segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

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tem tanta louça em cima da pia da cozinha que não sei nem por onde começar. por isso, não começo. fica pra hora da coragem extrema. descendo a rua, distraída, esqueci que em algum momento eu teria que atravessar. fui andando sem pensar aonde ia, até que cheguei numa rua por onde não passo habitualmente e só aí me dei conta de que deveria ter atravessado lá atrás. acordei, café da manhã na mesa, criança comendo por si só, eu corto a melancia, quer, filho? quero. espera aí. provo antes pra saber se está boa, está, pode comer. andando na rua, me dou conta de que foi a única coisa que eu coloquei na boca antes de sair, uma garfada de melancia. fazendo exercícios, esqueço de parar no quinze, sinto uma resistência do meu corpo em fazer o movimento, e então percebi que contava até o cinquenta e três. saio andando, o dia não tem vento, não tem sol, não tem barulho. tudo quieto e morno. um dia perfeito para enlouquecer ou morrer. quem dizia que o vento é a voz dos mortos? é ou traz, não me lembro direito. bibiana terra, será? não lembro, mais um pra lista dos precisam ser relidos um dia. se já não bastasse que nunca vou conseguir ler tudo o que quero, ainda me esqueço do que já foi lido. não, não acho que o vento traz a voz dos mortos. quando tudo está quieto assim, é que duvido da concepção de vida e morte que tenho. é nesses dias mornos e silenciosos, em que nada prende nossa atenção, que a gente quase pode ouvir a alma.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

eu li isso e tudo mudou.

“O mar carmesim às vezes como o fogo e os poentes gloriosos e as figueiras nos jardins da Alameda sim e as ruazinhas esquisitas e casas rosas e azuis e amarelas e os jasmins e gerânios e cactos e Gilbraltar eu mocinha onde eu era uma Flor da montanha sim quando eu punha a rosa em minha cabeleira como as garotas andaluzas costumavam ou devo usar uma vermelha sim e como ele me beijou contra a muralha mourisca e eu pensei tão bem a ele como a outro e então eu pedi a ele com meus olhos para pedir de novo sim e então ele me pediu quereria eu sim dizer sim minha flor da montanha e primeiro eu pus os meus braços em torno dele e eu puxei ele pra baixo pra mim para ele poder sentir meus peitos todos perfume sim o coração dele batia como louco e sim eu disse sim eu quero Sins”

(Ulisses, de Joyce. Tradução de Antonio Houaiss)
fiasco, fiasco do fiasco, falcatrua, trote, embuste. sou eu.
fraude, falácia, engodo.
felicidade discreta
que não se arreganha
que não se escancara
que não mostra os dentes
felicidade de quem se satisfaz com pouco
até por que é pouco o que tem
felicidade decente
dormente
contente
mas não muito
que é pra não parecer cínica
que é pra não ofender
que é pra não atrapalhar
que é pra não dizer
que esqueceu que a tristeza existe.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

rapazes do meu coração, ou mesmo os que nem chegaram a fazer parte dele, venho aqui prestar um serviço de utilidade pública. sim, utilidade pública, por que vai ser bom não só para vcs, mas também (e principalmente) para as próximas mulheres dos vossos corações.
eu não ia dizer nada, mas resolvi falar por que acho que vai ser de grande ajuda. até por que nós, mulheres, temos já bastante ajuda das revistas especializadas, das conversas com as mães e com as amigas. vejam bem, eu não sou assim uma sumidade no quesito relacionamentos. muito pelo contrário. tenho apenas um relacionamento frustrado depois de sete anos e um pouco mais de uma dezena de casos de um ano pra cá. no entanto, a recorrência de algumas histórias me fez pensar que talvez ninguém nunca tenha dito isso pra vcs. eu imaginava que não precisava muito mais do que bom senso, mas tenho visto que a noção de bom senso tem sofrido uma certa alteração ao longo do tempo. bem, não deixemos que os prolegômenos se estendam demasiadamente. vamos aos fatos:

1. se vc vai sair com uma moça pela primeira vez, não é de bom tom demonstrar muita insatisfação com sua vida: vc pode assustar a moça. afinal, quem gosta de gente triste é o psicólogo.

2. eu sei que um casamento fracassado levanta inúmeras questões, sobre vc, sobre ela, sobre a instituição casamento, mas olha, se uma moça saiu com vc, é por que ela quer conhecer vc, e não a sua ex-mulher. se ela quisesse saber como foi que vcs se conheceram, por que vcs se separaram, por que vcs voltaram, por que vcs se separaram de novo, bem, ela podia sair com a sua ex-mulher, não com vc. então, evite pronunciar a palavra "ex-mulher". se pronunciar mais de cinco vezes num mesmo encontro, meu amigo, não se espante se a moça se levantar e deixar vc falando sozinho. isso é o mínimo que ela poderia fazer. vc merecia coisa bem pior.

3. a especulação imobiliária na cidade de são paulo é um horror. fato. mas vc não tem mais nada pra falar além de o quanto vc paga ou deixa de pagar de aluguel? ou de prestação, ou de plano de saúde? amigo, foi-se o tempo em que as mulheres procuravam apenas um lugar para amarrar seu burrico. hoje, não sei se vc percebeu, as mulheres tem conquistado cada vez mais autonomia financeira, e competem no mercado de igual para igual. essa não é uma boa tática. a moça pode achar que vc é um chato de galocha metido a besta. além disso, se era pra discutir a especulação imobiliária, ela poderia procurar um corretor de imóveis para conversar.

4. o seu cachorrinho ficou paraplégico? puxa vida, que coisa chata. e vc pretende conquistar essa moça como, fazendo carinha de triste e pedindo carinho? amigo, acorda! não tente apelar para a maternidade adormecida das mulheres. eu, no seu lugar, procuraria um psicólogo. vc tem problemas com a sua mãe.

5. é muito desagradável saber que vc só trabalha com gente incompetente. muito mesmo. por que se vc só trabalha com gente burra, falsa, que não te valoriza, etc, bem, ela só pode achar que incompetente mesmo é vc, ou por que vc ainda não arrumou outro emprego melhor, ou por que ninguém no seu trabalho te suporta, de tão incompetente que vc é. sacou? de qualquer jeito, vc perde.

6. não se fala em tentativa de suicídio em primeiros encontros. ponto final.

bom, em linhas gerais, era isso o que eu queria que vcs soubessem. tenho certeza que seguindo esses pequenos conselhos, vcs vão se dar muito bem. estou torcendo por vcs! boa sorte!
tinha uma moça linda no ônibus, linda mesmo, linda tipo sofia loren, não é qualquer coisa ter um rosto que lembra a sofia loren. mas ela usava um jeans que era uns três números menor do que o que serviria nela, pra que, né? aí ficava a barriga saltando por cima do jeans, mina, tira esse jeans! bota uma saia, um vestidinho, é verão, tá calor, vc é linda, calça jeans justa assim dá celulite, encrava os pêlos que é um horror. sem falar que deve até machucar, cruzei as pernas só de imaginar o desconforto da moça. sabe, quando dói em vc? depois subiu um cara, cabeludo, barbudo, cara de militante dos anos setenta, no esquema que eu gosto. sentou do meu lado, eu pensei puxa assunto que eu dou continuidade. mas graças a deus ele não puxou assunto de imediato. primeiro ele começou a bater nos pratos de um bateria imaginária, e depois humilhou numa guitarra imaginária, e eu pensei nego, quantos anos tu tem? depois ele perguntou se eu gostava de metal. não. eu não gosto de metal, e eu não gosto de caras que tocam instrumentos imaginários como se estivessem tocando pr'uma platéia de 100 mil pessoas. tá, eu ando cantando na rua, não posso falar nada da alegria do moço, eu sei. ah, a moça que parecia a sofia loren tirou um halls da bolsa, desembrulhou, pôs a bala na boca e... jogou o papel pela janela. feia. o que que custa enfiar no bolso, na bolsa, tinha um lixinho na porta do ônibus! e na academia? mano, só o que me faltava, o instrutor puxando mais assunto do que deveria. sentou na minha frente enquanto eu estava na bicicleta, se abanou com as mãos, ergueu as duas sobrancelhas, fez uh! calor né. sabe aquele risinho, não me atrapalha, nego? só levantei o canto da boca, rs. aí vem de novo, nossa, tá calor que nem dá vontade de trabalhar. nem rs, r. aí se espreguiça, ergue a camisa pra eu ver os tríceps, bíceps e sei lá mais o quê, mano, tu pode ser forte, mas tu é feio! eu não gosto de caras feios, o departamento de caridade fechou há dois anos. agora eu quero só os top de linha. homem feio dá azar. homem feio me olhando dá aflição, neca. e olha que meu padrão de beleza é dos mais inconvencionais (lembra do antepenúltimo homem mais lindo do mundo? então, ele tinha os dois dentes da frente meio encavalados um no outro, saca? a princípio não passava no teste de qualidade priscila. a princípio. depois virou o homem mais lindo do mundo, até o dia 5 de janeiro, pelo menos). mas no seu caso não dá, sinto muito, tu é feio mesmo. além de terrivelmente chato, o que te coloca no mesmo patamar dos macaquinhos alados da bruxa má do oeste: não rola.
Era uma bailarina muito, muito vaidosa, que um dia se apaixonou por um mago. O mago a obrigava a dançar todos os dias, até a exaustão, para que ela aprendesse a dominar seu orgulho. Cansada, a bailarina resolveu fugir. Mas o mago a mantinha presa na torre mais alta do castelo, sem portas ou janelas por onde ela pudesse escapar.

A bailarina então decidiu que preferia morrer a dançar até o fim da vida para um único homem, e implorou ao mago que a matasse. Ele disse que ela poderia ir embora, se quisesse. Mas antes deveria preparar um jantar - o rei a rainha viriam visitá-los naquela noite, por que tinham ouvido falar de como dançava espetacularmente a mulher do mago. O ego da bailarina se inflou de novo, e ela se pôs a preparar mil gostosuras, mal se contendo de alegria. Finalmente teria uma platéia, uma platéia à sua altura, o rei e a rainha. Depois de pronto o pequeno banquete, se sentou no chão da cozinha e começou a chorar devagarzinho, consigo mesma. Era uma quase saudade da paixão pelo mago, e uma quase vontade de não ir embora. O rei e a rainha chegaram. Deliciaram-se com o jantar da bailarina, e na hora da sobremesa, o mago sugeriu que fossem ao jardim. A bailarina estranhou - o mago dizia que o jardim era encantado, e que nele moravam suas ex-esposas. Ela nunca deveria ir até o jardim, ou as outras esposas por ciúme a matariam. Vendo o olhar de medo da bailarina, o mago lhe disse: não se preocupe, minha querida. Coma esta semente, que nada poderá lhe fazer mal.

Desconfiada da bondade repentina do marido, a bailarina deixou a semente embaixo da língua. No jardim, as árvores pareciam ter vida própria. A bailarina dançou como se dançasse pela última vez, dançou com toda a sua alma, deixando todos comovidos, e o mago, arrependido. O mago então pediu que ela tomasse rapidamente uma poção, que desfizesse o encanto da semente, que a transformaria em árvore em poucas horas. Ela disse que lhe bastava um beijo. O mago, emocionado, a beijou, e ela passou a semente para o mago, que só percebeu depois que já tinha engolido. Ele tentou correr para a poção, mas suas ex-esposas, as árvores do jardim, agarraram seus braços e suas pernas, e fincaram-no no chão. No dia seguinte, no meio das roseiras, havia um carvalho. O rei e a rainha, estupefados com a maldade do mago, convidaram a bailarina para ir morar no palácio. Ela agradeceu o convite gentil, mas disse que não, que seu lugar era ali. E todo dia ela ia regar o jardim, sem que nada de mal lhe acontecesse, e nos dias muito quietos, ela quase ouvia um sussurro: dance... dance... dance para mim...