sexta-feira, 4 de maio de 2012
parei tudo o que estava fazendo. larguei mão, deixei pra lá, desencanei do tempo, pouco. depois limpei a mesa maior. fui empilhando cada coisa: o que já está quase pronto, o que ainda está só cortado, roll bag, alforje, bolsa de guidão, resto de tecido que ainda dá pra aproveitar, lona, nylon, algodão, plásticos. enchi a mesa de pequenos montes. esvaziei as caixas, esvaziei os lixos, arrumei a mesa de dentro. guardei os retalhos de couro, os zíperes, os botões, as garras, as fitas de nylon, os rolos de velcro e de viés. tirei tudo o que não era do ateliê. blusas, brinquedos, copos, coisas que já estavam prontas. depois tirei o pó das mesas e limpei as máquinas. voltei para as prateleiras os montes organizados. coloquei as cadeiras para o alto, arrastei as mesas e varri muito bem varrido o chão da oficina e uma parte do quintal. depois voltei tudo para o lugar. olhando agora, tudo faz sentido. eu sei exatamente o que devo fazer e por onde tenho que começar. nada como uma faxina.
quarta-feira, 2 de maio de 2012
fui na oficina de uma das costureiras, uma que eu não via há 3 anos.
tudo bem, tudo bem, nossa, priscila, como vc tá diferente.
é?
é...
parari, parará, preciso que faça assim, assado, e ela me olhando fixamente: mas vc tá muito diferente mesmo.
é? vai ver é o cabelo, eu fico com preguiça de pintar, a tinta velha desbota e eu fico meio grisalha, meio ruiva, meio castanha.
hum.
parari, parará, então amanhã eu trago tudo cortado e...
cê tá muito diferente mesmo.
nossa senhora, três vezes cê já me disse isso, eu fiquei com vontade de falar.
mas depois ela emendou: cê tá bem mais mulher.
hum. é que agora eu sou solteira, eu pensei. mas não falei nada, que mais uma costureira me dizendo que eu sou muito nova pra não ter namorado eu não aguento. são os trinta anos que se aproximam.
terça-feira, 1 de maio de 2012
futuro do pretérito
e o tempo se mostrou um grande causador de intrigas: a mim, dizia: insista mais um pouco. ainda há tempo. a ela, que o tempo já era passado, e que nada mais tinha jeito de ser, no de novo. e assim o tempo intrigueiro foi passando, passando, até que foi-se de vez embora pra longe, criar outras intrigas em outras histórias, com outros personagens. na divisão dos bens, ela ficou com o pretérito perfeito. eu fiquei com o futuro do pretérito.
domingo, 29 de abril de 2012
não chora.
não. não choro. mas é o que eu faço de melhor. então sim, eu choro. choro por que não sei mais o que fazer, por que tenho medo de insistir e não dar conta depois, medo, choro basicamente por medo. uma besteira sem tamanho. concentre-se no presente, ele disse, e no presente tudo vai bem. mas eu fiz uma confusão tão grande. também não vejo muita vantagem quando alguém se vangloria por não chorar. outra bobagem. por que não chorar? a inflexibilidade. nunca diga a uma mulher louca onde vc mora, onde seus pais moram, onde sua avó mora. como saber se uma mulher é louca ou não? não tem como saber, de antemão. mas acredite quando te digo, todas são. sem exceção. todas as que são assim como eu, pelo menos. ela continua linda.
não. não choro. mas é o que eu faço de melhor. então sim, eu choro. choro por que não sei mais o que fazer, por que tenho medo de insistir e não dar conta depois, medo, choro basicamente por medo. uma besteira sem tamanho. concentre-se no presente, ele disse, e no presente tudo vai bem. mas eu fiz uma confusão tão grande. também não vejo muita vantagem quando alguém se vangloria por não chorar. outra bobagem. por que não chorar? a inflexibilidade. nunca diga a uma mulher louca onde vc mora, onde seus pais moram, onde sua avó mora. como saber se uma mulher é louca ou não? não tem como saber, de antemão. mas acredite quando te digo, todas são. sem exceção. todas as que são assim como eu, pelo menos. ela continua linda.
sexta-feira, 23 de março de 2012
um escândalo sem tamanho, eu queria poder dizer vem cá, meu bem, me dê um beijo, me abrace, amo tanto você. fica comigo pra sempre. mas nada se diz, nada se escuta, nada se faz. um sonda o outro. mas nada, mais nada. quem é ele, eu me pergunto. o vento bate com força, em breve voltaremos às echarpes, penduradas há meses, esperando o verão acabar. e logo passaremos às grossas blusas de lã, e só no fim do ano teremos roupas leves de novo. uma ansiedade sem fim, logo ao fim. nada é mais inevitável do que aquilo que nós mesmos provocamos. por isso a certeza. não me interessa se faz sentido, interessa... me interessa desinteressar. então eu fecho tudo, desligo o fogo, desisto de comer, apago as luzes, saio de casa.
terça-feira, 20 de março de 2012
assim, de chofre, não sei responder. o que eu quero pra minha vida?
mais uns três filhos, pelo menos. coisa que eu vou pensar a sério a
partir do ano que vem. quero jardim. sempre. quero ficar velhinha, inha.
quero gente perto de mim pra comer as comidas que eu gosto de fazer,
mesmo que nem sempre dê muito certo. quero cantar. quero ver esse filho
que eu já tenho feliz por que está amando, sofrendo por alguma paixão, preocupado
com a espinha no rosto, arrumando um trabalho, chegando em casa com a
primeira namorada. tendo o filho dele. já pensou? quero que meu trabalho
deixe as pessoas felizes, que faça alguma diferença na vida delas.
quero conseguir viver do que eu gosto de fazer - e essa, por enquanto, é
parte mais difícil. que mais? sei lá. é tanta coisa. quero continuar tendo
ânimo para pintar as paredes, quando eu achar que é preciso mudar a cor
das paredes. quero achar um cabelereiro bom, pelo menos uma vez na vida.
quero continuar andando de bicicleta, quero plantar um monte de árvore
aqui na rua de casa. quero um dia poder sair sem lugar definido pra
chegar. quero também poder voltar.
mais uns três filhos, pelo menos. coisa que eu vou pensar a sério a partir do ano que vem. quero jardim. sempre. quero ficar velhinha, inha. quero gente perto de mim pra comer as comidas que eu gosto de fazer, mesmo que nem sempre dê muito certo. quero cantar. quero ver esse filho que eu já tenho feliz por que está amando, sofrendo por alguma paixão, preocupado com a espinha no rosto, arrumando um trabalho, chegando em casa com a primeira namorada. tendo o filho dele. já pensou? quero que meu trabalho deixe as pessoas felizes, que faça alguma diferença na vida delas. quero conseguir viver do que eu gosto de fazer - e essa, por enquanto, é parte mais difícil. que mais? sei lá. é tanta coisa. quero continuar tendo ânimo para pintar as paredes, quando eu achar que é preciso mudar a cor das paredes. quero achar um cabelereiro bom, pelo menos uma vez na vida. quero continuar andando de bicicleta, quero plantar um monte de árvore aqui na rua de casa. quero um dia poder sair sem lugar definido pra chegar. quero também poder voltar.
sexta-feira, 9 de março de 2012
me incomoda a quantidade de sapatos num canto da sala. não muito, não a ponto de me fazer levantar para guardá-los, embora eu já tenha me levantado para juntá-los num canto só, ao menos. são quatro os pares, e eu não sei tocar piano. a mulher era uma informante. dessas histórias, a informante se apaixona. se, se, se. ir ao cinema. semana que vem. o espião se apaixona também. ela não foi. ele vai se sentar com ela. ela é atriz. e bebe conhaque. ele diz a verdade? ela tem o nariz grande. mas só quando usa óculos. há uma certa idade em que todas as mulheres são bonitas.
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