quarta-feira, 6 de abril de 2011
não vou mais procurar casa. não vou mais procurar trabalho, nem vou fazer entrevista nenhuma. não vou mais costurar, não vou mais cozinhar, não vou fazer mais nada. vou vender todas as minhas roupas, ficar só com sete mudas, uma para cada dia da semana. mais dois pijamas. uma mochila. vou vender todos os meus móveis, vou vender tudo o que seja possível botar um preço. vou fazer um grande garage sale, um enorme e gigante família vende tudo. vou dar minhas fotos pra quem quiser. vou picotar meus tecidos e vender em retalhos. vou cozinhar uma última vez, tudo o que tem nos armários, pra vender em porções. vou pedir pro pai do leo guardar na casa dele o que for do leo. vou pegar parte do dinheiro pra arrumar essa casa pra entregar pro dono. vou pagar minhas contas, quitar minhas dívidas, fechar a conta no banco. vou pagar a bicicleta, bloquear o celular, ver se meu irmão quer ficar com o telefone fixo. vou dar um beijo no meu filho e dizer daqui a um ano eu volto. ele vai estar banguela, mais alto, mais esperto, mais velho. não sei de mim. tudo vendido, contas pagas, mochila nos ombros, vou andar. não sei pra onde. não sei por que. não sei pra que.
terça-feira, 29 de março de 2011
até me esqueci que estava com fome, esqueci da roupa lavada pra estender, esqueci da roupa já seca pra recolher, da bolsa de água quente descongelando, a criança já dormiu, levou um tombo e tanto, deitada na cama fazendo carinho enquanto ele continha uma lagrimazinha que eu não sei direito do que era, me dei conta de que são quase oito anos de estrada, e fiquei feliz por ser parceira dele nessa empreitada, e digo isso por que ser mãe às vezes faz a gente se confundir, por que foi a gente que pariu, então é fácil se enganar e achar que temos direitos tais ou quais. de suprimir a individualidade do ser, eu falo.
esqueci dos cachorrinhos, do cachorrão, da gata, esqueci de tudo. me dei conta de que somos em sete aqui. eu sempre quis ter uma família grande. às vezes eles caem. eu ajudo a levantar. às vezes eu caio. tento fazer com que não saibam de nada. não acho que isso é bom ou ruim, não acho nada. foi só uma constatação.
quarta-feira, 23 de março de 2011
quase esqueci. sonhei que voltei, mas o lugar de origem acabou se tornando uma nova viagem, e vivíamos numa espécie de castelo, a família toda, mas chegou um mensageiro dizendo ao meu pai que deveríamos sair dali, pois os antigos donos se arrependeram da transação, qualquer coisa assim, e que se não saíssemos no mesmo dia, eles chegariam com um exército de cavaleiros e nos matariam, meu pai não quis sair, disse que nós os venceríamos facilmente, mas eu disse que não, que preferia partir, que não queria participar de batalha nenhuma, e ele disse que eu podia ir se quisesse, mas sozinha, e como eu sabia que o mundo ia acabar, por que isso era em 2012, eu escolhi deixá-los, por que cada um sabe como prefere morrer, e eu não disse isso para ninguém, mas eu achei que preferia morrer numa catástrofe do que degolada com uma espada por um cavaleiro cruel. se bem que acho que eles não fazem só isso com as mulheres, mas no sonho não veio nenhum tipo de conflito de gênero, isso eu que estou teorizando agora, enfim, no sonho eu tinha que fazer uma mala de roupas, e de repente todos os sapatos da minha mãe apareceram, sapatos que existiram mesmo e dos quais eu já havia me esquecido completamente, e eu pensava, mas por que raios esses sapatos ficaram guardados esse tempo todo, tinha até aquelas manchinhas verdes de mofo, e eu escolhendo quais sapatos eu levaria, mesmo sabendo que não teria oportunidade de usá-los, por que sabia perfeitamente que estávamos indo morrer num lugar diferente, apenas. peguei os sapatos que eu gostava mais, o leo ia fazendo a mala dele, disse que pegasse só o que ele gostava mais, botei tudo na mochila e partimos, eu, leo e um companheiro x que também tinha um filho, mas que não era meu, e fomos nós quatro embora do castelo. vimos chegar o grande exército, enfileirado, cavaleiros com espadas e plumas na armadura, eu temi pelo meu pai e minha mãe, mas não pensei se venceriam ou perderiam a batalha, pensei que estávamos todos perdidos de qualquer forma, então que cada um fizesse o que era de gosto, que é o regalo da vida, fazer o que é de gosto. só lamentei que eles não tivessem acreditado nessa conversa de que o mundo ia acabar, para que tomassem atitudes mais libertas, enfim, seguimos. passamos por uma praia e o mar levantava ondas gigantes, nós nos olhávamos assustados, mas ao mesmo tempo serenos, e não dizíamos nada às crianças, ele dirigia e eu conversava com os meninos, eram dois meninos, e depois de bastante tempo andando na estrada, paramos num supermercado. compramos comida, e eu disse aos meninos que fossem até a seção de brinquedos e escolhessem o jogo mais legal para eles brincarem na viagem, eles fizeram aquela cara de minha mãe é o máximo, e então o despertador tocou. e eu não sei mais o que aconteceu, a gente devia ter uma máquina que filmasse os sonhos. claro que não, acho que muita coisa devia ficar ali e só ali, mas eu queria ver o fim da história. é que a gente sempre acha que o fim demora pra chegar. e não é que o mundo ia acabar, a gente é que não ia sobreviver, de qualquer forma...
terça-feira, 22 de março de 2011
a gente estancou de repente, mas graças aos bons deuses, estamos desestancando. mesmo que tenha um ou outro rugindo ainda, e fazendo cara de mau, e dizendo que não pode, e que não vai, e que não dá, eu digo: eu posso, eu vou, eu dou. mentira, por que ninguém dá quando quer, ah não, a música diz que ninguém tá quando quer, expressão com a qual concordo em grau, número e todo o resto. e dar, bem, não ando dando muita coisa não, ando mais é querendo receber, pra ver se me recomponho direito, mentira, não quero receber nada de ninguém pra me recompor, então estou no modo econômico, entende, muito embora aquela outra música diga e na lei natural dos encontros, eu deixo e recebo um tanto, e parto aos olhos nus, mas não vou vestida de luneta, vou vestida de caleidoscópio, se quiser se alegrar, me veja, se não quiser, olhe para outro lado, que estou disposta a esquecer seu rosto de vez e acho que é tão normal. não digo que não tenho medo, mas é como a menina que tinha tanto medo do lobo, mas tanto medo, que começou a repetir, lobolobolobo e de repente se viu frente à frente com um enorme e delicioso bolo. o medo? dome. não é toa que é assim. eu acredito que as palavras carregam muito mais do que seu significado mais óbvio. mas não sei por que comecei a falar de medo.
sábado, 12 de março de 2011
de que adianta, uma boa idéia, uma boa intenção, como pode, viver assim, não entendo, mais que não entendo, eu não conseguiria. a fita desenrolada no chão, se ele ver vai ficar bravo, há quanto tempo não vejo fitas cassetes, eu conserto, ou melhor, eu trago um cd, ele tem como ouvir cds? sim, tem sim, vc traz? então traz, o L. estragou a fita sem querer, depois ficou assustado achando que ia levar uma bronca, eu deixei aqui, não sei se ele já viu, talvez já tenha visto e não tenha nem ligado, mas talvez não, talvez ele fique bravo comigo, não se preocupe, eu trago um cd. e por mais que eu me julgue forte, sempre desabo quando o vejo, tão inerte, tão dentro de si mesmo, queria tanto conversar com ele, dizer tio, me diz o que vc tá pensando, tio, me conta, o que é que dizem pra vc? e queria ouvir todas as suas histórias, tudo o que ele escuta dia e noite, sem parar, queria ajudar, queria que ele saísse um pouco de lá, queria que ele voltasse a escrever, escrevia tão bem, escrevia no jornal, "A Vitrine", era o nome da coluna dele, eu acho, e um dos artigos eu lembro que era "Panacéia Geral", eu acho, não tenho certeza, será que alguém guardou? por que eu não guardei? por que eu não achei que fosse acabar tão cedo, por isso eu não guardei, não disse nada que não sabia o que era panacéia, fingi entender tudo e depois fui procurar o que significava panacéia, nunca mais esqueci, tio, eu queria que Panacea descesse do Olimpo e te desse a mão, eu queria encontrar uma panacéia pra vc, mas acho que não tem, tio, então fico triste por não poder tornar sua vida menos miserável, mas eu vou tentar, ainda não sei direito como, mas olha, eu vou tentar. meu tio sempre foi meu herói. meu ídolo, as meninas gostavam dos caras de bandas, dos atores, eu admirava meu tio. por causa dele eu li tudo o que não devia ter lido, ouvi tudo o que não devia ter escutado. entrava escondido no quarto dele, a contragosto da minha avó, pegava os títulos dos livros e ia emprestar da biblioteca, olha tio, estou lendo demian. demian? gostou? vou te dar outro, leia esse, o lobo da estepe, gostou? então leia esse, o jogo das contas de vidro, olha tio, estou ouvindo jethro tull. gostou? escuta isso, animals, doors, janis, jefferson airplane, hendrix, bob, pink floyd, ramones, clash, smiths, stones, deep purple, caetano, milton. ah, tio. nem me pergunto o por quê. não acredito que possa haver um por quê. agora sou eu a dizer leia esse. mas ele não lê mais.
terça-feira, 8 de março de 2011
ele me disse, me lembro claramente disso, agora que seu cabelo cresceu vc vai voltar a ser quem era, e me lembrei disso de repente, à toa, quando pisava numa lajota solta que fez a água espirrar nas botas, enquanto segurava numa das mãos as novas chaves e apoiava o guarda-chuva no chão a cada passada no passeio molhado de chuva. as chaves antigas no bolso, ainda não antigas, portanto, por que ainda as uso, mas agora dois molhos, o novo molho com chaves pequenas apenas, sem aquela chave - como se chama mesmo, aquela grande, que às vezes trava, tinha na casa de uma tia, eu achava tão chique ter uma chave grande, decerto por que acreditava que guardava coisas de muito valor, chaves simples guardam coisas simples, chaves grandes guardam coisas grandes, vim pra cá pra fugir do complicado que invariavelmente acompanha o grande, quero tudo simples, casa simples, coisas simples, vida simples, chaves simples. sem segredos. voltar a ser quem eu era? não sei, você volta a ser quem vc era junto comigo? eu perguntei e não ouvi resposta nenhuma, mania de botar sempre a culpa em mim, decerto por que aceito sempre as culpas todas que podem caber em mim. tem volta? isso de voltar a ser quem a gente era dez anos atrás, não tem, se tivesse não queria - será que não, não sei - talvez quisesse, talvez por isso essa volta agora, pra tentar de novo acreditar que o mundo é grande e que a gente pode muito. não fico achando que voltei por medo, acho que voltei mesmo por coragem. coragem e confiança talvez excessiva de que o mundo é grande e de que a gente pode muito. a gente dá tanta volta. apesar do verbo no passado, nenhuma grande mudança ainda. um dia por vez, me disseram, e achei que fosse uma boa idéia acatar esse jeito de viver. pelo menos por enquanto. um dia por vez. dois molhos de chave, algumas idéias na cabeça e muito amor no coração. por que só assim. tetra. o nome da chave grande.
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