beijo, vó, era o que estava escrito no ponto de ônibus. eu não conseguia ficar parada, estava atrasada, o ônibus não passava, não passava, onze e meia, meia noite, meia noite e dez, meia noite e quinze, passou. entrei no ônibus, deixei pra trás as baratas, de novo as baratas, sempre as baratas. fiquei pensando que o que eu não gosto nas baratas é a sua prudência excessiva. veja, vc não vê uma barata a qualquer hora, em qualquer lugar. há sempre um tempo certo, um lugar mais ou menos certo, elas não andam displicentemente no meio da rua, chamando a atenção. andam com cuidado. atentas. anteninhas a captar movimentos suspeitos. saem. olham. voltam para o bueiro. e saem de novo.
eu queria ter um quinto da prudência de uma barata.
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
o que fode é que na sala de espera tinha um jogo de espelhos. e eu vi que ele olhava pra mim. não gosto que ele olhe pra mim. eu mesma, nesse tempo todo, raras vezes sustentei o olhar na mesma direção do dele. sempre olho pra baixo, pra cima, pro lado, olho além dele, mas não olho pra ele. não ouso olhar pra ele. o que fode é que na real eu não me incomodo que ele me olhe. na real, ainda devia estar olhando. dos mesmos ângulos pelos quais sempre me olhou. da cama, da mesa, deitado no sofá. podia estar pensando em qualquer coisa, podia ser algo como o cabelo dela está comprido, ou ela está mais magra, ou não, podia ser um olhar qualquer. aquele olhar que a gente dá pra recepcionista, pro manobrista, pro gari. não é por que estamos olhando que estamos vendo. sabe como é? o olhar da auteridade invisível. não sei por que ele me olhava. mas ele me olhava. e isso fode com todas as minhas pretensas convicções. talvez eu devesse encará-lo. com toda a força do meu olhar. com toda a integridade do meu ser. e aí, talvez, seria ele, e não eu, a evitar o olhar.
ele vinha andando na minha direção, não tinha certeza se era ele ou não, de qualquer modo eu estava num atalho, se eu saísse da trilha ia dar muito na cara, não tinha rua pra atravessar, não tinha outro caminho, eu tinha que continuar em frente, ele já tinha me visto. fiquei pensando, não seja, não seja, não seja. mas era. sorriu, eu sorri tb, um pouco constrangida, priscila! vc me deu seu telefone errado? assim, na lata, caramba, ele ainda lembra meu nome, faz o que, uns oito meses? por aí, festa junina de onde mesmo? eca? história? enfim, não, eu? imagina, não dei não, vc que deve ter anotado errado! mais risinhos de constrangimento. quer ver? 9633-1618? sim, eu dei o telefone errado, sempre faço isso quando é um cara daqueles nada a ver, ou se não gosto muito do cara, acho mais fácil do que ter que dizer não, não vou te dar meu telefone, não, não gostei de vc, não, não gostei do seu beijo, etc. mais simples. o cara fica feliz, eu fico feliz, ficamos todos felizes, tá tudo certo. mas e agora? ele pegou o telefone, ia me ligar dali, naquela hora, na minha frente. eu falei peraí, vc disse o que? 9633-1618. ah, não, o final está invertido. não falei, vc anotou errado! que cara de pau que eu sou, é inacreditável. mas agora vc não me escapa mais, pegou no meu braço, jesus cristinho, ah, demorou demais, fica meio sem sentido agora, vc não acha? não, não acho. tô muito feliz de reencontrar vc. dei o sorriso mais amarelo de toda a minha vida. rsrs. ah, não fique feliz, não vai dar, estou meio enrolada (mais solteira que a tia da casa da cotia). nisso ele me abraçou, não! eu não sou ciumento, pode se enrolar, desde que não seja na minha frente (dessa parte eu gostei). eu não conseguia parar de rir meu risinho cínico e amarelo, fui me desvencilhando, ele é realmente forte, e alto, me dobrava no meio se quisesse. personal trainer, taí um tipo de cara que eu nunca achei que fosse pegar, totalmente fora dos perfis de sempre, professor - músico - skatista. vc fica linda de roupa de ginástica, tá malhando? pois é, engordei um bocado, acabei de sair da academia (conversa broxante estratégica, não funcionou). tô vendo. ofegante, suada, vermelha. delícia. ok, isso foi demais, meio que saí correndo, preciso ir. vou te ligar, hein? não vou te atender, tá? por que não? já disse. tchau. ele ficou parado um tempo, celular ainda na mão. eu corri. como ele chamava mesmo? diego? não, não era diego. não me lembro. desculpa aí, mano. mas não gostei de vc, não gostei do seu beijo, e vc tem o que de altura, 1,98 não é? então, eu tenho só 1,65. vc ia viver com dor no pescoço e eu, na batata da perna. mas vc é bonito, sim. maior gato, na real. mas se só isso bastasse.
E o Prêmio Estúpida do Ano vai para
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Priscila Moreno!!!!
Uma salva de palmas para ela!!
clap clap clap clap clap
Obrigada! Obrigada!
Estou muito emocionada por receber ese prêmio tão importante, conferido anualmente pela Academia Internacional de Pessoas Estúpidas, às pessoas que realizam as maiores façanhas estúpidas. Na verdade eu nem esperava receber a estatueta neste ano, por que com certeza existe gente muito mais estúpida do que eu nesse mundo, mas depois do que fiz naquela manhã de domingo, eu pensei: eu tenho uma chance. Agarrei essa oportunidade com unhas e dentes, e aqui estou eu agora! Obrigada, muito obrigada! Estou muito, muito feliz!
Repórter: Priscila, o que vc diria para as pessoas que estão em casa nos assistindo agora?
Priscila: Eu queria aproveitar pra dizer que isso só aconteceu por que eu estava sem meu filho. Jamais, jamais façam coisas semelhantes se tiverem crianças em casa, isso é muito, muito perigoso. Crianças, nada de querer fazer igual em casa, hein?
R: Como vc se sentiu quando viu fumaça saindo da sua casa?
P: Eu imaginei que fosse o vizinho queimando as folhas do quintal dele de novo, então pensei: puxa, que bom que não estou com roupa no varal. Depois fui entrando em casa, e a sala estava tomada por uma névoa densa, e não estava cheirando gengibre, nem maçã, nem maracujá, estava cheirando queimado. Então eu estranhei. E enquanto eu cortava a névoa com um estilete, para conseguir chegar na cozinha, eu pensei que não devia ter deixado a calda de gengibre no fogo enquanto ia na feira, mesmo que fosse só pra comprar cheiro verde e carambola. O problema é que aproveitei para comprar tb chuchu, melancia, espinafre, maçãs e pimenta, e parei para conversar com o marido da vizinha. Por outro lado, se não fosse por isso, e embora eu tenha perdido uma panela muito boa para caldas de açúcar, eu não estaria aqui hoje, recebendo este prêmio tão importante!
R: Essa foi Priscila Maria, diretamente do tapete amarelo, dando as suas dicas! Quem sabe vc, telespectador, no ano que vem não é o próximo ganhador do...
Troféu Estúpido do Ano!!
P: Posso aproveitar pra mandar um beijo pro meu filho? É que o juiz suspendeu minha guarda, depois que me acusaram de incendiária.
R: Claro.
P: Filhinho, mamãe te ama, viu? Traz um bolo com uma serrinha dentro pra mamãe fugir do manicômio?
R: Corta, Corta.
P: Ei, peraí, deixa eu falar com meu filho! Filho!! Fiiilhooo!!
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Priscila Moreno!!!!
Uma salva de palmas para ela!!
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Obrigada! Obrigada!
Estou muito emocionada por receber ese prêmio tão importante, conferido anualmente pela Academia Internacional de Pessoas Estúpidas, às pessoas que realizam as maiores façanhas estúpidas. Na verdade eu nem esperava receber a estatueta neste ano, por que com certeza existe gente muito mais estúpida do que eu nesse mundo, mas depois do que fiz naquela manhã de domingo, eu pensei: eu tenho uma chance. Agarrei essa oportunidade com unhas e dentes, e aqui estou eu agora! Obrigada, muito obrigada! Estou muito, muito feliz!
Repórter: Priscila, o que vc diria para as pessoas que estão em casa nos assistindo agora?
Priscila: Eu queria aproveitar pra dizer que isso só aconteceu por que eu estava sem meu filho. Jamais, jamais façam coisas semelhantes se tiverem crianças em casa, isso é muito, muito perigoso. Crianças, nada de querer fazer igual em casa, hein?
R: Como vc se sentiu quando viu fumaça saindo da sua casa?
P: Eu imaginei que fosse o vizinho queimando as folhas do quintal dele de novo, então pensei: puxa, que bom que não estou com roupa no varal. Depois fui entrando em casa, e a sala estava tomada por uma névoa densa, e não estava cheirando gengibre, nem maçã, nem maracujá, estava cheirando queimado. Então eu estranhei. E enquanto eu cortava a névoa com um estilete, para conseguir chegar na cozinha, eu pensei que não devia ter deixado a calda de gengibre no fogo enquanto ia na feira, mesmo que fosse só pra comprar cheiro verde e carambola. O problema é que aproveitei para comprar tb chuchu, melancia, espinafre, maçãs e pimenta, e parei para conversar com o marido da vizinha. Por outro lado, se não fosse por isso, e embora eu tenha perdido uma panela muito boa para caldas de açúcar, eu não estaria aqui hoje, recebendo este prêmio tão importante!
R: Essa foi Priscila Maria, diretamente do tapete amarelo, dando as suas dicas! Quem sabe vc, telespectador, no ano que vem não é o próximo ganhador do...
Troféu Estúpido do Ano!!
P: Posso aproveitar pra mandar um beijo pro meu filho? É que o juiz suspendeu minha guarda, depois que me acusaram de incendiária.
R: Claro.
P: Filhinho, mamãe te ama, viu? Traz um bolo com uma serrinha dentro pra mamãe fugir do manicômio?
R: Corta, Corta.
P: Ei, peraí, deixa eu falar com meu filho! Filho!! Fiiilhooo!!
eu acho que o que é ruim já vem logo no jeito que se diz. por exemplo: contrair matrimônio. quem fica com vontade de casar, se pensar que vai contrair um matrimônio? e casar é tão legal! não era pra vir assim, com nome de contaminação. imagino uma carteira de vacinação, contraiu matrimônio? se não, tem que tomar vacina, mas quem já teve uma vez, não pega nunca mais.
- oi, vc já contraiu matrimônio?
- eu não, e vc?
- ah, eu já.
- e deixou sequela?
- ih, uma pior que a outra.
- oi, vc já contraiu matrimônio?
- eu não, e vc?
- ah, eu já.
- e deixou sequela?
- ih, uma pior que a outra.
às vezes eu tenho a nítida sensação de que já li minha vida em algum lugar. graças a deus não foi num livro do eça de queirós ou do machado de assis, embora já tenham me dito mais de uma vez que os olhos de ressaca são meus. nunca traí ninguém, gente! mentira. já traí, sim. já fui traída, tb. e nada disso importa, agora. deve ter sido em algum livro do nelson rodrigues, mesmo. ou da clarice, talvez? não, nelson. as relações, pra mim, os laços, são mais importantes do que meus próprios conflitos internos. aliás, que conflitos internos? enfim. espero apenas que a última página demore a chegar. estou nos prolegômenos, ainda. no intróito. capítulo 2.
ponto de ônibus do padrão, vital brasil. umas cinco crianças pulando um restinho de carnaval na calçada, uns cinco adultos esperando o ônibus. todos bem vestidos, todos brancos. todos brancos, menos um. um moço negro, lindo, alto, forte, sentado na guia sem camiseta. a camiseta branca, branquíssima, limpíssima, nas mãos, braços apoiados no joelho. até que pára um carro da rota, saem cinco homens do carro armados daquele jeito, encosta, mão na cabeça, abre as pernas, porra. as crianças páram de brincar imediatamente. os adultos vão o mais longe possível. todo mundo finge que nada está acontecendo: de repente acabou a brincadeira, de repente os adultos seguram as crianças pelas mãos, de repente ninguém fala mais nada. só cochichos. o ônibus não pode parar no ponto, por que o carro da rota com todas as portas abertas ocupa duas faixas. eu anoto a placa, pego o telefone, o policial que fuma joga o cigarro no chão e vem em minha direção, me olhando fixamente. não desvio o olhar. vou ser presa por olhar? olhe. pode me olhar. eu não vou fingir que isso é normal, eu não vou fingir que vc está apenas cumprindo seu trabalho, eu não vou fingir que o moço é um assaltante de banco dos mais procurados. não vou fingir. anotei sua placa, EMF 4814. 18h00, av, vital brasil, esqueci de ver a numeração, mas eu olho depois o endereço do padrão. eu não sei o que vou fazer com isso. provavelmente nada. o que eu poderia fazer? mas eles viram que eu vi. quem estava no ponto viu que eu vi, e começou a ver também. e eu não pude fazer nada quando o policial pisou na camiseta branca jogada no chão. mas quem sabe, se um ou outro parar de fingir, quem sabe se um ou outro, de repente muitos - e por que não, todos? - quem sabe se a gente começar a ver, a estupidez acaba. quando eu vejo um policial agindo assim, tenho ganas de lhe tomar a arma. e o resto vcs podem imaginar. se é que já não sabem.
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