quinta-feira, 18 de novembro de 2010
eu não quero abrir email, não quero sair de casa, não quero ficar em casa, não quero lavar a louça nem arrumar a sala, não quero lavar roupa, não quero, não quero, não quero, não quero. ou quero. quero um abraço, quero dormir, quero não voltar pra casa hoje, quero dançar, quero morrer, quero existir, quero beber, beber até cair, nada é mais indigno e digno do que beber até transfigurar, quero sair de mim, quero ser maior do que eu sou, e não quero ser nada, quero dar uma volta no quarteirão de mão dada com meu filho, quero ir pra praia, quero que ele pare de chorar por isso ou por aquilo, quero ser uma boa mãe, não quero mais ter crises existenciais de que não sou boa mãe etecétera, quero tomar café, quero dormir, quero sambar, quero ir num forró, quero que alguém me queira e me dê a mão, às vezes sinto falta de estar apaixonada e toda vez escrevo falat em vez de falta, e aí volta e escreve de novo, falta, sonhei com uma máquina de escrever, não quero participar de pesquisa nenhuma sobre gatos, nem sobre combustíveis, não, eu não dirijo, sim, eu dirijo, mas menti por que não quero participar de pesquisa nenhuma sobre combustível. hoje eu não quero ser eu. posso, não ser eu? hoje eu quero sair só, mas quero que vc vá até a esquina me esperar, eu volto. em uma hora não vai dar tempo de fazer nada. não é mais fácil quando é fácil? eu prefiro quando é fácil, quando é difícil dá muito trabalho.
doce assassina
Rodoviária
Personagens: Mulher/ Mendigo / Deus / Homem Assassinado
Mulher:
Depois vesti o meu vestido florido, o mais bonito, bem rodado. Decote e salto alto. Saí pisando firme, pretendendo uma firmeza que era só por fora, por que por dentro eu era geléia. Geléia de morango, que tava tudo vermelho. Devia mesmo era estar tudo cinza, brilhante feito diamante, que é o que parecia aquele pozinho tão fino, com uns granuladinhos no meio. Pó de vidro. Não sei como é a morte com vidro moído, não sei se vai doer, não sei ele vai sofrer, não sei nem se ele vai morrer. Talvez só faça um estrago, mas não o mate, por isso estou indo embora. E ele nunca mais vai me achar. Mas tomare que ele morra. Devagar, com dor, com sofrimento, ele vai chamar meu nome e eu não vou mais estar lá. Foi por isso que eu voltei com ele, pra ele aprender que mulher não se abandona. Nunca abandone sua mulher, ouviu bem? Você nunca, nunca sabe do que uma mulher é capaz. Talvez eu tenha exagerado, é, acho que exagerei, por que que tipo de lição é essa que o aluno só pode errar uma vez? Tinha que ter dado mais chances, por que esse aprendeu, mas morreu, quer dizer, de que adianta? Como a gente vai saber se ele aprendeu mesmo? Será que dá tempo de chamar uma ambulância? Será que ele já morreu? Ai meu Deus, será que eu matei ele? Por que era pra ser só um susto, sabe? Não queria matar. Claro que eu queria mesmo era matar, mas não matar, assim matado, entende? Era pra ser uma morte simbólica, devia ter pego um pato e feito um sacrifício, e agora? Eu matei ele! Eu matei ele! Vou me entregar, chama a polícia? Não, não chama a polícia. Olha, tá vendo o que vc tá fazendo? Vc está me desequilibrando, tava tudo certo, tudo resolvido, matei por que ele foi um filho da puta lazarento e tinha que morrer, eu só adei uma ajudinha, ainda falei, não sei não, esse espinafre tá com um cheiro meio azedo, se eu fosse vc, não comia, não. Mas não, cheirou, cheirou, falou que não tinha cheiro ruim nenhum, então tá, eu avisei, e quando ele comeu eu subi, me troquei e saí de casa. Estou aqui agora. E vc, com essa sua cara, está fazendo com que eu me sinta culpada, olha, ele não era nenhum santo não, viu? Peraí, vou comer alguma coisa, cuida da minha bolsa pra mim? Já volto....Ai, não sei não, será que botaram alguma coisa nisso aqui?Fiquei com medo agora, acho que não vou comer isso não. Vou jogar fora. Não? Não por que? Vc quer? Tá, tudo bem, pode comer, eu comprei ali na esquina, mas não sei, fiquei com medo, sabe a lei do retorno da vida? Não? É assim, tudo o que vc faz volta pra vc. Aí que eu acabei de matar um sujeito com vidro moído na comida, quer dizer, e se, por acidente, caiu desinfetante na carne moída da esfiha? Aí fodeu, já era, vou morrer intoxicada, não come isso aí não, vai. Daqui, vou jogar no lixo. Não, te dou dinheiro, vc vai lá e compra uma coisa pra vc, não vou deixar vc comer isso por que isso era pra mim, pode ter uma zica qualquer, do retorno da vida, não quero que vc sofra por minha causa. Toma, vai lá.
Ei, cuidado com a rua. Ei, olha antes de atravessar. Ei! Ei! O ÔNIBUS!!!!!
Caralho! Matei dois! Meu Deus! Meu Deus! Sou uma serial killer!! Meu Deus! E agora? O que faço? Droga!!! Mas que tonto, como atravessa a rua sem olhar? Não, a culpa é minha. Eu dei o dinheiro, eu disse vai lá, a culpa é minha! Se eu não tivesse dado o dinheiro, ainda tava aqui, vivo. Indigente, mas vivo. Morador de rua, mas vivo. Mendigo, e bêbado, mas vivo. Meu Deus! Será assim, agora? Todos que cruzarem meu caminho morrerão? Deus!! Sua ira é comigo!! Ninguém tem mais nada a ver com isso! É entre nós dois!! Desce aqui, pra vc ver só! Te faço um almocinho maneiro. Capricho na sobremesa, faço seu prato preferido. Deus. Deus? Deus, me escute! Eu não queria ter matado, Deus. Nenhum dos dois! Quer dizer, o primeiro eu queria sim, Deus, isso não se faz!! O que ele fez comigo, não se faz!! Imagine, vc acha que eu não pensei no sofrimento dos meus dois filhos? Órfãos de pai! Pobrezinhos! Como sentirão a falta dele! Nos domingos à tarde, quando ele saía para levá-los ao parque! Mas Deus, se vc estava atento, vc é testemunha de que foi ele quem nos deixou! Foi ele que não se importou com o sofrimento das crianças no vazio que ficou nos domingos à tarde. Fez um buraco nas nossas vidas. É justo que tenhamos feito um buraco no seu estômago. Não, não diga nada, nem me fale de justiça, Deus! Nem me fale, que aí eu tenho mais umas coisinhas pra conversar com o senhor. Acho bom que mudemos de asssunto, e nem pense em me condenar! Eu matei um, dois, mas o último ainda não tenho certeza se foi minha culpa mesmo ou não, e também, um mendigo a mais, um mendigo a menos. E o senhor? Permitiu a morte de quantos? É, né? Veja bem, né? Agora é veja bem. Eu vejo bem sim, vejo bem que tô fodida, com fome, e nunca mais vou conseguir comer nada com tranquilidade. Vou ter que me mudar para um síto, plantar tudo o que vou comer, e eu mesma vou ter que preparar toda a minha comida, por que nunca mais vou ter sossego. E meus filhos? Não ouse encostar num fio de cabelo dos meus filhos, ouviu? Não, não me arrependo. É melhor ter pai morto do que pai banana. Iam aprender o que com aquele lá? Que se não gosta mais vai embora? Que mulher é lixo, que joga fora, é carro que fica velho e a gente troca por coisa mais nova? Não. Morreu, virou herói, pronto, vai virar exemplo, eu garanto que só vão ter motivo de orgulho do pai. Agora, se ele continuasse vivo, ia ser um mar de decepções. Tá melhor assim, vai por mim. Eu garanto. Agora, preciso ir embora. Preciso comer alguma coisa. E se eu ligasse lá? Vou ligar. Não, não vou ligar. E se ele vier puxar meu pé de noite? Meu Deus, morro de medo de espíritos. Morro, morro! Deus me livre e guarde. Isola. Patuá três veses, cruz-credo, ave-maria. Olha, vc não se atreva, viu? Não se atreva, que eu te mandei pro além uma vez e é aí que vc deve ficar. Não volte, nunca mais, nem pra dizer que se arrepende, não adianta! O que está feito, está feito, vc foi um cretino, calhorda, cachorro, filho da mãe, sacripanta! Cachorro! Mas eu te amava tanto! Tanto! Ah! Vida! Por que vc fez isso comigo? Por que? Ah! Como eu te amava! Como eu te amava! Vc tinha que estragar tudo. Tomare que tenha doído, viu? Tomare que vc tenha vomitado sangue, borbulhando que nem nos filmes que eu odiava ver, e que vc me obrigava a assistir com vc. Doeu? Como foi? Ai! Não era pra doer. Era só pra vc deixar de existir, assim, pluft, mas infelizmente as pessoas não deixam simplesmente de existir, assim, pá, estourou uma bolha. Então eu tive que intervir, mas não queria que vc sofresse, não. Ai! Eu queria tanto seu abraço agora! Mas vc não ia me abraçar se estivesse aqui agora, ia reclamar que eu tive uma idéia estúpida, ia dizer que eu fui tonta, que eu não penso, que eu fiz tudo errado, que a rodoviária é muito longe, que o ônibus não chega, que a esfiha tá fria. Como vc reclamava, Deus do céu! Eta homenzinho bom de reclamação. Bom, acho que é esse o ônibus. Olha, não me leve a mal. Fiz isso pela nossa família. Espero que um dia vc possa entender, e me perdoar. As crianças vão ficar bem. Criança é forte, supera tudo. Eu vou seguir meu caminho, tomando cuidado pra não matar mais ninguém. Mas esse aí, já era. Coitado, ficou estrebuchando ainda uns cinco minutos. Mas recolheram rápido. Indigente, sabe como é. Ai, ai. Espero que esteja tudo bem aí com vc. Saiba que eu te amo, sempre te amei, sempre te amarei. Mas infelizmente, vc pisou na bola. É isso. Hora de ir embora. Vou buscar as crianças, estão com a mamãe, no interior. Veja pelo lado bom, vc não tem mais sogra! Fique com Deus, querido. Que Ele tenha piedade de nossas pobres almas. Adeus!
....
Sobe no ônibus, uma lágrima escorre.
Rodovia
Ônibus
Um raio acerta o motorista, que morre. Gritos, ela grita "Droga, matei mais um! Que desgraça!". O ônibus em que ela estava capota três vezes, câmera fecha nela com os braços pra cima, torta, rosto de lado, morta, a mala aberta em cima, potes de geléia de morango quebrados na pista.
Sobem os créditos
Trilha: http://www.youtube.com/watch?v=wPoPMXY4Yyo
Personagens: Mulher/ Mendigo / Deus / Homem Assassinado
Mulher:
Depois vesti o meu vestido florido, o mais bonito, bem rodado. Decote e salto alto. Saí pisando firme, pretendendo uma firmeza que era só por fora, por que por dentro eu era geléia. Geléia de morango, que tava tudo vermelho. Devia mesmo era estar tudo cinza, brilhante feito diamante, que é o que parecia aquele pozinho tão fino, com uns granuladinhos no meio. Pó de vidro. Não sei como é a morte com vidro moído, não sei se vai doer, não sei ele vai sofrer, não sei nem se ele vai morrer. Talvez só faça um estrago, mas não o mate, por isso estou indo embora. E ele nunca mais vai me achar. Mas tomare que ele morra. Devagar, com dor, com sofrimento, ele vai chamar meu nome e eu não vou mais estar lá. Foi por isso que eu voltei com ele, pra ele aprender que mulher não se abandona. Nunca abandone sua mulher, ouviu bem? Você nunca, nunca sabe do que uma mulher é capaz. Talvez eu tenha exagerado, é, acho que exagerei, por que que tipo de lição é essa que o aluno só pode errar uma vez? Tinha que ter dado mais chances, por que esse aprendeu, mas morreu, quer dizer, de que adianta? Como a gente vai saber se ele aprendeu mesmo? Será que dá tempo de chamar uma ambulância? Será que ele já morreu? Ai meu Deus, será que eu matei ele? Por que era pra ser só um susto, sabe? Não queria matar. Claro que eu queria mesmo era matar, mas não matar, assim matado, entende? Era pra ser uma morte simbólica, devia ter pego um pato e feito um sacrifício, e agora? Eu matei ele! Eu matei ele! Vou me entregar, chama a polícia? Não, não chama a polícia. Olha, tá vendo o que vc tá fazendo? Vc está me desequilibrando, tava tudo certo, tudo resolvido, matei por que ele foi um filho da puta lazarento e tinha que morrer, eu só adei uma ajudinha, ainda falei, não sei não, esse espinafre tá com um cheiro meio azedo, se eu fosse vc, não comia, não. Mas não, cheirou, cheirou, falou que não tinha cheiro ruim nenhum, então tá, eu avisei, e quando ele comeu eu subi, me troquei e saí de casa. Estou aqui agora. E vc, com essa sua cara, está fazendo com que eu me sinta culpada, olha, ele não era nenhum santo não, viu? Peraí, vou comer alguma coisa, cuida da minha bolsa pra mim? Já volto....Ai, não sei não, será que botaram alguma coisa nisso aqui?Fiquei com medo agora, acho que não vou comer isso não. Vou jogar fora. Não? Não por que? Vc quer? Tá, tudo bem, pode comer, eu comprei ali na esquina, mas não sei, fiquei com medo, sabe a lei do retorno da vida? Não? É assim, tudo o que vc faz volta pra vc. Aí que eu acabei de matar um sujeito com vidro moído na comida, quer dizer, e se, por acidente, caiu desinfetante na carne moída da esfiha? Aí fodeu, já era, vou morrer intoxicada, não come isso aí não, vai. Daqui, vou jogar no lixo. Não, te dou dinheiro, vc vai lá e compra uma coisa pra vc, não vou deixar vc comer isso por que isso era pra mim, pode ter uma zica qualquer, do retorno da vida, não quero que vc sofra por minha causa. Toma, vai lá.
Ei, cuidado com a rua. Ei, olha antes de atravessar. Ei! Ei! O ÔNIBUS!!!!!
Caralho! Matei dois! Meu Deus! Meu Deus! Sou uma serial killer!! Meu Deus! E agora? O que faço? Droga!!! Mas que tonto, como atravessa a rua sem olhar? Não, a culpa é minha. Eu dei o dinheiro, eu disse vai lá, a culpa é minha! Se eu não tivesse dado o dinheiro, ainda tava aqui, vivo. Indigente, mas vivo. Morador de rua, mas vivo. Mendigo, e bêbado, mas vivo. Meu Deus! Será assim, agora? Todos que cruzarem meu caminho morrerão? Deus!! Sua ira é comigo!! Ninguém tem mais nada a ver com isso! É entre nós dois!! Desce aqui, pra vc ver só! Te faço um almocinho maneiro. Capricho na sobremesa, faço seu prato preferido. Deus. Deus? Deus, me escute! Eu não queria ter matado, Deus. Nenhum dos dois! Quer dizer, o primeiro eu queria sim, Deus, isso não se faz!! O que ele fez comigo, não se faz!! Imagine, vc acha que eu não pensei no sofrimento dos meus dois filhos? Órfãos de pai! Pobrezinhos! Como sentirão a falta dele! Nos domingos à tarde, quando ele saía para levá-los ao parque! Mas Deus, se vc estava atento, vc é testemunha de que foi ele quem nos deixou! Foi ele que não se importou com o sofrimento das crianças no vazio que ficou nos domingos à tarde. Fez um buraco nas nossas vidas. É justo que tenhamos feito um buraco no seu estômago. Não, não diga nada, nem me fale de justiça, Deus! Nem me fale, que aí eu tenho mais umas coisinhas pra conversar com o senhor. Acho bom que mudemos de asssunto, e nem pense em me condenar! Eu matei um, dois, mas o último ainda não tenho certeza se foi minha culpa mesmo ou não, e também, um mendigo a mais, um mendigo a menos. E o senhor? Permitiu a morte de quantos? É, né? Veja bem, né? Agora é veja bem. Eu vejo bem sim, vejo bem que tô fodida, com fome, e nunca mais vou conseguir comer nada com tranquilidade. Vou ter que me mudar para um síto, plantar tudo o que vou comer, e eu mesma vou ter que preparar toda a minha comida, por que nunca mais vou ter sossego. E meus filhos? Não ouse encostar num fio de cabelo dos meus filhos, ouviu? Não, não me arrependo. É melhor ter pai morto do que pai banana. Iam aprender o que com aquele lá? Que se não gosta mais vai embora? Que mulher é lixo, que joga fora, é carro que fica velho e a gente troca por coisa mais nova? Não. Morreu, virou herói, pronto, vai virar exemplo, eu garanto que só vão ter motivo de orgulho do pai. Agora, se ele continuasse vivo, ia ser um mar de decepções. Tá melhor assim, vai por mim. Eu garanto. Agora, preciso ir embora. Preciso comer alguma coisa. E se eu ligasse lá? Vou ligar. Não, não vou ligar. E se ele vier puxar meu pé de noite? Meu Deus, morro de medo de espíritos. Morro, morro! Deus me livre e guarde. Isola. Patuá três veses, cruz-credo, ave-maria. Olha, vc não se atreva, viu? Não se atreva, que eu te mandei pro além uma vez e é aí que vc deve ficar. Não volte, nunca mais, nem pra dizer que se arrepende, não adianta! O que está feito, está feito, vc foi um cretino, calhorda, cachorro, filho da mãe, sacripanta! Cachorro! Mas eu te amava tanto! Tanto! Ah! Vida! Por que vc fez isso comigo? Por que? Ah! Como eu te amava! Como eu te amava! Vc tinha que estragar tudo. Tomare que tenha doído, viu? Tomare que vc tenha vomitado sangue, borbulhando que nem nos filmes que eu odiava ver, e que vc me obrigava a assistir com vc. Doeu? Como foi? Ai! Não era pra doer. Era só pra vc deixar de existir, assim, pluft, mas infelizmente as pessoas não deixam simplesmente de existir, assim, pá, estourou uma bolha. Então eu tive que intervir, mas não queria que vc sofresse, não. Ai! Eu queria tanto seu abraço agora! Mas vc não ia me abraçar se estivesse aqui agora, ia reclamar que eu tive uma idéia estúpida, ia dizer que eu fui tonta, que eu não penso, que eu fiz tudo errado, que a rodoviária é muito longe, que o ônibus não chega, que a esfiha tá fria. Como vc reclamava, Deus do céu! Eta homenzinho bom de reclamação. Bom, acho que é esse o ônibus. Olha, não me leve a mal. Fiz isso pela nossa família. Espero que um dia vc possa entender, e me perdoar. As crianças vão ficar bem. Criança é forte, supera tudo. Eu vou seguir meu caminho, tomando cuidado pra não matar mais ninguém. Mas esse aí, já era. Coitado, ficou estrebuchando ainda uns cinco minutos. Mas recolheram rápido. Indigente, sabe como é. Ai, ai. Espero que esteja tudo bem aí com vc. Saiba que eu te amo, sempre te amei, sempre te amarei. Mas infelizmente, vc pisou na bola. É isso. Hora de ir embora. Vou buscar as crianças, estão com a mamãe, no interior. Veja pelo lado bom, vc não tem mais sogra! Fique com Deus, querido. Que Ele tenha piedade de nossas pobres almas. Adeus!
....
Sobe no ônibus, uma lágrima escorre.
Rodovia
Ônibus
Um raio acerta o motorista, que morre. Gritos, ela grita "Droga, matei mais um! Que desgraça!". O ônibus em que ela estava capota três vezes, câmera fecha nela com os braços pra cima, torta, rosto de lado, morta, a mala aberta em cima, potes de geléia de morango quebrados na pista.
Sobem os créditos
Trilha: http://www.youtube.com/watch?v=wPoPMXY4Yyo
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
maria tem quase trinta anos.
desce a rua com fones, ouvindo another one bites the dust, do queen. gosta de queen. usa uma saia vermelha justa e curta que marca sua bunda, é gostosa. entra no bar em que trabalha, fala bom dia, pega o avental e se serve de um copo de café.
josé, seu colega de trabalho, chega junto e fala no ouvido:
- tá bonita hoje.
ela diz:
- obrigada, vc tb tá lindo nesse avental que já foi branco um dia. não vai lavar não?
josé fica bravo, chateado, diz:
- poxa, eu tenho futuro, apesar desse avental, sabe? eu tenho talento, a mulher que ficar comigo vai ser de muita sorte. eu sei cozinhar, eu lavo e passo minha roupa, que homem que sabe cozinhar? eu sou prendado, até já costurei uma barra de calça uma vez.
- isso não é talento, josé, isso é necessidade, quando casar vc esquece que sabe cozinhar, lavar, passar, esquece tudo. vai esquecer até de trepar, vc vai ver.
- ah, não, isso não se esquece. isso não. eu nunca vou deixar de comparecer pra minha esposa, nunca.
- a gente nunca sabe o futuro, josé.
- isso eu sei. de trepar eu não vou deixar nunca.
- limpa o cardápio pra mim?
- pra vc eu faço tudo, broto.
- broto é foda.
- foda vai ser eu e vc junto, broto.
- não vai ter foda com eu e vc junto, gato. toma, limpa a pimenta tb.
- mas eu vou fazer tudo pra vc?
- ué, não quer me comer? tem que trabalhar pra isso.
- mas por que vc não bota um preço logo em dinheiro?
- por que eu não sou prostituta, amor, nunca cobrei nada de ninguém. tô te pedindo um favor, só isso.
- se é assim, eu faço. mas por que vc não vai dar pra mim?
maria canta: "dá pra mim, o seu amor, dá pra mim"
- não é seu amor que eu quero, gata. é sua buceta.
- e assim vc tá muito perto de conseguir, continue assim.
- tô mesmo, jura?
- ô. se tá.
- vc tá me zoando.
- imagina!
maria começa a lavar a louça, josé limpa os cardápios em silêncio, reclamando de vez em quando.
maria desce a porta de ferro e caminha até o ponto de ônibus. josé se aproxima de moto, pergunta se ela quer carona.
- tô de saia.
- melhor ainda.
- deixa de ser bobo, tá tarde, eu quero ir embora.
- vem comigo.
- hoje não.
- hoje não quer dizer que outro dia sim?
- hoje não quer dizer hoje não.
maria acende um cigarro
- voltou a fumar?
- vai embora josé, meu ônibus já vai passar.
- vc um dia vai se arrepender.
- é? por que?
- porque meu pau é enorme e ia rachar vc no meio.
- suas cantadas são irresistíveis, nossa! preciso me segurar pra não dar pra vc.
joão vai embora bravo.
maria acorda no meio da noite. sai no quintal com uma coberta, deita no chão e fica olhando a lua. joão senta do seu lado,
- que foi?
- não sei, acordei.
- pesadelo?
- não.
- tá tudo bem?
- não.
- que foi?
- não sei. triseza, só.
- triseza, só? joão passa a mão no cabelo dela, ela tira a mão dele.
- não quer carinho?
- seu, não.
- ah é? de quem vc quer?
- de ninguém.
- vem dormir.
- daqui a pouco eu vou.
continua.
desce a rua com fones, ouvindo another one bites the dust, do queen. gosta de queen. usa uma saia vermelha justa e curta que marca sua bunda, é gostosa. entra no bar em que trabalha, fala bom dia, pega o avental e se serve de um copo de café.
josé, seu colega de trabalho, chega junto e fala no ouvido:
- tá bonita hoje.
ela diz:
- obrigada, vc tb tá lindo nesse avental que já foi branco um dia. não vai lavar não?
josé fica bravo, chateado, diz:
- poxa, eu tenho futuro, apesar desse avental, sabe? eu tenho talento, a mulher que ficar comigo vai ser de muita sorte. eu sei cozinhar, eu lavo e passo minha roupa, que homem que sabe cozinhar? eu sou prendado, até já costurei uma barra de calça uma vez.
- isso não é talento, josé, isso é necessidade, quando casar vc esquece que sabe cozinhar, lavar, passar, esquece tudo. vai esquecer até de trepar, vc vai ver.
- ah, não, isso não se esquece. isso não. eu nunca vou deixar de comparecer pra minha esposa, nunca.
- a gente nunca sabe o futuro, josé.
- isso eu sei. de trepar eu não vou deixar nunca.
- limpa o cardápio pra mim?
- pra vc eu faço tudo, broto.
- broto é foda.
- foda vai ser eu e vc junto, broto.
- não vai ter foda com eu e vc junto, gato. toma, limpa a pimenta tb.
- mas eu vou fazer tudo pra vc?
- ué, não quer me comer? tem que trabalhar pra isso.
- mas por que vc não bota um preço logo em dinheiro?
- por que eu não sou prostituta, amor, nunca cobrei nada de ninguém. tô te pedindo um favor, só isso.
- se é assim, eu faço. mas por que vc não vai dar pra mim?
maria canta: "dá pra mim, o seu amor, dá pra mim"
- não é seu amor que eu quero, gata. é sua buceta.
- e assim vc tá muito perto de conseguir, continue assim.
- tô mesmo, jura?
- ô. se tá.
- vc tá me zoando.
- imagina!
maria começa a lavar a louça, josé limpa os cardápios em silêncio, reclamando de vez em quando.
maria desce a porta de ferro e caminha até o ponto de ônibus. josé se aproxima de moto, pergunta se ela quer carona.
- tô de saia.
- melhor ainda.
- deixa de ser bobo, tá tarde, eu quero ir embora.
- vem comigo.
- hoje não.
- hoje não quer dizer que outro dia sim?
- hoje não quer dizer hoje não.
maria acende um cigarro
- voltou a fumar?
- vai embora josé, meu ônibus já vai passar.
- vc um dia vai se arrepender.
- é? por que?
- porque meu pau é enorme e ia rachar vc no meio.
- suas cantadas são irresistíveis, nossa! preciso me segurar pra não dar pra vc.
joão vai embora bravo.
maria acorda no meio da noite. sai no quintal com uma coberta, deita no chão e fica olhando a lua. joão senta do seu lado,
- que foi?
- não sei, acordei.
- pesadelo?
- não.
- tá tudo bem?
- não.
- que foi?
- não sei. triseza, só.
- triseza, só? joão passa a mão no cabelo dela, ela tira a mão dele.
- não quer carinho?
- seu, não.
- ah é? de quem vc quer?
- de ninguém.
- vem dormir.
- daqui a pouco eu vou.
continua.
mas eu fico feliz por ele, então, já que foi por isso. por que eu não conseguiria deixar alguém por que a pessoa briga de mais ou de menos, amar é tão mais que isso. eu mesma não consegui deixá-lo por que ele brigava de menos, embora me deixasse um pouco nervosa aquela bananice toda, parece que não tem sangue nas veias, vai ver é isso mesmo, falta sangue na veia. deve ser por isso que pra cada pergunta é uma resposta diferente, aí ela diz que ele me deixou por que eu não limpo a casa, acho que adora que ele me deixou por que agora tem uma espécie de reforço para as broncas, em qualquer conversa vem: seu marido te deixou por isso, tá na hora de vc mudar. mas por mais que eu faça merda (quem é enrolado se enrola até cantando parabéns pro filho), a questão que eu me faço é: eu quero ser diferente? sinceramente? não. alguma ou outra coisa sim, mas em linhas gerais... não. não me deixam por mim. me deixam por si. por lá, por dó, por ré. por mi, não.
com a corda mi do meu cavaquinho fiz uma aliança pra ela prova de carinho. eu quero provas de carinho.
com a corda mi do meu cavaquinho fiz uma aliança pra ela prova de carinho. eu quero provas de carinho.
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
de sonhos
vim correndo escrever, antes que eu me esqueça: tenho sonhos que se repetem desde a infância. graças a deus o homem de chapéu com faixa preta, camisa listrada em branco e vermelho, mala nas mãos e olhar fixo nunca mais voltou para me assustar. o sonho era assim: estávamos brincando, sentados no chão, irmãos e eu. na oficina que meu pai tinha. a oficina ocupava um espaço enorme. o muro era baixo, e dava uma impressão horrível, por que dava pra ver só a cabeça de quem passava na calçada. pois bem. no sonho, o problema mesmo era a música. era uma espécie de sino, uma musiquinha de realejo muito sombria que avisava que o homem estava vindo. e ele vinha para me matar. o que me deixava assustada não era mais a música do que a expressão serena, fixa e determinada do sujeito. era assustador. nem lembro quando foi a última vez que tive esse pesadelo, mas foram muitas e muitas vezes. a música, o homem andando com passos firmes e olhar determinado, ele nunca virou a esquina, só descia a rua, antes que ele virasse a esquina eu acordava. mas eu sabia que se ele virasse a esquina e alcançasse o portão, tinha alguma coisa dentro da mala, não sei o que era, mas sei que ele me mataria. queria sonhar com isso de novo, pra ver agora com olhos de gente adulta.
sonho recorrente 2: eu tinha uns três, quatro anos. minha mãe e eu. meu irmão brincando na água. era um riachinho, riachinho mesmo, que tinha atrás da casa onde morávamos. na verdade, não sei se era naquela casa, ou se era em outro lugar e eu juntei os dois riachos. um filete de água que brotava de uma mina mais pra cima cortava a chácara toda, e ia formar um lago na chácara vizinha.
bem, o sonho era: estávamos seguindo a trilha para ir até a fonte. numa parte do caminho, eu fiquei com medo, minha mãe segurou minha mão e disse: olha filha, dá pra ver o fundo, tem pedrinhas. e peixinhos. e nós duas abaixávamos e ficávamos alguns segundos vendo os peixinhos. e aí o riacho começava a encher. era um lugar muito agradável. estava calor, mas tinha muita árvore e samambaia, e o riacho deixava o ar fresco. muitas folhas secas e pedriscos no chão. pedriscos marrons, que nem argila expandida. parecia um pouco uma área pantanosa, o riacho não tinha um leito regular. tínhamos que desviar, pisando em pedras. eu sempre sonhava com isso: minha mãe segurando a minha mão, a gente abaixando para ver o fundo do riacho, os peixinhos nadando, os peixinhos saíam da ágaua e começavam a voar, criavam asas de borbotas, peixinhos miudinhos, borboletinhas. e a gravidade deixava de existir, e a água do riacho flutuava, os peixes voavam, só as árvores permaneciam imóveis. minha mãe continuava a andar, desatenta pro que acontecia, me puxando, e eu parada, olhando os peixes-borboletas com uma margaridinha na mão. de saia branca transpassada e "bustiê", como eu dizia, do piu-piu, eu acho. branco, com um desenho do piu-piu. tem foto minha com essa roupa, eu tinha 3, 4 anos. sandália, cabelo preso no alto, do lado direito, tudo preso num rabicó. mas isso tudo quase não importa, o que interessa é que esse sonho muda. esse lugar é como se fosse um refúgio pra mim, e ao mesmo tempo, reflexo: às vezes, essa área pantanosa inunda, vira lama, não consigo ver o fundo. em outras vezes seca, completamente, morre tudo. às vezes fica de noite e eu ainda estou lá, e não consigo sair, e me sinto presa, asfixiada, e assustada com a noite.
fazia muito tempo que eu não tinha esse sonho. mas hoje sonhei de novo, por isso me lembrei dele, já tinha esquecido. a água estava límpida e cristalina, haviam peixinhos, e eu disse para a minha mãe: olha mãe, os peixinhos voltaram a nadar, encheu de peixinho.
eram cor-de-abóbora. borboletinhas brancas voavam minúsculas, passarinhos cantavam, as samambaias estavam viçosas e tinha um cheiro fresco de eucalipto molhado no ar. o sol entrava entre as folhas e fazia o riacho brilhar. e nós estávamos felizes.
o terceiro sonho recorrente é esquisitíssimo: areia, areia, areia. areia de ampulheta, dunas e mais dunas de areia que desliza, apenas desliza, o sonho inteiro é areia deslizante. mas se algo dá errado, a areia deixa de deslizar fina e constante, e engrossa, fica granulada, áspera, não desliza mais, enrosca, machuca, é como se eu estivesse tecendo algo e de repente aparecesse um nó. ficava muito angustiada quando sonhava com isso, era exasperador. era quase tão ruim quanto o pesadelo do homem de mala, só que uma angústia interna, não era medo de que alguém me matasse. era medo da minha incapacidade de manter a areia deslizando fina e macia. vai entender. dá pra entender um monte de coisa com esses sonhos.
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sonho recorrente 2: eu tinha uns três, quatro anos. minha mãe e eu. meu irmão brincando na água. era um riachinho, riachinho mesmo, que tinha atrás da casa onde morávamos. na verdade, não sei se era naquela casa, ou se era em outro lugar e eu juntei os dois riachos. um filete de água que brotava de uma mina mais pra cima cortava a chácara toda, e ia formar um lago na chácara vizinha.
bem, o sonho era: estávamos seguindo a trilha para ir até a fonte. numa parte do caminho, eu fiquei com medo, minha mãe segurou minha mão e disse: olha filha, dá pra ver o fundo, tem pedrinhas. e peixinhos. e nós duas abaixávamos e ficávamos alguns segundos vendo os peixinhos. e aí o riacho começava a encher. era um lugar muito agradável. estava calor, mas tinha muita árvore e samambaia, e o riacho deixava o ar fresco. muitas folhas secas e pedriscos no chão. pedriscos marrons, que nem argila expandida. parecia um pouco uma área pantanosa, o riacho não tinha um leito regular. tínhamos que desviar, pisando em pedras. eu sempre sonhava com isso: minha mãe segurando a minha mão, a gente abaixando para ver o fundo do riacho, os peixinhos nadando, os peixinhos saíam da ágaua e começavam a voar, criavam asas de borbotas, peixinhos miudinhos, borboletinhas. e a gravidade deixava de existir, e a água do riacho flutuava, os peixes voavam, só as árvores permaneciam imóveis. minha mãe continuava a andar, desatenta pro que acontecia, me puxando, e eu parada, olhando os peixes-borboletas com uma margaridinha na mão. de saia branca transpassada e "bustiê", como eu dizia, do piu-piu, eu acho. branco, com um desenho do piu-piu. tem foto minha com essa roupa, eu tinha 3, 4 anos. sandália, cabelo preso no alto, do lado direito, tudo preso num rabicó. mas isso tudo quase não importa, o que interessa é que esse sonho muda. esse lugar é como se fosse um refúgio pra mim, e ao mesmo tempo, reflexo: às vezes, essa área pantanosa inunda, vira lama, não consigo ver o fundo. em outras vezes seca, completamente, morre tudo. às vezes fica de noite e eu ainda estou lá, e não consigo sair, e me sinto presa, asfixiada, e assustada com a noite.
fazia muito tempo que eu não tinha esse sonho. mas hoje sonhei de novo, por isso me lembrei dele, já tinha esquecido. a água estava límpida e cristalina, haviam peixinhos, e eu disse para a minha mãe: olha mãe, os peixinhos voltaram a nadar, encheu de peixinho.
eram cor-de-abóbora. borboletinhas brancas voavam minúsculas, passarinhos cantavam, as samambaias estavam viçosas e tinha um cheiro fresco de eucalipto molhado no ar. o sol entrava entre as folhas e fazia o riacho brilhar. e nós estávamos felizes.
o terceiro sonho recorrente é esquisitíssimo: areia, areia, areia. areia de ampulheta, dunas e mais dunas de areia que desliza, apenas desliza, o sonho inteiro é areia deslizante. mas se algo dá errado, a areia deixa de deslizar fina e constante, e engrossa, fica granulada, áspera, não desliza mais, enrosca, machuca, é como se eu estivesse tecendo algo e de repente aparecesse um nó. ficava muito angustiada quando sonhava com isso, era exasperador. era quase tão ruim quanto o pesadelo do homem de mala, só que uma angústia interna, não era medo de que alguém me matasse. era medo da minha incapacidade de manter a areia deslizando fina e macia. vai entender. dá pra entender um monte de coisa com esses sonhos.
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sexta-feira, 15 de outubro de 2010
faz duas horas que eu acordei, não sei se tomo café ou se almoço. daqui a pouco, janto. não sei se lavo a louça ou se faço café, preciso lavar a louça para fazer café, ou posso procurar o outro coador, limpo, e coar direto numa xícara, deve ter ainda uma xícara limpa, o coador é de papel. tanto o que fazer, e fizemos apenas isto. não sei se passo ou se fico, a cidade cheira pêssegos em dezembro, não consigo avançar na leitura, estou empacada, a cidade cheira pêssegos em dezembro. é melhor eu cozinhar as batatas logo, antes que elas estraguem. e estender a roupa, antes que fique cheirando mal dentro da máquina, o caos impera, mas do caos surgiu o mundo, não tem uma história que é assim? mas daqui de casa, desse caos, o mais provável é que surjam ratos e baratas, é melhor eu arrumar a casa antes que ela estrague. não, são as batatas que estragam. a casa... a casa cai? a casa desmancha? quem dera, era mais fácil arrumar se a casa se desmanchasse, e aí, com um sopro, a gente erguia a casa de novo, limpa, arrumada, como cores novas nas paredes, móveis novos na sala, e pessoas felizes na cozinha. pessoas felizes na cozinha mas quem seriam essas pessoas, pessoas que me olhariam como se eu fosse uma estranha, por que vc entrou aqui? eu fiz essa casa, ora, coloquei vcs aí para que me fizessem companhia, risos, vc nos colocou aqui? gargalhadas, por favor, vá embora antes de chamarmos a polícia, não queremos confusão, mas por que chamar a polícia, se eu esperava que vcs me convidassem para o café? eu os criei, veja, você usa o cabelo como minha avó usava quando eu era criança, e vc, tem os mesmos trejeitos e expressões da minha mãe, vc é o meu pai quando jovem, e esse menino fiz loiro como meu filho, mas com os olhos castanhos, como são os meus. não me mandem embora, ou eu os desfaço, assim como os fiz. silêncio. as pessoas já não estão mais tão felizes, não se ouve mais riso nem conversa, as pessoas estão mudas, paradas, apáticas, esperando um aceno, uma ordem, continuem, eu digo, mas elas começam a ficar transparentes, começam a reluzir, vem uma luz forte e estou só de novo, na casa suja, bagunçada, feia, triste e envelhecida, que tem apenas uma xícara limpa, nenhuma água no filtro e roupas espalhadas por todos os cantos, parece até um cenário, não é possível que eu tenha tanta roupa assim, vou fazer um café, meu estômago dói, de fome.
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
arrumo a casa, dessas arrumações em que tudo sai do lugar, podia ir passear, é meu aniversário, almoçar fora, talvez vá, mas agora arrumo a casa. papéis, documentos, boletim de ocorrência, cds com fotos, coisas devidamente escondidas para que não fossem lembradas por causa da violência que contém. agora são vistas, mas não necessariamente revistas. arrumo a casa e arrumo eu, tão mulher isso, eu acho, tirar as rendas do armário mesmo com um coturno preto nos pés, é rendar a vida. mas não arrendar a vida, não esquecer disso na próxima. saudade do solista que deixava minha noite mais cheia e mais vazia ao mesmo tempo, em cima do telhado do prédio vizinho ele chorava, às vezes ria, mas em geral chorava, ou pelo menos eu ouvia aquilo como um lamento. me pergunto por que nunca tive vontade de atravessar a grama e subir os sete andares para fazer companhia, eu só achava bonito, não precisava estar perto, nunca quis ficar muito perto da tristeza. a gente devia contratar saxistas para tocar de noite, de longe eu ouvia um solo de sax que me fazia ficar apoiada na janela do corredor, que me fazia pegar uma coberta e ficar do lado de fora do prédio, sentada na escada de incêndio ouvindo. lembrei que isso já tem nove anos. não posso esquecer de não esquecer as histórias que a gente vive.
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