sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
meu nariz é um pouco grande, talvez, mas o da minha avó era assim, o do meu pai é assim, esse calombinho é a marca dos gomes santiago, minhas olheiras, dos bosco moreno, eu podia me chamar priscila bosco gomes. ou priscila bosco moreno, se fosse só filha da minha mãe, ou priscila gomes santiago, se fosse só filha do meu pai, não, se eu fosse só filha do meu pai, acho que ia me chamar lina, nome da mãe dele, a avó que eu não conheci, dona da cara de brava que herdei. lina santiago, vai ser o nome da minha filha se um dia eu tiver uma. o sorriso eu herdei da minha mãe, acho, os dentes perfilados sem precisar de aparelho... a boca carnuda da família do meu pai, os olhos pequenos tb, as bochechas. meu corpo é da família da minha mãe, corpo de matrona renascentista, se bem que a irmã mais velha do meu pai tb é assim, rechonchuda, branquelinha. sou a filha mais velha, tenho o corpo igual ao das duas irmãs mais velhas das duas famílias, engraçado, não é? meu avô paterno se chamava ezequiel. franzino, olhos de um azul nebuloso que só os muito velhos tem, tão cordato, manso, tão diferente do meu pai, sujeito explosivo, desses que soltam faíscas até imerso em água. mas não sei se era da idade avançada essa cordialidade, ou se da personalidade mesmo. minha avó lina dizia que se pudesse faria uma plástica pra puxar todas as peles, o marido era tão magrinho, ela cheia de formas, devia achar que o casal não ornava, vai saber. minha outra avó se chama branca, dona branca, bosco moreno, olheiras profundas, meu avô é o seu angelim, angelim moreno, de sobrancelhas assustadoras. tem um nome italiano no meio, que eu não lembro, da minha bisavó rosa, rosa moreno e mais alguma coisa que termina em celi, deli, como era mesmo, esqueci. nome do marido dela que era italiano, parece que foi embora. ela espanhola. lindos, lindos, meus avós maternos. minha avó parecia uma moura, árabe, num deserto cheio de vegetação. meu avô queria ser galã da vera cruz. era um galã mesmo. não deu pra ser galã de cinema, mas agora vive em fantasia, cismou que minha avó tem um amante, minha avó, tadinha, que tem um filho doente, que não sai de casa, e que fez um bolo só a vida toda, um bolo que a gente ohava e falava, esse bolo da dona branca, tão torto, sempre torto do mesmo jeito, massa branca com recheio de leite condensado cozido e cobertura branca de clara em neve com açúcar coberto com coco. o bolo que tem todo final de semana, religiosamente, o bolo que meu filho adora e pede que eu faça, pediu para levar numa festa da escola, ele levou todo orgulhoso, como se carregasse uma fina iguaria, o bolo mais gostoso do mundo, voltou pra casa todo feliz, seus pares reconheceram o bolo como se fosse, de fato, uma fina iguaria. o bolo que minha avó fez a vida toda, o bolo torto da vó branca, é agora o bolo que eu faço para meu filho, mas por mais que eu me esforce, não consigo deixá-lo torto.
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