não combina com esse sorriso, não é? e o que combina com o que? nada combina. eram tantas as listras, cheguei a pensar que o mundo todo fosse listrado. andando rápido, as listras da grade se confundiam com o chão listrado de placas de concreto, e então vieram mais listras, do muro da ponte, e lá embaixo, carros e mais carros formavam um outro tipo de listras, e os carros ao meu lado, cada um na sua faixa, mais listras, pra onde vão tantas listras, o que fazer num mundo todo listrado,
comecei a chorar, e se acabasse tudo agora, mas não em cima de um dos carros, não queria estragar o dia de ninguém, no rio, então. nesse rio eu não tenho coragem, posto que não é rio, pensei no meu filho, chorei mais ainda, tonta com o excesso de listras no mundo, e então os carros da polícia, e o helicóptero, e o trem, e os carros, a ponte balançava, soldados nunca marcham em pontes, era tanto barulho, que parecia que não era pra eu escutar nem o que estava pensando, então continuei andando, acabaram as listras, acabou a tonteira, me vi quase me arranhando no muro, como se quisesse virar muro, como se quisesse virar tijolo, como se quisesse virar barro, como se quisesse virar pó.
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
domingo, 20 de fevereiro de 2011
saudade de tudo e saudade de nada
saudade de andar pela cidade inteira e por lugar nenhum
saudade de ser surpreendida por uma chuva de verão
pelo menos era o que dizia quando chegava em casa completamente ensopada
não gosto dessa palavra
ensopada não
completamente molhada
molhada também não
a caminhada fazia com que a roupa fosse secando aos poucos
descabelada sim
tinha uma sandália de plástico
por isso nunca ficava com os sapatos encharcados
andava procurando
andava a procurar
não sei o que era que buscava
nem sei se já encontrei
sei que andei, e bastante
às vezes buscando, às vezes só andando
saudade do começo, nenhuma saudade do fim
que não é fim, é meio, por que ainda não acabou
é meio mas não é metade
por que ainda não se sabe o que é o inteiro
é outono ou inverno?
é agosto
daqui a pouco é setembro
daqui a pouco o ano acabou
daqui a pouco
acabou
e aí saberemos (ou não, talvez não haja tempo pra isso) o que é o inteiro e o que ficou pelo meio
anda por que não sabe se passa ou se fica
sabe que canta
mal
mas canta
a plenos pulmões
não é exatamente um canto, é um encanto
não por que encanta
mas por que é encantado
por que expulsa demônios muitos
exorciza diábolos
o coisa-ruim
o sem nome
o inominável
o impronunciável
o filho que por ter caído, tenho certeza que é também o mais querido
senão o mais querido, o mais invejado
mas eu não acredito mais nessas coisas
da minha infância cristã
eu não acredito mais nessas coisas, mas não me fale de Jesus se me vir embriagada
por que Jesus protege os bêbados, os loucos e as criancinhas
e às vezes conto com ele pra que nenhuma merda aconteça
é melhor falar bobagens que calar besteiras, já dizia Guimarães
nisso eu acredito, estando embriagada ou não
preciso arranjar outro sapato de plástico
pra voltar a ser surpreendida por chuvas de verão
e não ficar com os pés molhados
que andar descalça às vezes dói
saudade de andar pela cidade inteira e por lugar nenhum
saudade de ser surpreendida por uma chuva de verão
pelo menos era o que dizia quando chegava em casa completamente ensopada
não gosto dessa palavra
ensopada não
completamente molhada
molhada também não
a caminhada fazia com que a roupa fosse secando aos poucos
descabelada sim
tinha uma sandália de plástico
por isso nunca ficava com os sapatos encharcados
andava procurando
andava a procurar
não sei o que era que buscava
nem sei se já encontrei
sei que andei, e bastante
às vezes buscando, às vezes só andando
saudade do começo, nenhuma saudade do fim
que não é fim, é meio, por que ainda não acabou
é meio mas não é metade
por que ainda não se sabe o que é o inteiro
é outono ou inverno?
é agosto
daqui a pouco é setembro
daqui a pouco o ano acabou
daqui a pouco
acabou
e aí saberemos (ou não, talvez não haja tempo pra isso) o que é o inteiro e o que ficou pelo meio
anda por que não sabe se passa ou se fica
sabe que canta
mal
mas canta
a plenos pulmões
não é exatamente um canto, é um encanto
não por que encanta
mas por que é encantado
por que expulsa demônios muitos
exorciza diábolos
o coisa-ruim
o sem nome
o inominável
o impronunciável
o filho que por ter caído, tenho certeza que é também o mais querido
senão o mais querido, o mais invejado
mas eu não acredito mais nessas coisas
da minha infância cristã
eu não acredito mais nessas coisas, mas não me fale de Jesus se me vir embriagada
por que Jesus protege os bêbados, os loucos e as criancinhas
e às vezes conto com ele pra que nenhuma merda aconteça
é melhor falar bobagens que calar besteiras, já dizia Guimarães
nisso eu acredito, estando embriagada ou não
preciso arranjar outro sapato de plástico
pra voltar a ser surpreendida por chuvas de verão
e não ficar com os pés molhados
que andar descalça às vezes dói
sábado, 19 de fevereiro de 2011
Não disse, estou sempre descabelada.
Ah é, é verdade, tem isso também.
Mas não é pelo decote que se sabe se uma mulher tem peito ou não.
Quem fala de si mente e sempre corre o risco de estar enganado.
Nem por isso eu deixo de falar.
Entre enganos e enganos, alguns acertos teremos.
Sou uma cachorra branca libriana enlaçadora de mundos.
Trago num laço mundos, seres e coisas conquistadas.
Ando sempre com um laço solto na bolsa, pronta para enlaçamentos inesperados, imprevisíveis e espontâneos.
Eu sou uma sombrinha que vira pro alto no meio do temporal.
Por que eu adoro pôr as pernas pro ar, e vivo de bom-humor, como as sombrinhas coloridas, mas eu nunca deixo ninguém na mão.
Anotado: a vida é imprevisível - coma a sobremesa antes.
Eu passarinho.
Ah é, é verdade, tem isso também.
Mas não é pelo decote que se sabe se uma mulher tem peito ou não.
Quem fala de si mente e sempre corre o risco de estar enganado.
Nem por isso eu deixo de falar.
Entre enganos e enganos, alguns acertos teremos.
Sou uma cachorra branca libriana enlaçadora de mundos.
Trago num laço mundos, seres e coisas conquistadas.
Ando sempre com um laço solto na bolsa, pronta para enlaçamentos inesperados, imprevisíveis e espontâneos.
Eu sou uma sombrinha que vira pro alto no meio do temporal.
Por que eu adoro pôr as pernas pro ar, e vivo de bom-humor, como as sombrinhas coloridas, mas eu nunca deixo ninguém na mão.
Anotado: a vida é imprevisível - coma a sobremesa antes.
Eu passarinho.
tô saindo, depois que eu lavar a louça do café, depois que eu regar as plantas, depois que eu estender a roupa no varal, só que tem que recolher a roupa de ontem antes, e se bem que é melhor já guardar essa roupa logo, por que eu não vou passar mesmo, então eu tô saindo depois que eu recolher e guardar a roupa, depois que eu colocar o peixe pra descongelar e colocar água no filtro, e acho que não arrumei minha cama, melhor arrumar, é sábado, dia de visita, vai que aparece alguém, não vai aparecer ninguém, eu é que vou sair, mas a gente nunca sabe se volta pra casa sozinha ou não, e não gosto que vejam como sou bagunceira e desorganizada, por que é como se me vissem por dentro, então é melhor deixar tudo mais ou menos no jeito, e pensar que quando o ex-marido foi embora teve a coragem de dizer pra minha mãe que eu não gostava de arrumar a casa, bem, ele estava certo, não gosto mesmo, embora goste do resultado, mas uma empregada resolveria minha vida, quem é que gosta de arrumar a casa, e depois, o que minha mãe tem a ver com isso, século 16, trago de volta a mão da sua filha por que ela não gosta de arrumar a casa como eu esperava que ela gostasse, ora, vá e me deixe em paz, foi o que eu disse, embora tenha me arrependido amargamente de ter dito isso depois, arrependimentos, muitos, e pra que servem senão para nos prender no passado, qual bola de ferro em canela de presidiário, mais tarde vou terminar a colcha maldita, nunca achei que fosse me dar tanto trabalho, melhor não falar assim dela, depois eu vendo e ela vai pra casa de alguém, e depois quem dorme coberto com ela tem pesadelos a noite toda, ou a colcha sufoca quem dorme com ela, a colcha maldita, podia ser um roteiro pro zé do caixão, então tá, a colcha bendita, quem dorme com ela tem sonhos alegres e felizes, queria poder encantar as coisas que faço. queria ser bruxa.
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
beijo, vó, era o que estava escrito no ponto de ônibus. eu não conseguia ficar parada, estava atrasada, o ônibus não passava, não passava, onze e meia, meia noite, meia noite e dez, meia noite e quinze, passou. entrei no ônibus, deixei pra trás as baratas, de novo as baratas, sempre as baratas. fiquei pensando que o que eu não gosto nas baratas é a sua prudência excessiva. veja, vc não vê uma barata a qualquer hora, em qualquer lugar. há sempre um tempo certo, um lugar mais ou menos certo, elas não andam displicentemente no meio da rua, chamando a atenção. andam com cuidado. atentas. anteninhas a captar movimentos suspeitos. saem. olham. voltam para o bueiro. e saem de novo.
eu queria ter um quinto da prudência de uma barata.
eu queria ter um quinto da prudência de uma barata.
o que fode é que na sala de espera tinha um jogo de espelhos. e eu vi que ele olhava pra mim. não gosto que ele olhe pra mim. eu mesma, nesse tempo todo, raras vezes sustentei o olhar na mesma direção do dele. sempre olho pra baixo, pra cima, pro lado, olho além dele, mas não olho pra ele. não ouso olhar pra ele. o que fode é que na real eu não me incomodo que ele me olhe. na real, ainda devia estar olhando. dos mesmos ângulos pelos quais sempre me olhou. da cama, da mesa, deitado no sofá. podia estar pensando em qualquer coisa, podia ser algo como o cabelo dela está comprido, ou ela está mais magra, ou não, podia ser um olhar qualquer. aquele olhar que a gente dá pra recepcionista, pro manobrista, pro gari. não é por que estamos olhando que estamos vendo. sabe como é? o olhar da auteridade invisível. não sei por que ele me olhava. mas ele me olhava. e isso fode com todas as minhas pretensas convicções. talvez eu devesse encará-lo. com toda a força do meu olhar. com toda a integridade do meu ser. e aí, talvez, seria ele, e não eu, a evitar o olhar.
ele vinha andando na minha direção, não tinha certeza se era ele ou não, de qualquer modo eu estava num atalho, se eu saísse da trilha ia dar muito na cara, não tinha rua pra atravessar, não tinha outro caminho, eu tinha que continuar em frente, ele já tinha me visto. fiquei pensando, não seja, não seja, não seja. mas era. sorriu, eu sorri tb, um pouco constrangida, priscila! vc me deu seu telefone errado? assim, na lata, caramba, ele ainda lembra meu nome, faz o que, uns oito meses? por aí, festa junina de onde mesmo? eca? história? enfim, não, eu? imagina, não dei não, vc que deve ter anotado errado! mais risinhos de constrangimento. quer ver? 9633-1618? sim, eu dei o telefone errado, sempre faço isso quando é um cara daqueles nada a ver, ou se não gosto muito do cara, acho mais fácil do que ter que dizer não, não vou te dar meu telefone, não, não gostei de vc, não, não gostei do seu beijo, etc. mais simples. o cara fica feliz, eu fico feliz, ficamos todos felizes, tá tudo certo. mas e agora? ele pegou o telefone, ia me ligar dali, naquela hora, na minha frente. eu falei peraí, vc disse o que? 9633-1618. ah, não, o final está invertido. não falei, vc anotou errado! que cara de pau que eu sou, é inacreditável. mas agora vc não me escapa mais, pegou no meu braço, jesus cristinho, ah, demorou demais, fica meio sem sentido agora, vc não acha? não, não acho. tô muito feliz de reencontrar vc. dei o sorriso mais amarelo de toda a minha vida. rsrs. ah, não fique feliz, não vai dar, estou meio enrolada (mais solteira que a tia da casa da cotia). nisso ele me abraçou, não! eu não sou ciumento, pode se enrolar, desde que não seja na minha frente (dessa parte eu gostei). eu não conseguia parar de rir meu risinho cínico e amarelo, fui me desvencilhando, ele é realmente forte, e alto, me dobrava no meio se quisesse. personal trainer, taí um tipo de cara que eu nunca achei que fosse pegar, totalmente fora dos perfis de sempre, professor - músico - skatista. vc fica linda de roupa de ginástica, tá malhando? pois é, engordei um bocado, acabei de sair da academia (conversa broxante estratégica, não funcionou). tô vendo. ofegante, suada, vermelha. delícia. ok, isso foi demais, meio que saí correndo, preciso ir. vou te ligar, hein? não vou te atender, tá? por que não? já disse. tchau. ele ficou parado um tempo, celular ainda na mão. eu corri. como ele chamava mesmo? diego? não, não era diego. não me lembro. desculpa aí, mano. mas não gostei de vc, não gostei do seu beijo, e vc tem o que de altura, 1,98 não é? então, eu tenho só 1,65. vc ia viver com dor no pescoço e eu, na batata da perna. mas vc é bonito, sim. maior gato, na real. mas se só isso bastasse.
E o Prêmio Estúpida do Ano vai para
>>>>>>>>>>>
Priscila Moreno!!!!
Uma salva de palmas para ela!!
clap clap clap clap clap
Obrigada! Obrigada!
Estou muito emocionada por receber ese prêmio tão importante, conferido anualmente pela Academia Internacional de Pessoas Estúpidas, às pessoas que realizam as maiores façanhas estúpidas. Na verdade eu nem esperava receber a estatueta neste ano, por que com certeza existe gente muito mais estúpida do que eu nesse mundo, mas depois do que fiz naquela manhã de domingo, eu pensei: eu tenho uma chance. Agarrei essa oportunidade com unhas e dentes, e aqui estou eu agora! Obrigada, muito obrigada! Estou muito, muito feliz!
Repórter: Priscila, o que vc diria para as pessoas que estão em casa nos assistindo agora?
Priscila: Eu queria aproveitar pra dizer que isso só aconteceu por que eu estava sem meu filho. Jamais, jamais façam coisas semelhantes se tiverem crianças em casa, isso é muito, muito perigoso. Crianças, nada de querer fazer igual em casa, hein?
R: Como vc se sentiu quando viu fumaça saindo da sua casa?
P: Eu imaginei que fosse o vizinho queimando as folhas do quintal dele de novo, então pensei: puxa, que bom que não estou com roupa no varal. Depois fui entrando em casa, e a sala estava tomada por uma névoa densa, e não estava cheirando gengibre, nem maçã, nem maracujá, estava cheirando queimado. Então eu estranhei. E enquanto eu cortava a névoa com um estilete, para conseguir chegar na cozinha, eu pensei que não devia ter deixado a calda de gengibre no fogo enquanto ia na feira, mesmo que fosse só pra comprar cheiro verde e carambola. O problema é que aproveitei para comprar tb chuchu, melancia, espinafre, maçãs e pimenta, e parei para conversar com o marido da vizinha. Por outro lado, se não fosse por isso, e embora eu tenha perdido uma panela muito boa para caldas de açúcar, eu não estaria aqui hoje, recebendo este prêmio tão importante!
R: Essa foi Priscila Maria, diretamente do tapete amarelo, dando as suas dicas! Quem sabe vc, telespectador, no ano que vem não é o próximo ganhador do...
Troféu Estúpido do Ano!!
P: Posso aproveitar pra mandar um beijo pro meu filho? É que o juiz suspendeu minha guarda, depois que me acusaram de incendiária.
R: Claro.
P: Filhinho, mamãe te ama, viu? Traz um bolo com uma serrinha dentro pra mamãe fugir do manicômio?
R: Corta, Corta.
P: Ei, peraí, deixa eu falar com meu filho! Filho!! Fiiilhooo!!
>>>>>>>>>>>
Priscila Moreno!!!!
Uma salva de palmas para ela!!
clap clap clap clap clap
Obrigada! Obrigada!
Estou muito emocionada por receber ese prêmio tão importante, conferido anualmente pela Academia Internacional de Pessoas Estúpidas, às pessoas que realizam as maiores façanhas estúpidas. Na verdade eu nem esperava receber a estatueta neste ano, por que com certeza existe gente muito mais estúpida do que eu nesse mundo, mas depois do que fiz naquela manhã de domingo, eu pensei: eu tenho uma chance. Agarrei essa oportunidade com unhas e dentes, e aqui estou eu agora! Obrigada, muito obrigada! Estou muito, muito feliz!
Repórter: Priscila, o que vc diria para as pessoas que estão em casa nos assistindo agora?
Priscila: Eu queria aproveitar pra dizer que isso só aconteceu por que eu estava sem meu filho. Jamais, jamais façam coisas semelhantes se tiverem crianças em casa, isso é muito, muito perigoso. Crianças, nada de querer fazer igual em casa, hein?
R: Como vc se sentiu quando viu fumaça saindo da sua casa?
P: Eu imaginei que fosse o vizinho queimando as folhas do quintal dele de novo, então pensei: puxa, que bom que não estou com roupa no varal. Depois fui entrando em casa, e a sala estava tomada por uma névoa densa, e não estava cheirando gengibre, nem maçã, nem maracujá, estava cheirando queimado. Então eu estranhei. E enquanto eu cortava a névoa com um estilete, para conseguir chegar na cozinha, eu pensei que não devia ter deixado a calda de gengibre no fogo enquanto ia na feira, mesmo que fosse só pra comprar cheiro verde e carambola. O problema é que aproveitei para comprar tb chuchu, melancia, espinafre, maçãs e pimenta, e parei para conversar com o marido da vizinha. Por outro lado, se não fosse por isso, e embora eu tenha perdido uma panela muito boa para caldas de açúcar, eu não estaria aqui hoje, recebendo este prêmio tão importante!
R: Essa foi Priscila Maria, diretamente do tapete amarelo, dando as suas dicas! Quem sabe vc, telespectador, no ano que vem não é o próximo ganhador do...
Troféu Estúpido do Ano!!
P: Posso aproveitar pra mandar um beijo pro meu filho? É que o juiz suspendeu minha guarda, depois que me acusaram de incendiária.
R: Claro.
P: Filhinho, mamãe te ama, viu? Traz um bolo com uma serrinha dentro pra mamãe fugir do manicômio?
R: Corta, Corta.
P: Ei, peraí, deixa eu falar com meu filho! Filho!! Fiiilhooo!!
eu acho que o que é ruim já vem logo no jeito que se diz. por exemplo: contrair matrimônio. quem fica com vontade de casar, se pensar que vai contrair um matrimônio? e casar é tão legal! não era pra vir assim, com nome de contaminação. imagino uma carteira de vacinação, contraiu matrimônio? se não, tem que tomar vacina, mas quem já teve uma vez, não pega nunca mais.
- oi, vc já contraiu matrimônio?
- eu não, e vc?
- ah, eu já.
- e deixou sequela?
- ih, uma pior que a outra.
- oi, vc já contraiu matrimônio?
- eu não, e vc?
- ah, eu já.
- e deixou sequela?
- ih, uma pior que a outra.
às vezes eu tenho a nítida sensação de que já li minha vida em algum lugar. graças a deus não foi num livro do eça de queirós ou do machado de assis, embora já tenham me dito mais de uma vez que os olhos de ressaca são meus. nunca traí ninguém, gente! mentira. já traí, sim. já fui traída, tb. e nada disso importa, agora. deve ter sido em algum livro do nelson rodrigues, mesmo. ou da clarice, talvez? não, nelson. as relações, pra mim, os laços, são mais importantes do que meus próprios conflitos internos. aliás, que conflitos internos? enfim. espero apenas que a última página demore a chegar. estou nos prolegômenos, ainda. no intróito. capítulo 2.
ponto de ônibus do padrão, vital brasil. umas cinco crianças pulando um restinho de carnaval na calçada, uns cinco adultos esperando o ônibus. todos bem vestidos, todos brancos. todos brancos, menos um. um moço negro, lindo, alto, forte, sentado na guia sem camiseta. a camiseta branca, branquíssima, limpíssima, nas mãos, braços apoiados no joelho. até que pára um carro da rota, saem cinco homens do carro armados daquele jeito, encosta, mão na cabeça, abre as pernas, porra. as crianças páram de brincar imediatamente. os adultos vão o mais longe possível. todo mundo finge que nada está acontecendo: de repente acabou a brincadeira, de repente os adultos seguram as crianças pelas mãos, de repente ninguém fala mais nada. só cochichos. o ônibus não pode parar no ponto, por que o carro da rota com todas as portas abertas ocupa duas faixas. eu anoto a placa, pego o telefone, o policial que fuma joga o cigarro no chão e vem em minha direção, me olhando fixamente. não desvio o olhar. vou ser presa por olhar? olhe. pode me olhar. eu não vou fingir que isso é normal, eu não vou fingir que vc está apenas cumprindo seu trabalho, eu não vou fingir que o moço é um assaltante de banco dos mais procurados. não vou fingir. anotei sua placa, EMF 4814. 18h00, av, vital brasil, esqueci de ver a numeração, mas eu olho depois o endereço do padrão. eu não sei o que vou fazer com isso. provavelmente nada. o que eu poderia fazer? mas eles viram que eu vi. quem estava no ponto viu que eu vi, e começou a ver também. e eu não pude fazer nada quando o policial pisou na camiseta branca jogada no chão. mas quem sabe, se um ou outro parar de fingir, quem sabe se um ou outro, de repente muitos - e por que não, todos? - quem sabe se a gente começar a ver, a estupidez acaba. quando eu vejo um policial agindo assim, tenho ganas de lhe tomar a arma. e o resto vcs podem imaginar. se é que já não sabem.
.
tem tanta louça em cima da pia da cozinha que não sei nem por onde começar. por isso, não começo. fica pra hora da coragem extrema. descendo a rua, distraída, esqueci que em algum momento eu teria que atravessar. fui andando sem pensar aonde ia, até que cheguei numa rua por onde não passo habitualmente e só aí me dei conta de que deveria ter atravessado lá atrás. acordei, café da manhã na mesa, criança comendo por si só, eu corto a melancia, quer, filho? quero. espera aí. provo antes pra saber se está boa, está, pode comer. andando na rua, me dou conta de que foi a única coisa que eu coloquei na boca antes de sair, uma garfada de melancia. fazendo exercícios, esqueço de parar no quinze, sinto uma resistência do meu corpo em fazer o movimento, e então percebi que contava até o cinquenta e três. saio andando, o dia não tem vento, não tem sol, não tem barulho. tudo quieto e morno. um dia perfeito para enlouquecer ou morrer. quem dizia que o vento é a voz dos mortos? é ou traz, não me lembro direito. bibiana terra, será? não lembro, mais um pra lista dos precisam ser relidos um dia. se já não bastasse que nunca vou conseguir ler tudo o que quero, ainda me esqueço do que já foi lido. não, não acho que o vento traz a voz dos mortos. quando tudo está quieto assim, é que duvido da concepção de vida e morte que tenho. é nesses dias mornos e silenciosos, em que nada prende nossa atenção, que a gente quase pode ouvir a alma.
tem tanta louça em cima da pia da cozinha que não sei nem por onde começar. por isso, não começo. fica pra hora da coragem extrema. descendo a rua, distraída, esqueci que em algum momento eu teria que atravessar. fui andando sem pensar aonde ia, até que cheguei numa rua por onde não passo habitualmente e só aí me dei conta de que deveria ter atravessado lá atrás. acordei, café da manhã na mesa, criança comendo por si só, eu corto a melancia, quer, filho? quero. espera aí. provo antes pra saber se está boa, está, pode comer. andando na rua, me dou conta de que foi a única coisa que eu coloquei na boca antes de sair, uma garfada de melancia. fazendo exercícios, esqueço de parar no quinze, sinto uma resistência do meu corpo em fazer o movimento, e então percebi que contava até o cinquenta e três. saio andando, o dia não tem vento, não tem sol, não tem barulho. tudo quieto e morno. um dia perfeito para enlouquecer ou morrer. quem dizia que o vento é a voz dos mortos? é ou traz, não me lembro direito. bibiana terra, será? não lembro, mais um pra lista dos precisam ser relidos um dia. se já não bastasse que nunca vou conseguir ler tudo o que quero, ainda me esqueço do que já foi lido. não, não acho que o vento traz a voz dos mortos. quando tudo está quieto assim, é que duvido da concepção de vida e morte que tenho. é nesses dias mornos e silenciosos, em que nada prende nossa atenção, que a gente quase pode ouvir a alma.
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
eu li isso e tudo mudou.
“O mar carmesim às vezes como o fogo e os poentes gloriosos e as figueiras nos jardins da Alameda sim e as ruazinhas esquisitas e casas rosas e azuis e amarelas e os jasmins e gerânios e cactos e Gilbraltar eu mocinha onde eu era uma Flor da montanha sim quando eu punha a rosa em minha cabeleira como as garotas andaluzas costumavam ou devo usar uma vermelha sim e como ele me beijou contra a muralha mourisca e eu pensei tão bem a ele como a outro e então eu pedi a ele com meus olhos para pedir de novo sim e então ele me pediu quereria eu sim dizer sim minha flor da montanha e primeiro eu pus os meus braços em torno dele e eu puxei ele pra baixo pra mim para ele poder sentir meus peitos todos perfume sim o coração dele batia como louco e sim eu disse sim eu quero Sins”
(Ulisses, de Joyce. Tradução de Antonio Houaiss)
(Ulisses, de Joyce. Tradução de Antonio Houaiss)
felicidade discreta
que não se arreganha
que não se escancara
que não mostra os dentes
felicidade de quem se satisfaz com pouco
até por que é pouco o que tem
felicidade decente
dormente
contente
mas não muito
que é pra não parecer cínica
que é pra não ofender
que é pra não atrapalhar
que é pra não dizer
que esqueceu que a tristeza existe.
que não se arreganha
que não se escancara
que não mostra os dentes
felicidade de quem se satisfaz com pouco
até por que é pouco o que tem
felicidade decente
dormente
contente
mas não muito
que é pra não parecer cínica
que é pra não ofender
que é pra não atrapalhar
que é pra não dizer
que esqueceu que a tristeza existe.
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
rapazes do meu coração, ou mesmo os que nem chegaram a fazer parte dele, venho aqui prestar um serviço de utilidade pública. sim, utilidade pública, por que vai ser bom não só para vcs, mas também (e principalmente) para as próximas mulheres dos vossos corações.
eu não ia dizer nada, mas resolvi falar por que acho que vai ser de grande ajuda. até por que nós, mulheres, temos já bastante ajuda das revistas especializadas, das conversas com as mães e com as amigas. vejam bem, eu não sou assim uma sumidade no quesito relacionamentos. muito pelo contrário. tenho apenas um relacionamento frustrado depois de sete anos e um pouco mais de uma dezena de casos de um ano pra cá. no entanto, a recorrência de algumas histórias me fez pensar que talvez ninguém nunca tenha dito isso pra vcs. eu imaginava que não precisava muito mais do que bom senso, mas tenho visto que a noção de bom senso tem sofrido uma certa alteração ao longo do tempo. bem, não deixemos que os prolegômenos se estendam demasiadamente. vamos aos fatos:
1. se vc vai sair com uma moça pela primeira vez, não é de bom tom demonstrar muita insatisfação com sua vida: vc pode assustar a moça. afinal, quem gosta de gente triste é o psicólogo.
2. eu sei que um casamento fracassado levanta inúmeras questões, sobre vc, sobre ela, sobre a instituição casamento, mas olha, se uma moça saiu com vc, é por que ela quer conhecer vc, e não a sua ex-mulher. se ela quisesse saber como foi que vcs se conheceram, por que vcs se separaram, por que vcs voltaram, por que vcs se separaram de novo, bem, ela podia sair com a sua ex-mulher, não com vc. então, evite pronunciar a palavra "ex-mulher". se pronunciar mais de cinco vezes num mesmo encontro, meu amigo, não se espante se a moça se levantar e deixar vc falando sozinho. isso é o mínimo que ela poderia fazer. vc merecia coisa bem pior.
3. a especulação imobiliária na cidade de são paulo é um horror. fato. mas vc não tem mais nada pra falar além de o quanto vc paga ou deixa de pagar de aluguel? ou de prestação, ou de plano de saúde? amigo, foi-se o tempo em que as mulheres procuravam apenas um lugar para amarrar seu burrico. hoje, não sei se vc percebeu, as mulheres tem conquistado cada vez mais autonomia financeira, e competem no mercado de igual para igual. essa não é uma boa tática. a moça pode achar que vc é um chato de galocha metido a besta. além disso, se era pra discutir a especulação imobiliária, ela poderia procurar um corretor de imóveis para conversar.
4. o seu cachorrinho ficou paraplégico? puxa vida, que coisa chata. e vc pretende conquistar essa moça como, fazendo carinha de triste e pedindo carinho? amigo, acorda! não tente apelar para a maternidade adormecida das mulheres. eu, no seu lugar, procuraria um psicólogo. vc tem problemas com a sua mãe.
5. é muito desagradável saber que vc só trabalha com gente incompetente. muito mesmo. por que se vc só trabalha com gente burra, falsa, que não te valoriza, etc, bem, ela só pode achar que incompetente mesmo é vc, ou por que vc ainda não arrumou outro emprego melhor, ou por que ninguém no seu trabalho te suporta, de tão incompetente que vc é. sacou? de qualquer jeito, vc perde.
6. não se fala em tentativa de suicídio em primeiros encontros. ponto final.
bom, em linhas gerais, era isso o que eu queria que vcs soubessem. tenho certeza que seguindo esses pequenos conselhos, vcs vão se dar muito bem. estou torcendo por vcs! boa sorte!
eu não ia dizer nada, mas resolvi falar por que acho que vai ser de grande ajuda. até por que nós, mulheres, temos já bastante ajuda das revistas especializadas, das conversas com as mães e com as amigas. vejam bem, eu não sou assim uma sumidade no quesito relacionamentos. muito pelo contrário. tenho apenas um relacionamento frustrado depois de sete anos e um pouco mais de uma dezena de casos de um ano pra cá. no entanto, a recorrência de algumas histórias me fez pensar que talvez ninguém nunca tenha dito isso pra vcs. eu imaginava que não precisava muito mais do que bom senso, mas tenho visto que a noção de bom senso tem sofrido uma certa alteração ao longo do tempo. bem, não deixemos que os prolegômenos se estendam demasiadamente. vamos aos fatos:
1. se vc vai sair com uma moça pela primeira vez, não é de bom tom demonstrar muita insatisfação com sua vida: vc pode assustar a moça. afinal, quem gosta de gente triste é o psicólogo.
2. eu sei que um casamento fracassado levanta inúmeras questões, sobre vc, sobre ela, sobre a instituição casamento, mas olha, se uma moça saiu com vc, é por que ela quer conhecer vc, e não a sua ex-mulher. se ela quisesse saber como foi que vcs se conheceram, por que vcs se separaram, por que vcs voltaram, por que vcs se separaram de novo, bem, ela podia sair com a sua ex-mulher, não com vc. então, evite pronunciar a palavra "ex-mulher". se pronunciar mais de cinco vezes num mesmo encontro, meu amigo, não se espante se a moça se levantar e deixar vc falando sozinho. isso é o mínimo que ela poderia fazer. vc merecia coisa bem pior.
3. a especulação imobiliária na cidade de são paulo é um horror. fato. mas vc não tem mais nada pra falar além de o quanto vc paga ou deixa de pagar de aluguel? ou de prestação, ou de plano de saúde? amigo, foi-se o tempo em que as mulheres procuravam apenas um lugar para amarrar seu burrico. hoje, não sei se vc percebeu, as mulheres tem conquistado cada vez mais autonomia financeira, e competem no mercado de igual para igual. essa não é uma boa tática. a moça pode achar que vc é um chato de galocha metido a besta. além disso, se era pra discutir a especulação imobiliária, ela poderia procurar um corretor de imóveis para conversar.
4. o seu cachorrinho ficou paraplégico? puxa vida, que coisa chata. e vc pretende conquistar essa moça como, fazendo carinha de triste e pedindo carinho? amigo, acorda! não tente apelar para a maternidade adormecida das mulheres. eu, no seu lugar, procuraria um psicólogo. vc tem problemas com a sua mãe.
5. é muito desagradável saber que vc só trabalha com gente incompetente. muito mesmo. por que se vc só trabalha com gente burra, falsa, que não te valoriza, etc, bem, ela só pode achar que incompetente mesmo é vc, ou por que vc ainda não arrumou outro emprego melhor, ou por que ninguém no seu trabalho te suporta, de tão incompetente que vc é. sacou? de qualquer jeito, vc perde.
6. não se fala em tentativa de suicídio em primeiros encontros. ponto final.
bom, em linhas gerais, era isso o que eu queria que vcs soubessem. tenho certeza que seguindo esses pequenos conselhos, vcs vão se dar muito bem. estou torcendo por vcs! boa sorte!
tinha uma moça linda no ônibus, linda mesmo, linda tipo sofia loren, não é qualquer coisa ter um rosto que lembra a sofia loren. mas ela usava um jeans que era uns três números menor do que o que serviria nela, pra que, né? aí ficava a barriga saltando por cima do jeans, mina, tira esse jeans! bota uma saia, um vestidinho, é verão, tá calor, vc é linda, calça jeans justa assim dá celulite, encrava os pêlos que é um horror. sem falar que deve até machucar, cruzei as pernas só de imaginar o desconforto da moça. sabe, quando dói em vc? depois subiu um cara, cabeludo, barbudo, cara de militante dos anos setenta, no esquema que eu gosto. sentou do meu lado, eu pensei puxa assunto que eu dou continuidade. mas graças a deus ele não puxou assunto de imediato. primeiro ele começou a bater nos pratos de um bateria imaginária, e depois humilhou numa guitarra imaginária, e eu pensei nego, quantos anos tu tem? depois ele perguntou se eu gostava de metal. não. eu não gosto de metal, e eu não gosto de caras que tocam instrumentos imaginários como se estivessem tocando pr'uma platéia de 100 mil pessoas. tá, eu ando cantando na rua, não posso falar nada da alegria do moço, eu sei. ah, a moça que parecia a sofia loren tirou um halls da bolsa, desembrulhou, pôs a bala na boca e... jogou o papel pela janela. feia. o que que custa enfiar no bolso, na bolsa, tinha um lixinho na porta do ônibus! e na academia? mano, só o que me faltava, o instrutor puxando mais assunto do que deveria. sentou na minha frente enquanto eu estava na bicicleta, se abanou com as mãos, ergueu as duas sobrancelhas, fez uh! calor né. sabe aquele risinho, não me atrapalha, nego? só levantei o canto da boca, rs. aí vem de novo, nossa, tá calor que nem dá vontade de trabalhar. nem rs, r. aí se espreguiça, ergue a camisa pra eu ver os tríceps, bíceps e sei lá mais o quê, mano, tu pode ser forte, mas tu é feio! eu não gosto de caras feios, o departamento de caridade fechou há dois anos. agora eu quero só os top de linha. homem feio dá azar. homem feio me olhando dá aflição, neca. e olha que meu padrão de beleza é dos mais inconvencionais (lembra do antepenúltimo homem mais lindo do mundo? então, ele tinha os dois dentes da frente meio encavalados um no outro, saca? a princípio não passava no teste de qualidade priscila. a princípio. depois virou o homem mais lindo do mundo, até o dia 5 de janeiro, pelo menos). mas no seu caso não dá, sinto muito, tu é feio mesmo. além de terrivelmente chato, o que te coloca no mesmo patamar dos macaquinhos alados da bruxa má do oeste: não rola.
Era uma bailarina muito, muito vaidosa, que um dia se apaixonou por um mago. O mago a obrigava a dançar todos os dias, até a exaustão, para que ela aprendesse a dominar seu orgulho. Cansada, a bailarina resolveu fugir. Mas o mago a mantinha presa na torre mais alta do castelo, sem portas ou janelas por onde ela pudesse escapar.
A bailarina então decidiu que preferia morrer a dançar até o fim da vida para um único homem, e implorou ao mago que a matasse. Ele disse que ela poderia ir embora, se quisesse. Mas antes deveria preparar um jantar - o rei a rainha viriam visitá-los naquela noite, por que tinham ouvido falar de como dançava espetacularmente a mulher do mago. O ego da bailarina se inflou de novo, e ela se pôs a preparar mil gostosuras, mal se contendo de alegria. Finalmente teria uma platéia, uma platéia à sua altura, o rei e a rainha. Depois de pronto o pequeno banquete, se sentou no chão da cozinha e começou a chorar devagarzinho, consigo mesma. Era uma quase saudade da paixão pelo mago, e uma quase vontade de não ir embora. O rei e a rainha chegaram. Deliciaram-se com o jantar da bailarina, e na hora da sobremesa, o mago sugeriu que fossem ao jardim. A bailarina estranhou - o mago dizia que o jardim era encantado, e que nele moravam suas ex-esposas. Ela nunca deveria ir até o jardim, ou as outras esposas por ciúme a matariam. Vendo o olhar de medo da bailarina, o mago lhe disse: não se preocupe, minha querida. Coma esta semente, que nada poderá lhe fazer mal.
Desconfiada da bondade repentina do marido, a bailarina deixou a semente embaixo da língua. No jardim, as árvores pareciam ter vida própria. A bailarina dançou como se dançasse pela última vez, dançou com toda a sua alma, deixando todos comovidos, e o mago, arrependido. O mago então pediu que ela tomasse rapidamente uma poção, que desfizesse o encanto da semente, que a transformaria em árvore em poucas horas. Ela disse que lhe bastava um beijo. O mago, emocionado, a beijou, e ela passou a semente para o mago, que só percebeu depois que já tinha engolido. Ele tentou correr para a poção, mas suas ex-esposas, as árvores do jardim, agarraram seus braços e suas pernas, e fincaram-no no chão. No dia seguinte, no meio das roseiras, havia um carvalho. O rei e a rainha, estupefados com a maldade do mago, convidaram a bailarina para ir morar no palácio. Ela agradeceu o convite gentil, mas disse que não, que seu lugar era ali. E todo dia ela ia regar o jardim, sem que nada de mal lhe acontecesse, e nos dias muito quietos, ela quase ouvia um sussurro: dance... dance... dance para mim...
A bailarina então decidiu que preferia morrer a dançar até o fim da vida para um único homem, e implorou ao mago que a matasse. Ele disse que ela poderia ir embora, se quisesse. Mas antes deveria preparar um jantar - o rei a rainha viriam visitá-los naquela noite, por que tinham ouvido falar de como dançava espetacularmente a mulher do mago. O ego da bailarina se inflou de novo, e ela se pôs a preparar mil gostosuras, mal se contendo de alegria. Finalmente teria uma platéia, uma platéia à sua altura, o rei e a rainha. Depois de pronto o pequeno banquete, se sentou no chão da cozinha e começou a chorar devagarzinho, consigo mesma. Era uma quase saudade da paixão pelo mago, e uma quase vontade de não ir embora. O rei e a rainha chegaram. Deliciaram-se com o jantar da bailarina, e na hora da sobremesa, o mago sugeriu que fossem ao jardim. A bailarina estranhou - o mago dizia que o jardim era encantado, e que nele moravam suas ex-esposas. Ela nunca deveria ir até o jardim, ou as outras esposas por ciúme a matariam. Vendo o olhar de medo da bailarina, o mago lhe disse: não se preocupe, minha querida. Coma esta semente, que nada poderá lhe fazer mal.
Desconfiada da bondade repentina do marido, a bailarina deixou a semente embaixo da língua. No jardim, as árvores pareciam ter vida própria. A bailarina dançou como se dançasse pela última vez, dançou com toda a sua alma, deixando todos comovidos, e o mago, arrependido. O mago então pediu que ela tomasse rapidamente uma poção, que desfizesse o encanto da semente, que a transformaria em árvore em poucas horas. Ela disse que lhe bastava um beijo. O mago, emocionado, a beijou, e ela passou a semente para o mago, que só percebeu depois que já tinha engolido. Ele tentou correr para a poção, mas suas ex-esposas, as árvores do jardim, agarraram seus braços e suas pernas, e fincaram-no no chão. No dia seguinte, no meio das roseiras, havia um carvalho. O rei e a rainha, estupefados com a maldade do mago, convidaram a bailarina para ir morar no palácio. Ela agradeceu o convite gentil, mas disse que não, que seu lugar era ali. E todo dia ela ia regar o jardim, sem que nada de mal lhe acontecesse, e nos dias muito quietos, ela quase ouvia um sussurro: dance... dance... dance para mim...
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