segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
é nesses dias assim que eu sinto uma vontade incontrolável de chorar, de pintar paredes e ouvir carlos gardel ou edith piaff. às veze me sinto tão ridícula. com tanta coisa pra fazer, olho pras paredes e nada mais importa, senão pintar paredes. e eu tenho isso desde sempre. desde criança. é que minha mãe não deixava, não tinha como pintar parede nenhuma. mas agora, adulta, com paredes disponíveis e tinta à mão, quando tudo parece insolúvel, eu largo tudo e vou pintar uma parede qualquer. eu fico pensando, mas que pessoa bizarra eu sou. tenho vontade de rir de mim mesma, imagine, largar tudo para passar os próximos dois dias pintando uma parede. pintando uma parede! virei motivo de chacota, e os mais próximos (que já sacaram minha bizarrice) me alertam (claro, em tom de deboche): só não vai me pintar nenhuma parede, hein? mas vejam bem, quem nunca passa por momentos de desatina de quando em vez? meu momento de desatino eu atravesso assim, cansando o corpo e arrumando a casa. muito sintomático do que representa a casa para mim, meu exoesqueleto. mas não, não vou pintar paredes. da última vez, pintei uma parede do meu quarto num tom de lilás. nem gosto muito de lilás, mas ficou bom mesmo assim. jurei pra mim mesma que era a última vez que levava a cabo tal sandice. então não vou pintar nenhuma parede. mas que dá vontade, céus, como dá.
aquela minha terapeuta, mais maluca que a paciente que vos escreve, disse uma vez, quase como se me jogasse uma batata quente nas mãos: tua mãe te ensinou a odiar os homens. eu fiquei muito brava, ninguém fala mal da minha mãe. minha mãe é a melhor mãe que eu poderia ter tido, é a melhor mãe do mundo. e ralou tanto com o pai que eu tenho, pra trinta anos depois vir uma terapeuta e me dizer que minha mãe me ensinou a odiar os homens. se eu odeio os homens, o mérito é todo deles. ora, a gente cresce numa cidade em que só os homens tem alguma chance de futuro. a gente vai à igreja, e se vc for mulher, não tem o direito sequer de tocar um instrumento que não seja o órgão: uma orquestra inteira para os homens, um só órgão para as mulheres. instrumento de dominação, claro. ficam lá as mulheres de picuinha, se revezando e se odiando por dentro, sim, a vaidade de ser organista é feroz. porque é para poucas. sabemos bem como funciona essa lógica do "para poucos". sabemos, não sabemos? talvez a igreja tenha me ensinado a odiar os homens. os homens com seus ternos no púlpito, no púlpito a mulher só sobe se for para encerar a tribuna. eu encerava a tribuna do ancião quando minha avó deixava. encerava os bancos da igreja. quase posso sentir o cheiro da madeira escura. o cheiro da igreja do bairro que eu não lembro o nome, tinha cheiro de naftalina com chuva e barro. às vezes tenho vontade de visitar esses lugares, pra ver como está agora. o tanque de batismo. o medo de entrar no banheiro sozinha - quantos exorcismos já aconteceram lá? não me lembro do demônio fazendo escândalo no banheiro masculino. só as mulheres, essas histéricas, dão passagem aos seres de baixa frequência. meu pai, sem dúvida, me ensinou a odiar os homens. desde pequena. mas e daí, não é? a gente cresce e descobre que não é lá muito melhor do que nosso próprio algoz. e tudo bem. paz-deus, minha mãe disse. a me lembrar de onde vim. não precisa, eu lembro bem. lembro bem que não concordo com quase nada. e isso não é culpa sua.
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
acho engraçado quando vc me pergunta se eu vou aguentar. como se eu tivesse opção. sabe? eu não tenho opção. não se trata de escolha a ser feita. por que se fosse escolha, desculpa falar, eu não escolhia vc. não. eu escolhia o mais fácil. escolhia um homem alto, forte e bonito. e rico. já que é pra escolher. sem choques. sem grandes sustos. sem grandes problemas. mas não. então não me pergunte se eu vou aguentar. eu tenho que. eu quero. quer dizer, agora não mais. agora já é sacanagem. por que sabe, eu já esperei uma pessoa uma vez, por dois anos. por dois anos eu não desisti. esperei, fiquei, insisti. então, quando vc diz - espera, eu preciso me recompor - eu entendo crueldade. é crueldade comigo. chega, né? chega de esperar alguém se recompor. prefiro ir junto estraçalhada mesmo. por que a gente sempre se estraçalha. então e daí o estraçalhamento, entende? não é? e daí? vc disse que vinha e não veio. nem ligou. não mandou e-mail, sinal de fumaça, pombo correio, telegrama. então vamos fazer assim: fica aí. se consuma na sua dor, se quiser. eu vou fingir que não me importo. até que vai passar tanto tempo, que um belo dia eu vou perceber que já não me importo mesmo. e fim.
sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
estava ouvindo o rádio de manhã: segundo a OMS, uma mulher que tem três parceiros sexuais por ano é uma mulher promíscua, por que na verdade ela está tendo relação com outras 27: cada uma das 3 teve relação com outras 3, e assim vai. deixa eu te falar uma coisa, senhor relator da OMS: promíscua é a senhora sua mãe, que devia estar dando em vez de te educar direito. imagina, ser promíscua por causa de 3 pessoas. 3 pessoas não é nada. num ano, então? aff. e depois ainda veio uma reportagem sobre histerectomia e os benefícios da remoção total do aparelho reprodutor feminino, que pode ser abdominal ou anal. mulheres: não transem. pensando bem, melhor ainda: vamos tirar seu útero? pelo cu.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
e assim termina outra história que nem começou. não começou pra vc. mais respeito com que os outros sentem, por favor. mais respeito com que os outros sentem por vc.
enxuguei as lágrimas, arrumei o cabelo e fui, faminta. não abortei nem um filho, com 20 anos de idade, vou abortar amor? não é aborto. é assassinato. não a queima-roupa, mas a sangue frio. é que não tinha amor. entendo. ou tinha, mas era pouco. não deu pra muito. morreu antes de vingar. meu amor não vai escorrer vermelho e quente se misturar água desinfetante anti-séptico de clínica clandestina de enfermeira rabugenta carniceiro médico mercenário e quase-mães dopadas de medo e dor. meu amor hoje vai para o tom zé. e pra quem mais quiser.
por que o amor existe. vc que não quis.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
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