sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

eu pensando em não deixar a sandália cair pelo vão das escadas, eu embaixo do viaduto, descalça na linha do trem, procurando as sandálias amarelas que caíram pelo vão da escadaria, nada difícil de acontecer quando se fala de mim, então eu me concentrava em prender a sandália no pé. também não podia deixar que a saia mais ou menos curta e rodada levantasse com o vento, sensualização no viaduto do brás não é qualquer uma que dá conta, eu não dou. no meio da escada, entre poças de mijo e restos de comida, um homem pedia esmola, as pernas tortas, atrofiadas, quase sem sangue que circulasse nelas, um boné e muitas blusas que me deixaram tonta de calor. no meio da escada o homem que quase jazia morto-vivo sorriu e disse de um jeito muito doce, mas que menina mais bonita. eu vi seus dentes amarelos e muitos e sorri de volta, ele sorriu com mais intensidade, e não me estendeu a mão como estendera para a pessoa que ia na minha frente, de mim não viriam moedas. não sei se compensava, mas o que eu tinha para lhe dar era um olhar que o reconhecesse como um ser humano, e que reconhecesse naqueles olhos azuis a doçura que o resto da humanidade teima em ignorar. sorri de volta. não tinha moeda nenhuma, de todo modo.

Um comentário:

Pode falar, eu não ligo.