Houve um tempo em que os homens acreditavam que a arte era capaz de torná-los mais humanos. Andava pelo quarto com um gravador na mão, às vezes parava na frente da janela e espiava entre as cortinas o movimento na rua. Mas não havia movimento algum. Nem um cachorro passava na frente da casa, nem um gato, nem um homem. O passarinho não veio pro jardim. O jardim estava seco. Não era inverno, era descuido. Mas era inverno. Ela quase hibernava, não fosse a história que contava às paredes e ao gravador. O problema de entender a literatura como realidade é que corre-se o risco de entender a realidade como ficção. E ela ficcionava. Escrevia para entender. Escrevia, mas escrevia mal, e por isso ela dizia. Até por que dizer é mais rápido do que escrever, e ela queria se livrar logo daquilo. Não que ela sentisse culpa, a questão não era exatamente essa. Não que não sentisse, também. De qualquer forma, ela se sentia satisfeita consigo mesma. Estava satisfeita e saciada. Quase orgulhosa. Por que a satisfação não é a mesma coisa que o orgulho: a satisfação é humilde, é comedida, é decente. O orgulho é impiedoso.
Sentia que seus pés começavam a formigar. Um comichão gostoso e quente. Suas mãos ficaram moles, não conseguia mais pausar o gravador. Só se deu conta do que havia acontecido no final do Capítulo IV. Mas já era tarde. Passou um homem na rua.
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