segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
ponto de ônibus do padrão, vital brasil. umas cinco crianças pulando um restinho de carnaval na calçada, uns cinco adultos esperando o ônibus. todos bem vestidos, todos brancos. todos brancos, menos um. um moço negro, lindo, alto, forte, sentado na guia sem camiseta. a camiseta branca, branquíssima, limpíssima, nas mãos, braços apoiados no joelho. até que pára um carro da rota, saem cinco homens do carro armados daquele jeito, encosta, mão na cabeça, abre as pernas, porra. as crianças páram de brincar imediatamente. os adultos vão o mais longe possível. todo mundo finge que nada está acontecendo: de repente acabou a brincadeira, de repente os adultos seguram as crianças pelas mãos, de repente ninguém fala mais nada. só cochichos. o ônibus não pode parar no ponto, por que o carro da rota com todas as portas abertas ocupa duas faixas. eu anoto a placa, pego o telefone, o policial que fuma joga o cigarro no chão e vem em minha direção, me olhando fixamente. não desvio o olhar. vou ser presa por olhar? olhe. pode me olhar. eu não vou fingir que isso é normal, eu não vou fingir que vc está apenas cumprindo seu trabalho, eu não vou fingir que o moço é um assaltante de banco dos mais procurados. não vou fingir. anotei sua placa, EMF 4814. 18h00, av, vital brasil, esqueci de ver a numeração, mas eu olho depois o endereço do padrão. eu não sei o que vou fazer com isso. provavelmente nada. o que eu poderia fazer? mas eles viram que eu vi. quem estava no ponto viu que eu vi, e começou a ver também. e eu não pude fazer nada quando o policial pisou na camiseta branca jogada no chão. mas quem sabe, se um ou outro parar de fingir, quem sabe se um ou outro, de repente muitos - e por que não, todos? - quem sabe se a gente começar a ver, a estupidez acaba. quando eu vejo um policial agindo assim, tenho ganas de lhe tomar a arma. e o resto vcs podem imaginar. se é que já não sabem.
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