sexta-feira, 3 de setembro de 2010

II

o maior equívoco da teoria literária é o narrador onisciente. não existe nem um narrador que seja onisciente. por que a onisciência é uma mentira. é uma fábula. o narrador não sabe tudo da vida de seus personagens, ainda que sejam seus os personagens: para saber tudo, tudo teria que existir. mesmo a história mais bem contada não existe inteira. ou por que não existe uma verdade, ou por que existam muitas verdades. ela era uma grande fã das meias verdades. enquanto voltava para casa pensava que devia dar um jeito de se mudar. talvez ela aceitasse se casar com o italiano. o problema do italiano é que ele não tinha a menor pinta de italiano. parecia mais um sueco, um dinamarquês, ou um alemão. loiro, olho muito azul, nariz fino e delicado. ela gostava de homens que tinham o nariz grande. não muito grande, mas homem não podia ter o nariz pequeno, empinado. não, isso é nariz de mulher. homem que é homem tem força até no nariz. e o seu tipo preferido de homem era justamente o arquétipo do homem mediterrâneo: pele morena, cabelos escuros, anelados de preferência, sobrancelhas grossas, nariz expressivo. boca carnuda. bons dentes, não muito brancos, e perfilados. mas se dava por satisfeita mesmo que ele não fosse nada disso, se a tratasse bem, se é que você me entende... no metrô, dois homens a olharam com interesse. o primeiro era um executivo. ridículo, de óculos escuros dentro do vaguão. só perdoava se fosse conjuntivite. não era, ele tirou os óculos para que ela soubesse que estava sendo cortejada. o segundo tinha uma tatuagem no braço inteiro, e ela achou ridículo que no cotovelo houvesse o desenho de uma circunferência. muito óbvio. mas o contraste entre os desenhos em preto e branco e a blusa listrada que ele usava era realmente interessante. era difícil ela encontrar um cara que não tivesse nada que pudesse ser ridicularizado. ninguém era bom o suficiente, nem inteligente o bastante. mas ela é nossa heroína, é o que temos pra hoje, então vou falar outra coisa: nenhum homem chegava aos seus pés. por isso, talvez ela se casasse com o italiano, talvez ela continuasse saindo com o guitarrista metaleiro, talvez fosse morar em montevidéu com o portenho. ela gostava bastante de doce de leite. sabia que aqui não ia continuar, então, entre a américa latina e a europa, qual a dúvida? não ficava constrangida em assumir que não casava por amor. casava para conseguir um passaporte, e qual o problema, não era esse o sonho de toda brasileira, desde que cabral chegou aqui? quando cabral chegou ainda não existiam as brasileiras nem os brasileiros, mas ela não prestava muita atenção nesses pormenores da história.

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