Rodoviária
Personagens: Mulher/ Mendigo / Deus / Homem Assassinado
Mulher:
Depois vesti o meu vestido florido, o mais bonito, bem rodado. Decote e salto alto. Saí pisando firme, pretendendo uma firmeza que era só por fora, por que por dentro eu era geléia. Geléia de morango, que tava tudo vermelho. Devia mesmo era estar tudo cinza, brilhante feito diamante, que é o que parecia aquele pozinho tão fino, com uns granuladinhos no meio. Pó de vidro. Não sei como é a morte com vidro moído, não sei se vai doer, não sei ele vai sofrer, não sei nem se ele vai morrer. Talvez só faça um estrago, mas não o mate, por isso estou indo embora. E ele nunca mais vai me achar. Mas tomare que ele morra. Devagar, com dor, com sofrimento, ele vai chamar meu nome e eu não vou mais estar lá. Foi por isso que eu voltei com ele, pra ele aprender que mulher não se abandona. Nunca abandone sua mulher, ouviu bem? Você nunca, nunca sabe do que uma mulher é capaz. Talvez eu tenha exagerado, é, acho que exagerei, por que que tipo de lição é essa que o aluno só pode errar uma vez? Tinha que ter dado mais chances, por que esse aprendeu, mas morreu, quer dizer, de que adianta? Como a gente vai saber se ele aprendeu mesmo? Será que dá tempo de chamar uma ambulância? Será que ele já morreu? Ai meu Deus, será que eu matei ele? Por que era pra ser só um susto, sabe? Não queria matar. Claro que eu queria mesmo era matar, mas não matar, assim matado, entende? Era pra ser uma morte simbólica, devia ter pego um pato e feito um sacrifício, e agora? Eu matei ele! Eu matei ele! Vou me entregar, chama a polícia? Não, não chama a polícia. Olha, tá vendo o que vc tá fazendo? Vc está me desequilibrando, tava tudo certo, tudo resolvido, matei por que ele foi um filho da puta lazarento e tinha que morrer, eu só adei uma ajudinha, ainda falei, não sei não, esse espinafre tá com um cheiro meio azedo, se eu fosse vc, não comia, não. Mas não, cheirou, cheirou, falou que não tinha cheiro ruim nenhum, então tá, eu avisei, e quando ele comeu eu subi, me troquei e saí de casa. Estou aqui agora. E vc, com essa sua cara, está fazendo com que eu me sinta culpada, olha, ele não era nenhum santo não, viu? Peraí, vou comer alguma coisa, cuida da minha bolsa pra mim? Já volto....Ai, não sei não, será que botaram alguma coisa nisso aqui?Fiquei com medo agora, acho que não vou comer isso não. Vou jogar fora. Não? Não por que? Vc quer? Tá, tudo bem, pode comer, eu comprei ali na esquina, mas não sei, fiquei com medo, sabe a lei do retorno da vida? Não? É assim, tudo o que vc faz volta pra vc. Aí que eu acabei de matar um sujeito com vidro moído na comida, quer dizer, e se, por acidente, caiu desinfetante na carne moída da esfiha? Aí fodeu, já era, vou morrer intoxicada, não come isso aí não, vai. Daqui, vou jogar no lixo. Não, te dou dinheiro, vc vai lá e compra uma coisa pra vc, não vou deixar vc comer isso por que isso era pra mim, pode ter uma zica qualquer, do retorno da vida, não quero que vc sofra por minha causa. Toma, vai lá.
Ei, cuidado com a rua. Ei, olha antes de atravessar. Ei! Ei! O ÔNIBUS!!!!!
Caralho! Matei dois! Meu Deus! Meu Deus! Sou uma serial killer!! Meu Deus! E agora? O que faço? Droga!!! Mas que tonto, como atravessa a rua sem olhar? Não, a culpa é minha. Eu dei o dinheiro, eu disse vai lá, a culpa é minha! Se eu não tivesse dado o dinheiro, ainda tava aqui, vivo. Indigente, mas vivo. Morador de rua, mas vivo. Mendigo, e bêbado, mas vivo. Meu Deus! Será assim, agora? Todos que cruzarem meu caminho morrerão? Deus!! Sua ira é comigo!! Ninguém tem mais nada a ver com isso! É entre nós dois!! Desce aqui, pra vc ver só! Te faço um almocinho maneiro. Capricho na sobremesa, faço seu prato preferido. Deus. Deus? Deus, me escute! Eu não queria ter matado, Deus. Nenhum dos dois! Quer dizer, o primeiro eu queria sim, Deus, isso não se faz!! O que ele fez comigo, não se faz!! Imagine, vc acha que eu não pensei no sofrimento dos meus dois filhos? Órfãos de pai! Pobrezinhos! Como sentirão a falta dele! Nos domingos à tarde, quando ele saía para levá-los ao parque! Mas Deus, se vc estava atento, vc é testemunha de que foi ele quem nos deixou! Foi ele que não se importou com o sofrimento das crianças no vazio que ficou nos domingos à tarde. Fez um buraco nas nossas vidas. É justo que tenhamos feito um buraco no seu estômago. Não, não diga nada, nem me fale de justiça, Deus! Nem me fale, que aí eu tenho mais umas coisinhas pra conversar com o senhor. Acho bom que mudemos de asssunto, e nem pense em me condenar! Eu matei um, dois, mas o último ainda não tenho certeza se foi minha culpa mesmo ou não, e também, um mendigo a mais, um mendigo a menos. E o senhor? Permitiu a morte de quantos? É, né? Veja bem, né? Agora é veja bem. Eu vejo bem sim, vejo bem que tô fodida, com fome, e nunca mais vou conseguir comer nada com tranquilidade. Vou ter que me mudar para um síto, plantar tudo o que vou comer, e eu mesma vou ter que preparar toda a minha comida, por que nunca mais vou ter sossego. E meus filhos? Não ouse encostar num fio de cabelo dos meus filhos, ouviu? Não, não me arrependo. É melhor ter pai morto do que pai banana. Iam aprender o que com aquele lá? Que se não gosta mais vai embora? Que mulher é lixo, que joga fora, é carro que fica velho e a gente troca por coisa mais nova? Não. Morreu, virou herói, pronto, vai virar exemplo, eu garanto que só vão ter motivo de orgulho do pai. Agora, se ele continuasse vivo, ia ser um mar de decepções. Tá melhor assim, vai por mim. Eu garanto. Agora, preciso ir embora. Preciso comer alguma coisa. E se eu ligasse lá? Vou ligar. Não, não vou ligar. E se ele vier puxar meu pé de noite? Meu Deus, morro de medo de espíritos. Morro, morro! Deus me livre e guarde. Isola. Patuá três veses, cruz-credo, ave-maria. Olha, vc não se atreva, viu? Não se atreva, que eu te mandei pro além uma vez e é aí que vc deve ficar. Não volte, nunca mais, nem pra dizer que se arrepende, não adianta! O que está feito, está feito, vc foi um cretino, calhorda, cachorro, filho da mãe, sacripanta! Cachorro! Mas eu te amava tanto! Tanto! Ah! Vida! Por que vc fez isso comigo? Por que? Ah! Como eu te amava! Como eu te amava! Vc tinha que estragar tudo. Tomare que tenha doído, viu? Tomare que vc tenha vomitado sangue, borbulhando que nem nos filmes que eu odiava ver, e que vc me obrigava a assistir com vc. Doeu? Como foi? Ai! Não era pra doer. Era só pra vc deixar de existir, assim, pluft, mas infelizmente as pessoas não deixam simplesmente de existir, assim, pá, estourou uma bolha. Então eu tive que intervir, mas não queria que vc sofresse, não. Ai! Eu queria tanto seu abraço agora! Mas vc não ia me abraçar se estivesse aqui agora, ia reclamar que eu tive uma idéia estúpida, ia dizer que eu fui tonta, que eu não penso, que eu fiz tudo errado, que a rodoviária é muito longe, que o ônibus não chega, que a esfiha tá fria. Como vc reclamava, Deus do céu! Eta homenzinho bom de reclamação. Bom, acho que é esse o ônibus. Olha, não me leve a mal. Fiz isso pela nossa família. Espero que um dia vc possa entender, e me perdoar. As crianças vão ficar bem. Criança é forte, supera tudo. Eu vou seguir meu caminho, tomando cuidado pra não matar mais ninguém. Mas esse aí, já era. Coitado, ficou estrebuchando ainda uns cinco minutos. Mas recolheram rápido. Indigente, sabe como é. Ai, ai. Espero que esteja tudo bem aí com vc. Saiba que eu te amo, sempre te amei, sempre te amarei. Mas infelizmente, vc pisou na bola. É isso. Hora de ir embora. Vou buscar as crianças, estão com a mamãe, no interior. Veja pelo lado bom, vc não tem mais sogra! Fique com Deus, querido. Que Ele tenha piedade de nossas pobres almas. Adeus!
....
Sobe no ônibus, uma lágrima escorre.
Rodovia
Ônibus
Um raio acerta o motorista, que morre. Gritos, ela grita "Droga, matei mais um! Que desgraça!". O ônibus em que ela estava capota três vezes, câmera fecha nela com os braços pra cima, torta, rosto de lado, morta, a mala aberta em cima, potes de geléia de morango quebrados na pista.
Sobem os créditos
Trilha: http://www.youtube.com/watch?v=wPoPMXY4Yyo
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