ela era uma grande fã das meias verdades. enquanto voltava para casa pensava que devia dar um jeito de se mudar. talvez ela aceitasse se casar com o italiano. o problema do italiano é que ele não tinha a menor pinta de italiano. parecia mais um sueco, um dinamarquês, ou um alemão. loiro, olho muito azul, nariz fino e delicado. ela gostava de homens que tinham o nariz grande. não muito grande, mas homem não podia ter o nariz pequeno, empinado. não, isso é nariz de mulher. homem que é homem tem força até no nariz. e o seu tipo preferido de homem era justamente o arquétipo do homem mediterrâneo: pele morena, cabelos escuros, anelados de preferência, sobrancelhas grossas, nariz expressivo. boca carnuda. bons dentes, não muito brancos, e perfilados. mas se dava por satisfeita mesmo que ele não fosse nada disso, se a tratasse bem, se é que você me entende... no metrô, dois homens a olharam com interesse. o primeiro era um executivo. ridículo, de óculos escuros dentro do vaguão. só perdoava se fosse conjuntivite. não era, ele tirou os óculos para que ela soubesse que estava sendo cortejada. o segundo tinha uma tatuagem no braço inteiro, e ela achou ridículo que no cotovelo houvesse o desenho de uma circunferência. muito óbvio. mas o contraste entre os desenhos em preto e branco e a blusa listrada que ele usava era realmente interessante. era difícil ela encontrar um cara que não tivesse nada que pudesse ser ridicularizado. ninguém era bom o suficiente, nem inteligente o bastante. mas ela é nossa heroína, é o que temos pra hoje, então vou falar outra coisa: nenhum homem chegava aos seus pés. por isso, talvez ela se casasse com o italiano, talvez ela continuasse saindo com o guitarrista metaleiro, talvez fosse morar em montevidéu com o portenho. ela gostava bastante de doce de leite. sabia que aqui não ia continuar, então, entre a américa latina e a europa, qual a dúvida? não ficava constrangida em assumir que não casava por amor. casava para conseguir um passaporte, e qual o problema, não era esse o sonho de toda brasileira, desde que cabral chegou aqui? quando cabral chegou ainda não existiam as brasileiras nem os brasileiros, mas ela não prestava muita atenção nesses pormenores da história.
I
ela gostava de acordar cedo por que de manhã o sol batia no quarto e atravessava de uma parede a outra, e ela gostava de ficar estirada na cama sentindo o calor do sol, ela queria ter nascido gata, mas nasceu gente, precisava urgentemente arrumar um trabalho, não por que cabeça vazia é oficina do diabo, não, ela não tinha problemas com isso, a cabeça nunca ficava vazia, é que ela precisava de dinheiro mesmo, e por mais cheia de idéias que fosse sua cabeça, ela era péssima pra ganhar dinheiro. como se esse esquema fosse muito sujo pra sua existência tão nobre, como se ela estivesse acima do bem, do mal, dos homens e do sistema econômico dos homens, mas ela não estava acima, ela estava à margem. o único cômodo de que gostava na casa era seu quarto, o único lugar mais ou menos arrumado, os livros numa prateleira, ela ficou com poucos livros depois que o último namorado foi embora, ele achou que os livros eram mais dele do que dela, e ela ficou com umas duas dúzias de livros, e começou a comprar mais, mas ficava triste por que comprava mas não tinha vontade de ler, por que não tinha com quem conversar sobre o livro, então não fazia sentido comprar, se ela tivesse dinheiro sobrando, ia gastar comprando livros, mas não tinha, então um comprou algumas dessas edições de bolso em banca, ela adorava bancas, comprou um da clarice lispector, uma edição bonita, capa dura, o cheiro de livro novo... e fez uma carteirinha na biblioteca, o cheiro de livro velho... é cheiro de cocô de traça, não é bom cheirar, quando o livro é velho, por que a gente nunca sabe pelo que o livro já passou. mas ela gostava do cheiros dos livros, tanto dos velhos quanto dos novos. não leu o livro da clarice, por que não era da clarice, era sobre a clarice, e ela achava que não queria agora ler o sobre, mas ler o. ou a. pulou da cama num salto, ficou tonta e marchou até o banheiro numa tentativa de reaver o equilíbrio. tanta coisa que se perde, que é preciso reaver. se achou bonita quando se viu no espelho, era mesmo bonita, mas achava isso mais que os outros, tinha um gosto particular para apreciar o belo. o belo pra ela nunca era tão belo para os outros, e isso só confirmava a idéia de que ela vivia à parte nesse mundo pós-contemporâneo. saiu de casa apressada, estava atrasada, com um pouco de sorte chegava no horário, mas em são paulo sempre é preciso sair de casa com uma hora e meia de antecedência, e ela saía sempre vinte minutos antes de qualquer compromisso. pegou um ônibus, dois ônibus, chegou no metrô. é, ela morava longe, odiava o lugar em que morava, mas não achava nada mais barato, então continuava por ali mesmo, também não teria dinheiro para a mudança, para a pintura, para as coisas que talvez a casa nova precisasse, por isso também ela precisava de dinheiro, a casa estava ficando velha, cada dia uma coisa diferente quebrava, e ela precisava arrumar isso aos poucos, por que não ia ter dinheiro caso tivesse que arrumar tudo de uma só vez. foi para a entrevista, era a terceira naquela semana, e era a terceira vez que ela ouvia uma promessa e via um sorriso gentil, guardaremos seu currículo, gostamos muito de você, mas por enquanto...
ela sabia que tinham gostado muito dela, como não gostariam, é gentil, cordial, simpática, amável, mentirosa, falsa, hipócrita e bonita, é perfeita. mas ela não se imaginava trabalhando em um ambiente corporativo, então não se assustava quando a entrevista não dava certo. não conseguiria trabalhar em uma empresa. mas nunca trabalhou pra saber se conseguiria mesmo ou não, e achava que talvez, como o cinto apertasse, fosse o caso de aceitar qualquer coisa em qualquer lugar, e fazer de conta que ela era como todo mundo. um dia, num restaurante, viu uma placa de admite-se e se candidatou ao cargo de auxiliar de cozinha. a dona do restaurante viu uma moça bem vestida, maquiada, sorridente, perguntando sobre a vaga para auxiliar. quem é que está interessado na vaga? ah, eu mesma, respondeu. a mulher do outro lado do balcão riu. por que o riso, tem que ter muita experiência? a dona ficou séria, pigarreou e disse, tem, tem sim. isso aqui não é brincadeira. e nossa heroína não entendeu se não podia ser auxiliar de cozinha por que não tinha experiência ou por que estava muito bem vestida para quem almeja ser auxiliar de cozinha. lembrou disso por que passou na frente desse restaurante, e até pensou em almoçar ali de novo, mas hoje dava. passou num supermercado, comprou um macarrão instantâneo, duas caixas de morango a noventa e nove centavos cada uma, um iogurte e um pacote de chocolate. com cinco reais e cinquenta centavos teria um almoço, uma sobremesa e um lanche para mais tarde. adorava morangos, não entendia por que era uma fruta tão sexualizada, eram morangos, só. mas para o resto da humanidade, o morango aparecia sempre ao lado de mulheres nuas, perto de palavras como desejo, luxúria, paixão. morango não tem gosto de paixão. morango quase nem tem gosto. e a paixão é salgada. principalmente no verão. lião dizia que em dezembro a cidade cheira a pêssegos. lião era muito romântica mesmo, por que em dezembro a cidade cheira a arroz estragado, não a pêssegos. faz muito calor, a comida em cima do fogão azeda muito rápido, e tudo acaba ficando com cheiro de arroz estragado. de qualquer forma, ainda não é dezembro, o grande mês ainda não chegou, é setembro e as primeiras panelas de arroz começam a apodrecer.
ela sabia que tinham gostado muito dela, como não gostariam, é gentil, cordial, simpática, amável, mentirosa, falsa, hipócrita e bonita, é perfeita. mas ela não se imaginava trabalhando em um ambiente corporativo, então não se assustava quando a entrevista não dava certo. não conseguiria trabalhar em uma empresa. mas nunca trabalhou pra saber se conseguiria mesmo ou não, e achava que talvez, como o cinto apertasse, fosse o caso de aceitar qualquer coisa em qualquer lugar, e fazer de conta que ela era como todo mundo. um dia, num restaurante, viu uma placa de admite-se e se candidatou ao cargo de auxiliar de cozinha. a dona do restaurante viu uma moça bem vestida, maquiada, sorridente, perguntando sobre a vaga para auxiliar. quem é que está interessado na vaga? ah, eu mesma, respondeu. a mulher do outro lado do balcão riu. por que o riso, tem que ter muita experiência? a dona ficou séria, pigarreou e disse, tem, tem sim. isso aqui não é brincadeira. e nossa heroína não entendeu se não podia ser auxiliar de cozinha por que não tinha experiência ou por que estava muito bem vestida para quem almeja ser auxiliar de cozinha. lembrou disso por que passou na frente desse restaurante, e até pensou em almoçar ali de novo, mas hoje dava. passou num supermercado, comprou um macarrão instantâneo, duas caixas de morango a noventa e nove centavos cada uma, um iogurte e um pacote de chocolate. com cinco reais e cinquenta centavos teria um almoço, uma sobremesa e um lanche para mais tarde. adorava morangos, não entendia por que era uma fruta tão sexualizada, eram morangos, só. mas para o resto da humanidade, o morango aparecia sempre ao lado de mulheres nuas, perto de palavras como desejo, luxúria, paixão. morango não tem gosto de paixão. morango quase nem tem gosto. e a paixão é salgada. principalmente no verão. lião dizia que em dezembro a cidade cheira a pêssegos. lião era muito romântica mesmo, por que em dezembro a cidade cheira a arroz estragado, não a pêssegos. faz muito calor, a comida em cima do fogão azeda muito rápido, e tudo acaba ficando com cheiro de arroz estragado. de qualquer forma, ainda não é dezembro, o grande mês ainda não chegou, é setembro e as primeiras panelas de arroz começam a apodrecer.
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
se fosse possível escolher o nome do marido, ou escolher o marido pelo nome, não sei, eu queria me casar com um agenor. não há nome mais sexy do que agenor. e os diminutivos que podem vir daí são tão sexies quanto o nome. acho que eu li muito nelson rodrigues quando meu caráter ainda estava em formação, é como eu sempre digo.
percebi ontem que sou um pouco mulher de malandro. não posso com um cara vestindo terno de linho, seja branco ou não. acho que vou ser designer de roupas masculinas, reparei que talvez eu goste mais da roupa do que do sujeito. pobre de mim!
percebi ontem que sou um pouco mulher de malandro. não posso com um cara vestindo terno de linho, seja branco ou não. acho que vou ser designer de roupas masculinas, reparei que talvez eu goste mais da roupa do que do sujeito. pobre de mim!
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
ando imaginando coisas, que não é bom nem dizer o que é. o problema nem é tanto o que, mas como, e a intensidade, e a frequência. tem dias em que não páro de imaginar um minuto sequer. e se eu fosse uma ladra, e quisesse entrar nesse prédio? por onde entraria? se quisesse sequestrar alguém, quem eu escolheria? se eu roubasse um carro, como seria? e se eu fosse policial? e se eu fosse advogada? e se eu fosse juíza? e seu fosse confeiteira? e se eu fosse ceramista, malabarista, atriz pornô, porteira, parteira, manobrista...
aí me dei conta que o lugar mais seguro pra mim é aqui mesmo. aqui onde estou. daqui onde vejo. e eu vejo: não sou uma boa criadora, não, mas sou uma boa observadora.
eu vejo a moça que passa, a moça que anda, a moça que cai, a moça que chora, a moça que vê, a moça que sente, a moça que fala, a moça que grita, a moça que ri, a moça que senta, a moça que trepa, a moça que rola, a moça que briga, a moça que ama, a moça que janta, a moça que olha, a moça que cruza, a moça que foge, a moça que finje, a moça que luta, a moça que deita, a moça que espreita, a moça que engana. o moço duvida, tb briga, tb chora, tb anda, tb come, tb deita, tb trepa, tb dorme, tb...
não sou nenhuma dessas moças e nenhum desses moços, e sou todos ao mesmo tempo. por isso esse me parece um bom lugar pra mim.
aí me dei conta que o lugar mais seguro pra mim é aqui mesmo. aqui onde estou. daqui onde vejo. e eu vejo: não sou uma boa criadora, não, mas sou uma boa observadora.
eu vejo a moça que passa, a moça que anda, a moça que cai, a moça que chora, a moça que vê, a moça que sente, a moça que fala, a moça que grita, a moça que ri, a moça que senta, a moça que trepa, a moça que rola, a moça que briga, a moça que ama, a moça que janta, a moça que olha, a moça que cruza, a moça que foge, a moça que finje, a moça que luta, a moça que deita, a moça que espreita, a moça que engana. o moço duvida, tb briga, tb chora, tb anda, tb come, tb deita, tb trepa, tb dorme, tb...
não sou nenhuma dessas moças e nenhum desses moços, e sou todos ao mesmo tempo. por isso esse me parece um bom lugar pra mim.
terça-feira, 31 de agosto de 2010
achei que fosse 28, mas foi dia 21 de agosto. dia 21 de agosto de 2009, grande merda uma data de separação pra quem não teve nem data de casamento, não é? dia 21 foi o dia do b.o. de abandono de lar. que não serviu de muita coisa, senão para ocupar minha noite, andando de delegacia em delegacia ouvindo gracinhas dos delegados. faz um carinho que ele volta. vai tomar no cu. delegacia da mulher é uma mentira. mais uma, entre tantas. às vezes acho que é tudo uma mentira, que eu não casei com ele, que eu não tive um filho com ele, é que o filho é a cara dele, não adianta negar. é verdade. dia 21 de agosto de 2009, faz um ano e dez dias que eu me separei. ou que fui separada. na verdade faz mais, se contarmos o processo todo. talvez façam já seis anos e dez dias que estou separada. brincadeira.
mas ele tem razão, é certo, parei de andar com eles. por que começaram a reclamar que eu devia procurar minha própria turma, não eles, mas o sujeito que nos apresentou, aí eu acabei fazendo isso mesmo, meio sem pensar, pra não ter que toda hora ficar cruzando com esse cara aí, não fui procurar minha turma, fiquei na minha, mas acabei achando uma turma mesmo, a minha, a de sempre, e outras, diferentes, novas pessoas. sobre ele... eu fico com dó. fico com dó por que a gente tinha uma amizade que eu achava muito bonita, e talvez não tenha acabado a amizade, mas eu olho pra ele e sinto raiva. é que eu sei que ele queria me comer, mas pra ele eu não quis dar, pode não parecer, mas não é pra todo mundo que eu tenho vontade de dar, e pra ele eu não quis, e eu sei que ele é dos que tem a impressão de que eu dou pra qualquer um, e como assim eu não quis dar pra ele? não quis nem nunca vou querer, embora eu já tenha tido vontade uma vez na vida. mas acho que era só vontade de dar, e era ele que estava mais perto, não era vontade de dar pra ele. sabe como é? por que ele é um cara meio xucrão, se veste de melodias e ressonâncias, mas manda a namorada dormir no chão por que lhe doem as costas, sabe como é? vai ele dormir no chão, ué. aí vc pode dizer qual o problema de mandar a namorada dormir no chão, mas eu, conservadora como sou, acho esquisitíssimo o cara mandar a mulher dormir no chão. o pior é que ele está com um livro meu, e eu fiquei muito puta, por que quando pedi um livro emprestado ele disse uma primeira e única frase: não. rá! tenho vontade de ir lá e falar oi, vim buscar meu livro, sabe o que é, não empresto minhas coisas pra quem não me empresta as suas. sabe como é?
uma vez, eu era mais nova, fiz uma pintura, tinha tinta vermelha espirrada. minha mãe mandou que eu limpasse, apagassse, refizesse, jogasse aquilo fora, não importava, aquilo tinha que sair dali por que ela não queria ver marcas de sangue. mãe, tem umas marcas que são mais fortes que marcas de sangue. às vezes a gente precisa botar elas pra fora.
então, deixa eu contar uma coisa, é que eu tô meio a fim de um sujeito, mas eu não chamo mais ninguém pra sair, então o que faço? sento e espero? ô moço, eu não tô fazendo nada, vc tb, (mentira, eu não sei nada dele, só que ele tem um gato, nem sei se é solteiro, pra dizer a verdade, quando o conheci, não era, mas isso é uma coisa que tá sempre mudando na vida das pessoas, então quem sabe se...) chama eu pra sair que eu saio c'ocê. eu sou engraçada, inteligente, dou risada fácil, gosto de ouvir (e de falar, verdade seja dita), enfim. sou carismática, carinhosa, atenciosa e democrática. dou atenção a todos os setores da sociedade. ai, acho que essa parte não era bom falar, né? eu quis dizer que eu sou feliz por viver numa democracia, sou politizada, viu? (ele eu acho que é militante e tudo, só não sei de que partido, pstu não, pstu não, pstu não. psol tb não, psol tb não, psol tb não, valha-me deus. de direita eu sei que ele não é, se não nem me interessava).
nossa, acabei de me dar conta de que ele me atrai mas eu não sei absolutamente nada, nada, nadica a respeito dele. acho que é melhor deixar pra lá. é. deixa pra lá. eu não tô fazendo nada e vou continuar assim. moça direita.
nossa, acabei de me dar conta de que ele me atrai mas eu não sei absolutamente nada, nada, nadica a respeito dele. acho que é melhor deixar pra lá. é. deixa pra lá. eu não tô fazendo nada e vou continuar assim. moça direita.
quando percebi, estava sorrindo. riso fácil, sincero, desses que brotam espontâneos.
nem sei por que, nem como, o dia desanuviou, levou, eu sorri e resolvi tomar conta do que tinha pra fazer. finalmente.
por que não gosto de títulos, eu disse, e saí andando. ele ficou parado, como quem espera, atônito, mas por que não? por que eu não gosto de títulos, já disse. então não precisa ter título, vc não precisa ser minha namorada, nem minha esposa, mas eu gostaria muito se fosse a mãe do meu filho. já tenho filho, e acho que no lugar do se vc devia ter posto um que, eu gostaria muito que. vc está me zoando. vc não está, me convida assim, pra ser a mãe do seu filho, e acha que deve ser levado a sério? fica comigo de novo? não. por que não? por que não gosto de títulos.
por que não gosto de filhos, eu disse, e saí andando. por que não? ela podia chamar maria flor. ela quem? nossa filha. não quero ter filhos. muito menos com nome substantivo. como não, toda mulher quer ter filhos. te disseram isso? mentiram, não é verdade. nem toda mulher quer ter filhos. nem mesmo as que têm. nós teríamos filhos lindos. nós teríamos filhos mal educados. nós teríamos filhos muito amados. pelo pai. a mãe os abandonaria em três dias. vc não seria capaz. não quero pensar em filhos, já disse. viu, começa a mudar de idéia. não quer pensar em filhos, não agora, não ainda, mas daqui a algum tempo, vc quererá. quererá, que horrível, não quererei filhos, nem que fossemos o último casal da espécie.
por que não gosto de vc, eu disse, e saí andando. ele ficou parado, estático, mudo, me olhando com rancor. veio correndo, me deu um chute e eu caí de boca no chão. quebrei o nariz, mal podia respirar, o sangue parecia que entalava na garganta. antes que eu conseguisse me levantar, um ônibus virou a esquina e passou por cima das minhas costelas. ele ficou parado, olhando, num misto de arrependido e satisfeito, como criança que diz bem feito. o motorista parou, assustado, achando que tinha me matado. mas o que me matou mesmo foi o caminhão que passou por cima logo depois, que não viu que o ônibus tinha parado e acertou em cheio a traseira. sei que aí morreram vários de uma vez. e meu espírito enfim achou companhia. eterna, diga-se de passagem.
nem sei por que, nem como, o dia desanuviou, levou, eu sorri e resolvi tomar conta do que tinha pra fazer. finalmente.
por que não gosto de títulos, eu disse, e saí andando. ele ficou parado, como quem espera, atônito, mas por que não? por que eu não gosto de títulos, já disse. então não precisa ter título, vc não precisa ser minha namorada, nem minha esposa, mas eu gostaria muito se fosse a mãe do meu filho. já tenho filho, e acho que no lugar do se vc devia ter posto um que, eu gostaria muito que. vc está me zoando. vc não está, me convida assim, pra ser a mãe do seu filho, e acha que deve ser levado a sério? fica comigo de novo? não. por que não? por que não gosto de títulos.
por que não gosto de filhos, eu disse, e saí andando. por que não? ela podia chamar maria flor. ela quem? nossa filha. não quero ter filhos. muito menos com nome substantivo. como não, toda mulher quer ter filhos. te disseram isso? mentiram, não é verdade. nem toda mulher quer ter filhos. nem mesmo as que têm. nós teríamos filhos lindos. nós teríamos filhos mal educados. nós teríamos filhos muito amados. pelo pai. a mãe os abandonaria em três dias. vc não seria capaz. não quero pensar em filhos, já disse. viu, começa a mudar de idéia. não quer pensar em filhos, não agora, não ainda, mas daqui a algum tempo, vc quererá. quererá, que horrível, não quererei filhos, nem que fossemos o último casal da espécie.
por que não gosto de vc, eu disse, e saí andando. ele ficou parado, estático, mudo, me olhando com rancor. veio correndo, me deu um chute e eu caí de boca no chão. quebrei o nariz, mal podia respirar, o sangue parecia que entalava na garganta. antes que eu conseguisse me levantar, um ônibus virou a esquina e passou por cima das minhas costelas. ele ficou parado, olhando, num misto de arrependido e satisfeito, como criança que diz bem feito. o motorista parou, assustado, achando que tinha me matado. mas o que me matou mesmo foi o caminhão que passou por cima logo depois, que não viu que o ônibus tinha parado e acertou em cheio a traseira. sei que aí morreram vários de uma vez. e meu espírito enfim achou companhia. eterna, diga-se de passagem.
eu não queria fazer disso um diário, mas acho que já é tarde, não é?
então paciência. hoje eu acordei toda romântica. escolhi o meu vestido mais rodado, pus um sapatinho com salto e um colarzinho com perólas. passei um batom cor de rosa, e lembrei que tenho que ir ali estrangular e depenar uma galinha para o almoço. até mais, querido diário.
são um mihão de papeizinhos me lembrando de tudo o que tenho que fazer, outro milhão esperando para ser transcrito para o livro-caixa, outro monte esperando pra ver o que é propaganda, o que é conta, não recebo cartas, só contas e propagandas, por isso comecei a mandar cartas para mim mesma, mas ainda não chegaram, será que escrevi o endereço certo, será que o moço do correio não me levou a sério? tem mais um bolo a minha espera, o bolo dos rabiscos e desenhos, de croquis, de projetos, de idéias. cada idéia ponho no papel, para que a idéia não se perca, mas cada papel se perde, e perco junto a idéia. quando tento passar de novo para o papel uma mesma idéia, ela já se foi, já mudou, e fica no lugar uma idéia mais ou menos parecida, mais ou menos diferente, nunca igual. sempre a sombra. tem o monte de revistas, que insisto em tentar manter organizado de acordo com um critério cronológico, embora eu não seja assinante, então esse critério cronológico só existe na minha cabeça. o que mais será que só existe na minha cabeça? tem também o bolo de papéis do caderno de receita, um caderno de receitas é das coisas mais importantes, por que um caderno de receitas não é um compilado de farinhas, açúcares, manteigas, chocolates e abobrinhas em xícaras, gramas, colheres de chá e café: é antes um registro de felicidade, um jeito de dizer junteza, um registro de que comemos pavê e fomos felizes, um dia caiu uma gota de leite numa das páginas, e eu pensei durante um minuto se devia limpar ou deixar a mancha se espalhar e se misturar com o azul da tinta, como atestado de que este caderno é verdadeiro. aqui se come. aqui se é feliz. deixei que a mancha ficasse. meu caderno de mãe nova, de dona de casa recém chegada, começava a tomar a forma dos livros de receitas das avós e das bisavós. me senti orgulhosa, e me dei conta de que em um outro dia, talvez, esse meu caderno seja consultado, olhado, e as receitas sejam experimentadas, talvez pensem credo, como era porquinha essa sua avó, olha a sujeira que tá isso, claro que não com essas palavras, por que até isso chegar os animais já terão conquistado direitos tais que se alguém acusar o porco de ser sujo será multado, ou mesmo morto, não vejo o futuro com muito bons olhos. talvez as receitas não dêem certo, por que o ovo transgênico e a farinha artificial pedem novas formas de liga com o leite oxigenado que meu velho caderno com receitas copiadas de minha velha avó não sabem como resolver. talvez o caderno não chegue a futuro nenhum, por que a bomba atômica, ou por que o dilúvio, ou por que o aquecimento derreta as páginas, ou as formigas comam as páguinas, por causa da grande quantidade de sacarose e frutose derramada nelas, mas sigo otimista anotando receita por receita, essa não deu certo, nessa coloque mais farinha, nessa não precisa tanto açúcar, a gente cresce, envelhece, e descobre que não precisa de tanto açúcar. e acordar é de um otimismo... mas não era disso que eu queria falar. tem o bolo dos papéis do curso de desenho, tem os bolos de papel da faculdade, cópias e mais cópias que quando eu era casada organizava em caixas verdes de polionda, com datas e titúlos e nome do curso e nome do professor, agora não faço mais isso, por que não tem mais ninguém para me chamar desorganizada, então eu não preciso mostrar que se eu quiser eu sei ser a mestra da organização. então vivo em meio ao caos, caos onde me acho, caos onde me crio, caos onde me perco. caos onde me gosto. mas também não era disso que eu queria falar, e não vou falar dos papéis-lembranças.
ela anda desviando de todos os buracos, ela anda caindo em todos os buracos. ele não pisa nas linhas brancas, ela diz que não pode andar sem ser pisando nas linhas brancas, ela evita as guias altas, desvia seu caminho para que venha a cair, justo e certo, nas guias rebaixadas. é por que ela anda de bicicleta, e tem pouca habilidade para empinar o guidão. ele não anda. a coisa mais gostosa do mundo é imaginar personagens para as pessoas que vemos na rua, cada pessoa é um personagem com um roteiro bombástico pela fente, muito melhor do que a vida real e medíocre que a espera, mas isso é muito clichê, e também não era disso que eu queria falar.
me perguntam o que teremos de almoço hoje, e eu me dou conta de que não faço a menor idéia. almoço? temos mesmo que almoçar? coma um lanche, tome, tem dinheiro aqui, vai ali na padaria e me traga dois lanches, pode comprar um sorvete de sombremesa. quando meu filho terá dezesseis anos? em 2019. não gosto desses números. 2000. 2000 e. não vou falar disso.
são tecidos e mais tecidos, retalhos e mais retalhos, na loja do centro não aceitam cartão, vou no banco ou na loja mais perto de casa, que é mais cara mas aceita cartão? preciso de ilhós. eu não queria fazer disso um diário, mas já é tarde, não é?
ele me diz que eles são loucos. não respondo. quem não é?
não páro de pensar que enlouquecer é a coisa mais fácil do mundo.
são milhões e milhões de papeizinhos, papeizinhos que me lembram, papeizinhos que me esquecem, papeizinhos que me espalham em idéias. mas acho que já falei disso.
a coisa mais gostosa do mundo é imprimir ritmo ao que se faz. mas isso é coisa de bailarina interrompida ou musicista reprimida. nem terpsícore nem euterpe. minha musa é mãe de todas. é mnemosine. eu queria que ela me aparecesse menos. mas como musa, está acostumada a ser esperada, e não se conforma com minha infelicidade a cada aparição. fique feliz, ela diz, eu sou a musa que não te deixa esquecer. eu sei, eu digo. por isso mesmo estou planejando sua morte. espero que tália me ajude.
o que eu queria dizer é que enlouquecer é a coisa mais fácil do mundo. não por que não se lembra. mas por que não se esquece. não se lembrar não seria loucura. seria o que todo mundo faz, na maioria das vezes. no não esquecer é justamente que começam os problemas.
então paciência. hoje eu acordei toda romântica. escolhi o meu vestido mais rodado, pus um sapatinho com salto e um colarzinho com perólas. passei um batom cor de rosa, e lembrei que tenho que ir ali estrangular e depenar uma galinha para o almoço. até mais, querido diário.
são um mihão de papeizinhos me lembrando de tudo o que tenho que fazer, outro milhão esperando para ser transcrito para o livro-caixa, outro monte esperando pra ver o que é propaganda, o que é conta, não recebo cartas, só contas e propagandas, por isso comecei a mandar cartas para mim mesma, mas ainda não chegaram, será que escrevi o endereço certo, será que o moço do correio não me levou a sério? tem mais um bolo a minha espera, o bolo dos rabiscos e desenhos, de croquis, de projetos, de idéias. cada idéia ponho no papel, para que a idéia não se perca, mas cada papel se perde, e perco junto a idéia. quando tento passar de novo para o papel uma mesma idéia, ela já se foi, já mudou, e fica no lugar uma idéia mais ou menos parecida, mais ou menos diferente, nunca igual. sempre a sombra. tem o monte de revistas, que insisto em tentar manter organizado de acordo com um critério cronológico, embora eu não seja assinante, então esse critério cronológico só existe na minha cabeça. o que mais será que só existe na minha cabeça? tem também o bolo de papéis do caderno de receita, um caderno de receitas é das coisas mais importantes, por que um caderno de receitas não é um compilado de farinhas, açúcares, manteigas, chocolates e abobrinhas em xícaras, gramas, colheres de chá e café: é antes um registro de felicidade, um jeito de dizer junteza, um registro de que comemos pavê e fomos felizes, um dia caiu uma gota de leite numa das páginas, e eu pensei durante um minuto se devia limpar ou deixar a mancha se espalhar e se misturar com o azul da tinta, como atestado de que este caderno é verdadeiro. aqui se come. aqui se é feliz. deixei que a mancha ficasse. meu caderno de mãe nova, de dona de casa recém chegada, começava a tomar a forma dos livros de receitas das avós e das bisavós. me senti orgulhosa, e me dei conta de que em um outro dia, talvez, esse meu caderno seja consultado, olhado, e as receitas sejam experimentadas, talvez pensem credo, como era porquinha essa sua avó, olha a sujeira que tá isso, claro que não com essas palavras, por que até isso chegar os animais já terão conquistado direitos tais que se alguém acusar o porco de ser sujo será multado, ou mesmo morto, não vejo o futuro com muito bons olhos. talvez as receitas não dêem certo, por que o ovo transgênico e a farinha artificial pedem novas formas de liga com o leite oxigenado que meu velho caderno com receitas copiadas de minha velha avó não sabem como resolver. talvez o caderno não chegue a futuro nenhum, por que a bomba atômica, ou por que o dilúvio, ou por que o aquecimento derreta as páginas, ou as formigas comam as páguinas, por causa da grande quantidade de sacarose e frutose derramada nelas, mas sigo otimista anotando receita por receita, essa não deu certo, nessa coloque mais farinha, nessa não precisa tanto açúcar, a gente cresce, envelhece, e descobre que não precisa de tanto açúcar. e acordar é de um otimismo... mas não era disso que eu queria falar. tem o bolo dos papéis do curso de desenho, tem os bolos de papel da faculdade, cópias e mais cópias que quando eu era casada organizava em caixas verdes de polionda, com datas e titúlos e nome do curso e nome do professor, agora não faço mais isso, por que não tem mais ninguém para me chamar desorganizada, então eu não preciso mostrar que se eu quiser eu sei ser a mestra da organização. então vivo em meio ao caos, caos onde me acho, caos onde me crio, caos onde me perco. caos onde me gosto. mas também não era disso que eu queria falar, e não vou falar dos papéis-lembranças.
ela anda desviando de todos os buracos, ela anda caindo em todos os buracos. ele não pisa nas linhas brancas, ela diz que não pode andar sem ser pisando nas linhas brancas, ela evita as guias altas, desvia seu caminho para que venha a cair, justo e certo, nas guias rebaixadas. é por que ela anda de bicicleta, e tem pouca habilidade para empinar o guidão. ele não anda. a coisa mais gostosa do mundo é imaginar personagens para as pessoas que vemos na rua, cada pessoa é um personagem com um roteiro bombástico pela fente, muito melhor do que a vida real e medíocre que a espera, mas isso é muito clichê, e também não era disso que eu queria falar.
me perguntam o que teremos de almoço hoje, e eu me dou conta de que não faço a menor idéia. almoço? temos mesmo que almoçar? coma um lanche, tome, tem dinheiro aqui, vai ali na padaria e me traga dois lanches, pode comprar um sorvete de sombremesa. quando meu filho terá dezesseis anos? em 2019. não gosto desses números. 2000. 2000 e. não vou falar disso.
são tecidos e mais tecidos, retalhos e mais retalhos, na loja do centro não aceitam cartão, vou no banco ou na loja mais perto de casa, que é mais cara mas aceita cartão? preciso de ilhós. eu não queria fazer disso um diário, mas já é tarde, não é?
ele me diz que eles são loucos. não respondo. quem não é?
não páro de pensar que enlouquecer é a coisa mais fácil do mundo.
são milhões e milhões de papeizinhos, papeizinhos que me lembram, papeizinhos que me esquecem, papeizinhos que me espalham em idéias. mas acho que já falei disso.
a coisa mais gostosa do mundo é imprimir ritmo ao que se faz. mas isso é coisa de bailarina interrompida ou musicista reprimida. nem terpsícore nem euterpe. minha musa é mãe de todas. é mnemosine. eu queria que ela me aparecesse menos. mas como musa, está acostumada a ser esperada, e não se conforma com minha infelicidade a cada aparição. fique feliz, ela diz, eu sou a musa que não te deixa esquecer. eu sei, eu digo. por isso mesmo estou planejando sua morte. espero que tália me ajude.
o que eu queria dizer é que enlouquecer é a coisa mais fácil do mundo. não por que não se lembra. mas por que não se esquece. não se lembrar não seria loucura. seria o que todo mundo faz, na maioria das vezes. no não esquecer é justamente que começam os problemas.
domingo, 29 de agosto de 2010
dormi das seis às seis, deus, como foi bom dormir das seis às seis. acordei, tomei café, li mais um capítulo de machado e dormi de novo até as nove e meia. nunca foi tão bom ficar gripada. foi o melhor fim de semana desde... desde... não sei, que mania de ficar mensurando as coisas, mas sei que foi bom, apesar de meu corpo ainda doer depois de tantas horas na mesma posição.
no fim da tarde saí pra lembrar que o mundo existe, comprei um jornal pra ter certeza de que eu não tinha perdido nada. ir até a banca é o passeio que gosto mais, mesmo que eu me irrite com a maioria das publicações. o menino resiste até o último piscar de olhos, dá pra ver que tem uma fada jogando areia, são baldes e mais baldes de areia fina nos olhos, e nada dele dormir. eu sei quando ele está mentindo, é tão engraçado, me sinto muito mal por desvendar seus segredos. mas acho que ele deve aprender que, se quer mentir, deve mentir bem mentido, por uma questão de respeito ao seu interlocutor: uma mentira mal contada é uma ofensa. não só a mentira, mas também e principalmente o mal-contar. o menino finalmente dormiu. cruza os pés e põe as mãos embaixo do rosto. a fada agora joga areia em mim. xô, xô, já dormi bastante, por uma vida, aliás. mas são baldes e baldes de areia fina nos olhos. não resisto tanto quanto o menino. pode ser da idade, pode ser do espírito... não sei.
mas que mãe é essa, que acha que o filho deve aprender a mentir bem, em vez de ensiná-lo a não mentir jamais... tudo é relativo, veja bem.
no fim da tarde saí pra lembrar que o mundo existe, comprei um jornal pra ter certeza de que eu não tinha perdido nada. ir até a banca é o passeio que gosto mais, mesmo que eu me irrite com a maioria das publicações. o menino resiste até o último piscar de olhos, dá pra ver que tem uma fada jogando areia, são baldes e mais baldes de areia fina nos olhos, e nada dele dormir. eu sei quando ele está mentindo, é tão engraçado, me sinto muito mal por desvendar seus segredos. mas acho que ele deve aprender que, se quer mentir, deve mentir bem mentido, por uma questão de respeito ao seu interlocutor: uma mentira mal contada é uma ofensa. não só a mentira, mas também e principalmente o mal-contar. o menino finalmente dormiu. cruza os pés e põe as mãos embaixo do rosto. a fada agora joga areia em mim. xô, xô, já dormi bastante, por uma vida, aliás. mas são baldes e baldes de areia fina nos olhos. não resisto tanto quanto o menino. pode ser da idade, pode ser do espírito... não sei.
mas que mãe é essa, que acha que o filho deve aprender a mentir bem, em vez de ensiná-lo a não mentir jamais... tudo é relativo, veja bem.
sábado, 28 de agosto de 2010
romeu, vulgo pelota
gripe maldita, nunca fico gripada, mas uma vez por ano acontece. o romeu deve morrer em breve, ontem chorei, teremos que sacrificá-lo... nunca tinha visto tanto amor nos olhos, talvez por que eu nunca tivesse olhado com atenção, ele veio e ficou por duas semanas, para que eu soubesse que esse amor existe, e agora vai embora, tão cedo, e tão pequeno. eu o abraço, o deixo no meu colo, cerco o bichinho de carinhos e cuidados. ele sofre, está quieto, se esconde pelos cantos, tem uns espasmos de tempos em tempos. fica se contraindo, choramingando, não abana mais o rabo com o mesmo pique de quando chegou aqui. eu e romeu somos dois morimbundos. ele, de verdade.
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Cinco Capítulos
Houve um tempo em que os homens acreditavam que a arte era capaz de torná-los mais humanos. Andava pelo quarto com um gravador na mão, às vezes parava na frente da janela e espiava entre as cortinas o movimento na rua. Mas não havia movimento algum. Nem um cachorro passava na frente da casa, nem um gato, nem um homem. O passarinho não veio pro jardim. O jardim estava seco. Não era inverno, era descuido. Mas era inverno. Ela quase hibernava, não fosse a história que contava às paredes e ao gravador. O problema de entender a literatura como realidade é que corre-se o risco de entender a realidade como ficção. E ela ficcionava. Escrevia para entender. Escrevia, mas escrevia mal, e por isso ela dizia. Até por que dizer é mais rápido do que escrever, e ela queria se livrar logo daquilo. Não que ela sentisse culpa, a questão não era exatamente essa. Não que não sentisse, também. De qualquer forma, ela se sentia satisfeita consigo mesma. Estava satisfeita e saciada. Quase orgulhosa. Por que a satisfação não é a mesma coisa que o orgulho: a satisfação é humilde, é comedida, é decente. O orgulho é impiedoso.
Sentia que seus pés começavam a formigar. Um comichão gostoso e quente. Suas mãos ficaram moles, não conseguia mais pausar o gravador. Só se deu conta do que havia acontecido no final do Capítulo IV. Mas já era tarde. Passou um homem na rua.
Sentia que seus pés começavam a formigar. Um comichão gostoso e quente. Suas mãos ficaram moles, não conseguia mais pausar o gravador. Só se deu conta do que havia acontecido no final do Capítulo IV. Mas já era tarde. Passou um homem na rua.
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
Fui programar o celular pra despertar e me dei conta de que meu relógio vermelho de corda sumiu. as opções para o despertar eram: 4 minutes to save the world - madonna; um toque intitulado speed; outro jet set; uma coisa meio bossa nova high tech; e um som parecido com um mantra. Aí pensei que é uma puta sacanagem a gente acordar na pilha de !uau! 4 minutos para salvar o mundo"! ainda que seja só o seu mundo, ou só o seu emprego, não é muito legal acordar no modo speed. o mundo anda estranho. ou a estranha sou eu.
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
o cachorro não pára de latir e eu me pergunto onde é que eu tava com a cabeça de achar que era legal ter um cachorro em casa se eu não tenho paciência nem comigo mesma e o que eu me esforço para ter se esgota na única criança da casa é claro que tb tem a questão do amor incondicional eu não acredito nessa história de amor incondicional minha mãe não me ama incondicionalmente me amaria muito mais se eu seguisse passo a passo o caminho que ela mesma fez mas eu fui pra direção contrária então ela ama mas amaria muito mais se eu fosse pra igreja e se eu prestasse um concurso pra trabalhar em qualquer repartição pública é uma certeza que eu tenho o fato é que o cachorro não pára de latir o amigo não pára de reclamar o ex-marido não pára de existir e nem de ser idiota se parasse de me ligar já era bastante mas não pára de me encher preciso ir fazer um vestido tenho que parar eu mesma com isso aqui alguém chegou não vou ver quem é vou lavar a louça depois vou terminar uma encomenda amanhã eu tenho aula nem sei do que é pra ser bem sincera amanhã é sexta não é quinta
que alívio o cachorro parou de latir sofre de carência talvez eu resolvesse o problema de nós dois se eu abrisse a porta e fosse lá fazer carinho eu podia até ligar a televisão e começar a babar era só deixar ele entrar que ele ficava do meu lado enquanto eu babava ele já ficava feliz não precisa de muito esforço par fazer um cachorro feliz a vantagem é essa mas não saio nem deixo que ele entre sofreremos hoje os dois por pura falta de carinho por pura falta de vontade por pura preguiça
esse mundo tá ficando uma merda antigamente ninguém sabia ler e escrever hoje tem bastante gente que sabe ler e escrever mas não se iluda em breve voltaremos a um estágio talvez até mesmo inferior agora ninguém mais precisa saber escrever o seu personal computer te ajuda pra facilitar ainda mais sua vida o novo acordo ortográfico tira o acento da jibóia e da idéia mas não se iluda não é pra facilitar sua vida é pra que nós brasileiros possamos explorar o mercado livreiro dos países africanos de língua portuguesa língua língua eu gosto dessa palavra língua apesar de rimar com íngua que eu nem sei o que é acho que vou caminhar ótima idéia vou caminhar mas eu tinha que lavar a louça eu lavo a louça depois vou caminhar e ponto final
que alívio o cachorro parou de latir sofre de carência talvez eu resolvesse o problema de nós dois se eu abrisse a porta e fosse lá fazer carinho eu podia até ligar a televisão e começar a babar era só deixar ele entrar que ele ficava do meu lado enquanto eu babava ele já ficava feliz não precisa de muito esforço par fazer um cachorro feliz a vantagem é essa mas não saio nem deixo que ele entre sofreremos hoje os dois por pura falta de carinho por pura falta de vontade por pura preguiça
esse mundo tá ficando uma merda antigamente ninguém sabia ler e escrever hoje tem bastante gente que sabe ler e escrever mas não se iluda em breve voltaremos a um estágio talvez até mesmo inferior agora ninguém mais precisa saber escrever o seu personal computer te ajuda pra facilitar ainda mais sua vida o novo acordo ortográfico tira o acento da jibóia e da idéia mas não se iluda não é pra facilitar sua vida é pra que nós brasileiros possamos explorar o mercado livreiro dos países africanos de língua portuguesa língua língua eu gosto dessa palavra língua apesar de rimar com íngua que eu nem sei o que é acho que vou caminhar ótima idéia vou caminhar mas eu tinha que lavar a louça eu lavo a louça depois vou caminhar e ponto final
Daí ele diz que se eu precisar, eles ajudam, vai tomar no meio do seu cú, babaca de merda, e vão tomar no cú eles também, nem babacas de merda não são, não consigo nem nomear, vão para a puta que te pariu, é, é com vcs mesmo que eu tô falando, vcs sabem que foram todos uns filhos de uma puta aleijada e sem dentes, cheia de sífilis, aids e gonorréia, aquela que ninguém mais quer, que fica deitada na sarjeta, suja de mijo, merda, vômito e esgoto, que nem cachorro vem cheirar, por que cheira podre à distância, exala podridão, tem cheiro de sangue seco e de estrume, se chegar perto dá pra ver os vermes, vc acha que ela vomitou arroz, mas arroz não se mexe, são os vermes que começaram a comê-la viva por que tá demorando pra morrer. é essa a mãe de vcs. filhos da puta, vcs são uns filhos da puta.
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
No criado mudo o tic-tac do relógio assusta o sono. São três quartos, em cada quarto um relógio marca o tempo em tempos diferentes: tic (tac ao mesmo tempo em que acontece outro tic: tac-tic-tic-tac-tic-tic-tac-cti-cat-act-tic-ict-tac). Tudo fica embaralhado, entre o tic e o tac existe outro tic. Imagine um relógio marcando o contratempo de outro relógio. É mais ou menos isso. Coloque mais um relógio e você entenderá o que quero dizer. É uma sinfonia de relógios que não me deixa dormir. Imagino que acordo no meio da noite e tento em vão desligar todos os relógios. Não é um, nem são três. São muitos. Centenas deles. Em um quarto são todos vermelhos. Em outro, todos azuis. E no terceiro, todos brancos. Daqueles de pés e antenas, redondinhos, com aquela campainha ensurdecedora. Corro tentando desligar todos, é impossível, mas achei a cena bonita, quantos relógios devem ter nesse sonho? Sonho? Ainda estou acordada. Uns sonham por que dormem, outros sonham por que sonham.
São três quartos. Em cada quarto um relógio. Em cada relógio um tempo. Em cada tempo um sonho. Em cada sonho três quartos. Em cada quarto trezentos relógios. Em cada relógio dois tempos. Em cada tempo uma vida. Ou menos. Não mais. Ou mais. Não menos. Em cada vida, tantos sonhos quantos couberem.
São três quartos. Em cada quarto um relógio. Em cada relógio um tempo. Em cada tempo um sonho. Em cada sonho três quartos. Em cada quarto trezentos relógios. Em cada relógio dois tempos. Em cada tempo uma vida. Ou menos. Não mais. Ou mais. Não menos. Em cada vida, tantos sonhos quantos couberem.
quinta-feira, 29 de julho de 2010
os livros que vc tirou da estante, os enfeites, aquele que vc tirou da parede e levou, eu fiquei sabendo que quebrou. não se pega presente de volta, vc deveria saber. só podia ter quebrado mesmo. que nem o que vc dizia que sentia por mim, só podia ter quebrado. era vidro. e se quebrou. e hoje é muito bom que tenha quebrado mesmo, por que posso fazer as coisas por mim. sem que vc me diga se estou certa ou errada, se estou sendo boa ou má. sem julgamentos. vc é um péssimo juiz, então até que saí no lucro, se é que vc me entende. e por mais que eu tenha sofrido, e chorado - e por mais que eu ainda chore, e ainda sofra de vez em quando - não, não é você quem eu quero ao meu lado.
sexta-feira, 23 de julho de 2010
Eu queria contar umas coisas
Tem uns caras que moram dentro de mim. Uns caras e umas mulheres também. Estão espalhados no corpo todo, uns no baço, outros nos pés, alguns nos pulsos. Hilda, por exemplo, está no fígado. Não sou eu que escolho onde vão ficar. Eles entram e se acomodam onde bem entendem. Atrás dos olhos está o Pessoa. A Clarice fica ora no esôfago, ora no estômago. Não pára quieta nunca. A Florbela está perto do pulso da mão esquerda. Adélia e Cecília dividem os pulmões. Drummond, esse anda mais que Clarice. Quando fui sentir, saiu, já foi. Talvez porque a morada dele seja o sangue. Ainda não descobri. No coração estão o Bandeira e o Quintana. Mas o que eu queria dizer mesmo, é que agora tem mais gente em mim. É uma mulher. E essa foi direto pro timo. Aquele orgão pequeno acima do coração, dizem que o verdadeiro responsável pelas sensações e emoções, dizem também que foi se atrofiando porque já não o usamos mais. Bom, eu acredito em timos. Essa moça, primeiro eu vi, depois eu li. E olha, demorei pra ler, viu? Quer dizer, demorei pra começar a ler, porque depois que comecei fui num tapa só. Depois voltei. E gostei de novo. E ela escreve de um jeito, que primeiro eu achei que fosse parar na garganta (depois de um tempo de observação, eu gosto de adivinhar onde é que vão procurar parada). Mas que nada, passou direto. Aí achei que fosse pras pontas dos dedos, não sei por que me ocorreu que talvez fosse um bom lugar. Mas que nada. Tá aqui no meu peito, perto do coração, um pouquinho mais pra direita e mais pra cima, dizem. Eu sei que está ali porque eu sinto latejando, sabe? É quente, e nos primeiros dias só isso me ocupa. Eu vou colocar um trecho pra vocês sentirem comigo.
Abismo
então, de repente, você teria se voltado para ela, perguntando das possibilidades de chuva e inundação. ela seguiria pisando os paralelepípedos emersos, sem perder o equilíbrio. e você quereria ouvir o que o futuro lhe reservava naquela noite.
depois de tomarem banho e conseguirem uma cama seca, sairiam - regressando pelo mesmo caminho, até avistarem o lugar morno e iluminado. sentariam junto à porta, pediriam vinho, peixe e pão, como num ritual.
quando a luz apagasse, vocês já teriam comido e relembrado coisas antigas, viagens recentes e desejos. a chuva cairia forte outra vez, refrescando o sufoco da noite.
cada traço do rosto dela estaria iluminado sob a luz dos relâmpagos. a cada clarão, um outro jeito a confundir seus gestos: de dor, de tristeza. ou uma alegria distante.
ela, por sua vez, veria apenas um contorno de corpo recortado contra o fundo da porta. lá fora ela veria o céu iluminado pelos raios, a torre da igreja, as telhas brilhando.
a cada pausa, ela teria outras formas de pedir descanso da loucura que estava sendo viver.
você, como sempre, perderia a paciência: ao invés de reparar na magia, sentiria um ódio quase incontrolável da situação. e aí, entre vocês, estaria instalado o abismo.
Não consegui escolher um trecho, só.
Não sei como conseguir escolher um, ente tantas possibilidades:
Paulics, V.
Vejam:
www.andoape.blogspot.com
Abismo
então, de repente, você teria se voltado para ela, perguntando das possibilidades de chuva e inundação. ela seguiria pisando os paralelepípedos emersos, sem perder o equilíbrio. e você quereria ouvir o que o futuro lhe reservava naquela noite.
depois de tomarem banho e conseguirem uma cama seca, sairiam - regressando pelo mesmo caminho, até avistarem o lugar morno e iluminado. sentariam junto à porta, pediriam vinho, peixe e pão, como num ritual.
quando a luz apagasse, vocês já teriam comido e relembrado coisas antigas, viagens recentes e desejos. a chuva cairia forte outra vez, refrescando o sufoco da noite.
cada traço do rosto dela estaria iluminado sob a luz dos relâmpagos. a cada clarão, um outro jeito a confundir seus gestos: de dor, de tristeza. ou uma alegria distante.
ela, por sua vez, veria apenas um contorno de corpo recortado contra o fundo da porta. lá fora ela veria o céu iluminado pelos raios, a torre da igreja, as telhas brilhando.
a cada pausa, ela teria outras formas de pedir descanso da loucura que estava sendo viver.
você, como sempre, perderia a paciência: ao invés de reparar na magia, sentiria um ódio quase incontrolável da situação. e aí, entre vocês, estaria instalado o abismo.
Não consegui escolher um trecho, só.
Não sei como conseguir escolher um, ente tantas possibilidades:
Paulics, V.
Vejam:
www.andoape.blogspot.com
Essa foi a noite dos sonhos. Sonhei que sangrava, sonhei que abortava, sonhei que amava de novo, sonhei que casava, sonhei tanta coisa que nem lembro mais. E rodei na cama feito bússola, ora apontava pro sul, ora pro norte, acordava sem acordar e estava dormindo em uma posição diferente. Até que cansei de mudar e fiquei dormindo na diagonal - vantagem de não dividir cama com ninguém. Estraguei o colchão da cama de alguém que eu não sei quem é com tanto sangue, onde eu estava? Vertia sangue, sangue. Encharcou o colchão, escorreu pro chão, foi enchendo o chão, escorreu pela escada, encharcou o tapete, sujou os pés dos móveis da sala, que era minha, mas não era minha. O mundo foi sendo tingido de sangue. Eu ficava pálida, pálida, como quem se esvai mesmo. Eu pensava no Leo, não posso morrer, não posso morrer. Mesmo em sonho, abortar foi horrível. Foi o que ficou mais nítido agora, acordada. Mas a parte do amar de novo foi bem mais legal. Principalmente por que era o homem - literalmente e infelizmente- dos meus sonhos.
Eu tava pensando em entrar pro convento, na ordem das carmelitas descalças, que eu já vivo com os pés gelados, mesmo. Mas tive uma idéia melhor: Vou entrar na Acadepol. Vou usar calça cargo preta, coturno, camiseta branca, trança embutida, vou andar armada e frequentar a escola de tiro que tem perto da usp. E vou usar ...um bornal daqueles de prender na perna, cheio de munição. No meu carro vai ter sempre meia dúzia de armas. E se perguntarem de novo, vou votar contra o desarmamento, por que o cidadão tem que ter o direito de se defender. Depois eu vou ver se acho os caras do PCC e das FARC. E vou sair América Latina adentro propondo a revolução. Que tal?
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Cabelos brancos
Ele: Te mandei flores.
Ela: Comi.
Ele: Te disse bom dia.
Ela: Eu dormi.
Ele: Te digo adeus.
Ela: Já vai tarde.
Ele: Você me amou?
Ela: Não. Só me enganei.
Ela: Comi.
Ele: Te disse bom dia.
Ela: Eu dormi.
Ele: Te digo adeus.
Ela: Já vai tarde.
Ele: Você me amou?
Ela: Não. Só me enganei.
sábado, 17 de julho de 2010
Prato com brigadeiro quebrado no chão, criança assoviando, criança correndo, criança caindo, criança chorando, criança dormindo sem escovar o dente, criança pedindo história, criança fazendo birra pra tomar banho, criança pedindo pra dormir na sua cama, só hoje, por que está com saudade... Criança em casa de novo, tudo certo, tudo justo e certo como deve ser.
Banco de imagens, número 9.
E esse deus grego, quem é?
Gostou?
Não é bem essa a palavra...
Vc pegava?
Fácil! Olha esse sorriso, meu deus, vem cá sorrir prá mim!
Ele tem namorada, Pri.
Melhor ainda, eu aproveito pra treinar meu desapego.
Pri!
Ué, o que que tem, não quero casar, grande coisa ele ter namorada!
Pri!
Ah, vc sabe que eu nunca fiquei com cara comprometido, pelo menos não que eu soubesse, é contra os meus princípios, mas pra que servem os princípios? Pra esse eu abro uma excessão.
Como você é sem vergonha!
Sem vergonha nada, um cara bonito e gostoso assim não é todo dia que a gente vê dando sopa por aí.
Pri, ele não tá dando sopa!
Ah, tá sim, a gente veio junto no elevador. Sopa é pouco.
Ah é, ele deu em cima de você?
Nem em cima nem embaixo, foi de pé, rapidinho.
O quê?
Brincadeira, não deu tempo. Mas eu nunca rezei tanto pra um elevador quebrar. Como ele veio parar na sua casa?
É o meu namorado.
Ok! Tchau, Re!
Tchau, querida.
Gostou?
Não é bem essa a palavra...
Vc pegava?
Fácil! Olha esse sorriso, meu deus, vem cá sorrir prá mim!
Ele tem namorada, Pri.
Melhor ainda, eu aproveito pra treinar meu desapego.
Pri!
Ué, o que que tem, não quero casar, grande coisa ele ter namorada!
Pri!
Ah, vc sabe que eu nunca fiquei com cara comprometido, pelo menos não que eu soubesse, é contra os meus princípios, mas pra que servem os princípios? Pra esse eu abro uma excessão.
Como você é sem vergonha!
Sem vergonha nada, um cara bonito e gostoso assim não é todo dia que a gente vê dando sopa por aí.
Pri, ele não tá dando sopa!
Ah, tá sim, a gente veio junto no elevador. Sopa é pouco.
Ah é, ele deu em cima de você?
Nem em cima nem embaixo, foi de pé, rapidinho.
O quê?
Brincadeira, não deu tempo. Mas eu nunca rezei tanto pra um elevador quebrar. Como ele veio parar na sua casa?
É o meu namorado.
Ok! Tchau, Re!
Tchau, querida.
sábado, 10 de julho de 2010
Eu estou em casa mas me sinto fora do lugar. Deve ser por que afinal não existe um lugar onde a gente. Eu não caibo nessa cidade, eu não caibo nesse bairro, eu não caibo nessa casa, eu mal caibo em mim. Estou no quase choro. Mas não tem lágrima, então não tem choro, então parece ser mais difícil mandar a angústia embora. Chorando é mais fácil, eu acho.
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Priscila vai se submeter a uma certa edição de conteúdo.
Andam me entendendo literalmente. Se for literal, ninguém entende nada. Tem que ter uma margem de manobra, um respiro, uma dúvida, um não acreditar totalmente em tudo o que eu digo. Uma desconfiança confiante de que o que eu digo não é exatamente o que eu sou. Nem o que eu sinto. Já pensou se fosse fácil assim? Eu digo, eu sou. Ah, as relações não seriam tão... tão... tão. Não é de mentir que eu estou falando. Não é de brincar de ver bola de cristal também. É de malícia, sabe? Malícia é fundamental, já disse. Não, não coloque nisso uma conotação sexual. Não é disso que eu estou falando. Eu nem sei do que estou falando. Ah, sim, sobre entender literalmente o que eu digo. Há um tempo eu dizia pra mim mesma que nem tudo precisa fazer sentido. Por que eu não conseguia ver sentido no que estava se passando ao meu redor. Então aceitei que aquilo era assim. Não fazia sentido, pronto. Se eu fugi? Claro. Fugi, sim. Ainda me arrependo de não ter fugido mais, pra mais longe. De não ter mudado de cidade. Fugi para não sucumbir. Vc não fugiria também? A verdade? Eu desejei sim, muitas e muitas vezes, que ele morresse. Se ainda desejo? Não vou te dizer. Agora faz mais sentido, tudo, isso eu posso te dizer. Quer dizer, tudo que está aí, que eu posso ver, tocar, sentir. Eu, eu continuo não fazendo sentido algum. Principalmente se tentam me entender literalmente.
Andam me entendendo literalmente. Se for literal, ninguém entende nada. Tem que ter uma margem de manobra, um respiro, uma dúvida, um não acreditar totalmente em tudo o que eu digo. Uma desconfiança confiante de que o que eu digo não é exatamente o que eu sou. Nem o que eu sinto. Já pensou se fosse fácil assim? Eu digo, eu sou. Ah, as relações não seriam tão... tão... tão. Não é de mentir que eu estou falando. Não é de brincar de ver bola de cristal também. É de malícia, sabe? Malícia é fundamental, já disse. Não, não coloque nisso uma conotação sexual. Não é disso que eu estou falando. Eu nem sei do que estou falando. Ah, sim, sobre entender literalmente o que eu digo. Há um tempo eu dizia pra mim mesma que nem tudo precisa fazer sentido. Por que eu não conseguia ver sentido no que estava se passando ao meu redor. Então aceitei que aquilo era assim. Não fazia sentido, pronto. Se eu fugi? Claro. Fugi, sim. Ainda me arrependo de não ter fugido mais, pra mais longe. De não ter mudado de cidade. Fugi para não sucumbir. Vc não fugiria também? A verdade? Eu desejei sim, muitas e muitas vezes, que ele morresse. Se ainda desejo? Não vou te dizer. Agora faz mais sentido, tudo, isso eu posso te dizer. Quer dizer, tudo que está aí, que eu posso ver, tocar, sentir. Eu, eu continuo não fazendo sentido algum. Principalmente se tentam me entender literalmente.
corpo
sexta, 4 de junho de 2010 às 16:07
Mas que que significa esse monte de gente na rua? É quase feriado, tá frio pra caramba, vão embora dormir, poxa! Por mim...
Corpo? Que corpo? "Corpo" sugere uma certa união entre partes, partes que no todo fazem sentido, não é esse o caso disso aqui. Nada faz sentido, ou talvez eu esteja sendo muito exigente comigo mesma. Eu não sou muito boa com a questão do auto-controle, verdade seja dita. Ou talvez isso não seja exatamente uma verdade, talvez eu, os loucos, os desvalidos, os desvairados, talvez nós tenhamos mais razão do que vocês. Talvez nossas vidas tenham mais sentido do que as suas. Eu não trabalho em banco. Eu faço cor. Eu acho que posso brincar de Deus e tentar reproduzir a cor da rosa no meu jardim particular e artificial. Artifício. Uso tantos artifícios pra conseguir o que eu quero, que nem sei o que ou quem eu sou. Me escondo dos outros, e já não posso me achar. Eu me apaixonei de novo. À toa. Que nem tonta.
Mas que que significa esse monte de gente na rua? É quase feriado, tá frio pra caramba, vão embora dormir, poxa! Por mim...
Corpo? Que corpo? "Corpo" sugere uma certa união entre partes, partes que no todo fazem sentido, não é esse o caso disso aqui. Nada faz sentido, ou talvez eu esteja sendo muito exigente comigo mesma. Eu não sou muito boa com a questão do auto-controle, verdade seja dita. Ou talvez isso não seja exatamente uma verdade, talvez eu, os loucos, os desvalidos, os desvairados, talvez nós tenhamos mais razão do que vocês. Talvez nossas vidas tenham mais sentido do que as suas. Eu não trabalho em banco. Eu faço cor. Eu acho que posso brincar de Deus e tentar reproduzir a cor da rosa no meu jardim particular e artificial. Artifício. Uso tantos artifícios pra conseguir o que eu quero, que nem sei o que ou quem eu sou. Me escondo dos outros, e já não posso me achar. Eu me apaixonei de novo. À toa. Que nem tonta.
Protocolo
A visita é protocolar: entro, sorrio, abraço. Beijos.
- Como vc está?
- Ótima, e vc?
- Bem também, obrigada.
Ela é mais protocolar do que eu. Sorrisinhos.
- Chá?
- Não, obrigada. Água eu aceito.
- Claro! Vou buscar.
Silêncio.
- Sua água.
- Obrigada.
- Não tem de quê.
Silêncio. Acho que ela vai dizer alguma coisa. Escuto um começo de interjeição.
- A...
- A?
- Ah, é... O seu pai saiu, foi comprar pão, já deve estar de volta logo.
- Ahn...
Os dedos ficam tirintando no copo. Ela coça a cabeça com a ponta dos dedos. Nossos dedos tem algo em comum. Inquietos. Desconfortáveis. Acaba aí a semelhança.
- Como vc está?
- Ótima, e vc?
- Bem também, obrigada.
Ela é mais protocolar do que eu. Sorrisinhos.
- Chá?
- Não, obrigada. Água eu aceito.
- Claro! Vou buscar.
Silêncio.
- Sua água.
- Obrigada.
- Não tem de quê.
Silêncio. Acho que ela vai dizer alguma coisa. Escuto um começo de interjeição.
- A...
- A?
- Ah, é... O seu pai saiu, foi comprar pão, já deve estar de volta logo.
- Ahn...
Os dedos ficam tirintando no copo. Ela coça a cabeça com a ponta dos dedos. Nossos dedos tem algo em comum. Inquietos. Desconfortáveis. Acaba aí a semelhança.
Dessa vida que a gente vive
Eu peguei a estrada ontem, decerto não foi uma idéia muito inteligente, em dia de jogo da copa pegar a rodovia, mas não tinha outro jeito, e eu fui. Quase sofri um acidente na ida, e quase virei patê na volta. Quase. E aí fiquei pensando que só o que a gente tem que fazer nessa vida é viver. Por que pra morrer, basta estar vivo. Basta. Cheguei em casa e enchi meu filho de beijo, li quantas histórias ele quis, dormi abraçadinha com ele. E acordei com um novo fôlego pra vida. É piegas, eu sei, mas obrigada, Vida. Minha tristeza foi embora rapidinho.
Não, eu não vou tirar o acento da idéia.
Não, eu não vou tirar o acento da idéia.
A gente é para o que nasce
Eu tenho andado excessivamente namoradeira, aí ontem resolvi me acalmar e me concentrar nos meus projetos, fiz agenda, calendário, cronograma, o escambau a quatro, voltei a correr, arrumei o guarda-roupa - todo mundo sabe que em momentos de caos na vida é fundamental organizar o guarda-roupa. Mas aí, hoje eu estava tranquilamente andando na rua quando vi um cara igualzinho o Tom Zé, aí pensei, não é possível, será que é ele mesmo? Meu coração disparou, Tom Zé, me dá um autógrafo, Tom Zé, casa comigo, Tom Zé, me leva pra casa, Tom Zé... Aí nos aproximamos e vi que não era o Tom Zé. Mas que parecia, parecia. Continuei andando, não tão tranquila quanto eu estava antes de encontrar o sósia do Tom, mas tranquila. E aí apareceu na minha frente um cara lindo. Lindo! Ficou me encarando sem a menor cerimônia. Eu, como boa moça direita que sou, dei uma olhadinha de relance e pensei já ter visto aquele cara em algum lugar. Cheguei no consultório, sentei, esperei, a campainha tocou, achei que fosse minha terapeuta. Era o cara lindo que estava na banca quando eu passei. Sem a barba que ele costuma usar, eu sabia que ele me era familiar. Pois é, eu tenho andado excessivamente namoradeira, e estava decidida a parar com isso, mas veja, não sou eu, é o cosmo, são os astros, é sei lá o quê que faz isso com a gente, sei que eu vou tomar um café com o moço que faz terapia no mesmo lugar que eu. Até por que, se eu estou lá é por que lá tem gente interessante, como diz uma amiga minha.
quinta-feira, 24 de junho de 2010
domingo, 20 de junho de 2010
quarta-feira, 16 de junho de 2010
Suruba
Mas veja, eu não gosto nem um pouco de gente sem imaginação. Não que eu me julgue lá muito criativa, não é disso que se trata, entende? É que gente sem imaginação parece que se reproduz mais fácil e mais rápido que gente com imaginação, por que o mundo tá cheio de gente apática. Blergh! Dedo na garganta pra vocês. Eu não tenho nada pra narrar que não seja eu mesma. E eu mesma não tem lá muita graça. Então eu invento. Tudo bem tudo. Tudo bem tudo. É isso: tudo se for bom, neca se for ruim. É, eu gosto de viver em grupo. Em bando. Em dupla. Em trio. Em quartetos, quintetos, sextetos, nonetos. Promíscua? Não. Apaixonada. Apaixonada, sim. Pela vida. Que ser nós somos? Eu sei que ele acha ruim que uma mulher se exponha como eu me exponho. Assim como minha mãe, meu pai, meus avós, e todas as outras pessoas conservadoras que eu conheço. Se tem uma coisa que eu ouvi nessa minha vida foi: "nossa! como vc tem coragem de se expor assim?".
Olha, eu não sei. Não sei o que é que acontece, quando eu vejo tá todo mundo olhando pra mim. E eu estou vestida, não estou bêbada nem falando palavrão.
Estou apenas sendo. Sendo eu. Sendo como eu acho que eu sou. Como eu acho que devo ser. Cá comigo, eu e eu, entende? Ah, ele também me disse pra ser concisa. "A síntese é fundamental". Enfia tua síntese no cú. Eu sou rococó. Eu sou barroca. Retorcidamente boa, retorcidamente má. Alegria e tristeza. Maniqueísta? Não. Promíscua. Nesse caso sim. E é tanta promiscuidade, mas tanta, que tudo se embaralha, e não dá mais pra ver o que é braço, o que é perna, o que é mão, o que é cabeça. Isso me soa contraditório, a bem da verdade. Se gosto tanto de viver em bando, por que também gosto tanto de eu com eu mesma? A ponto de não ter medo de me abrir, de ser inteira, de me "expor". Eu me exponho. Sem medo de retaliações. Mas as retaliações sempre vem, e nem por isso eu resolvo me fechar. A ponto de vomitar tudo isso aqui, e publicar. Deixar que os outros leiam. A troco de que eu faço isso?
Bem, como eu disse, eu não tenho nada de interessante para narrar senão eu mesma. Então eu me narro. Mas como eu também já disse, eu mesma não sou lá muito interessante. Então eu invento. Me invento. Cuidado.
Olha, eu não sei. Não sei o que é que acontece, quando eu vejo tá todo mundo olhando pra mim. E eu estou vestida, não estou bêbada nem falando palavrão.
Estou apenas sendo. Sendo eu. Sendo como eu acho que eu sou. Como eu acho que devo ser. Cá comigo, eu e eu, entende? Ah, ele também me disse pra ser concisa. "A síntese é fundamental". Enfia tua síntese no cú. Eu sou rococó. Eu sou barroca. Retorcidamente boa, retorcidamente má. Alegria e tristeza. Maniqueísta? Não. Promíscua. Nesse caso sim. E é tanta promiscuidade, mas tanta, que tudo se embaralha, e não dá mais pra ver o que é braço, o que é perna, o que é mão, o que é cabeça. Isso me soa contraditório, a bem da verdade. Se gosto tanto de viver em bando, por que também gosto tanto de eu com eu mesma? A ponto de não ter medo de me abrir, de ser inteira, de me "expor". Eu me exponho. Sem medo de retaliações. Mas as retaliações sempre vem, e nem por isso eu resolvo me fechar. A ponto de vomitar tudo isso aqui, e publicar. Deixar que os outros leiam. A troco de que eu faço isso?
Bem, como eu disse, eu não tenho nada de interessante para narrar senão eu mesma. Então eu me narro. Mas como eu também já disse, eu mesma não sou lá muito interessante. Então eu invento. Me invento. Cuidado.
terça-feira, 15 de junho de 2010
Na copa
Foi no jogo de estréia da seleção. Brasil versus Coréia do Norte. Assistiu com eles os vinte primeiros minutos de jogo, mas logo foi para a cozinha terminar de preparar a janta. Comprou milho em conserva para por no empadão de frango que ia fazer (era o que ele mais gostava de comer, e o que ela fazia melhor), mas se lembrou que tinha milho fresco na geladeira. Resolveu cozinhá-los. Abasteceu as cumbucas com amendoim, tirou as cervejas do freezer para que não congelassem, levou as iscas de carne quentinhas para que se servissem.
-Alguém quer mais cerveja?
-Eu.
-Eu.
-E eu.
-Você não, João?
-Não, obrigada.
Esse João era o mais estranho dos amigos dele. Mas ela adorava ver a casa cheia, não se importava que um outro fossem um pouco estranhos.
Desfiou o frango, fez o molho de tomate, picou o cheiro verde, e a panela com o milho começou a pegar pressão. tchq-tchq-tchq-tchq-thcq-tchhhhhhhhhq-tchq-tchq.
-Mãe, que barulho é esse agora?
-Ah, estou cozinhando milho pro empadão, filho.
-Agora é hora, mãe?
-Ué, por que não?
-Por que tá atrapalhando, mãe, desliga essa droga aí.
-Ah, desculpa, só mais dez minutinhos e já tá pronto, filho.
O João levantou, levou a senhora pra cozinha, pegou no seu braço e falou:
-Se ele mandou desligar, desliga.
Segurou ela pelo cabelo e enfiou a cara na panela de molho de tomate.
Pegou a faca suja de franco e deu uma estocada no abdomen. A panela de pressão caiu no chão e explodiu. E ninguém ouviu ela gritando. Foi gol do Brasil. Pelo Maicon, no começo do segundo tempo.
João voltou para a sala com mais quatro cervejas nas mãos. E uma mancha vermelha na camisa, que ninguém viu se era sangue ou molho de tomate.
-Alguém quer mais cerveja?
-Eu.
-Eu.
-E eu.
-Você não, João?
-Não, obrigada.
Esse João era o mais estranho dos amigos dele. Mas ela adorava ver a casa cheia, não se importava que um outro fossem um pouco estranhos.
Desfiou o frango, fez o molho de tomate, picou o cheiro verde, e a panela com o milho começou a pegar pressão. tchq-tchq-tchq-tchq-thcq-tchhhhhhhhhq-tchq-tchq.
-Mãe, que barulho é esse agora?
-Ah, estou cozinhando milho pro empadão, filho.
-Agora é hora, mãe?
-Ué, por que não?
-Por que tá atrapalhando, mãe, desliga essa droga aí.
-Ah, desculpa, só mais dez minutinhos e já tá pronto, filho.
O João levantou, levou a senhora pra cozinha, pegou no seu braço e falou:
-Se ele mandou desligar, desliga.
Segurou ela pelo cabelo e enfiou a cara na panela de molho de tomate.
Pegou a faca suja de franco e deu uma estocada no abdomen. A panela de pressão caiu no chão e explodiu. E ninguém ouviu ela gritando. Foi gol do Brasil. Pelo Maicon, no começo do segundo tempo.
João voltou para a sala com mais quatro cervejas nas mãos. E uma mancha vermelha na camisa, que ninguém viu se era sangue ou molho de tomate.
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