terça-feira, 20 de março de 2012

assim, de chofre, não sei responder. o que eu quero pra minha vida?
mais uns três filhos, pelo menos. coisa que eu vou pensar a sério a partir do ano que vem. quero jardim. sempre. quero ficar velhinha, inha. quero gente perto de mim pra comer as comidas que eu gosto de fazer, mesmo que nem sempre dê muito certo. quero cantar. quero ver esse filho que eu já tenho feliz por que está amando, sofrendo por alguma paixão, preocupado com a espinha no rosto, arrumando um trabalho, chegando em casa com a primeira namorada. tendo o filho dele. já pensou? quero que meu trabalho deixe as pessoas felizes, que faça alguma diferença na vida delas. quero conseguir viver do que eu gosto de fazer - e essa, por enquanto, é parte mais difícil. que mais?  sei lá. é tanta coisa.  quero continuar tendo ânimo para pintar as paredes, quando eu achar que é preciso mudar a cor das paredes. quero achar um cabelereiro bom, pelo menos uma vez na vida. quero continuar andando de bicicleta, quero plantar um monte de árvore aqui na rua de casa. quero um dia poder sair sem lugar definido pra chegar. quero também poder voltar.

sexta-feira, 9 de março de 2012

me incomoda a quantidade de sapatos num canto da sala. não muito, não a ponto de me fazer levantar para guardá-los, embora eu já tenha me levantado para juntá-los num canto só, ao menos. são quatro os pares, e eu não sei tocar piano. a mulher era uma informante. dessas histórias, a informante se apaixona. se, se, se. ir ao cinema. semana que vem. o espião se apaixona também. ela não foi. ele vai se sentar com ela. ela é atriz. e bebe conhaque. ele diz a verdade? ela tem o nariz grande. mas só quando usa óculos. há uma certa idade em que todas as mulheres são bonitas.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

nesses dias a gente tira as roupas velhas do armário. troca toda a roupa de cama, põe tudo pra lavar. lembra que daqui a pouco é hora de tirar as cobertas pesadas do alto, logo vem o frio, depois que passar a época de chuva convém lavar e deixar secar ao sol. passa a vassoura na casa toda, nas paredes, tira as teias das aranhas, me sinto mal por tirá-las. é verdade que aranhas comem pernilongos? nesses dias a gente limpa a casa como quem tira espinhos da pele. com cuidado, pra não doer. amanhã deve chegar uma notícia boa. e a gente reza pra que a dor que a gente provocou não dure muito tempo. não há de durar.
quando fechei a porta, girei a chave e pensei que a fechadura logo ia começar a dar problema. de costas para a minha casa, senti um cheiro esquisito de casa que não é minha. cheiro de tijolo velho molhado misturado com pimenta do reino. nem gosto muito de pimenta do reino, mas usei um pouco nesse dia. depois me virei, essa casa não é mesmo minha. embora eu mesma tenha escolhido morar aqui. por isso a gente pinta as paredes, pra tentar se apropriar da casa. hoje não vou pintar nada. está tudo vazio. vazio e sem sentido.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

claro que o que eu penso é mas o que estou fazendo? um pouco aflita, depois eu respondo com mais calma: vivendo, oras. eu me atrapalho, me engano, troco as palavras, me expresso mal e não me incomodo se não me entenderam direito. esse não é o problema central da questão. quem gosta de escrever não deveria nunca fazer terapia. atrapalha. mas a vida em sociedade pede certos sacrifícios, a vida em sociedade devia ser basicamente catar piolho nas crias, mas que besteira, meu filho nunca teve uma lêndea sequer na cabeça.
olha, eu não sou daqui. ninguém é. a tevê ligada, só pelo barulho de gente falando, a ideologia política, mas ideologia de que? casa pra morar, lazer, lugar para criar seus filhos, era só isso. eles dizendo. dinheiro não é, não é, não é nada divino. dinheiro é um contrato universal, foi isso o que ele disse? dinheiro é uma coisa que devia ser muito respeitada, eu concordo, principalmente por que chegou em casa uma guia de recolhimento da contribuição sindical da indústria do vestuário feminino e infanto juvenil, que merda é essa, eu pensei. respeitem o meu dinheiro. mas o programa acabou, e agora uma música triste é cantada por um sujeito triste e uma mulher igualmente triste assiste de longe. quase escrevi lonje. que coisa. parei por um segundo, coisa que ninguém nunca diz, parei por um segundo e pensei se longe era longe ou lonje. lonje. quase não existe. quase. como eu.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

tem umas coisas que a gente lê que é muito mais do que uma leitura. é quase uma fecundação. a gente fica gestando, gestando, gestando. quando nasce, reconhece os traços do pai e da mãe, dos tios e dos avós na coisa criada. sabe de quem vem o olhar, a boca, as unhas. não tem nada a ver uma coisa com a outra (exceto a coincidência de que a progenitora nesses casos sou eu mesma), mas ontem eu me lembrei da primeira risada do leo. e de como ele ria da risada, e de como de repente ele se assustou com a própria risada, e riu mais, num crescendo que evoluiu pra uma gargalhada, que gerou outro susto, e junto com esse susto um choro, que de repente cessou, por que se acostumou com a nova descoberta. e isso é assim, um livro bom e uma lembrança boa. justifica toda uma existência. só por que não estou de mau humor, claro.