sexta-feira, 15 de outubro de 2010

faz duas horas que eu acordei, não sei se tomo café ou se almoço. daqui a pouco, janto. não sei se lavo a louça ou se faço café, preciso lavar a louça para fazer café, ou posso procurar o outro coador, limpo, e coar direto numa xícara, deve ter ainda uma xícara limpa, o coador é de papel. tanto o que fazer, e fizemos apenas isto. não sei se passo ou se fico, a cidade cheira pêssegos em dezembro, não consigo avançar na leitura, estou empacada, a cidade cheira pêssegos em dezembro. é melhor eu cozinhar as batatas logo, antes que elas estraguem. e estender a roupa, antes que fique cheirando mal dentro da máquina, o caos impera, mas do caos surgiu o mundo, não tem uma história que é assim? mas daqui de casa, desse caos, o mais provável é que surjam ratos e baratas, é melhor eu arrumar a casa antes que ela estrague. não, são as batatas que estragam. a casa... a casa cai? a casa desmancha? quem dera, era mais fácil arrumar se a casa se desmanchasse, e aí, com um sopro, a gente erguia a casa de novo, limpa, arrumada, como cores novas nas paredes, móveis novos na sala, e pessoas felizes na cozinha. pessoas felizes na cozinha mas quem seriam essas pessoas, pessoas que me olhariam como se eu fosse uma estranha, por que vc entrou aqui? eu fiz essa casa, ora, coloquei vcs aí para que me fizessem companhia, risos, vc nos colocou aqui? gargalhadas, por favor, vá embora antes de chamarmos a polícia, não queremos confusão, mas por que chamar a polícia, se eu esperava que vcs me convidassem para o café? eu os criei, veja, você usa o cabelo como minha avó usava quando eu era criança, e vc, tem os mesmos trejeitos e expressões da minha mãe, vc é o meu pai quando jovem, e esse menino fiz loiro como meu filho, mas com os olhos castanhos, como são os meus. não me mandem embora, ou eu os desfaço, assim como os fiz. silêncio. as pessoas já não estão mais tão felizes, não se ouve mais riso nem conversa, as pessoas estão mudas, paradas, apáticas, esperando um aceno, uma ordem, continuem, eu digo, mas elas começam a ficar transparentes, começam a reluzir, vem uma luz forte e estou só de novo, na casa suja, bagunçada, feia, triste e envelhecida, que tem apenas uma xícara limpa, nenhuma água no filtro e roupas espalhadas por todos os cantos, parece até um cenário, não é possível que eu tenha tanta roupa assim, vou fazer um café, meu estômago dói, de fome.

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