segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

amor é berinjela


Trinta anos, dois amores e meio e sempre berinjela.  Era um dia importante, ele vinha. Ele vinha e eu queria que ele ficasse. Não podia dizer não volta, não podia dizer estende sua viagem, não podia dizer fica. Era cedo, mal o conhecia. Mas queria vê-lo em outra situação que não festa, encontro, nós dois sozinhos no quarto. Chamei pra comer. Chamar pra comer às vezes equivale a tirar pra dançar. Pois tirei o moço pra dançar. Mas o que fazer? Uma coisa de se lambuzar. De comer de boca cheia, que é pra ver se existe gosto pela vida ali. Como se come é também como se ama, e eu evito os que comem sem poder se sujar. Dias inteiros na absoluta falta de criatividade. Até que um dia, numa embalagem de queijo ralado na casa de uma amiga, veja só: berinjela à parmegiana.  Perfeito! É rápido, é fácil, é gostoso, é suculento.  Berinjela à parmegiana é o que teremos. Um dia antes, confirmo nosso almoço: ele vem. Vem, e pergunta se pode trazer o irmão. Bom... Pode. Mais berinjelas, então. Berinjelas, mozarela, tomates bem maduros, cebola, alho, manjericão. Manjericão.  Amor é berinjela. Mas aí eu ainda não sabia disso, não, só ia saber dez anos depois. Enfim. Cortei as berinjelas em rodelas. Fui colocando numa travessa com água, pra berinjela não escurecer. Nunca mais fiz isso. Nessa época eu tinha medo de desobedecer às receitas, engraçado, hoje nem leio as receitas, quando vem em rótulos, então. Ah, não: primeiro eu fiz o molho de tomate. Sempre começo pelo molho.  Desde sempre. Frito primeiro o alho: gosto dele douradinho. Coloquei só um dente nesse dia. Sabe como é, alho não é lá uma coisa que a gente come e sai beijando os outros depois. Bom, amassei um dente de alho, cortei uma cebola bem picadinha, coloquei os tomates pelados pra refogar. Acertei o sal, um tico de açúcar, abri um vinho. Forrei a travessa com o molho, coloquei as rodelas de berinjela, cobri com mais molho, mozarela por cima, um pouco de parmesão também. Forno. Vinho. Manjericão. Comida na mesa. Casei com o irmão.

Nada é para sempre (pelo menos com esse não foi) e um dia eu me vi completamente apaixonada por um desconhecido. Um piquenique numa praça, de noite. Frio de junho, festa junina, eu acho. Cada um levava uma coisa. Ele ia. Ia ter fogueira. Eu saí do trabalho e levei pão, azeite, vinagre com alecrim, pimentas, orégano, berinjela e papel alumínio. Tudo comprado no mercado em frente, ali na hora. Até hoje ele nem desconfia. Ou desconfia? Não sei. Nunca tive coragem de dizer o que imaginava com ele. Tive um pouco de preguiça, também. Mas fiquei feliz quando ele parou a bicicleta exatamente em cima da minha. Ah, se ele soubesse. Se ele soubesse no que foi que pensei quando vi as duas bicicletas emparelhadas... Bom. Embrulhei as berinjelas com o papel alumínio e coloquei na fogueira. É complicado isso pra mim, confesso, estar a fim de alguém e saber a dose certa, a hora certa, a palavra certa. Vai ver eu sou tímida, quem diria. Pra não dar na cara, fico longe. Fico longe, mas não consigo tirar os olhos. Atrai, sabe? Já nos encontramos em outros piqueniques depois. Mas eu não acho que ele me dá bola. E eu não gosto de ouvir não. Então não pergunto nada. Mas naquele dia do piquenique, vê-lo lambendo os dedos depois de comer a berinjela que eu fiz me encheu de satisfação. Ah, se ele soubesse no que foi que eu pensei quando o vi lambendo os dedos... Tirei o papelote da fogueira, abri a berinjela ao meio. Tirei a polpa, misturei o azeite e o vinagre com especiarias, comemos com pão. Simples assim. Ele parado atrás de mim enquanto eu preparava a berinjela me dava mais calor do que a fogueira bem na minha frente. Mas eu acho que digo tudo com os olhos. Eu não queria que fosse assim, mas é assim que é. E se ele não me viu dizendo nada, bom... Que se há de fazer. Foi a berinjela mais gostosa que eu já fiz, assim sem nada.

Mas não foi a última. Como é a vida, não? Tem uma receita de antepasto de berinjela que eu fiz a vida toda que é assim: uma berinjela picada em quadradinhos, um pimentão verde, um vermelho e um amarelo, tudo em quadradinhos. Forno até murchar. Azeite, sal, geladeira, no dia seguinte fica melhor. Um dia uma amiga fez um antepasto que levava aceto balsâmico. Bem diferente do meu. Às vezes eu colocava uva passa, e o dela não tinha doçura nenhuma, era bem ácido. Uns meses depois eu fiquei com vontade de comer esse tal antepasto com aceto balsâmico. Não lembro bem a ordem das coisas qual foi, mas no finzinho do ano conheci uma moça e me apaixonei por ela. Bom, eu  sempre me apaixono pelas pessoas, homens ou mulheres. Só que dessa vez a paixão extrapolou a noção de admiração, era paixão mesmo. Dessas que eu só tinha sentido por homens. Passamos o ano novo junto. Eu dizia assim, junto. Ela dizia ficamos juntas. Eu achava esquisitíssimo. Ficamos juntas pra mim soava militância. E eu não queria militar, amar uma mulher já era novidade o suficiente. Acho que eu não queria mesmo era ver que sim, eu estava amando uma mulher. E eu amei. A dona do sorriso mais lindo que eu já vi. Foi com ela que eu descobri: amor é berinjela. Eu de pé no fogão, explicava: essa receita eu nunca fiz. Uma amiga fez, eu fiquei com vontade de comer de novo, então vou fazer pra gente hoje. Não sei se vai dar certo, pode ser que dê errado. Mas vou tentar mesmo assim. Ela sorriu e repetiu: é? Nunca fez? E vai tentar mesmo assim? É, era de amor que eu estava falando, não de berinjela. Insisti: cortei a berinjela em tiras finas.  Cortei uma cebola em tiras finas. Dourei a cebola no azeite, joguei as tiras de berinjela, um pouco de sal, açúcar mascavo, deixei refogando. No fim coloquei algo como um terço de xícara de aceto balsâmico. A berinjela ficou bem escura, desmanchando, como a que eu tinha comido. Coloquei mais azeite depois de esfriar. O resto eu não vou contar. Mas saibam disso: amor é berinjela. A gente vai tentando, mesmo sem nunca ter feito antes. Mesmo tendo feito tantas outras vezes antes. Nunca fica igual - sempre melhor.

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