terça-feira, 31 de agosto de 2010

achei que fosse 28, mas foi dia 21 de agosto. dia 21 de agosto de 2009, grande merda uma data de separação pra quem não teve nem data de casamento, não é? dia 21 foi o dia do b.o. de abandono de lar. que não serviu de muita coisa, senão para ocupar minha noite, andando de delegacia em delegacia ouvindo gracinhas dos delegados. faz um carinho que ele volta. vai tomar no cu. delegacia da mulher é uma mentira. mais uma, entre tantas. às vezes acho que é tudo uma mentira, que eu não casei com ele, que eu não tive um filho com ele, é que o filho é a cara dele, não adianta negar. é verdade. dia 21 de agosto de 2009, faz um ano e dez dias que eu me separei. ou que fui separada. na verdade faz mais, se contarmos o processo todo. talvez façam já seis anos e dez dias que estou separada. brincadeira.
mas ele tem razão, é certo, parei de andar com eles. por que começaram a reclamar que eu devia procurar minha própria turma, não eles, mas o sujeito que nos apresentou, aí eu acabei fazendo isso mesmo, meio sem pensar, pra não ter que toda hora ficar cruzando com esse cara aí, não fui procurar minha turma, fiquei na minha, mas acabei achando uma turma mesmo, a minha, a de sempre, e outras, diferentes, novas pessoas. sobre ele... eu fico com dó. fico com dó por que a gente tinha uma amizade que eu achava muito bonita, e talvez não tenha acabado a amizade, mas eu olho pra ele e sinto raiva. é que eu sei que ele queria me comer, mas pra ele eu não quis dar, pode não parecer, mas não é pra todo mundo que eu tenho vontade de dar, e pra ele eu não quis, e eu sei que ele é dos que tem a impressão de que eu dou pra qualquer um, e como assim eu não quis dar pra ele? não quis nem nunca vou querer, embora eu já tenha tido vontade uma vez na vida. mas acho que era só vontade de dar, e era ele que estava mais perto, não era vontade de dar pra ele. sabe como é? por que ele é um cara meio xucrão, se veste de melodias e ressonâncias, mas manda a namorada dormir no chão por que lhe doem as costas, sabe como é? vai ele dormir no chão, ué. aí vc pode dizer qual o problema de mandar a namorada dormir no chão, mas eu, conservadora como sou, acho esquisitíssimo o cara mandar a mulher dormir no chão. o pior é que ele está com um livro meu, e eu fiquei muito puta, por que quando pedi um livro emprestado ele disse uma primeira e única frase: não. rá! tenho vontade de ir lá e falar oi, vim buscar meu livro, sabe o que é, não empresto minhas coisas pra quem não me empresta as suas. sabe como é?
uma vez, eu era mais nova, fiz uma pintura, tinha tinta vermelha espirrada. minha mãe mandou que eu limpasse, apagassse, refizesse, jogasse aquilo fora, não importava, aquilo tinha que sair dali por que ela não queria ver marcas de sangue. mãe, tem umas marcas que são mais fortes que marcas de sangue. às vezes a gente precisa botar elas pra fora.
então, deixa eu contar uma coisa, é que eu tô meio a fim de um sujeito, mas eu não chamo mais ninguém pra sair, então o que faço? sento e espero? ô moço, eu não tô fazendo nada, vc tb, (mentira, eu não sei nada dele, só que ele tem um gato, nem sei se é solteiro, pra dizer a verdade, quando o conheci, não era, mas isso é uma coisa que tá sempre mudando na vida das pessoas, então quem sabe se...) chama eu pra sair que eu saio c'ocê. eu sou engraçada, inteligente, dou risada fácil, gosto de ouvir (e de falar, verdade seja dita), enfim. sou carismática, carinhosa, atenciosa e democrática. dou atenção a todos os setores da sociedade. ai, acho que essa parte não era bom falar, né? eu quis dizer que eu sou feliz por viver numa democracia, sou politizada, viu? (ele eu acho que é militante e tudo, só não sei de que partido, pstu não, pstu não, pstu não. psol tb não, psol tb não, psol tb não, valha-me deus. de direita eu sei que ele não é, se não nem me interessava).
nossa, acabei de me dar conta de que ele me atrai mas eu não sei absolutamente nada, nada, nadica a respeito dele. acho que é melhor deixar pra lá. é. deixa pra lá. eu não tô fazendo nada e vou continuar assim. moça direita.
quando percebi, estava sorrindo. riso fácil, sincero, desses que brotam espontâneos.
nem sei por que, nem como, o dia desanuviou, levou, eu sorri e resolvi tomar conta do que tinha pra fazer. finalmente.

por que não gosto de títulos, eu disse, e saí andando. ele ficou parado, como quem espera, atônito, mas por que não? por que eu não gosto de títulos, já disse. então não precisa ter título, vc não precisa ser minha namorada, nem minha esposa, mas eu gostaria muito se fosse a mãe do meu filho. já tenho filho, e acho que no lugar do se vc devia ter posto um que, eu gostaria muito que. vc está me zoando. vc não está, me convida assim, pra ser a mãe do seu filho, e acha que deve ser levado a sério? fica comigo de novo? não. por que não? por que não gosto de títulos.

por que não gosto de filhos, eu disse, e saí andando. por que não? ela podia chamar maria flor. ela quem? nossa filha. não quero ter filhos. muito menos com nome substantivo. como não, toda mulher quer ter filhos. te disseram isso? mentiram, não é verdade. nem toda mulher quer ter filhos. nem mesmo as que têm. nós teríamos filhos lindos. nós teríamos filhos mal educados. nós teríamos filhos muito amados. pelo pai. a mãe os abandonaria em três dias. vc não seria capaz. não quero pensar em filhos, já disse. viu, começa a mudar de idéia. não quer pensar em filhos, não agora, não ainda, mas daqui a algum tempo, vc quererá. quererá, que horrível, não quererei filhos, nem que fossemos o último casal da espécie.

por que não gosto de vc, eu disse, e saí andando. ele ficou parado, estático, mudo, me olhando com rancor. veio correndo, me deu um chute e eu caí de boca no chão. quebrei o nariz, mal podia respirar, o sangue parecia que entalava na garganta. antes que eu conseguisse me levantar, um ônibus virou a esquina e passou por cima das minhas costelas. ele ficou parado, olhando, num misto de arrependido e satisfeito, como criança que diz bem feito. o motorista parou, assustado, achando que tinha me matado. mas o que me matou mesmo foi o caminhão que passou por cima logo depois, que não viu que o ônibus tinha parado e acertou em cheio a traseira. sei que aí morreram vários de uma vez. e meu espírito enfim achou companhia. eterna, diga-se de passagem.
eu não queria fazer disso um diário, mas acho que já é tarde, não é?
então paciência. hoje eu acordei toda romântica. escolhi o meu vestido mais rodado, pus um sapatinho com salto e um colarzinho com perólas. passei um batom cor de rosa, e lembrei que tenho que ir ali estrangular e depenar uma galinha para o almoço. até mais, querido diário.


são um mihão de papeizinhos me lembrando de tudo o que tenho que fazer, outro milhão esperando para ser transcrito para o livro-caixa, outro monte esperando pra ver o que é propaganda, o que é conta, não recebo cartas, só contas e propagandas, por isso comecei a mandar cartas para mim mesma, mas ainda não chegaram, será que escrevi o endereço certo, será que o moço do correio não me levou a sério? tem mais um bolo a minha espera, o bolo dos rabiscos e desenhos, de croquis, de projetos, de idéias. cada idéia ponho no papel, para que a idéia não se perca, mas cada papel se perde, e perco junto a idéia. quando tento passar de novo para o papel uma mesma idéia, ela já se foi, já mudou, e fica no lugar uma idéia mais ou menos parecida, mais ou menos diferente, nunca igual. sempre a sombra. tem o monte de revistas, que insisto em tentar manter organizado de acordo com um critério cronológico, embora eu não seja assinante, então esse critério cronológico só existe na minha cabeça. o que mais será que só existe na minha cabeça? tem também o bolo de papéis do caderno de receita, um caderno de receitas é das coisas mais importantes, por que um caderno de receitas não é um compilado de farinhas, açúcares, manteigas, chocolates e abobrinhas em xícaras, gramas, colheres de chá e café: é antes um registro de felicidade, um jeito de dizer junteza, um registro de que comemos pavê e fomos felizes, um dia caiu uma gota de leite numa das páginas, e eu pensei durante um minuto se devia limpar ou deixar a mancha se espalhar e se misturar com o azul da tinta, como atestado de que este caderno é verdadeiro. aqui se come. aqui se é feliz. deixei que a mancha ficasse. meu caderno de mãe nova, de dona de casa recém chegada, começava a tomar a forma dos livros de receitas das avós e das bisavós. me senti orgulhosa, e me dei conta de que em um outro dia, talvez, esse meu caderno seja consultado, olhado, e as receitas sejam experimentadas, talvez pensem credo, como era porquinha essa sua avó, olha a sujeira que tá isso, claro que não com essas palavras, por que até isso chegar os animais já terão conquistado direitos tais que se alguém acusar o porco de ser sujo será multado, ou mesmo morto, não vejo o futuro com muito bons olhos. talvez as receitas não dêem certo, por que o ovo transgênico e a farinha artificial pedem novas formas de liga com o leite oxigenado que meu velho caderno com receitas copiadas de minha velha avó não sabem como resolver. talvez o caderno não chegue a futuro nenhum, por que a bomba atômica, ou por que o dilúvio, ou por que o aquecimento derreta as páginas, ou as formigas comam as páguinas, por causa da grande quantidade de sacarose e frutose derramada nelas, mas sigo otimista anotando receita por receita, essa não deu certo, nessa coloque mais farinha, nessa não precisa tanto açúcar, a gente cresce, envelhece, e descobre que não precisa de tanto açúcar. e acordar é de um otimismo... mas não era disso que eu queria falar. tem o bolo dos papéis do curso de desenho, tem os bolos de papel da faculdade, cópias e mais cópias que quando eu era casada organizava em caixas verdes de polionda, com datas e titúlos e nome do curso e nome do professor, agora não faço mais isso, por que não tem mais ninguém para me chamar desorganizada, então eu não preciso mostrar que se eu quiser eu sei ser a mestra da organização. então vivo em meio ao caos, caos onde me acho, caos onde me crio, caos onde me perco. caos onde me gosto. mas também não era disso que eu queria falar, e não vou falar dos papéis-lembranças.

ela anda desviando de todos os buracos, ela anda caindo em todos os buracos. ele não pisa nas linhas brancas, ela diz que não pode andar sem ser pisando nas linhas brancas, ela evita as guias altas, desvia seu caminho para que venha a cair, justo e certo, nas guias rebaixadas. é por que ela anda de bicicleta, e tem pouca habilidade para empinar o guidão. ele não anda. a coisa mais gostosa do mundo é imaginar personagens para as pessoas que vemos na rua, cada pessoa é um personagem com um roteiro bombástico pela fente, muito melhor do que a vida real e medíocre que a espera, mas isso é muito clichê, e também não era disso que eu queria falar.

me perguntam o que teremos de almoço hoje, e eu me dou conta de que não faço a menor idéia. almoço? temos mesmo que almoçar? coma um lanche, tome, tem dinheiro aqui, vai ali na padaria e me traga dois lanches, pode comprar um sorvete de sombremesa. quando meu filho terá dezesseis anos? em 2019. não gosto desses números. 2000. 2000 e. não vou falar disso.

são tecidos e mais tecidos, retalhos e mais retalhos, na loja do centro não aceitam cartão, vou no banco ou na loja mais perto de casa, que é mais cara mas aceita cartão? preciso de ilhós. eu não queria fazer disso um diário, mas já é tarde, não é?

ele me diz que eles são loucos. não respondo. quem não é?
não páro de pensar que enlouquecer é a coisa mais fácil do mundo.

são milhões e milhões de papeizinhos, papeizinhos que me lembram, papeizinhos que me esquecem, papeizinhos que me espalham em idéias. mas acho que já falei disso.

a coisa mais gostosa do mundo é imprimir ritmo ao que se faz. mas isso é coisa de bailarina interrompida ou musicista reprimida. nem terpsícore nem euterpe. minha musa é mãe de todas. é mnemosine. eu queria que ela me aparecesse menos. mas como musa, está acostumada a ser esperada, e não se conforma com minha infelicidade a cada aparição. fique feliz, ela diz, eu sou a musa que não te deixa esquecer. eu sei, eu digo. por isso mesmo estou planejando sua morte. espero que tália me ajude.

o que eu queria dizer é que enlouquecer é a coisa mais fácil do mundo. não por que não se lembra. mas por que não se esquece. não se lembrar não seria loucura. seria o que todo mundo faz, na maioria das vezes. no não esquecer é justamente que começam os problemas.

domingo, 29 de agosto de 2010

dormi das seis às seis, deus, como foi bom dormir das seis às seis. acordei, tomei café, li mais um capítulo de machado e dormi de novo até as nove e meia. nunca foi tão bom ficar gripada. foi o melhor fim de semana desde... desde... não sei, que mania de ficar mensurando as coisas, mas sei que foi bom, apesar de meu corpo ainda doer depois de tantas horas na mesma posição.
no fim da tarde saí pra lembrar que o mundo existe, comprei um jornal pra ter certeza de que eu não tinha perdido nada. ir até a banca é o passeio que gosto mais, mesmo que eu me irrite com a maioria das publicações. o menino resiste até o último piscar de olhos, dá pra ver que tem uma fada jogando areia, são baldes e mais baldes de areia fina nos olhos, e nada dele dormir. eu sei quando ele está mentindo, é tão engraçado, me sinto muito mal por desvendar seus segredos. mas acho que ele deve aprender que, se quer mentir, deve mentir bem mentido, por uma questão de respeito ao seu interlocutor: uma mentira mal contada é uma ofensa. não só a mentira, mas também e principalmente o mal-contar. o menino finalmente dormiu. cruza os pés e põe as mãos embaixo do rosto. a fada agora joga areia em mim. xô, xô, já dormi bastante, por uma vida, aliás. mas são baldes e baldes de areia fina nos olhos. não resisto tanto quanto o menino. pode ser da idade, pode ser do espírito... não sei.
mas que mãe é essa, que acha que o filho deve aprender a mentir bem, em vez de ensiná-lo a não mentir jamais... tudo é relativo, veja bem.