incrível como a gente pode se apropriar tanto de um livro, não é?
um dos, um dos não, o livro mais importante da minha vida, aquele que tá sempre ali, que eu já li umas quatro vezes, que eu não esqueço nunca, e que não sai de mim, é o livro "as meninas", da lígia fagundes telles. lia de mello shultz, ana clara e lorena, minhas três amigas, minhas três eus, minhas três. pensei nisso por que no último post eu escrevi a coisa mais gostosa do mundo é, e fizeram um espetáculo desse livro, lançaram uma reedição, teve palestra, debate, festa, etc, e eu não fui, faz tempo já, mas a peça pelo menos ainda está em cartaz. queria ter ido hoje, não deu, quero ir semana que vem, mas enfim, peguei o livro pra reler, e na primeira página está: a coisa mais gostosa do mundo é. e eu nem lembrava mais que a lião falava isso, que a lorena falava isso. mal me lembro da história, por isso peguei pra ler de novo. a coisa mais gostosa do mundo é ler um livro e esquecer que aquilo veio de um livro que vc leu, a coisa mais gostosa do mundo é aumentar a vida. por que como o moço disse, só a realidade não basta.
domingo, 26 de setembro de 2010
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
A coisa mais gostosa do mundo é ler um livro.
A coisa mais gostosa do mundo é ler um livro sabendo que ele foi feito pra vc ler. Pra vc. Não o conteúdo, eu digo, mas o formato livro mesmo. Páginas coladas, encadernadas, tecido fazendo as vezes de capa. Trabalho de artesão, de paciência, de cuidado, de carinho mesmo.
A coisa mais gostosa do mundo fica com um gostinho todo particular.
A coisa mais gostosa do mundo é ver um nascimento. É ver que o parto deu certo. Há mais luz agora, apesar da neblina e da vista turva dos sonhos, e a coisa mais gostosa do mundo é ver isso de perto.
A coisa mais gostosa do mundo é ler um livro sabendo que ele foi feito pra vc ler. Pra vc. Não o conteúdo, eu digo, mas o formato livro mesmo. Páginas coladas, encadernadas, tecido fazendo as vezes de capa. Trabalho de artesão, de paciência, de cuidado, de carinho mesmo.
A coisa mais gostosa do mundo fica com um gostinho todo particular.
A coisa mais gostosa do mundo é ver um nascimento. É ver que o parto deu certo. Há mais luz agora, apesar da neblina e da vista turva dos sonhos, e a coisa mais gostosa do mundo é ver isso de perto.
terça-feira, 14 de setembro de 2010
sábado, 11 de setembro de 2010
obcecada pela vingança, priscila maria só se estrepa. vive mal-humorada reclamando do sol, do calor, do frio, da chuva e da falta de chuva. se um passarinho vem lhe dizer bom dia, ela acende a churrasqueira e bau-bau passarinho. se um cãozinho atravessa seu caminho, ela chuta, sai da frente filho da puta. um gatinho diz miau, miau o caralho, e o gatinho voa longe.
de noite, sozinha, priscila maria chora e abraça seu ursinho de pelúcia encardido e sem um braço, único resquício de uma infância miserável perdida em algum lugar do passado.
[flashback: crianças brincando na rua, priscila maria criança sorrindo feliz com seu ursinho na mão, sentada na guia numa rodinha de crianças felizes até que chega ele, grande, gordo, forte, sem os dentes da frente, pára a bicicleta em cima do pé dela, pega o ursinho dizendo deixa eu ver isso aqui, ela chora, ele ri, ela diz devolve meu ursinho, ele abre a bocarra, ela grita não, não, meu ursinho não, tarde demais, ele arranca fora o braço do ursinho numa dentada só, e sai pedalando sua bicicleta dando uma risada que nas noites de chuva ela ouviria durante anos e anos]
se ela soubesse que chegando em casa ele foi severamentre castigado pela mãe, que colocou sua cabeça no forno aceso, ela talvez o perdoasse, mas o perdão é uma coisa que vem só no último capítulo. por enquanto priscila maria cozinha um plano diabólico para destruir seu arqui-inimigo que usa uma máscara por que tem uma marca horrorosa de queimadura do lado direito do rosto. seu nome é... lucius hammer, filho de lúcifer, o diabo em corpo de gente, se é que pode-se chamar aquilo de gente, ele é alto, ele é forte, ele é hot, as mulheres o amam e o temem, mas sobretudo o desejam. ele consegue as mulheres que quer, tem os carros que quer, ele é rico, é poderoso, mas tem um terrível complexo de inferioridade, por que tem um pau minúsculo, e por isso ele usa seu poder e sua influência para o mal. ele é do mal. mas ele não é mau.
[flashback: lucius hammer criança está se lambuzando com um xis-burguer quando seu pai entra na sala e diz: você comeu meu lanche?! lucius larga o resto do lanche e sai correndo, se esconde em baixo da mesa, o pai puxa seus pés, lucius segura o pé da mesa tentando escapar do castigo iminente, lucius vai arranhando chão, o pai é alto, é forte, é poderoso, arranca lucius de lá e bota sua cabeça no forno aceso. desde então, lucius nunca mais foi uma criança feliz e até hoje não chega perto de fornos. vive num apart-hotel, come fora todos os dias da sua vida, e nunca, nunca come xis-burguer]
sem saber disso, priscila maria abre uma lanchonete na frente do hotel onde vive lucius, para espionar os hábitos de seu arqui-inimigo. priscila não poderá nunca ser feliz se não desistir dessa vingança tola, mas o ódio consumiu seu ser franzino (ela tem um metro e meio de altura, pesa quarenta quilos e calça 32). além disso, não poderá nunca ser feliz por que usa peruca, chapéu, sobretudo e óculos escuros para não ser reconhecida, num calor infernal da cidade de piripiri, no piauí.
- três anos depois -
priscila maria comeu o pão que lucius hammer amassou, priscila maria quase moreu de desitratação por que suou em bicas durante três anos embaixo do sobretudo, da peruca e do chapéu, mas um dia... eis que lucius hammer entra na lanchonete. priscila maria tremeu. priscila maria quase desfaleceu. priscila maria fechou a mão em torno do anel que trazia nos dedos. e sentiu a glória da justiça se aproximando. tinha um gosto de sangue na boca, seu coração disparado soava mais forte que um cuco suíço, mas priscila se controlou. sorriu. e com muito sangue frio anunciou a oferta recém lançada: meus parabéns! o senhor é o milésimo freguês a entrar na casa hoje! ganhou o prato do dia: xis-burguer!
um calafrio percorreu a espinha de lucius hammer. xis-burguer. o ponteiro do relógio da lanchonete marcava nove horas e trinta minutos de um dia ensolarado porém amaldiçoado pelos deuses. lucius hammer rapidamente percebeu que se tratava de uma cilada. piripiri fora evacuada uma semana antes para a construção de uma hidrelétrica, só restavam os dois na cidade. por isso naquela manhã ele precisou entrar na - argh - lanchonete. era o único lugar da cidade que vendia algum tipo de comida. virou-se rapidamente para fugir, mas não conseguiu: priscila maria já estava postada na porta com um enorme e suculento xis-burguer envenenado nas mãos, dizendo:
- vc precisa provar meu xis-burguer, querido...
lucius hammer tenta sair pela janela, mas ela aciona o fechamento automático de todas as saídas, e os dois ficam cara a cara, exatamente como sonhara priscila maria.
[tudo pára ao redor deles. na falta de gente, xícaras e pires, pratos e talheres começam a voar em câmera lenta]
priscila maria tira os óculos escuros, o chapéu e a peruca, jogando o cabelo de modo sexy e provocante
[também em câmera lenta]
tira seu sobretudo e exibe uma lingerie branca e aí fecha rapidamente seu sobretudo, envergonhada por que esqueceu que não usava nada por baixo além do espartilho e da cinta-liga.
[corte brusco do clima, xícaras, pratos e talheres caem de repente no chão]
-lucius hammer, sou eu, priscila maria.
-vc é quem?
-como quem? priscila maria, sua arqui-inimiga.
-quem?
-não finja que não sabe quem eu sou. hoje é meu dia de glória. coincidentemente, é tb o último dia dessa sua vida de prazeres, de luxúria, de pecados. hoje é o dia em que vc pagará por todo o mal que me fez.
[priscila maria faz um discurso enorme, gesticula os braços e mantém o olhar num ponto fixo como se olhasse o horizonte e vislumbrasse um futuro glorioso. termina o discurso com os pés em lucius, que está sentado numa cadeira com as mãos amarradas. começa a ficar excitado quando o sobretudo de priscila maria se abre]
-desculpe, deve ser algum engano, olha, sinceramente, me perdoe, mas eu não me lembro de vc.
[lucius hammer imagina que seja alguma mulher com quem ele tenha tido relações que ficou insatisfeita por que seu pau era pequeno]
- não minta!! [gritando] eu esperei durante anos, tenho vigiado vc durante meses, e finalmente, hoje é o meu dia!! muahuahuahuhauhuahauhua [risada maligna]
lucius tenta se lembrar mas não consegue.
ela o obriga a comer o xis-burguer.
-coma, ande.
ele começa a chorar.
-suas lágrimas de crocodilo não vão me convencer. vc merece morrer!!
-mas se eu nem sei o que fiz... e é pra comer ou para andar? se vc me desamarrar, eu consigo andar.
-hahahahaha [outra risada maligna] morra, desgraçado.
e ameaça enfiar o xis-burguer goela abaixo de lucius hammer.
lucius hammer fecha a boca, chora, não come de jeito nenhum. e decide lutar por sua vida.
dá um chute em priscila maria e ela cai desacordada sobre os engradados de cerveja.
do bolso do seu sobretudo cai o ursinho todo desmilinguido.
lucius hammer se lembra de tudo vendo o ursinho.
quando acorda, priscila maria está amarrada de ponta cabeça no freezer da lanchonete.
não, quando acorda, priscila maria está deitada sobro o balcão enquanto lucius hammer passa um café. o anel sumiu de seu dedo.
lucius hammer sorri e diz:
- me desculpe. vc está bem? os olhos de priscila maria flamejam, ela pega a chaleira e dá na cabeça dele. mas ele é alto, ele é forte, ele é poderoso, ele segura seu bracico de nada antes do golpe. e a obriga a sentar.
-sabe, eu não gosto muito de mulher assim sem carnes, mas vc fica muito bem com essa cinta-liga.
ela se dá conta de que está seminua, e se abraça tentando esconder a nudez.
ele pega o ursinho e diz:
-então, é por causa disso que vc quer me matar?
-seu desgraçado, você vai me pagar!
ele a segura com um braço, seus chutes e pontapés não o alcançam.
- eu posso te comprar todos os ursinhos do mundo, se vc quiser.
- eu não quero! eu quero minha infância, que vc roubou de mim.
não, melhor ainda, quando acorda, priscila maria está no apart-hotel de lucius. clima de novela mexicana:
- eu posso te comprar todos os ursinhos do mundo, se vc quiser.
- eu não quero! eu quero minha infância, que vc roubou de mim.
priscila maria começa a chorar compulsivamente. lucius hammer a abraça. ela o rejeita. ele a abraça mais forte, quase sufocando-a, por que ele é alto, ele é forte, e ela é do tipo mignon. priscila maria chora tanto, que eles começam a sentir água nos pés.
ela se afasta.
-não me abrace!
ele se aproxima:
-abraço! vc é a vilã magra e sem graça mais gostosa que eu já vi.
ela se surpreende:
-o que? vc não está zangado comigo por eu querer te matar? (fazendo vozinha de princesa debilóide)
- não, priscila maria. sabe... nessa vida, todos nós blábláblábláblá
[discurso de meia hora em tom soturno, sisudo. conta a história toda, dos fornos, etc, anda pela casa, sempre de costas para ela, chuta uma cadeira quando fala da mãe, que morreu de sífilis um ano antes. se recompõe, e quebra um copo na mão quando cita o pai, que morreu atropelado por um trator quando ele tinha quinze anos.
priscila maria de compadece de sua dor, e desiste de matá-lo.
rola um clima.
os dois se aproximam, e a água já está nos tornozelos.
ele a pega pelos braços e a coloca em cima de uma cadeira. clímax chegando - os dois se aproximam lentamente:
- oh, lucius hammer, por tanto tempo te odiei
- oh, priscila maria, por tanto tempo eu... nem desconfiei da sua existência...
ela ri,
- é que a roteirista não é boa em fazer vilãs.
ele faz shiu:
- está ouvindo?
- não, o que?
- esse barulho... priscila maria, temos que fugir! a cidade será inundada para a construção da hidrelétrica, vamos!
- não, lucius hammer, é tarde! olhe!
[água na cintura dela ( e no joelho dele), cardumes de peixe palhaço e tartarugas marinhas nadam tranquilamente entre carros e objetos flutuando]
eles se dão as mãos, se abraçam e esperam pacificamente pelo fim. ele diz:
-eu seria muito grosseiro se dissesse que estou com um tesão louco por vc?
-hihihi, que é isso, lucius...
(a vilã, como boa vilã de novela, de repente torna-se puritana e cora)
- deixe de bobagem querida. pega aqui.
- lucius, que pau enorme!
lucius não entende
- nossa, acho que vai até me machucar...
lucius então percebe que ela era a mulher perfeita pra ele. com seu metro e meio, lucius realmente tinha um pau enorme para a sua vagina minúscula.
lucius se sentiu o fodão pelo menos uma vez na vida, priscila maria caiu de boca e foram felizes até que a água chegou no teto.
o fim.
fim!
de noite, sozinha, priscila maria chora e abraça seu ursinho de pelúcia encardido e sem um braço, único resquício de uma infância miserável perdida em algum lugar do passado.
[flashback: crianças brincando na rua, priscila maria criança sorrindo feliz com seu ursinho na mão, sentada na guia numa rodinha de crianças felizes até que chega ele, grande, gordo, forte, sem os dentes da frente, pára a bicicleta em cima do pé dela, pega o ursinho dizendo deixa eu ver isso aqui, ela chora, ele ri, ela diz devolve meu ursinho, ele abre a bocarra, ela grita não, não, meu ursinho não, tarde demais, ele arranca fora o braço do ursinho numa dentada só, e sai pedalando sua bicicleta dando uma risada que nas noites de chuva ela ouviria durante anos e anos]
se ela soubesse que chegando em casa ele foi severamentre castigado pela mãe, que colocou sua cabeça no forno aceso, ela talvez o perdoasse, mas o perdão é uma coisa que vem só no último capítulo. por enquanto priscila maria cozinha um plano diabólico para destruir seu arqui-inimigo que usa uma máscara por que tem uma marca horrorosa de queimadura do lado direito do rosto. seu nome é... lucius hammer, filho de lúcifer, o diabo em corpo de gente, se é que pode-se chamar aquilo de gente, ele é alto, ele é forte, ele é hot, as mulheres o amam e o temem, mas sobretudo o desejam. ele consegue as mulheres que quer, tem os carros que quer, ele é rico, é poderoso, mas tem um terrível complexo de inferioridade, por que tem um pau minúsculo, e por isso ele usa seu poder e sua influência para o mal. ele é do mal. mas ele não é mau.
[flashback: lucius hammer criança está se lambuzando com um xis-burguer quando seu pai entra na sala e diz: você comeu meu lanche?! lucius larga o resto do lanche e sai correndo, se esconde em baixo da mesa, o pai puxa seus pés, lucius segura o pé da mesa tentando escapar do castigo iminente, lucius vai arranhando chão, o pai é alto, é forte, é poderoso, arranca lucius de lá e bota sua cabeça no forno aceso. desde então, lucius nunca mais foi uma criança feliz e até hoje não chega perto de fornos. vive num apart-hotel, come fora todos os dias da sua vida, e nunca, nunca come xis-burguer]
sem saber disso, priscila maria abre uma lanchonete na frente do hotel onde vive lucius, para espionar os hábitos de seu arqui-inimigo. priscila não poderá nunca ser feliz se não desistir dessa vingança tola, mas o ódio consumiu seu ser franzino (ela tem um metro e meio de altura, pesa quarenta quilos e calça 32). além disso, não poderá nunca ser feliz por que usa peruca, chapéu, sobretudo e óculos escuros para não ser reconhecida, num calor infernal da cidade de piripiri, no piauí.
- três anos depois -
priscila maria comeu o pão que lucius hammer amassou, priscila maria quase moreu de desitratação por que suou em bicas durante três anos embaixo do sobretudo, da peruca e do chapéu, mas um dia... eis que lucius hammer entra na lanchonete. priscila maria tremeu. priscila maria quase desfaleceu. priscila maria fechou a mão em torno do anel que trazia nos dedos. e sentiu a glória da justiça se aproximando. tinha um gosto de sangue na boca, seu coração disparado soava mais forte que um cuco suíço, mas priscila se controlou. sorriu. e com muito sangue frio anunciou a oferta recém lançada: meus parabéns! o senhor é o milésimo freguês a entrar na casa hoje! ganhou o prato do dia: xis-burguer!
um calafrio percorreu a espinha de lucius hammer. xis-burguer. o ponteiro do relógio da lanchonete marcava nove horas e trinta minutos de um dia ensolarado porém amaldiçoado pelos deuses. lucius hammer rapidamente percebeu que se tratava de uma cilada. piripiri fora evacuada uma semana antes para a construção de uma hidrelétrica, só restavam os dois na cidade. por isso naquela manhã ele precisou entrar na - argh - lanchonete. era o único lugar da cidade que vendia algum tipo de comida. virou-se rapidamente para fugir, mas não conseguiu: priscila maria já estava postada na porta com um enorme e suculento xis-burguer envenenado nas mãos, dizendo:
- vc precisa provar meu xis-burguer, querido...
lucius hammer tenta sair pela janela, mas ela aciona o fechamento automático de todas as saídas, e os dois ficam cara a cara, exatamente como sonhara priscila maria.
[tudo pára ao redor deles. na falta de gente, xícaras e pires, pratos e talheres começam a voar em câmera lenta]
priscila maria tira os óculos escuros, o chapéu e a peruca, jogando o cabelo de modo sexy e provocante
[também em câmera lenta]
tira seu sobretudo e exibe uma lingerie branca e aí fecha rapidamente seu sobretudo, envergonhada por que esqueceu que não usava nada por baixo além do espartilho e da cinta-liga.
[corte brusco do clima, xícaras, pratos e talheres caem de repente no chão]
-lucius hammer, sou eu, priscila maria.
-vc é quem?
-como quem? priscila maria, sua arqui-inimiga.
-quem?
-não finja que não sabe quem eu sou. hoje é meu dia de glória. coincidentemente, é tb o último dia dessa sua vida de prazeres, de luxúria, de pecados. hoje é o dia em que vc pagará por todo o mal que me fez.
[priscila maria faz um discurso enorme, gesticula os braços e mantém o olhar num ponto fixo como se olhasse o horizonte e vislumbrasse um futuro glorioso. termina o discurso com os pés em lucius, que está sentado numa cadeira com as mãos amarradas. começa a ficar excitado quando o sobretudo de priscila maria se abre]
-desculpe, deve ser algum engano, olha, sinceramente, me perdoe, mas eu não me lembro de vc.
[lucius hammer imagina que seja alguma mulher com quem ele tenha tido relações que ficou insatisfeita por que seu pau era pequeno]
- não minta!! [gritando] eu esperei durante anos, tenho vigiado vc durante meses, e finalmente, hoje é o meu dia!! muahuahuahuhauhuahauhua [risada maligna]
lucius tenta se lembrar mas não consegue.
ela o obriga a comer o xis-burguer.
-coma, ande.
ele começa a chorar.
-suas lágrimas de crocodilo não vão me convencer. vc merece morrer!!
-mas se eu nem sei o que fiz... e é pra comer ou para andar? se vc me desamarrar, eu consigo andar.
-hahahahaha [outra risada maligna] morra, desgraçado.
e ameaça enfiar o xis-burguer goela abaixo de lucius hammer.
lucius hammer fecha a boca, chora, não come de jeito nenhum. e decide lutar por sua vida.
dá um chute em priscila maria e ela cai desacordada sobre os engradados de cerveja.
do bolso do seu sobretudo cai o ursinho todo desmilinguido.
lucius hammer se lembra de tudo vendo o ursinho.
quando acorda, priscila maria está amarrada de ponta cabeça no freezer da lanchonete.
não, quando acorda, priscila maria está deitada sobro o balcão enquanto lucius hammer passa um café. o anel sumiu de seu dedo.
lucius hammer sorri e diz:
- me desculpe. vc está bem? os olhos de priscila maria flamejam, ela pega a chaleira e dá na cabeça dele. mas ele é alto, ele é forte, ele é poderoso, ele segura seu bracico de nada antes do golpe. e a obriga a sentar.
-sabe, eu não gosto muito de mulher assim sem carnes, mas vc fica muito bem com essa cinta-liga.
ela se dá conta de que está seminua, e se abraça tentando esconder a nudez.
ele pega o ursinho e diz:
-então, é por causa disso que vc quer me matar?
-seu desgraçado, você vai me pagar!
ele a segura com um braço, seus chutes e pontapés não o alcançam.
- eu posso te comprar todos os ursinhos do mundo, se vc quiser.
- eu não quero! eu quero minha infância, que vc roubou de mim.
não, melhor ainda, quando acorda, priscila maria está no apart-hotel de lucius. clima de novela mexicana:
- eu posso te comprar todos os ursinhos do mundo, se vc quiser.
- eu não quero! eu quero minha infância, que vc roubou de mim.
priscila maria começa a chorar compulsivamente. lucius hammer a abraça. ela o rejeita. ele a abraça mais forte, quase sufocando-a, por que ele é alto, ele é forte, e ela é do tipo mignon. priscila maria chora tanto, que eles começam a sentir água nos pés.
ela se afasta.
-não me abrace!
ele se aproxima:
-abraço! vc é a vilã magra e sem graça mais gostosa que eu já vi.
ela se surpreende:
-o que? vc não está zangado comigo por eu querer te matar? (fazendo vozinha de princesa debilóide)
- não, priscila maria. sabe... nessa vida, todos nós blábláblábláblá
[discurso de meia hora em tom soturno, sisudo. conta a história toda, dos fornos, etc, anda pela casa, sempre de costas para ela, chuta uma cadeira quando fala da mãe, que morreu de sífilis um ano antes. se recompõe, e quebra um copo na mão quando cita o pai, que morreu atropelado por um trator quando ele tinha quinze anos.
priscila maria de compadece de sua dor, e desiste de matá-lo.
rola um clima.
os dois se aproximam, e a água já está nos tornozelos.
ele a pega pelos braços e a coloca em cima de uma cadeira. clímax chegando - os dois se aproximam lentamente:
- oh, lucius hammer, por tanto tempo te odiei
- oh, priscila maria, por tanto tempo eu... nem desconfiei da sua existência...
ela ri,
- é que a roteirista não é boa em fazer vilãs.
ele faz shiu:
- está ouvindo?
- não, o que?
- esse barulho... priscila maria, temos que fugir! a cidade será inundada para a construção da hidrelétrica, vamos!
- não, lucius hammer, é tarde! olhe!
[água na cintura dela ( e no joelho dele), cardumes de peixe palhaço e tartarugas marinhas nadam tranquilamente entre carros e objetos flutuando]
eles se dão as mãos, se abraçam e esperam pacificamente pelo fim. ele diz:
-eu seria muito grosseiro se dissesse que estou com um tesão louco por vc?
-hihihi, que é isso, lucius...
(a vilã, como boa vilã de novela, de repente torna-se puritana e cora)
- deixe de bobagem querida. pega aqui.
- lucius, que pau enorme!
lucius não entende
- nossa, acho que vai até me machucar...
lucius então percebe que ela era a mulher perfeita pra ele. com seu metro e meio, lucius realmente tinha um pau enorme para a sua vagina minúscula.
lucius se sentiu o fodão pelo menos uma vez na vida, priscila maria caiu de boca e foram felizes até que a água chegou no teto.
o fim.
fim!
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
III
tinha as mãos ocupadas e tentou guardar as tigelas na prateleira do alto assim mesmo. enquanto levantava o braço pensava que aquilo ia dar merda. antevia a catástofre, mas continuava a ação, esperando talvez que alguma habilidade sobre-humana de repente se desenvolvesse. não ouviu outra coisa senão as tigelas se estatelando no chão. e ela pensou que sabia que aquilo ia acontecer. não se assustou, por que afinal aquilo já estava previsto, mas deu um pulo pra trás e cortou o pé numa ponta da tigela esfacelada. merda. ela às vezes tinha um acesso de inteligência, como quem tem um acesso de apendicite. mas não era frequente. em geral andava à toa, desavisada, sem planos ou projetos. tinha mania de se vestir sem enxugar o corpo depois do banho, estava sempre atrasada, e de vez em quando caía enquanto punha a roupa, perdia o equilíbrio, a calça enroscava no corpo molhado e ela tombava pro lado, atrasava ainda mais e tinha sempre algum roxo marcando o corpo. tinha um corpo bonito, era modelo numa escola de desenho, magra, o professor sugeriu que ela engordasse um pouco para que tivesse mais dobrinhas para serem desenhadas, e ela que os alunos desenvolvessem a imaginação além da técnica, e ele respondeu que se era pra usar a imaginação não precisariam mais dela ali e ela perderia o único trabalho que pagava direito, ela sorriu e ficou quieta, não falou mais nada, aquiesceu com a cabeça e sorriu. chegou em casa e comeu uma lata inteira de leite condensado, a avó fazia um único bolo, a vida toda fez um único bolo, religiosamente aos sábados e domingos havia o mesmo bolo sobre a mesa, uma massa um pouco dura, recheio de leite condensado cozido e cobertura de clara em neve com açúcar e coco ralado. lembrou de quando raspava a lata de leite condensado. cozinhou uma lata de leite condensado. chegou em casa e comeu duas latas de leite condensado, uma cozida, a outra não. se perguntava o que é que tinha dado errado, era uma criança tão promissora na casa da avó raspando a lata de leite condensado, e agora vivia tão à toa, se sentia triste por não ter uma razão para viver, e de vez em quando até pensava que a razão para viver é mesmo estar vivo, ficava tranquila uns dois ou três dias, mas isso não era suficiente, e ela logo se entristecia de novo. ela era ambiciosa.
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
II
o maior equívoco da teoria literária é o narrador onisciente. não existe nem um narrador que seja onisciente. por que a onisciência é uma mentira. é uma fábula. o narrador não sabe tudo da vida de seus personagens, ainda que sejam seus os personagens: para saber tudo, tudo teria que existir. mesmo a história mais bem contada não existe inteira. ou por que não existe uma verdade, ou por que existam muitas verdades. ela era uma grande fã das meias verdades. enquanto voltava para casa pensava que devia dar um jeito de se mudar. talvez ela aceitasse se casar com o italiano. o problema do italiano é que ele não tinha a menor pinta de italiano. parecia mais um sueco, um dinamarquês, ou um alemão. loiro, olho muito azul, nariz fino e delicado. ela gostava de homens que tinham o nariz grande. não muito grande, mas homem não podia ter o nariz pequeno, empinado. não, isso é nariz de mulher. homem que é homem tem força até no nariz. e o seu tipo preferido de homem era justamente o arquétipo do homem mediterrâneo: pele morena, cabelos escuros, anelados de preferência, sobrancelhas grossas, nariz expressivo. boca carnuda. bons dentes, não muito brancos, e perfilados. mas se dava por satisfeita mesmo que ele não fosse nada disso, se a tratasse bem, se é que você me entende... no metrô, dois homens a olharam com interesse. o primeiro era um executivo. ridículo, de óculos escuros dentro do vaguão. só perdoava se fosse conjuntivite. não era, ele tirou os óculos para que ela soubesse que estava sendo cortejada. o segundo tinha uma tatuagem no braço inteiro, e ela achou ridículo que no cotovelo houvesse o desenho de uma circunferência. muito óbvio. mas o contraste entre os desenhos em preto e branco e a blusa listrada que ele usava era realmente interessante. era difícil ela encontrar um cara que não tivesse nada que pudesse ser ridicularizado. ninguém era bom o suficiente, nem inteligente o bastante. mas ela é nossa heroína, é o que temos pra hoje, então vou falar outra coisa: nenhum homem chegava aos seus pés. por isso, talvez ela se casasse com o italiano, talvez ela continuasse saindo com o guitarrista metaleiro, talvez fosse morar em montevidéu com o portenho. ela gostava bastante de doce de leite. sabia que aqui não ia continuar, então, entre a américa latina e a europa, qual a dúvida? não ficava constrangida em assumir que não casava por amor. casava para conseguir um passaporte, e qual o problema, não era esse o sonho de toda brasileira, desde que cabral chegou aqui? quando cabral chegou ainda não existiam as brasileiras nem os brasileiros, mas ela não prestava muita atenção nesses pormenores da história.
I
ela gostava de acordar cedo por que de manhã o sol batia no quarto e atravessava de uma parede a outra, e ela gostava de ficar estirada na cama sentindo o calor do sol, ela queria ter nascido gata, mas nasceu gente, precisava urgentemente arrumar um trabalho, não por que cabeça vazia é oficina do diabo, não, ela não tinha problemas com isso, a cabeça nunca ficava vazia, é que ela precisava de dinheiro mesmo, e por mais cheia de idéias que fosse sua cabeça, ela era péssima pra ganhar dinheiro. como se esse esquema fosse muito sujo pra sua existência tão nobre, como se ela estivesse acima do bem, do mal, dos homens e do sistema econômico dos homens, mas ela não estava acima, ela estava à margem. o único cômodo de que gostava na casa era seu quarto, o único lugar mais ou menos arrumado, os livros numa prateleira, ela ficou com poucos livros depois que o último namorado foi embora, ele achou que os livros eram mais dele do que dela, e ela ficou com umas duas dúzias de livros, e começou a comprar mais, mas ficava triste por que comprava mas não tinha vontade de ler, por que não tinha com quem conversar sobre o livro, então não fazia sentido comprar, se ela tivesse dinheiro sobrando, ia gastar comprando livros, mas não tinha, então um comprou algumas dessas edições de bolso em banca, ela adorava bancas, comprou um da clarice lispector, uma edição bonita, capa dura, o cheiro de livro novo... e fez uma carteirinha na biblioteca, o cheiro de livro velho... é cheiro de cocô de traça, não é bom cheirar, quando o livro é velho, por que a gente nunca sabe pelo que o livro já passou. mas ela gostava do cheiros dos livros, tanto dos velhos quanto dos novos. não leu o livro da clarice, por que não era da clarice, era sobre a clarice, e ela achava que não queria agora ler o sobre, mas ler o. ou a. pulou da cama num salto, ficou tonta e marchou até o banheiro numa tentativa de reaver o equilíbrio. tanta coisa que se perde, que é preciso reaver. se achou bonita quando se viu no espelho, era mesmo bonita, mas achava isso mais que os outros, tinha um gosto particular para apreciar o belo. o belo pra ela nunca era tão belo para os outros, e isso só confirmava a idéia de que ela vivia à parte nesse mundo pós-contemporâneo. saiu de casa apressada, estava atrasada, com um pouco de sorte chegava no horário, mas em são paulo sempre é preciso sair de casa com uma hora e meia de antecedência, e ela saía sempre vinte minutos antes de qualquer compromisso. pegou um ônibus, dois ônibus, chegou no metrô. é, ela morava longe, odiava o lugar em que morava, mas não achava nada mais barato, então continuava por ali mesmo, também não teria dinheiro para a mudança, para a pintura, para as coisas que talvez a casa nova precisasse, por isso também ela precisava de dinheiro, a casa estava ficando velha, cada dia uma coisa diferente quebrava, e ela precisava arrumar isso aos poucos, por que não ia ter dinheiro caso tivesse que arrumar tudo de uma só vez. foi para a entrevista, era a terceira naquela semana, e era a terceira vez que ela ouvia uma promessa e via um sorriso gentil, guardaremos seu currículo, gostamos muito de você, mas por enquanto...
ela sabia que tinham gostado muito dela, como não gostariam, é gentil, cordial, simpática, amável, mentirosa, falsa, hipócrita e bonita, é perfeita. mas ela não se imaginava trabalhando em um ambiente corporativo, então não se assustava quando a entrevista não dava certo. não conseguiria trabalhar em uma empresa. mas nunca trabalhou pra saber se conseguiria mesmo ou não, e achava que talvez, como o cinto apertasse, fosse o caso de aceitar qualquer coisa em qualquer lugar, e fazer de conta que ela era como todo mundo. um dia, num restaurante, viu uma placa de admite-se e se candidatou ao cargo de auxiliar de cozinha. a dona do restaurante viu uma moça bem vestida, maquiada, sorridente, perguntando sobre a vaga para auxiliar. quem é que está interessado na vaga? ah, eu mesma, respondeu. a mulher do outro lado do balcão riu. por que o riso, tem que ter muita experiência? a dona ficou séria, pigarreou e disse, tem, tem sim. isso aqui não é brincadeira. e nossa heroína não entendeu se não podia ser auxiliar de cozinha por que não tinha experiência ou por que estava muito bem vestida para quem almeja ser auxiliar de cozinha. lembrou disso por que passou na frente desse restaurante, e até pensou em almoçar ali de novo, mas hoje dava. passou num supermercado, comprou um macarrão instantâneo, duas caixas de morango a noventa e nove centavos cada uma, um iogurte e um pacote de chocolate. com cinco reais e cinquenta centavos teria um almoço, uma sobremesa e um lanche para mais tarde. adorava morangos, não entendia por que era uma fruta tão sexualizada, eram morangos, só. mas para o resto da humanidade, o morango aparecia sempre ao lado de mulheres nuas, perto de palavras como desejo, luxúria, paixão. morango não tem gosto de paixão. morango quase nem tem gosto. e a paixão é salgada. principalmente no verão. lião dizia que em dezembro a cidade cheira a pêssegos. lião era muito romântica mesmo, por que em dezembro a cidade cheira a arroz estragado, não a pêssegos. faz muito calor, a comida em cima do fogão azeda muito rápido, e tudo acaba ficando com cheiro de arroz estragado. de qualquer forma, ainda não é dezembro, o grande mês ainda não chegou, é setembro e as primeiras panelas de arroz começam a apodrecer.
ela sabia que tinham gostado muito dela, como não gostariam, é gentil, cordial, simpática, amável, mentirosa, falsa, hipócrita e bonita, é perfeita. mas ela não se imaginava trabalhando em um ambiente corporativo, então não se assustava quando a entrevista não dava certo. não conseguiria trabalhar em uma empresa. mas nunca trabalhou pra saber se conseguiria mesmo ou não, e achava que talvez, como o cinto apertasse, fosse o caso de aceitar qualquer coisa em qualquer lugar, e fazer de conta que ela era como todo mundo. um dia, num restaurante, viu uma placa de admite-se e se candidatou ao cargo de auxiliar de cozinha. a dona do restaurante viu uma moça bem vestida, maquiada, sorridente, perguntando sobre a vaga para auxiliar. quem é que está interessado na vaga? ah, eu mesma, respondeu. a mulher do outro lado do balcão riu. por que o riso, tem que ter muita experiência? a dona ficou séria, pigarreou e disse, tem, tem sim. isso aqui não é brincadeira. e nossa heroína não entendeu se não podia ser auxiliar de cozinha por que não tinha experiência ou por que estava muito bem vestida para quem almeja ser auxiliar de cozinha. lembrou disso por que passou na frente desse restaurante, e até pensou em almoçar ali de novo, mas hoje dava. passou num supermercado, comprou um macarrão instantâneo, duas caixas de morango a noventa e nove centavos cada uma, um iogurte e um pacote de chocolate. com cinco reais e cinquenta centavos teria um almoço, uma sobremesa e um lanche para mais tarde. adorava morangos, não entendia por que era uma fruta tão sexualizada, eram morangos, só. mas para o resto da humanidade, o morango aparecia sempre ao lado de mulheres nuas, perto de palavras como desejo, luxúria, paixão. morango não tem gosto de paixão. morango quase nem tem gosto. e a paixão é salgada. principalmente no verão. lião dizia que em dezembro a cidade cheira a pêssegos. lião era muito romântica mesmo, por que em dezembro a cidade cheira a arroz estragado, não a pêssegos. faz muito calor, a comida em cima do fogão azeda muito rápido, e tudo acaba ficando com cheiro de arroz estragado. de qualquer forma, ainda não é dezembro, o grande mês ainda não chegou, é setembro e as primeiras panelas de arroz começam a apodrecer.
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