segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
aquela minha terapeuta, mais maluca que a paciente que vos escreve, disse uma vez, quase como se me jogasse uma batata quente nas mãos: tua mãe te ensinou a odiar os homens. eu fiquei muito brava, ninguém fala mal da minha mãe. minha mãe é a melhor mãe que eu poderia ter tido, é a melhor mãe do mundo. e ralou tanto com o pai que eu tenho, pra trinta anos depois vir uma terapeuta e me dizer que minha mãe me ensinou a odiar os homens. se eu odeio os homens, o mérito é todo deles. ora, a gente cresce numa cidade em que só os homens tem alguma chance de futuro. a gente vai à igreja, e se vc for mulher, não tem o direito sequer de tocar um instrumento que não seja o órgão: uma orquestra inteira para os homens, um só órgão para as mulheres. instrumento de dominação, claro. ficam lá as mulheres de picuinha, se revezando e se odiando por dentro, sim, a vaidade de ser organista é feroz. porque é para poucas. sabemos bem como funciona essa lógica do "para poucos". sabemos, não sabemos? talvez a igreja tenha me ensinado a odiar os homens. os homens com seus ternos no púlpito, no púlpito a mulher só sobe se for para encerar a tribuna. eu encerava a tribuna do ancião quando minha avó deixava. encerava os bancos da igreja. quase posso sentir o cheiro da madeira escura. o cheiro da igreja do bairro que eu não lembro o nome, tinha cheiro de naftalina com chuva e barro. às vezes tenho vontade de visitar esses lugares, pra ver como está agora. o tanque de batismo. o medo de entrar no banheiro sozinha - quantos exorcismos já aconteceram lá? não me lembro do demônio fazendo escândalo no banheiro masculino. só as mulheres, essas histéricas, dão passagem aos seres de baixa frequência. meu pai, sem dúvida, me ensinou a odiar os homens. desde pequena. mas e daí, não é? a gente cresce e descobre que não é lá muito melhor do que nosso próprio algoz. e tudo bem. paz-deus, minha mãe disse. a me lembrar de onde vim. não precisa, eu lembro bem. lembro bem que não concordo com quase nada. e isso não é culpa sua.
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