sábado, 29 de janeiro de 2011

mando ou não mando?

mando ou não mando?

mando ou não mando?

bem me quer, mal me quer,

bem me quer, mal me quer,

bem me quer, mal me quer,

bem me quer, mal me quer,

bem me quer,



mal me quer.

o segredo é começar sempre pelo mal me quer. no caso de pétalas em número par.

pétalas arrancadas, próxima flor. mal me quer. droga, essa era ímpar.

amanhã eu boto a foto da flor que fiz enquanto cogitava as possibilidades dos quereres.

não mando. não mando. priscila, obedeça! não mande!

(mas se eu não mandar ele não vai saber)

(mas se vc mandar ele vai querer só por que vc quis)

(vc está sendo boazinha comigo)

(deixa ele querer primeiro)

(ele deve achar que eu sou louca)

(até aí)

(até aí, o que?)

(até aí todo mundo acha)

(mas eu não sou)

(claro que não, ninguém é)

(então)

(então que como sua amiga eu devo te lembrar que é sempre vc que começa as histórias)

(e o que tem isso demais?)

(tem que depois vc fica achando devia não ter feito nada)

(não é verdade)

(não?)

(meio verdade)

(então)

(então o que?)

(então fica na sua, vai bordar, vai ler um livro, esquece)

(eu vou. desligo tudo, apago as luzes, subo, pego um livro. na segunda página eu olho pro relógio e penso: será que ele tá on-line? aí desço, ligo tudo de novo, não, ele não está on-line)

(rsrs)

(que foi? não ri de mim, por favor)

(não estou rindo de vc)

(não?)

(não)

(tá rindo do que então?)

(da sua falta de noção)

(ah, vá)

(ele não vai achar vc louca)

(não?)

(não. vai é ficar com medo de vc!)

(e vc, não tem mais o que fazer, não?)

(tenho, te trazer de volta à realidade)

(pra que?)

(pra vc parar de viajar por causa de alguém que vc nem conhece)

(mas quero conhecer, ué)

(vcs já se beijaram, pelo menos)

(não)

(hahahahahahahahha)

(poxa, pára de rir de mim, por favor?)

(rsrsrs, desculpe. e se ele for chato? não era melhor conhecer primeiro e se apaixonar depois, maluquinha?)

(eu não estou apaixonada. quer dizer, não pode ser tudo junto?)

(não? rsrs)

(por que vc está falando entre parênteses?)

(não sei, vc que começou)

(vou dormir)

(sonhe com os anjos!)

(não é dos anjos o sobrenome dele)

(como é?)

(não vou te falar)

(por que não?)

(por que não)

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

que rufem os tambores

e soem as cornetas

a partir desse momento em diante

eu, priscila moreno, me limito a proferir a palavra "eu" apenas 4 vezes por dia, não mais do que isso, sob pena de tomar óleo de rícino a cada infração.

além disso, fica aqui registrado que não citarei mais "a separação".

me liberto das amarras do passado para entrar no presente, enterro os mortos em suas tumbas,

e com toda a pompa e circunstância a que tenho direito, me declaro "perdoada".

amém.
de volta à estaca zero. dei um giro, mas foi com muita força, acabei nos 360º. eu queria dizer assim: abre seu coração, senão eu arrombo a janela, mas eu não sei onde fica a janela, e tb tem a questão que não adianta eu forçar o querer nem nadar contra a corrente. como foi mesmo que me disseram uma vez? á água corre pelo caminho mais fácil, mas não sou água, não deslizo lisa e mole, às vezes chego a ser áspera. eu sou a mulher que viu o cego e deixou a sacola com os ovos cair. eu sou a mulher que espera o professor chegar e não sabe que vestido colocar. eu sou a mulher que desenforma o bolo que se desfaz. eu sou a mulher que enche a banheira e submerge e se imagina morta. eu sou a mulher que desenforma o bolo que dá certo. eu sou a mulher que não planeja as coisas direito e que vê tudo dar errado. eu sou a mulher que não planeja as coisas direito e vê dar tudo certo. eu sou a mulher com fita no cabelo que canta louca enquanto o trem não vem. eu sou a mulher que sobe a escada do casebre imundo pra ter uma aventura. eu sou a mulher que atravessa a ponte correndo e rindo. eu sou a mulher que tem medo do mar. eu sou a mulher que se apaixona pelo padre. eu sou a mulher que vê o marido morrer. eu sou a mulher que é estuprada pelo policial na frente do marido. eu sou a mulher de saia azul na altura do tornozelo. eu sou a mulher que se enche de jóia. eu sou a mulher que não usa jóia nenhuma. eu sou a mulher que dança, eu sou a mulher que cai. eu sou a mulher que perde tudo. eu sou a mulher que grita atrás da cortina do banheiro, eu sou a mulher que chora atrás da cortina do banheiro, eu sou a mulher que ama atrás da cortina do banheiro. eu sou a mulher que abraça o travesseiro. eu sou a mulher que carrega o filho na cintura. eu sou a mulher que leva o filho pela mão. eu sou a mulher que vê o filho indo sozinho. eu sou a mulher que abandona o marido. eu sou a mulher abandonada pelo marido. eu sou a mulher que surta. eu sou a mulher que toma chuva. eu sou a mulher que dá risada com qualquer cantada barata. eu sou a mulher do retrato. eu sou a mulher do quadro. eu sou a mulher no alto da escadaria. eu sou a mulher morta no chão da sala. eu sou a mulher dando risada na cozinha. eu não sou a mulher que põe pedras nos bolsos e entra no rio.

sábado, 22 de janeiro de 2011

eu disse que ia fazer sociologia, ele disse não, minha filha, faz direito. eu disse que justamente hoje tinha feito minha matrícula num curso de direito da unip, unip por que eu não tô muito a fim de ter que fazer faculdade de verdade, quero um diploma, fui logo explicando, eu preciso explicar meu preconceito mais pra mim mesma do que pra qualquer pessoa. ele riu. antes disso me mostrou uma barata na parede, fez questão de me levar até onde estava essa barata, por que eu disse que não, que ele já tinha bebido demais, e que aquilo devia ser um besouro, um pernilongo, qualquer coisa menos uma barata. eu vi, tirei a sandália do pé e matei, pronto, problema resolvido, limpei a sujeira, tirei a barata esmagada do chão, com a maior naturalidade do mundo. sabe, a separação, nesse sentido, me fez muito bem. eu dou conta das coisas sozinha, agora. dos medos. ando sozinha na noite, no escuro, não tenho mais medo do escuro, antes eu deixava algumas luzes acesas. agora até prefiro o escuro. antes eu ouvia barulhos abomináveis, assustadores, via vultos (imaginava vultos), tinha pesadelos. agora os pesadelos são só meus. e quando uma coisa é só sua... agora tenho os ouvidos mais aguçados. escuto até os passinhos de uma barata na cerâmica fria da sala onde estou. perdi o medo dos bichos. perdi o medo do medo. a questão é: alguém tinha alguma dúvida de que eu era capaz de matar uma barata? de que eu era capaz de não perder tempo com bobagens como o medo? eu não. sempre tive certeza. e nesse sentido, a separação foi absolutamente inútil. é óbvio que eu sou capaz. bom, matei, enterrei, voltei para o meu lugar. depois pedi ele em casamento. perguntei: vc é casado? sim, há 32 anos. ah, que pena. se não, te pedia em casamento agora mesmo. é que ele olhou o meu brinco, que eu tenho há dez anos, e fez uma espécie de análise de cor e forma que eu achei muito bonito. e é mesmo por causa daquilo tudo que ele disse que eu nunca perdi esse brinco em dez anos, enquanto muitos outros já se quebraram, já se perderam. fiquei pensando no que isso diz a meu respeito. é claro, tenho consciência de que só dei importância para o discurso por que os olhares não costumam ser tão atenciosos aos detalhes como cor, forma, textura. percebi, hoje, que eu prefiro os homens mais velhos. por uma questão de repertório mesmo. e justamente por essa questão de repertório - ou de experiência - é que eu não confio em homem nenhum que prefira as mulheres muito mais novas do que ele. percebi também que minha maldade aumenta com a idade. e que não é o príncipe que vai morar no palácio, é a princesa que vai morar no pântano. invariavelmente.
acordei com uma gritaria, parecia que uma matilha toda comia uma menina viva. me enrolei no lençol, tudo escuro, tropecei, abri a janela, não tinha luz na rua, o poste queimado, só os gritos, agudos e incessantes, e a cachorrada que latia. então o grito durou mais do que dez segundos. e vieram mais dois gritinhos ritmados no final. juro, minha vontade é ir eu mesma morder essa filha da mãe e arrancar as suas cordas vocais no dente, pra ela aprender a não gritar desse jeito às nove da noite.
eu queria mesmo era ficar quieta, queria, queria, mas não consigo, sabe como é? quando a cabeça não pára? preciso aprender a meditar, preciso me acalmar, preciso respirar mais devagar. prestar atenção no que estou fazendo. mas não. e agora? me ferrei. de volta à estaca zero. mas dessa vez, sem outros bicos ao mesmo tempo - o que em geral me salvava, acabava um, tinha outro. agora acabou tudo. tudo. me ferrei. pra variar. não, não é um lamento. é uma constatação, só. consequências da inconsequência. viu, saturno, meia volta-volver. volta amanhã. eu sei, eu sei que a oportunidade que eu tive pra mudar tudo eu não aproveitei bem. ou melhor, mudei em 360 graus. acabei parada no mesmo lugar, não adiantou nada. e agora vou ter que fazer direito ou ficar patinando a vida toda. quero fincar meus pés no chão. é. ninguém disse que ia ser fácil. mas tb ninguém disse que ia ser difícil assim. é que não tem receita, não é? não, não é uma reclamação. ou é. é só que...
sabe quando vc sabe que está fazendo tudo errado? tudo, tudo. eu sou a mulher que viu o cego e deixou cair a sacola com os ovos. a diferença é que eu volto pra casa. ela não.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

aos homens de boa fé, talvez eu devesse deixar um aviso: que nem se aproximem, posto que gosto mesmo é de sofrer. não deixo. vai que uma hora eu canso dos maus.