É quase um passo de dança. Um passo não, uma sequência toda. Num ritmo cadenciado, eu equilibro dois livros numa mão e uma maçã na outra. A maçã passa para a mão que segura os livros, enquanto a mão livre pendura de novo o avental que caiu no chão. Fecho a porta da cozinha, pego a correspondência de cima da mesa, a bolsa, esqueci da bolsa. Giro, rodopio, atravesso a sala com a correspondência, a bolsa, os dois livros e a maçã. Levo dois livros? Vou ter tempo de ler? Levo três, um já está no fim e o outro tá meio chato. Atrasada. Não vou de carro, é rodízio, passos rápidos até o ponto, o ônibus vem vindo, não preciso correr, rodopio de novo, levanto o braço direito, o motorista pára antes do ponto pra mim. Obrigada! E ele olha com um olhar sacana de quem diria pra vc eu páro em qualquer lugar, eu nunca sei o que dizem meus olhos quando eu agradeço qualquer coisa ou faço um elogio qualquer. Às vezes tenho a impressão de que as pessoas me vêem dizendo vem aqui. Não me importo, continuo agradecendo e elogiando. Do ônibus eu vejo um monte de coisa, uma loja nova que abriram, uma casa que era linda e que demoliram, tem uns banquinhos legais num brechó, preciso voltar aqui depois, de carro não dá pra ver isso. Sem falar nas pessoas, mas isso merece uma nota à parte.
Chego no ponto, desço, rodopio de novo para não atropelar um velho com um carrinho, passos rápidos até o outro ponto, contorno o parque, faz tempo que não venho aqui, tem feito frio, nesse parque venta tanto. O ônibus chega rápido, não espero nada, o dia hoje está bem sincronizado. Casas, casas, casas. Predinhos, predinhos, predinhos. Casarões, casarões. Construíram um monte de predinhos de três andares na avenida, os casarões estão virando predinhos, acho justo, aqui perto de casa tem um monte de família que vive em barraquinhos, que pelo menos o tamanho dos casarões diminua então, já que a opulência não vai diminuir mesmo. Largo da Batata, continuo no mesmo ritmo, existe uma música imaginária na minha cabeça que não pára de tocar nunca. Chego. Sede. Derrubo tudo, copo, água, quebro a torneirinha do filtro. Já estava quebrada, eu só desencaixei. Meu corpo parou, mas eu não. Continuo rodopiando. Sento. Respiro. Por que eu resolvi trazer três livros num dia em que eu não vim de carro? A bolsa ficou mais pesada.
É, definitivamente você é o Coelho.
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