tem dias que eu não tenho o que dizer
nesses dias
tudo está bem
ou tudo vai ficar bem
e eu sinto uma paz enorme
e aí eu entendo
que isso faz parte
do meu ciclo menstrual - há!
daqui a quinze dias nem tudo estará tão bem assim
me sinto tão bicho, fico pensando por que toda essa falsa civilidade e esses prédios altos e essas calças jeans apertadas e um monte de gente morando tão perto uns dos outros e tão longe ao mesmo tempo, e quase todo mundo querendo ser loiro de cabelo liso, ficam um tempão no salão aqui do lado, máquinas ligadas o dia todo, um puta calor, vem aquele cheiro de tinta e de secador de cabelo, cheira queimado às vezes, também pudera...
os carros buzinam, as pessoas passam, às vezes entram, às vezes são simpáticas, em geral não, mas como as pessoas dentro de seus carros buzinam!
isso, amor. buzina que voa.
eu estaria agora sem problemas debaixo de uma árvore catando piolhim na cabeça do meu filhim. que nem macaquim.
vindo pro trabalho vi um homem deitado no chão de costas para a rua. pelos movimentos ritmados, ele batia uma. na frente de uma loja fechada, a fachada moderna. De tarde, as clientes chiques com seus cabelos loiros, lisos e chiques pisarão na porra seca de um mendigo que de manhã batia uma.
e aí eu fico pensando que não adianta maquiagem salto etiqueta modos maneiras trejeitos. a gente é porra, menstruação e esgoto. a gente anda desviando de merda, a gente anda respirando merda, toda a nossa merda vai pro rio, se eu fosse Deus explodia tudo, ele rio a gente merda.
tem um cara que diz que cocô é vida, ok, por que o rio morreu então?
pronto, acabou o meu tão adorável sentimento de paz.
já quero ir embora de novo, e agora não tem mais nada a ver com meu ciclo menstrual.
não, não vou, vou ficar, é mais difícil, sempre, ficar do que sair, mas vou ficar. sou forte.
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