quarta-feira, 23 de março de 2011

quase esqueci. sonhei que voltei, mas o lugar de origem acabou se tornando uma nova viagem, e vivíamos numa espécie de castelo, a família toda, mas chegou um mensageiro dizendo ao meu pai que deveríamos sair dali, pois os antigos donos se arrependeram da transação, qualquer coisa assim, e que se não saíssemos no mesmo dia, eles chegariam com um exército de cavaleiros e nos matariam, meu pai não quis sair, disse que nós os venceríamos facilmente, mas eu disse que não, que preferia partir, que não queria participar de batalha nenhuma, e ele disse que eu podia ir se quisesse, mas sozinha, e como eu sabia que o mundo ia acabar, por que isso era em 2012, eu escolhi deixá-los, por que cada um sabe como prefere morrer, e eu não disse isso para ninguém, mas eu achei que preferia morrer numa catástrofe do que degolada com uma espada por um cavaleiro cruel. se bem que acho que eles não fazem só isso com as mulheres, mas no sonho não veio nenhum tipo de conflito de gênero, isso eu que estou teorizando agora, enfim, no sonho eu tinha que fazer uma mala de roupas, e de repente todos os sapatos da minha mãe apareceram, sapatos que existiram mesmo e dos quais eu já havia me esquecido completamente, e eu pensava, mas por que raios esses sapatos ficaram guardados esse tempo todo, tinha até aquelas manchinhas verdes de mofo, e eu escolhendo quais sapatos eu levaria, mesmo sabendo que não teria oportunidade de usá-los, por que sabia perfeitamente que estávamos indo morrer num lugar diferente, apenas. peguei os sapatos que eu gostava mais, o leo ia fazendo a mala dele, disse que pegasse só o que ele gostava mais, botei tudo na mochila e partimos, eu, leo e um companheiro x que também tinha um filho, mas que não era meu, e fomos nós quatro embora do castelo. vimos chegar o grande exército, enfileirado, cavaleiros com espadas e plumas na armadura, eu temi pelo meu pai e minha mãe, mas não pensei se venceriam ou perderiam a batalha, pensei que estávamos todos perdidos de qualquer forma, então que cada um fizesse o que era de gosto, que é o regalo da vida, fazer o que é de gosto. só lamentei que eles não tivessem acreditado nessa conversa de que o mundo ia acabar, para que tomassem atitudes mais libertas, enfim, seguimos. passamos por uma praia e o mar levantava ondas gigantes, nós nos olhávamos assustados, mas ao mesmo tempo serenos, e não dizíamos nada às crianças, ele dirigia e eu conversava com os meninos, eram dois meninos, e depois de bastante tempo andando na estrada, paramos num supermercado. compramos comida, e eu disse aos meninos que fossem até a seção de brinquedos e escolhessem o jogo mais legal para eles brincarem na viagem, eles fizeram aquela cara de minha mãe é o máximo, e então o despertador tocou. e eu não sei mais o que aconteceu, a gente devia ter uma máquina que filmasse os sonhos. claro que não, acho que muita coisa devia ficar ali e só ali, mas eu queria ver o fim da história. é que a gente sempre acha que o fim demora pra chegar. e não é que o mundo ia acabar, a gente é que não ia sobreviver, de qualquer forma...

terça-feira, 22 de março de 2011

a gente estancou de repente, mas graças aos bons deuses, estamos desestancando. mesmo que tenha um ou outro rugindo ainda, e fazendo cara de mau, e dizendo que não pode, e que não vai, e que não dá, eu digo: eu posso, eu vou, eu dou. mentira, por que ninguém dá quando quer, ah não, a música diz que ninguém tá quando quer, expressão com a qual concordo em grau, número e todo o resto. e dar, bem, não ando dando muita coisa não, ando mais é querendo receber, pra ver se me recomponho direito, mentira, não quero receber nada de ninguém pra me recompor, então estou no modo econômico, entende, muito embora aquela outra música diga e na lei natural dos encontros, eu deixo e recebo um tanto, e parto aos olhos nus, mas não vou vestida de luneta, vou vestida de caleidoscópio, se quiser se alegrar, me veja, se não quiser, olhe para outro lado, que estou disposta a esquecer seu rosto de vez e acho que é tão normal. não digo que não tenho medo, mas é como a menina que tinha tanto medo do lobo, mas tanto medo, que começou a repetir, lobolobolobo e de repente se viu frente à frente com um enorme e delicioso bolo. o medo? dome. não é toa que é assim. eu acredito que as palavras carregam muito mais do que seu significado mais óbvio. mas não sei por que comecei a falar de medo.

sábado, 12 de março de 2011

de que adianta, uma boa idéia, uma boa intenção, como pode, viver assim, não entendo, mais que não entendo, eu não conseguiria. a fita desenrolada no chão, se ele ver vai ficar bravo, há quanto tempo não vejo fitas cassetes, eu conserto, ou melhor, eu trago um cd, ele tem como ouvir cds? sim, tem sim, vc traz? então traz, o L. estragou a fita sem querer, depois ficou assustado achando que ia levar uma bronca, eu deixei aqui, não sei se ele já viu, talvez já tenha visto e não tenha nem ligado, mas talvez não, talvez ele fique bravo comigo, não se preocupe, eu trago um cd. e por mais que eu me julgue forte, sempre desabo quando o vejo, tão inerte, tão dentro de si mesmo, queria tanto conversar com ele, dizer tio, me diz o que vc tá pensando, tio, me conta, o que é que dizem pra vc? e queria ouvir todas as suas histórias, tudo o que ele escuta dia e noite, sem parar, queria ajudar, queria que ele saísse um pouco de lá, queria que ele voltasse a escrever, escrevia tão bem, escrevia no jornal, "A Vitrine", era o nome da coluna dele, eu acho, e um dos artigos eu lembro que era "Panacéia Geral", eu acho, não tenho certeza, será que alguém guardou? por que eu não guardei? por que eu não achei que fosse acabar tão cedo, por isso eu não guardei, não disse nada que não sabia o que era panacéia, fingi entender tudo e depois fui procurar o que significava panacéia, nunca mais esqueci, tio, eu queria que Panacea descesse do Olimpo e te desse a mão, eu queria encontrar uma panacéia pra vc, mas acho que não tem, tio, então fico triste por não poder tornar sua vida menos miserável, mas eu vou tentar, ainda não sei direito como, mas olha, eu vou tentar. meu tio sempre foi meu herói. meu ídolo, as meninas gostavam dos caras de bandas, dos atores, eu admirava meu tio. por causa dele eu li tudo o que não devia ter lido, ouvi tudo o que não devia ter escutado. entrava escondido no quarto dele, a contragosto da minha avó, pegava os títulos dos livros e ia emprestar da biblioteca, olha tio, estou lendo demian. demian? gostou? vou te dar outro, leia esse, o lobo da estepe, gostou? então leia esse, o jogo das contas de vidro, olha tio, estou ouvindo jethro tull. gostou? escuta isso, animals, doors, janis, jefferson airplane, hendrix, bob, pink floyd, ramones, clash, smiths, stones, deep purple, caetano, milton. ah, tio. nem me pergunto o por quê. não acredito que possa haver um por quê. agora sou eu a dizer leia esse. mas ele não lê mais.

terça-feira, 8 de março de 2011

ele me disse, me lembro claramente disso, agora que seu cabelo cresceu vc vai voltar a ser quem era, e me lembrei disso de repente, à toa, quando pisava numa lajota solta que fez a água espirrar nas botas, enquanto segurava numa das mãos as novas chaves e apoiava o guarda-chuva no chão a cada passada no passeio molhado de chuva. as chaves antigas no bolso, ainda não antigas, portanto, por que ainda as uso, mas agora dois molhos, o novo molho com chaves pequenas apenas, sem aquela chave - como se chama mesmo, aquela grande, que às vezes trava, tinha na casa de uma tia, eu achava tão chique ter uma chave grande, decerto por que acreditava que guardava coisas de muito valor, chaves simples guardam coisas simples, chaves grandes guardam coisas grandes, vim pra cá pra fugir do complicado que invariavelmente acompanha o grande, quero tudo simples, casa simples, coisas simples, vida simples, chaves simples. sem segredos. voltar a ser quem eu era? não sei, você volta a ser quem  vc era junto comigo? eu perguntei e não ouvi resposta nenhuma, mania de botar sempre a culpa em mim, decerto por que aceito sempre as culpas todas que podem caber em mim. tem volta? isso de voltar a ser quem a gente era dez anos atrás, não tem, se tivesse não queria - será que não, não sei - talvez quisesse, talvez por isso essa volta agora, pra tentar de novo acreditar que o mundo é grande e que a gente pode muito. não fico achando que voltei por medo, acho que voltei mesmo por coragem. coragem e confiança talvez excessiva de que o mundo é grande e de que a gente pode muito. a gente dá tanta volta. apesar do verbo no passado, nenhuma grande mudança ainda. um dia por vez, me disseram, e achei que fosse uma boa idéia acatar esse jeito de viver. pelo menos por enquanto. um dia por vez. dois molhos de chave, algumas idéias na cabeça e muito amor no coração. por que só assim. tetra. o nome da chave grande.
um par perfeito é um sapato que não machuca os pés, um casaco quente no inverno e um vestido rodado no verão.

pessoas não são pares, são ímpares.
- então podemos dizer que algumas pessoas estão aos pares, outras estão aos trios, outras em quádruplos.

em todo caso, o meu par perfeito é ímpar.

segunda-feira, 7 de março de 2011

tudo o que escrevi, devia ser reescrito. não arrumo, não conserto, não reescrevo. e peço desculpas por isso. falta de respeito com quem lê, eu acho. mas tudo passa tão rápido, e eu já faço tão pouco, se ficar consertando tudo o que faço de errado, não faço nada nunca. e eu faço tudo errado. tem dias em que só isso parece ser verdade. casei - casei vírgula - com o primeiro que apareceu, meses depois eu estava grávida, meses depois eu estava triste, e tudo o que eu queria fazer da minha vida enfiei num saco, dei um nó e guardei no maleiro do guarda-roupa. e agora, quase dez anos depois, não sei por onde começar a consertar as coisas. por que aí me questiono, será que foi tudo errado mesmo? e fico achando que não foi bem assim. estou sempre me dando uma colher de chá, estou sempre botando água na minha sopa. enfim. detesto aqueles blogs de tentativa de emoção. sabe, como é? quando o escritor se reveste de um tom lírico, prefiro as coisas simples. os escritos simples e claros, de quem não está tentando te convencer de que ali existe muito sentimento. de quem está escrevendo, apenas. se houver emoção em quem escreve, a gente vai perceber. se não, a gente vai perceber do mesmo jeito. é muito fácil saber se vc está sendo enganado ou não. desde que vc esteja prstando atenção. assim como também é muito fácil reconhecer a frivolidade dos eternamente emocionados. sabe, tudo é emoção? tudo é lirismo. tudo é sentimento. uma flor nasceu, ó! uma criança morreu, ó! flores e crianças nascem e morrem todos os dias.

domingo, 6 de março de 2011

No dia em que saí de casa sem botas, por que não as encontrava, tomei o primeiro ônibus que passou no primeiro ponto da rua, para que não machucasse muito os pés com os pedregulhos do caminho. não me sentei no primeiro banco, não haviam bancos disponíveis, fiquei de pé no corredor, logo depois de passar pela catraca. que obstáculo terrível é uma catraca. até no nome a catraca te prende, você abre a boca para dizer A, o som quer sair livre e solto, mas não pode, o som logo é trancado, percebe, a semelhança entre forma e conteúdo, entre catraca e trancada, mas enfim, de pé no corredor, olhando meu reflexo no vidro, tão bonita em reflexos, ao vivo não, mas nos traços gerais, com alguma sombra, bonita sem dúvida, era o que ele dizia quando sozinhos no quarto com a luz apagada, uma velhinha, velhinha, velhina mesmo, dessas que a gente vê em gravuras de livros infantis, de contos de terror, de ilustrações de bruxas da idade média, uma velhinha roía as unhas, as unhas não, roía a unha do mindinho da mão direita. cavocava, cavocava, era desesperador, não parava de comer, como se tirasse suculentos filetes de carne como se fosse fazer um bife tartar e matar sua fome, tinha fome do que será aquela mulher, sei que fui ficando com náuseas, era muita vontade de comer para se ver assim, num ônibus, principalmente quando se está descalça, e então, para que meu desespero aumentasse, ela tirou o dedo da boca, e já não havia mais unha, o dedo já não possuía mais três, mas apenas duas falanges, ela comia o dedo, um cotoco de dedo em carne viva, então me olhou, sorriu, e entre os dentes pedaços de carne rosa, eu contive o vômito, apertei o sinal e desci. assustada, não notei que pisei numa poça de lama, aliás, tinha ficado tão quente de estarrecimento dentro do ônibus com a mulher que comia o dedo, que talvez tenha mesmo gostado da sensação gelada, lisa e mole de pisar numa poça de lama, mas não contava que nessa poça houvessem filhotes de larva branca, na verdade sequer desconfiava da sua existência, sei que fiquei com uma coceira horrorosa nos pés, e esfregava um pé no outro tentando aliviar a coceira, outro ônibus chegou, subi, sentei no primeiro banco perto da janela, e de repente me deu uma fome, mas uma fome, não tinha nada para comer na bolsa nesse dia, por que acordei atrasada e não encontrei as botas, então olhei minhas mãos e vi duas irresistíveis e suculentas coxas de frango assadas, com um cheiro, um cheiro de recém saídas do forno, temperadas com alho, laranja e mel, com casquinhas crocantes e brilhantes, e eu só lambi, a princípio, cheirei, lambi, cheirei, e quando me dei conta uma menininha chorava assustada e apontava para a mãe o que ela via, e o que ela via era uma moça comendo os dedos, mas tudo isso eu estou supondo agora, a partir de um ou outro lampejo, não me lembro exatamente do que aconteceu, mas sabendo agora da existência dessas tais larvas brancas, e essas manchas de barro na minha calça, e estando apenas com metade da mão inteira, acho bem possível que tenha sido isso o que aconteceu, me lembro ainda do cheiro maravilhoso de coxas de frango assadas ao mel. achei minhas botas, estavam atrás do criado, devo tê-las chutado no escuro, sonâmbula que sou.