sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
vc quer me comer ou quer ouvir minha história? eu te conto, se vc quiser. senão, não precisa se entediar, a gente resolve isso logo. sempre ouvi coisas se partindo, em toda discussão, algo sempre se quebrava. uma xícara, uma televisão, uma janela. os dois. as coisas comigo continuam se quebrando. um copo, uma xícara, eu. as relações. deve ser pra não perder o hábito de ouvir o som do vidro se espatifando, que é de uma singeleza só. nem sei se essa palavra existe. existe agora, pois é. o som do vidro se quebrando começa devagar, se intensifica e diminui de novo. então vc tem que ser muito capaz de parar de prestar atenção em tudo o que vc está fazendo e se concentrar para ouvir apenas o baque e depois o tilintar ds cacos que rodopiam no chão. é muito rápido. a primeira vez que eu achei que minha mãe estava enlouquecendo foi quando ela começou a gritar que ia virar puta. que ia dar pro primeiro desgraçado que encontrasse na esquina. eu sempre achei que toda forma de loucura tem a ver com a repressão sexual. não tenho critério nenhum pra achar isso, mas é só observar nos loucos que isso é uma das primeiras coisas que explode. por isso tive dó da minha mãe. se ela tivesse dado mesmo, pela menos uma vez na vida, para o primeiro desgraçado que aparecesse na esquina, ela ia saber que isso não resolveria nenhum problema. como eu sei? sabendo. eu sei muitas coisas. mais do que vc, que fica aí me olhando com cara de quem está doido pra rir de mim. pode rir. eu não ligo. já riram tanto de mim, que um a mais, um a menos, não vai fazer diferença.
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Pode falar, eu não ligo.