sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
estava ouvindo o rádio de manhã: segundo a OMS, uma mulher que tem três parceiros sexuais por ano é uma mulher promíscua, por que na verdade ela está tendo relação com outras 27: cada uma das 3 teve relação com outras 3, e assim vai. deixa eu te falar uma coisa, senhor relator da OMS: promíscua é a senhora sua mãe, que devia estar dando em vez de te educar direito. imagina, ser promíscua por causa de 3 pessoas. 3 pessoas não é nada. num ano, então? aff. e depois ainda veio uma reportagem sobre histerectomia e os benefícios da remoção total do aparelho reprodutor feminino, que pode ser abdominal ou anal. mulheres: não transem. pensando bem, melhor ainda: vamos tirar seu útero? pelo cu.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
e assim termina outra história que nem começou. não começou pra vc. mais respeito com que os outros sentem, por favor. mais respeito com que os outros sentem por vc.
enxuguei as lágrimas, arrumei o cabelo e fui, faminta. não abortei nem um filho, com 20 anos de idade, vou abortar amor? não é aborto. é assassinato. não a queima-roupa, mas a sangue frio. é que não tinha amor. entendo. ou tinha, mas era pouco. não deu pra muito. morreu antes de vingar. meu amor não vai escorrer vermelho e quente se misturar água desinfetante anti-séptico de clínica clandestina de enfermeira rabugenta carniceiro médico mercenário e quase-mães dopadas de medo e dor. meu amor hoje vai para o tom zé. e pra quem mais quiser.
por que o amor existe. vc que não quis.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
deus, deus está em toda parte, eu não queria ter que deixar a porta fechada, por que a luz, os pássaros, o barulho de criança brincando na rua, mas a campainha, a campainha toca nas horas mais impróprias, e estando a porta aberta, não dá pra fingir que não tem ninguém em casa, como faço toda vez que vejo pelo olho mágico duas mulheres bem arrumadas, sapatinhos de salto, bolsas grandes nos ombros, sacou da bolsa uma bíblia como se sacasse uma arma, o que me lembrou a tira do jornal: como castrar um homem com um livro? leia a bíblia. ela me disse bom dia, eu de pijama às onze da manhã, xícara de café na mão, cabelos desgrenhados, bom dia. hoje eu queria falar de qualidade de vida, e queria falar com vc. é que eu não fumo, mas só faltava um cigarro em uma das mãos pra compor o quadro "a personificação da decadência", não, eu ali não queria falar de qualidade de vida, muito menos com ela, e foi aí, depois dessa frase, que ela sacou a bíblia, olhando para os lados, como se pudesse ser punida por isso, como se fosse altamente subversivo o que ela ia me mostrar, e eu entendo que ser evangélico é mesmo altamente subversivo, ler a bíblia é de uma subversão comparável a ler o livro vermelho num regime neo-liberal, mas eu tb sei que não é a subversão da multiplicação os pães que a perturba, o que a perturba é que talvez eu diga não, e que talvez ela tenha que continuar andando para conseguir esgotar a cota de panfletos do dia, e que talvez ela não atinja a meta de fiéis conquistados na semana, por isso o olhar apressado de quem tem um segredo a revelar. eu só queria voltar para o meu bolo, quente, fumegando em cima da mesa, estou ocupada, eu disse, e ela abriu a bíblia e me disse um salmo, nem me lembro que salmo era, eu sorri meu sorriso de pedra e disse que não era uma boa hora, e então o ar subversivo se dissipou, e se formou uma névoa de desdém e raiva, e eu pensei, o que leva duas senhoras a zanzar debaixo do sol quente tentando conquistar mais fiéis, minha mãe sempre dizia a mesma coisa: já tenho minha religião, e é tão repressora quanto a de vcs, eu completava em voz baixa, nunca tive coragem de erguer a voz pra minha mãe, até que um dia tudo explodiu em gritos e choros, um barulho imenso no quintal, jogaram alguma coisa, uma revista, preciso sair para comprar luvas, estou com calos na mão, e embora eu diga com certa frequência que não se deve confiar em pessoas de mãos muito lisas, esses calos tem me incomodado um bocado. mas não saio, mas não faço, não, não, não. só escrevo. escrevo pedindo, escrevo agradecendo, escrevo informando, escrevo brigando, escrevo protestando. e leio. uma manhã inteira de letras e leituras. é horrível dizer isso, mas exceto por um ou dois textos, me sinto como se perdesse tempo. e deus, deus foi embora com a mulher do portão, mas parou na casa ao lado, e minha vizinha não me deixa esquecer que Ele é o glorioso e que vai voltar para me amar, e se eu não amá-Lo agora depois vou me arrepender. canta bem, minha vizinha. só não me convence.
tava tão carente de abraço, que pedi café com leite mesmo estando com calor, tava tão precisando de carinho, que quando o sinal ficou vermelho me escorei no poste sem perceber e me senti confortada, tava tão triste e à toa na vida que vim andando do paraíso até a vila madalena, e posso dizer que não me sinto nada confortável depois de duas horas andando com esses sapatos nada confortáveis, exceto pelo fato de que o cansaço do corpo ajuda a diminuir o volume da barulheira maldita que eu tenho na minha cabeça agora.
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
o jardim quebrado com as pedras expostas a me lembrar das minhas próprias pedras, internas, por hora também reviradas ao ar livre. o subterrâneo, decomposto e exposto, me traz à superfície; me traga para a profundeza. eu: dois. é preciso terminar logo a reforma do que vai ser um jardim. pra ser só grama, flor, passarinho, cadeiras ao sol. sem pedras. sem pedras.
por hora. que mentira.
por hora. que mentira.
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
eu vejo minhas amigas pedindo por um amor. eu também já disse qualquer coisa parecida. mas eu não queria um amor. amor é pouco. eu queria era uma catarse, uma reviravolta, como chama mesmo, na estrutura da novela, o ponto de virada na vida de uma heroína?
tenho certeza de que o que o incomodava eram os sapatos apertados. já não bastava trabalhar de pé o tempo todo, com terno e gravata neste calor dos trópicos, cuidando da segurança de gente que nem de longe lembrava a sua, ainda precisava usar aqueles sapatos. a cunhada comprou numa promoção, olha, zé, pra você ir pro seu trabalho novo. se pelo menos desse pra trocar, esses bico-fino maldito tão me mastigando os dedos, mas sapato da liquidação não trocamos, senhor. melhor que sapato furado nesse dia de chuva, então vai assim mesmo. dia que não acaba, chegar em casa e tirar os sapatos. procurar outro emprego, esse não vai dar.
não, não é epifania. epifania é outra coisa, é quando se dá um momento de descoberta.
- outra stelinha?
- por favor.
- moça, tem um cinzeiro bem aqui.
- nossa, desculpa moço, não vi.
carne de segunda cheia de nervo, cê sente mesmo tando moída, mal dá pra comer sem interromper a mastigada. comi um pouco na cozinha sem que o cozinheiro visse, preço de primeira, bando de trouxa pagando caro só pra dizer que comeu fora. e queria que trouxesse ela aqui, zé, me leva no restaurante chique que vc tá trabalhando? não é chique, dira, é só um restaurante na rua. é chique sim, zé! vai, me leva, nem que seja um vez só, com seu décimo terceiro, me leva? dira, eu acabei de entrar, cê já tá pensando no décimo terceiro? é, ué. a gente tem que pensar a longo prazo.
a longo prazo, a longo prazo eu queria ter pensando quando te conheci, mas não disse nada, melhor ficar quieto, te levo, dira, se eu chegar a um ano e o dono não encrespar, te levo.
vai chegar, meu amor! nesse você vai ficar! e saiu pra fazer as unhas de sei lá quem, ganha até mais que eu em dia de natal e ano novo, sem falar das formaturas, dos casamentos, dos encontros de casais com cristo, do raio que parta, e vem me falar do meu décimo terceiro.
se eu pelo menos lembrasse o autor, ficava mais fácil procurar. aristóteles? será? não era aristóteles. e o professor, em que aula eu vi isso? introdução aos estudos literários, com a... a... esqueci o nome da professora. ou foi em literatura brasileira II, com o hansen? pode ser. procurar as anotações LBII.
yudith. o nome da professora era youdith. mas não foi com ela.
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