sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

eu pensando em não deixar a sandália cair pelo vão das escadas, eu embaixo do viaduto, descalça na linha do trem, procurando as sandálias amarelas que caíram pelo vão da escadaria, nada difícil de acontecer quando se fala de mim, então eu me concentrava em prender a sandália no pé. também não podia deixar que a saia mais ou menos curta e rodada levantasse com o vento, sensualização no viaduto do brás não é qualquer uma que dá conta, eu não dou. no meio da escada, entre poças de mijo e restos de comida, um homem pedia esmola, as pernas tortas, atrofiadas, quase sem sangue que circulasse nelas, um boné e muitas blusas que me deixaram tonta de calor. no meio da escada o homem que quase jazia morto-vivo sorriu e disse de um jeito muito doce, mas que menina mais bonita. eu vi seus dentes amarelos e muitos e sorri de volta, ele sorriu com mais intensidade, e não me estendeu a mão como estendera para a pessoa que ia na minha frente, de mim não viriam moedas. não sei se compensava, mas o que eu tinha para lhe dar era um olhar que o reconhecesse como um ser humano, e que reconhecesse naqueles olhos azuis a doçura que o resto da humanidade teima em ignorar. sorri de volta. não tinha moeda nenhuma, de todo modo.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

se eu pelo menos soubesse tocar violão. ou se eu tivesse disposição pra assumir que não vou mesmo dormir, e descesse pra costurar um pouco. buscar a máquina, preciso ligar amanhã sem falta. podia lavar a louça, dobrar as roupas que ficaram espalhadas, cortar um vestido, passar a limpo as anotações de encomendas. por que será que me perco nos prazos, os montes de papeizinhos se amontoam até que somem da minha vista. então eu volto pros e-mails, anoto tudo de novo, tudo em folhas avulsas de novo, perco tudo de novo. não devia ter dado aquelas três moleskines pra ele, eram duas pretas e uma vermelha. devia ter pego pra mim. claro que isso quer dizer que  somos todos assassinos, sebastião nunes. recomendo. num tapa durante a madrugada de ontem. hoje as meninas. em dezembro, aqui perto de casa, a cidade não cheira a pêssegos. tem uma fábrica da roche aqui perto, e embora meu irmão diga que não é uma fábrica, só uma distribuidora, a cidade aqui tem cheiro de xarope de maracujá. doce até o fim.

domingo, 24 de julho de 2011

e assim, de cama em cama, ficou sem brincos. nenhum. de orelhas peladas, saía por aí dizendo: viu meus brincos? de vidro. vidro russo, não qualquer vidro. não sei qual é a especialidade dos vidros russos, mas aqueles são de vidro russo. viu por aí? tem algum no bolso? se vir, guarda pra mim? são muito, muito importantes. não, valiosos, não. importantes. uma coisa brilhando no chão, pode ser meu brinco. me avisa? guarda pra mim? obrigada. muito obrigada. parava os homens de terno, viu meus brincos? as mulheres indo pro trabalho, ei, esse brinco. esse brinco é meu, vc... ah, não, não é. é parecido, mas não é o meu. me desculpe. os meus são de vidros russos, sabe? não sei o que tem demais os vidros russos, mas o meu é de vidro russo. desculpe. pode ir. parecia uma rainha vistoriando a guarda. examinando os empregados reais. usava uma saia toda feita de retalhos, que ela mesma costurava sem tirar a saia do corpo. por volta das cinco era fácil cruzar com ela zanzando perto da estação da luz. quando as confecções colocavam sacos e mais sacos de restos de tecido nas ruas, ela examinava um por um, escolhia a dedo o que renderia as melhores combinações. se sentava na calçada, abria uma caixinha cheia de linhas, tesourinhas, agulhas, tudo arrumado com ordem e método. não se sabe como ou por que ela chegou até aqui. conversava pouco, e no que era do entendível, não dizia nada de si. se filhos, se pai, se mãe, irmãos, namorados, maridos, nada, nada. só os brincos importavam. os brincos e a saia.

da espera

ele nunca me encara de frente, peito aberto. me olha sempre de lado, mesmo quando está falando comigo. e se olha, olha rápido, só pra dizer que não, que consegue falar comigo e me ver ao mesmo tempo. depois escolhe uma parada qualquer pra pousar o olhar. eu achava que ele não gostava de mim, do meu jeito. assim, sem nem conhecer direito, que não suportava, mesmo. mas outro dia, num relance, eu vi. estava escuro, era noite, mas eu vi ele me olhando. e entendi tudo. ok. eu topo.

é, entendi errado. isso já faz um ano. mais de um ano. que droga! eu achei que eu soubesse ler olhares.

domingo, 5 de junho de 2011

se pelo menos no de vez em quando, mas não. o que é de sempre é o nunca, pelo menos aqui. difícil foi achar um lugar entre as outras moças, mas enfim achei. não me importo que hajam outras - sempre hão de haver, essas outras. mas pelo menos um pouco, quero estar só. sozinha com ele.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

não vou mais procurar casa. não vou mais procurar trabalho, nem vou fazer entrevista nenhuma. não vou mais costurar, não vou mais cozinhar, não vou fazer mais nada. vou vender todas as minhas roupas, ficar só com sete mudas, uma para cada dia da semana. mais dois pijamas. uma mochila. vou vender todos os meus móveis, vou vender tudo o que seja possível botar um preço. vou fazer um grande garage sale, um enorme e gigante família vende tudo. vou dar minhas fotos pra quem quiser. vou picotar meus tecidos e vender em retalhos. vou cozinhar uma última vez, tudo o que tem nos armários, pra vender em porções. vou pedir pro pai do leo guardar na casa dele o que for do leo. vou pegar parte do dinheiro pra arrumar essa casa pra entregar pro dono. vou pagar minhas contas, quitar minhas dívidas, fechar a conta no banco. vou pagar a bicicleta, bloquear o celular, ver se meu irmão quer ficar com o telefone fixo. vou dar um beijo no meu filho e dizer daqui a um ano eu volto. ele vai estar banguela, mais alto, mais esperto, mais velho. não sei de mim. tudo vendido, contas pagas, mochila nos ombros, vou andar. não sei pra onde. não sei por que. não sei pra que.

terça-feira, 29 de março de 2011



até me esqueci que estava com fome, esqueci da roupa lavada pra estender, esqueci da roupa já seca pra recolher, da bolsa de água quente descongelando, a criança já dormiu, levou um tombo e tanto, deitada na cama fazendo carinho enquanto ele continha uma lagrimazinha que eu não sei direito do que era, me dei conta de que são quase oito anos de estrada, e fiquei feliz por ser parceira dele nessa empreitada, e digo isso por que ser mãe às vezes faz a gente se confundir, por que foi a gente que pariu, então é fácil se enganar e achar que temos direitos tais ou quais. de suprimir a individualidade do ser, eu falo.


esqueci dos cachorrinhos, do cachorrão, da gata, esqueci de tudo. me dei conta de que somos em sete aqui. eu sempre quis ter uma família grande. às vezes eles caem. eu ajudo a levantar. às vezes eu caio. tento fazer com que não saibam de nada. não acho que isso é bom ou ruim, não acho nada. foi só uma constatação.