mas eu fico feliz por ele, então, já que foi por isso. por que eu não conseguiria deixar alguém por que a pessoa briga de mais ou de menos, amar é tão mais que isso. eu mesma não consegui deixá-lo por que ele brigava de menos, embora me deixasse um pouco nervosa aquela bananice toda, parece que não tem sangue nas veias, vai ver é isso mesmo, falta sangue na veia. deve ser por isso que pra cada pergunta é uma resposta diferente, aí ela diz que ele me deixou por que eu não limpo a casa, acho que adora que ele me deixou por que agora tem uma espécie de reforço para as broncas, em qualquer conversa vem: seu marido te deixou por isso, tá na hora de vc mudar. mas por mais que eu faça merda (quem é enrolado se enrola até cantando parabéns pro filho), a questão que eu me faço é: eu quero ser diferente? sinceramente? não. alguma ou outra coisa sim, mas em linhas gerais... não. não me deixam por mim. me deixam por si. por lá, por dó, por ré. por mi, não.
com a corda mi do meu cavaquinho fiz uma aliança pra ela prova de carinho. eu quero provas de carinho.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
de sonhos
vim correndo escrever, antes que eu me esqueça: tenho sonhos que se repetem desde a infância. graças a deus o homem de chapéu com faixa preta, camisa listrada em branco e vermelho, mala nas mãos e olhar fixo nunca mais voltou para me assustar. o sonho era assim: estávamos brincando, sentados no chão, irmãos e eu. na oficina que meu pai tinha. a oficina ocupava um espaço enorme. o muro era baixo, e dava uma impressão horrível, por que dava pra ver só a cabeça de quem passava na calçada. pois bem. no sonho, o problema mesmo era a música. era uma espécie de sino, uma musiquinha de realejo muito sombria que avisava que o homem estava vindo. e ele vinha para me matar. o que me deixava assustada não era mais a música do que a expressão serena, fixa e determinada do sujeito. era assustador. nem lembro quando foi a última vez que tive esse pesadelo, mas foram muitas e muitas vezes. a música, o homem andando com passos firmes e olhar determinado, ele nunca virou a esquina, só descia a rua, antes que ele virasse a esquina eu acordava. mas eu sabia que se ele virasse a esquina e alcançasse o portão, tinha alguma coisa dentro da mala, não sei o que era, mas sei que ele me mataria. queria sonhar com isso de novo, pra ver agora com olhos de gente adulta.
sonho recorrente 2: eu tinha uns três, quatro anos. minha mãe e eu. meu irmão brincando na água. era um riachinho, riachinho mesmo, que tinha atrás da casa onde morávamos. na verdade, não sei se era naquela casa, ou se era em outro lugar e eu juntei os dois riachos. um filete de água que brotava de uma mina mais pra cima cortava a chácara toda, e ia formar um lago na chácara vizinha.
bem, o sonho era: estávamos seguindo a trilha para ir até a fonte. numa parte do caminho, eu fiquei com medo, minha mãe segurou minha mão e disse: olha filha, dá pra ver o fundo, tem pedrinhas. e peixinhos. e nós duas abaixávamos e ficávamos alguns segundos vendo os peixinhos. e aí o riacho começava a encher. era um lugar muito agradável. estava calor, mas tinha muita árvore e samambaia, e o riacho deixava o ar fresco. muitas folhas secas e pedriscos no chão. pedriscos marrons, que nem argila expandida. parecia um pouco uma área pantanosa, o riacho não tinha um leito regular. tínhamos que desviar, pisando em pedras. eu sempre sonhava com isso: minha mãe segurando a minha mão, a gente abaixando para ver o fundo do riacho, os peixinhos nadando, os peixinhos saíam da ágaua e começavam a voar, criavam asas de borbotas, peixinhos miudinhos, borboletinhas. e a gravidade deixava de existir, e a água do riacho flutuava, os peixes voavam, só as árvores permaneciam imóveis. minha mãe continuava a andar, desatenta pro que acontecia, me puxando, e eu parada, olhando os peixes-borboletas com uma margaridinha na mão. de saia branca transpassada e "bustiê", como eu dizia, do piu-piu, eu acho. branco, com um desenho do piu-piu. tem foto minha com essa roupa, eu tinha 3, 4 anos. sandália, cabelo preso no alto, do lado direito, tudo preso num rabicó. mas isso tudo quase não importa, o que interessa é que esse sonho muda. esse lugar é como se fosse um refúgio pra mim, e ao mesmo tempo, reflexo: às vezes, essa área pantanosa inunda, vira lama, não consigo ver o fundo. em outras vezes seca, completamente, morre tudo. às vezes fica de noite e eu ainda estou lá, e não consigo sair, e me sinto presa, asfixiada, e assustada com a noite.
fazia muito tempo que eu não tinha esse sonho. mas hoje sonhei de novo, por isso me lembrei dele, já tinha esquecido. a água estava límpida e cristalina, haviam peixinhos, e eu disse para a minha mãe: olha mãe, os peixinhos voltaram a nadar, encheu de peixinho.
eram cor-de-abóbora. borboletinhas brancas voavam minúsculas, passarinhos cantavam, as samambaias estavam viçosas e tinha um cheiro fresco de eucalipto molhado no ar. o sol entrava entre as folhas e fazia o riacho brilhar. e nós estávamos felizes.
o terceiro sonho recorrente é esquisitíssimo: areia, areia, areia. areia de ampulheta, dunas e mais dunas de areia que desliza, apenas desliza, o sonho inteiro é areia deslizante. mas se algo dá errado, a areia deixa de deslizar fina e constante, e engrossa, fica granulada, áspera, não desliza mais, enrosca, machuca, é como se eu estivesse tecendo algo e de repente aparecesse um nó. ficava muito angustiada quando sonhava com isso, era exasperador. era quase tão ruim quanto o pesadelo do homem de mala, só que uma angústia interna, não era medo de que alguém me matasse. era medo da minha incapacidade de manter a areia deslizando fina e macia. vai entender. dá pra entender um monte de coisa com esses sonhos.
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sonho recorrente 2: eu tinha uns três, quatro anos. minha mãe e eu. meu irmão brincando na água. era um riachinho, riachinho mesmo, que tinha atrás da casa onde morávamos. na verdade, não sei se era naquela casa, ou se era em outro lugar e eu juntei os dois riachos. um filete de água que brotava de uma mina mais pra cima cortava a chácara toda, e ia formar um lago na chácara vizinha.
bem, o sonho era: estávamos seguindo a trilha para ir até a fonte. numa parte do caminho, eu fiquei com medo, minha mãe segurou minha mão e disse: olha filha, dá pra ver o fundo, tem pedrinhas. e peixinhos. e nós duas abaixávamos e ficávamos alguns segundos vendo os peixinhos. e aí o riacho começava a encher. era um lugar muito agradável. estava calor, mas tinha muita árvore e samambaia, e o riacho deixava o ar fresco. muitas folhas secas e pedriscos no chão. pedriscos marrons, que nem argila expandida. parecia um pouco uma área pantanosa, o riacho não tinha um leito regular. tínhamos que desviar, pisando em pedras. eu sempre sonhava com isso: minha mãe segurando a minha mão, a gente abaixando para ver o fundo do riacho, os peixinhos nadando, os peixinhos saíam da ágaua e começavam a voar, criavam asas de borbotas, peixinhos miudinhos, borboletinhas. e a gravidade deixava de existir, e a água do riacho flutuava, os peixes voavam, só as árvores permaneciam imóveis. minha mãe continuava a andar, desatenta pro que acontecia, me puxando, e eu parada, olhando os peixes-borboletas com uma margaridinha na mão. de saia branca transpassada e "bustiê", como eu dizia, do piu-piu, eu acho. branco, com um desenho do piu-piu. tem foto minha com essa roupa, eu tinha 3, 4 anos. sandália, cabelo preso no alto, do lado direito, tudo preso num rabicó. mas isso tudo quase não importa, o que interessa é que esse sonho muda. esse lugar é como se fosse um refúgio pra mim, e ao mesmo tempo, reflexo: às vezes, essa área pantanosa inunda, vira lama, não consigo ver o fundo. em outras vezes seca, completamente, morre tudo. às vezes fica de noite e eu ainda estou lá, e não consigo sair, e me sinto presa, asfixiada, e assustada com a noite.
fazia muito tempo que eu não tinha esse sonho. mas hoje sonhei de novo, por isso me lembrei dele, já tinha esquecido. a água estava límpida e cristalina, haviam peixinhos, e eu disse para a minha mãe: olha mãe, os peixinhos voltaram a nadar, encheu de peixinho.
eram cor-de-abóbora. borboletinhas brancas voavam minúsculas, passarinhos cantavam, as samambaias estavam viçosas e tinha um cheiro fresco de eucalipto molhado no ar. o sol entrava entre as folhas e fazia o riacho brilhar. e nós estávamos felizes.
o terceiro sonho recorrente é esquisitíssimo: areia, areia, areia. areia de ampulheta, dunas e mais dunas de areia que desliza, apenas desliza, o sonho inteiro é areia deslizante. mas se algo dá errado, a areia deixa de deslizar fina e constante, e engrossa, fica granulada, áspera, não desliza mais, enrosca, machuca, é como se eu estivesse tecendo algo e de repente aparecesse um nó. ficava muito angustiada quando sonhava com isso, era exasperador. era quase tão ruim quanto o pesadelo do homem de mala, só que uma angústia interna, não era medo de que alguém me matasse. era medo da minha incapacidade de manter a areia deslizando fina e macia. vai entender. dá pra entender um monte de coisa com esses sonhos.
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sexta-feira, 15 de outubro de 2010
faz duas horas que eu acordei, não sei se tomo café ou se almoço. daqui a pouco, janto. não sei se lavo a louça ou se faço café, preciso lavar a louça para fazer café, ou posso procurar o outro coador, limpo, e coar direto numa xícara, deve ter ainda uma xícara limpa, o coador é de papel. tanto o que fazer, e fizemos apenas isto. não sei se passo ou se fico, a cidade cheira pêssegos em dezembro, não consigo avançar na leitura, estou empacada, a cidade cheira pêssegos em dezembro. é melhor eu cozinhar as batatas logo, antes que elas estraguem. e estender a roupa, antes que fique cheirando mal dentro da máquina, o caos impera, mas do caos surgiu o mundo, não tem uma história que é assim? mas daqui de casa, desse caos, o mais provável é que surjam ratos e baratas, é melhor eu arrumar a casa antes que ela estrague. não, são as batatas que estragam. a casa... a casa cai? a casa desmancha? quem dera, era mais fácil arrumar se a casa se desmanchasse, e aí, com um sopro, a gente erguia a casa de novo, limpa, arrumada, como cores novas nas paredes, móveis novos na sala, e pessoas felizes na cozinha. pessoas felizes na cozinha mas quem seriam essas pessoas, pessoas que me olhariam como se eu fosse uma estranha, por que vc entrou aqui? eu fiz essa casa, ora, coloquei vcs aí para que me fizessem companhia, risos, vc nos colocou aqui? gargalhadas, por favor, vá embora antes de chamarmos a polícia, não queremos confusão, mas por que chamar a polícia, se eu esperava que vcs me convidassem para o café? eu os criei, veja, você usa o cabelo como minha avó usava quando eu era criança, e vc, tem os mesmos trejeitos e expressões da minha mãe, vc é o meu pai quando jovem, e esse menino fiz loiro como meu filho, mas com os olhos castanhos, como são os meus. não me mandem embora, ou eu os desfaço, assim como os fiz. silêncio. as pessoas já não estão mais tão felizes, não se ouve mais riso nem conversa, as pessoas estão mudas, paradas, apáticas, esperando um aceno, uma ordem, continuem, eu digo, mas elas começam a ficar transparentes, começam a reluzir, vem uma luz forte e estou só de novo, na casa suja, bagunçada, feia, triste e envelhecida, que tem apenas uma xícara limpa, nenhuma água no filtro e roupas espalhadas por todos os cantos, parece até um cenário, não é possível que eu tenha tanta roupa assim, vou fazer um café, meu estômago dói, de fome.
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
arrumo a casa, dessas arrumações em que tudo sai do lugar, podia ir passear, é meu aniversário, almoçar fora, talvez vá, mas agora arrumo a casa. papéis, documentos, boletim de ocorrência, cds com fotos, coisas devidamente escondidas para que não fossem lembradas por causa da violência que contém. agora são vistas, mas não necessariamente revistas. arrumo a casa e arrumo eu, tão mulher isso, eu acho, tirar as rendas do armário mesmo com um coturno preto nos pés, é rendar a vida. mas não arrendar a vida, não esquecer disso na próxima. saudade do solista que deixava minha noite mais cheia e mais vazia ao mesmo tempo, em cima do telhado do prédio vizinho ele chorava, às vezes ria, mas em geral chorava, ou pelo menos eu ouvia aquilo como um lamento. me pergunto por que nunca tive vontade de atravessar a grama e subir os sete andares para fazer companhia, eu só achava bonito, não precisava estar perto, nunca quis ficar muito perto da tristeza. a gente devia contratar saxistas para tocar de noite, de longe eu ouvia um solo de sax que me fazia ficar apoiada na janela do corredor, que me fazia pegar uma coberta e ficar do lado de fora do prédio, sentada na escada de incêndio ouvindo. lembrei que isso já tem nove anos. não posso esquecer de não esquecer as histórias que a gente vive.
domingo, 26 de setembro de 2010
incrível como a gente pode se apropriar tanto de um livro, não é?
um dos, um dos não, o livro mais importante da minha vida, aquele que tá sempre ali, que eu já li umas quatro vezes, que eu não esqueço nunca, e que não sai de mim, é o livro "as meninas", da lígia fagundes telles. lia de mello shultz, ana clara e lorena, minhas três amigas, minhas três eus, minhas três. pensei nisso por que no último post eu escrevi a coisa mais gostosa do mundo é, e fizeram um espetáculo desse livro, lançaram uma reedição, teve palestra, debate, festa, etc, e eu não fui, faz tempo já, mas a peça pelo menos ainda está em cartaz. queria ter ido hoje, não deu, quero ir semana que vem, mas enfim, peguei o livro pra reler, e na primeira página está: a coisa mais gostosa do mundo é. e eu nem lembrava mais que a lião falava isso, que a lorena falava isso. mal me lembro da história, por isso peguei pra ler de novo. a coisa mais gostosa do mundo é ler um livro e esquecer que aquilo veio de um livro que vc leu, a coisa mais gostosa do mundo é aumentar a vida. por que como o moço disse, só a realidade não basta.
um dos, um dos não, o livro mais importante da minha vida, aquele que tá sempre ali, que eu já li umas quatro vezes, que eu não esqueço nunca, e que não sai de mim, é o livro "as meninas", da lígia fagundes telles. lia de mello shultz, ana clara e lorena, minhas três amigas, minhas três eus, minhas três. pensei nisso por que no último post eu escrevi a coisa mais gostosa do mundo é, e fizeram um espetáculo desse livro, lançaram uma reedição, teve palestra, debate, festa, etc, e eu não fui, faz tempo já, mas a peça pelo menos ainda está em cartaz. queria ter ido hoje, não deu, quero ir semana que vem, mas enfim, peguei o livro pra reler, e na primeira página está: a coisa mais gostosa do mundo é. e eu nem lembrava mais que a lião falava isso, que a lorena falava isso. mal me lembro da história, por isso peguei pra ler de novo. a coisa mais gostosa do mundo é ler um livro e esquecer que aquilo veio de um livro que vc leu, a coisa mais gostosa do mundo é aumentar a vida. por que como o moço disse, só a realidade não basta.
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
A coisa mais gostosa do mundo é ler um livro.
A coisa mais gostosa do mundo é ler um livro sabendo que ele foi feito pra vc ler. Pra vc. Não o conteúdo, eu digo, mas o formato livro mesmo. Páginas coladas, encadernadas, tecido fazendo as vezes de capa. Trabalho de artesão, de paciência, de cuidado, de carinho mesmo.
A coisa mais gostosa do mundo fica com um gostinho todo particular.
A coisa mais gostosa do mundo é ver um nascimento. É ver que o parto deu certo. Há mais luz agora, apesar da neblina e da vista turva dos sonhos, e a coisa mais gostosa do mundo é ver isso de perto.
A coisa mais gostosa do mundo é ler um livro sabendo que ele foi feito pra vc ler. Pra vc. Não o conteúdo, eu digo, mas o formato livro mesmo. Páginas coladas, encadernadas, tecido fazendo as vezes de capa. Trabalho de artesão, de paciência, de cuidado, de carinho mesmo.
A coisa mais gostosa do mundo fica com um gostinho todo particular.
A coisa mais gostosa do mundo é ver um nascimento. É ver que o parto deu certo. Há mais luz agora, apesar da neblina e da vista turva dos sonhos, e a coisa mais gostosa do mundo é ver isso de perto.
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