segunda-feira, 30 de março de 2015
dobrei meticulosamente cada roupa que ficou aqui. arrumei organizadamente na mala. separei os sapatos, os cabides, as meias, as cuecas que eu adorava ver nele. guardei as blusas de lã, as jaquetas, os cintos. tudo que estava na cômoda e no armário: luvas, bolsas, como eu vou viver sem reclamar que janela de madeira não é lugar de pendurar toalha molhada? os ternos e casacos deixei em cima da mesa do escritório, não cabia tudo na mala. é difícil, isso. não lavei a roupa suja que ficou aqui. coloquei tudo no cesto que era dele. também não escondi nenhuma camiseta pra mim. acariciei o cachecol xadrez que ele mais usava. fiquei com saudade do futuro que não chegou. de tudo que era pra ser e que não foi. podia ouvir o álbum branco no repeat por horas e horas sem parar. quem era ele? quem eu era para ele?
copos vazios ficaram espalhados pela casa toda. os cinzeiros estão cheios de cigarros onde ele costumava ficar. a cama ficou desarrumada. tem roupa dele no chão do quarto, ao lado da cama. ainda não sei como as crianças vão ficar com isso tudo. não sei como eu vou ficar com tudo isso.
toda vez que ele dizia que ia embora, eu pedia que ele não fosse. no começo, eu achava que ele não queria realmente ir embora. só estava bravo, ia passar. mas essa conversa sempre se repetia. agora foi a gota d'água; agora chega; agora eu vou embora. e eu dizia: não diga isso, por favor. qualquer dia, isso vai entrar em mim, e eu vou começar a acreditar que o melhor mesmo é que vc vá de uma vez. sem falar que eu me acho muito boa nisso de ficar sozinha. a vida não anda, a vida galopa, quando estou sozinha. vai de vento em popa. e agora estou aqui, deixando de fazer o que gosto porque estamos invariavelmente brigando. por favor, não me lembre de como eu gosto de estar sozinha. vai que eu acredito nisso de novo. então hoje, quando discutimos por bobagem mais uma vez, e ele mais uma vez fez as malas, eu não disse nada. apenas esperei.
toda vez que ele dizia que ia embora, eu pedia que ele não fosse. no começo, eu achava que ele não queria realmente ir embora. só estava bravo, ia passar. mas essa conversa sempre se repetia. agora foi a gota d'água; agora chega; agora eu vou embora. e eu dizia: não diga isso, por favor. qualquer dia, isso vai entrar em mim, e eu vou começar a acreditar que o melhor mesmo é que vc vá de uma vez. sem falar que eu me acho muito boa nisso de ficar sozinha. a vida não anda, a vida galopa, quando estou sozinha. vai de vento em popa. e agora estou aqui, deixando de fazer o que gosto porque estamos invariavelmente brigando. por favor, não me lembre de como eu gosto de estar sozinha. vai que eu acredito nisso de novo. então hoje, quando discutimos por bobagem mais uma vez, e ele mais uma vez fez as malas, eu não disse nada. apenas esperei.
o problema de quando vc mente é que vc tira da pessoa pra quem vc mentiu o direito de existir. se vc mente, ela não pode lidar com o mundo como o mundo é. ela não pode lidar com as situações do modo que as situações realmente são. e, fatalmente, ela não poderá lidar com vc da maneira que vc realmente é. então, não sabendo com quem estamos de fato lidando, como estabelecer uma relação de confiança? como acreditar, se acredito no que não conheço? fé? mas e depois, quando tomo conhecimento, quando passo a saber? depois, não existe mais. não existe mais confiança, não existe mais relação, não existe mais a própria pessoa que mentiu. porque não há nada que garanta que essa pessoa não era mais do que um punhado de algumas versões. esse é o grande problema da mentira. ela corrompe o que há de verdade.
domingo, 29 de março de 2015
falei que ninguém mais me derrubava, eu menti. derrubaram lindamente.
ismália se apaixonou; se casou; enlouqueceu outro marido e ele, cansado, foi embora.
toda vez que ele dizia que ia embora, eu pedia que ele não fosse. no começo, eu achava que ele não queria realmente ir embora. só estava bravo, ia passar. mas essa conversa sempre se repetia. agora foi a gota d'água; agora chega; agora eu vou embora. e eu dizia: não diga isso, por favor. qualquer dia, isso vai entrar em mim, e eu vou começar a acreditar que o melhor mesmo é que vc vá de uma vez. sem falar que eu me acho muito boa nisso de ficar sozinha. a vida não anda, a vida galopa, quando estou sozinha. vai de vento em popa. e agora estou aqui, deixando de fazer o que gosto porque estamos invariavelmente brigando. por favor, não me lembre de como eu gosto de estar sozinha. vai que eu acredito nisso de novo. então hoje, quando discutimos por bobagem mais uma vez, e ele mais uma vez fez as malas, eu não disse nada. copos vazios ficaram espalhados pela casa toda. os cinzeiros estão cheios de cigarros onde ele costumava ficar. a cama ficou desarrumada. tem roupa dele no chão do quarto, ao lado da cama. eu ainda não sei como vai ser. ainda não sei como as crianças vão ficar com isso tudo. não sei como eu vou ficar com tudo isso. mas a gente fica. a gente sempre fica, de um jeito ou de outro.
ismália se apaixonou; se casou; enlouqueceu outro marido e ele, cansado, foi embora.
toda vez que ele dizia que ia embora, eu pedia que ele não fosse. no começo, eu achava que ele não queria realmente ir embora. só estava bravo, ia passar. mas essa conversa sempre se repetia. agora foi a gota d'água; agora chega; agora eu vou embora. e eu dizia: não diga isso, por favor. qualquer dia, isso vai entrar em mim, e eu vou começar a acreditar que o melhor mesmo é que vc vá de uma vez. sem falar que eu me acho muito boa nisso de ficar sozinha. a vida não anda, a vida galopa, quando estou sozinha. vai de vento em popa. e agora estou aqui, deixando de fazer o que gosto porque estamos invariavelmente brigando. por favor, não me lembre de como eu gosto de estar sozinha. vai que eu acredito nisso de novo. então hoje, quando discutimos por bobagem mais uma vez, e ele mais uma vez fez as malas, eu não disse nada. copos vazios ficaram espalhados pela casa toda. os cinzeiros estão cheios de cigarros onde ele costumava ficar. a cama ficou desarrumada. tem roupa dele no chão do quarto, ao lado da cama. eu ainda não sei como vai ser. ainda não sei como as crianças vão ficar com isso tudo. não sei como eu vou ficar com tudo isso. mas a gente fica. a gente sempre fica, de um jeito ou de outro.
sexta-feira, 21 de junho de 2013
aí a imobiliária me manda o boleto do aluguel um dia antes do vencimento, e porque eu mandei um e-mail cobrando! minha resposta: foi por má fé ou por pura distração mesmo? me recuso a pagar essa multa!
obs.: tudo bem, voltar às pequenas desimportâncias cotidianas? tô falando sozinha, né? ok.
nessas horas eu queria ser jornalista, qualquer coisa assim. é que a máquina de costura não transmite informações em tempo real. mas não, quis ser costureira. ah, a beleza de dominar o meio de produção.... ah, a beleza de ser artífice em meio à produção em massa... xé. queria mesmo era estar no olho do furacão. e se eu estivesse lá, ia pensar: ah, como seria bom viver do que consigo produzir com minhas mãos... nóia eterna de quem nasceu pra artesã.
ah, a beleza da insatisfação crônica...
a vida tá boa trabalhando fora de casa. uma vez por semana fico dando voltas e mais voltas pelos quarteirões da vila madalena, tentando lembrar onde foi que estacionei o carro. não, não tenho ido trabalhar de bicicleta. me deprime demais, pedalar no jaguaré. eu, scânias, ônibus... mas nem.
abandonei definitivamente as aulas de violão.
a yoga tem me fascinado. pela primeira vez encontrei um professor que te corrige botando o teu corpo no lugar. não é fundamental isso? eu acho. fez toda a diferença.
ontem fez um mês que meu namoro acabou. definitivamente. no começo, chorava a toda hora. depois, três vezes por dia. agora uma vez por dia, pelo menos. daqui a pouco paro de contar. se tudo der certo, quem sabe, paro até mesmo de me importar.
me perguntaram assim: então vc é mãe? sim. tem namorado? não.
lembrei do que? sim: da campanha "namore uma mãe solteira". quem sabe, mais pra frente.
a vantagem de ser costureira, e não jornalista, é que daqui do alto de toda minha desinformação, sei muito bem o que está acontecendo. a desinformação é uma benção na vida do ser humano pós-contemporâneo.
obs.: tudo bem, voltar às pequenas desimportâncias cotidianas? tô falando sozinha, né? ok.
nessas horas eu queria ser jornalista, qualquer coisa assim. é que a máquina de costura não transmite informações em tempo real. mas não, quis ser costureira. ah, a beleza de dominar o meio de produção.... ah, a beleza de ser artífice em meio à produção em massa... xé. queria mesmo era estar no olho do furacão. e se eu estivesse lá, ia pensar: ah, como seria bom viver do que consigo produzir com minhas mãos... nóia eterna de quem nasceu pra artesã.
ah, a beleza da insatisfação crônica...
a vida tá boa trabalhando fora de casa. uma vez por semana fico dando voltas e mais voltas pelos quarteirões da vila madalena, tentando lembrar onde foi que estacionei o carro. não, não tenho ido trabalhar de bicicleta. me deprime demais, pedalar no jaguaré. eu, scânias, ônibus... mas nem.
abandonei definitivamente as aulas de violão.
a yoga tem me fascinado. pela primeira vez encontrei um professor que te corrige botando o teu corpo no lugar. não é fundamental isso? eu acho. fez toda a diferença.
ontem fez um mês que meu namoro acabou. definitivamente. no começo, chorava a toda hora. depois, três vezes por dia. agora uma vez por dia, pelo menos. daqui a pouco paro de contar. se tudo der certo, quem sabe, paro até mesmo de me importar.
me perguntaram assim: então vc é mãe? sim. tem namorado? não.
lembrei do que? sim: da campanha "namore uma mãe solteira". quem sabe, mais pra frente.
a vantagem de ser costureira, e não jornalista, é que daqui do alto de toda minha desinformação, sei muito bem o que está acontecendo. a desinformação é uma benção na vida do ser humano pós-contemporâneo.
terça-feira, 30 de abril de 2013
talvez o gato esteja entrando aqui durante a noite e comendo a ração da gata. eu queria assistir novela. eu gostava tanto de você. gostava. gostar tem doído. então eu gostava. mentira, ainda gosto. gosto tanto, tanto. queria você aqui, agora. mas vai doer, então é melhor não. me incomodava pensar que eu pudesse ter desistido por medo. por que não deu certo? - me perguntariam. porque eu tive medo, eu teria que responder. e isso não é resposta que se dê, nem motivo pra que coisa qualquer se acabe. me pergunto se não é por medo que agora encerro tudo. não. não é. é auto-preservação. o que pode parecer balela, mas não, uma coisa é muito diferente da outra. dessa vez eu insisti. o quanto pude. a roseira está cheia de botões. só a cor-de-rosa sobreviveu. a branca e a amarela logo morreram.
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