sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
tem umas coisas que a gente lê que é muito mais do que uma leitura. é quase uma fecundação. a gente fica gestando, gestando, gestando. quando nasce, reconhece os traços do pai e da mãe, dos tios e dos avós na coisa criada. sabe de quem vem o olhar, a boca, as unhas. não tem nada a ver uma coisa com a outra (exceto a coincidência de que a progenitora nesses casos sou eu mesma), mas ontem eu me lembrei da primeira risada do leo. e de como ele ria da risada, e de como de repente ele se assustou com a própria risada, e riu mais, num crescendo que evoluiu pra uma gargalhada, que gerou outro susto, e junto com esse susto um choro, que de repente cessou, por que se acostumou com a nova descoberta. e isso é assim, um livro bom e uma lembrança boa. justifica toda uma existência. só por que não estou de mau humor, claro.
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
a gente se apaixona num dia, no outro lembra que tem um creme para os pés esquecido em alguma parte do armário do banheiro. quase em outra dimensão, é preciso inclusive checar se ainda está no prazo de validade. vai que o pé cai depois de usar. e vc se lembra que tem também nessa mesma dimensão, um artigo que seus pés há muito desconhecem: uma lixa. quem usa lixa, senão quem tem em casa um par de pernas que pode se arranhar, reclamar e fugir por causa do seu calcanhar solado, que de tanto vc andar descalça, criou uma nova sola, com o seu próprio couro. não, é melhor garantir que pelo menos os pés estejam livres das asperezas que a gente já encontra aos tantos por aí. a gente se apaixona num dia, e no outro já esqueceu o que era mesmo que queria fazer no próximo feriado. não tem feriado. ou todo dia é feriado. por que claro, não pense que o seu rendimento no trabalho será o mesmo. não será. mas existe uma vantagem, pelo menos se vc, como eu, for autônomo: é um novo mundo de necessidades, e se vc for uma pessoa atenta, novos itens surgirão na sua grade de produtos. vc vai chegar em casa correndo e fazer uma nova peça, às pressas, mas com tanta concentração e carinho, que não vai se esquecer de nenhum detalhe. depois vc vai levar isso tarde da noite, num lugar que não é nada perto da sua casa, mas e daí, é domingo e vc está apaixonada. o problema mesmo é ter que dizer: só posso ficar vinte minutos. e depois de duas horas, ir embora querendo ficar. a gente vê uma pessoa na rua, um dia, e no outro ela está dentro de vc. mas é claro que não estou apaixonada, assim, como estou dizendo. é só que aquele negocinho que as pessoas tem, que dosa a intensidade das emoções, em mim parou de funcionar. tem um tempo já. e até me disseram pra ir com calma, por que eu sou muito intensa, e posso assustar. ora, e eu não sei? e não é essa a minha trajetória até agora, de intensidades e sustos? na hora eu não disse nada além de - e daí onde vc está vc vê tudo isso? dá pra ver, pri. bom, então que bom que dá pra ver. que aí a pessoa já sabe que o que a espera é justamente isso: sustos e intensidades.
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
eu pensando em não deixar a sandália cair pelo vão das escadas, eu embaixo do viaduto, descalça na linha do trem, procurando as sandálias amarelas que caíram pelo vão da escadaria, nada difícil de acontecer quando se fala de mim, então eu me concentrava em prender a sandália no pé. também não podia deixar que a saia mais ou menos curta e rodada levantasse com o vento, sensualização no viaduto do brás não é qualquer uma que dá conta, eu não dou. no meio da escada, entre poças de mijo e restos de comida, um homem pedia esmola, as pernas tortas, atrofiadas, quase sem sangue que circulasse nelas, um boné e muitas blusas que me deixaram tonta de calor. no meio da escada o homem que quase jazia morto-vivo sorriu e disse de um jeito muito doce, mas que menina mais bonita. eu vi seus dentes amarelos e muitos e sorri de volta, ele sorriu com mais intensidade, e não me estendeu a mão como estendera para a pessoa que ia na minha frente, de mim não viriam moedas. não sei se compensava, mas o que eu tinha para lhe dar era um olhar que o reconhecesse como um ser humano, e que reconhecesse naqueles olhos azuis a doçura que o resto da humanidade teima em ignorar. sorri de volta. não tinha moeda nenhuma, de todo modo.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
se eu pelo menos soubesse tocar violão. ou se eu tivesse disposição pra assumir que não vou mesmo dormir, e descesse pra costurar um pouco. buscar a máquina, preciso ligar amanhã sem falta. podia lavar a louça, dobrar as roupas que ficaram espalhadas, cortar um vestido, passar a limpo as anotações de encomendas. por que será que me perco nos prazos, os montes de papeizinhos se amontoam até que somem da minha vista. então eu volto pros e-mails, anoto tudo de novo, tudo em folhas avulsas de novo, perco tudo de novo. não devia ter dado aquelas três moleskines pra ele, eram duas pretas e uma vermelha. devia ter pego pra mim. claro que isso quer dizer que somos todos assassinos, sebastião nunes. recomendo. num tapa durante a madrugada de ontem. hoje as meninas. em dezembro, aqui perto de casa, a cidade não cheira a pêssegos. tem uma fábrica da roche aqui perto, e embora meu irmão diga que não é uma fábrica, só uma distribuidora, a cidade aqui tem cheiro de xarope de maracujá. doce até o fim.
domingo, 24 de julho de 2011
e assim, de cama em cama, ficou sem brincos. nenhum. de orelhas peladas, saía por aí dizendo: viu meus brincos? de vidro. vidro russo, não qualquer vidro. não sei qual é a especialidade dos vidros russos, mas aqueles são de vidro russo. viu por aí? tem algum no bolso? se vir, guarda pra mim? são muito, muito importantes. não, valiosos, não. importantes. uma coisa brilhando no chão, pode ser meu brinco. me avisa? guarda pra mim? obrigada. muito obrigada. parava os homens de terno, viu meus brincos? as mulheres indo pro trabalho, ei, esse brinco. esse brinco é meu, vc... ah, não, não é. é parecido, mas não é o meu. me desculpe. os meus são de vidros russos, sabe? não sei o que tem demais os vidros russos, mas o meu é de vidro russo. desculpe. pode ir. parecia uma rainha vistoriando a guarda. examinando os empregados reais. usava uma saia toda feita de retalhos, que ela mesma costurava sem tirar a saia do corpo. por volta das cinco era fácil cruzar com ela zanzando perto da estação da luz. quando as confecções colocavam sacos e mais sacos de restos de tecido nas ruas, ela examinava um por um, escolhia a dedo o que renderia as melhores combinações. se sentava na calçada, abria uma caixinha cheia de linhas, tesourinhas, agulhas, tudo arrumado com ordem e método. não se sabe como ou por que ela chegou até aqui. conversava pouco, e no que era do entendível, não dizia nada de si. se filhos, se pai, se mãe, irmãos, namorados, maridos, nada, nada. só os brincos importavam. os brincos e a saia.
da espera
ele nunca me encara de frente, peito aberto. me olha sempre de lado, mesmo quando está falando comigo. e se olha, olha rápido, só pra dizer que não, que consegue falar comigo e me ver ao mesmo tempo. depois escolhe uma parada qualquer pra pousar o olhar. eu achava que ele não gostava de mim, do meu jeito. assim, sem nem conhecer direito, que não suportava, mesmo. mas outro dia, num relance, eu vi. estava escuro, era noite, mas eu vi ele me olhando. e entendi tudo. ok. eu topo.
é, entendi errado. isso já faz um ano. mais de um ano. que droga! eu achei que eu soubesse ler olhares.
é, entendi errado. isso já faz um ano. mais de um ano. que droga! eu achei que eu soubesse ler olhares.
domingo, 5 de junho de 2011
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