domingo, 24 de julho de 2011

e assim, de cama em cama, ficou sem brincos. nenhum. de orelhas peladas, saía por aí dizendo: viu meus brincos? de vidro. vidro russo, não qualquer vidro. não sei qual é a especialidade dos vidros russos, mas aqueles são de vidro russo. viu por aí? tem algum no bolso? se vir, guarda pra mim? são muito, muito importantes. não, valiosos, não. importantes. uma coisa brilhando no chão, pode ser meu brinco. me avisa? guarda pra mim? obrigada. muito obrigada. parava os homens de terno, viu meus brincos? as mulheres indo pro trabalho, ei, esse brinco. esse brinco é meu, vc... ah, não, não é. é parecido, mas não é o meu. me desculpe. os meus são de vidros russos, sabe? não sei o que tem demais os vidros russos, mas o meu é de vidro russo. desculpe. pode ir. parecia uma rainha vistoriando a guarda. examinando os empregados reais. usava uma saia toda feita de retalhos, que ela mesma costurava sem tirar a saia do corpo. por volta das cinco era fácil cruzar com ela zanzando perto da estação da luz. quando as confecções colocavam sacos e mais sacos de restos de tecido nas ruas, ela examinava um por um, escolhia a dedo o que renderia as melhores combinações. se sentava na calçada, abria uma caixinha cheia de linhas, tesourinhas, agulhas, tudo arrumado com ordem e método. não se sabe como ou por que ela chegou até aqui. conversava pouco, e no que era do entendível, não dizia nada de si. se filhos, se pai, se mãe, irmãos, namorados, maridos, nada, nada. só os brincos importavam. os brincos e a saia.

da espera

ele nunca me encara de frente, peito aberto. me olha sempre de lado, mesmo quando está falando comigo. e se olha, olha rápido, só pra dizer que não, que consegue falar comigo e me ver ao mesmo tempo. depois escolhe uma parada qualquer pra pousar o olhar. eu achava que ele não gostava de mim, do meu jeito. assim, sem nem conhecer direito, que não suportava, mesmo. mas outro dia, num relance, eu vi. estava escuro, era noite, mas eu vi ele me olhando. e entendi tudo. ok. eu topo.

é, entendi errado. isso já faz um ano. mais de um ano. que droga! eu achei que eu soubesse ler olhares.

domingo, 5 de junho de 2011

se pelo menos no de vez em quando, mas não. o que é de sempre é o nunca, pelo menos aqui. difícil foi achar um lugar entre as outras moças, mas enfim achei. não me importo que hajam outras - sempre hão de haver, essas outras. mas pelo menos um pouco, quero estar só. sozinha com ele.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

não vou mais procurar casa. não vou mais procurar trabalho, nem vou fazer entrevista nenhuma. não vou mais costurar, não vou mais cozinhar, não vou fazer mais nada. vou vender todas as minhas roupas, ficar só com sete mudas, uma para cada dia da semana. mais dois pijamas. uma mochila. vou vender todos os meus móveis, vou vender tudo o que seja possível botar um preço. vou fazer um grande garage sale, um enorme e gigante família vende tudo. vou dar minhas fotos pra quem quiser. vou picotar meus tecidos e vender em retalhos. vou cozinhar uma última vez, tudo o que tem nos armários, pra vender em porções. vou pedir pro pai do leo guardar na casa dele o que for do leo. vou pegar parte do dinheiro pra arrumar essa casa pra entregar pro dono. vou pagar minhas contas, quitar minhas dívidas, fechar a conta no banco. vou pagar a bicicleta, bloquear o celular, ver se meu irmão quer ficar com o telefone fixo. vou dar um beijo no meu filho e dizer daqui a um ano eu volto. ele vai estar banguela, mais alto, mais esperto, mais velho. não sei de mim. tudo vendido, contas pagas, mochila nos ombros, vou andar. não sei pra onde. não sei por que. não sei pra que.

terça-feira, 29 de março de 2011



até me esqueci que estava com fome, esqueci da roupa lavada pra estender, esqueci da roupa já seca pra recolher, da bolsa de água quente descongelando, a criança já dormiu, levou um tombo e tanto, deitada na cama fazendo carinho enquanto ele continha uma lagrimazinha que eu não sei direito do que era, me dei conta de que são quase oito anos de estrada, e fiquei feliz por ser parceira dele nessa empreitada, e digo isso por que ser mãe às vezes faz a gente se confundir, por que foi a gente que pariu, então é fácil se enganar e achar que temos direitos tais ou quais. de suprimir a individualidade do ser, eu falo.


esqueci dos cachorrinhos, do cachorrão, da gata, esqueci de tudo. me dei conta de que somos em sete aqui. eu sempre quis ter uma família grande. às vezes eles caem. eu ajudo a levantar. às vezes eu caio. tento fazer com que não saibam de nada. não acho que isso é bom ou ruim, não acho nada. foi só uma constatação.

quarta-feira, 23 de março de 2011

quase esqueci. sonhei que voltei, mas o lugar de origem acabou se tornando uma nova viagem, e vivíamos numa espécie de castelo, a família toda, mas chegou um mensageiro dizendo ao meu pai que deveríamos sair dali, pois os antigos donos se arrependeram da transação, qualquer coisa assim, e que se não saíssemos no mesmo dia, eles chegariam com um exército de cavaleiros e nos matariam, meu pai não quis sair, disse que nós os venceríamos facilmente, mas eu disse que não, que preferia partir, que não queria participar de batalha nenhuma, e ele disse que eu podia ir se quisesse, mas sozinha, e como eu sabia que o mundo ia acabar, por que isso era em 2012, eu escolhi deixá-los, por que cada um sabe como prefere morrer, e eu não disse isso para ninguém, mas eu achei que preferia morrer numa catástrofe do que degolada com uma espada por um cavaleiro cruel. se bem que acho que eles não fazem só isso com as mulheres, mas no sonho não veio nenhum tipo de conflito de gênero, isso eu que estou teorizando agora, enfim, no sonho eu tinha que fazer uma mala de roupas, e de repente todos os sapatos da minha mãe apareceram, sapatos que existiram mesmo e dos quais eu já havia me esquecido completamente, e eu pensava, mas por que raios esses sapatos ficaram guardados esse tempo todo, tinha até aquelas manchinhas verdes de mofo, e eu escolhendo quais sapatos eu levaria, mesmo sabendo que não teria oportunidade de usá-los, por que sabia perfeitamente que estávamos indo morrer num lugar diferente, apenas. peguei os sapatos que eu gostava mais, o leo ia fazendo a mala dele, disse que pegasse só o que ele gostava mais, botei tudo na mochila e partimos, eu, leo e um companheiro x que também tinha um filho, mas que não era meu, e fomos nós quatro embora do castelo. vimos chegar o grande exército, enfileirado, cavaleiros com espadas e plumas na armadura, eu temi pelo meu pai e minha mãe, mas não pensei se venceriam ou perderiam a batalha, pensei que estávamos todos perdidos de qualquer forma, então que cada um fizesse o que era de gosto, que é o regalo da vida, fazer o que é de gosto. só lamentei que eles não tivessem acreditado nessa conversa de que o mundo ia acabar, para que tomassem atitudes mais libertas, enfim, seguimos. passamos por uma praia e o mar levantava ondas gigantes, nós nos olhávamos assustados, mas ao mesmo tempo serenos, e não dizíamos nada às crianças, ele dirigia e eu conversava com os meninos, eram dois meninos, e depois de bastante tempo andando na estrada, paramos num supermercado. compramos comida, e eu disse aos meninos que fossem até a seção de brinquedos e escolhessem o jogo mais legal para eles brincarem na viagem, eles fizeram aquela cara de minha mãe é o máximo, e então o despertador tocou. e eu não sei mais o que aconteceu, a gente devia ter uma máquina que filmasse os sonhos. claro que não, acho que muita coisa devia ficar ali e só ali, mas eu queria ver o fim da história. é que a gente sempre acha que o fim demora pra chegar. e não é que o mundo ia acabar, a gente é que não ia sobreviver, de qualquer forma...

terça-feira, 22 de março de 2011

a gente estancou de repente, mas graças aos bons deuses, estamos desestancando. mesmo que tenha um ou outro rugindo ainda, e fazendo cara de mau, e dizendo que não pode, e que não vai, e que não dá, eu digo: eu posso, eu vou, eu dou. mentira, por que ninguém dá quando quer, ah não, a música diz que ninguém tá quando quer, expressão com a qual concordo em grau, número e todo o resto. e dar, bem, não ando dando muita coisa não, ando mais é querendo receber, pra ver se me recomponho direito, mentira, não quero receber nada de ninguém pra me recompor, então estou no modo econômico, entende, muito embora aquela outra música diga e na lei natural dos encontros, eu deixo e recebo um tanto, e parto aos olhos nus, mas não vou vestida de luneta, vou vestida de caleidoscópio, se quiser se alegrar, me veja, se não quiser, olhe para outro lado, que estou disposta a esquecer seu rosto de vez e acho que é tão normal. não digo que não tenho medo, mas é como a menina que tinha tanto medo do lobo, mas tanto medo, que começou a repetir, lobolobolobo e de repente se viu frente à frente com um enorme e delicioso bolo. o medo? dome. não é toa que é assim. eu acredito que as palavras carregam muito mais do que seu significado mais óbvio. mas não sei por que comecei a falar de medo.