terça-feira, 30 de abril de 2013

achei uma foto perdida, uma foto que eu tirei pouco antes da gente se separar. ele de pijama na cozinha, lavando a louça do café. nem lembrava mais dessa foto, foi a última que eu tirei. e eu sabia que ia ser a última, engraçado. foi antes da cirurgia, eu intuí que era das últimas vezes que eu via meu marido lavando a louça e assoviando. mas eu, muito ingênua, achei que fosse medo de que ele não resistisse à cirurgia. ele assobiava o tempo todo. o leo faz a mesma coisa. eu nunca consegui aprender a assobiar. tirei quatro fotos. em agosto vai fazer quatro anos que nos separamos. continuei aqui, na mesma casa. e vendo a foto, vi outra casa. uma casa bem cuidada. tinha uma avenca em cima da geladeira. violetas na janela. a superfície do armário era branca, não se escondia debaixo de uma crosta preta e gordurosa e eu não tinha o hábito de empilhar coisas. arrumava-as ordenadamente em potes variados. costumava usar panos de prato com barrados de crochê, de tecido ou de ponto cruz. fazia as toalhas de mesa em patchwork. deixava um pano de prato no puxador da geladeira. no vidro do fogão sempre tinha uma toalha bonita. em cima da mesa também. daqui onde estou agora, vejo 3 bananas (houve um tempo em que eu mantinha as frutas numa fruteira em cima da mesa, mas agora), uma caixa de chocolate em pó, mel, potes de vidro vazios, sacos de pão velho, potes vazios de manteiga e uma caixa de sabão em pó. sim, sabão em pó. e bananas, no mesmo armário. às vezes acho que não vou aguentar. tá difícil isso de viver sozinha. sabe o que eu queria? queria casar. mas não consigo. não consigo nem namorar. imagine casar. ninguém mais me pega de surpresa, sabe? ninguém vai me derrubar de novo. endureci. quatro anos depois, eu sou uma fortaleza. fortaleza que verte água. a rodo. nem tão fortaleza assim.

terça-feira, 16 de abril de 2013

sabe aquela sua camisa azul, que vc estava vestindo no nosso primeiro encontro? aquela, que vc gostava. coloquei pra dormir. isso mesmo. estou dormindo com ela. não durmo com vc, muito bem, durmo com sua camisa então. comprei uma camisola nova. vc diria que eu fiquei gostosa. e fiquei mesmo.  mas é de alcinha, hoje faz frio. não tem ninguém aqui. mas eu queria me ver gostosa. coloquei sua camisa pra me aquecer. não tem vc, muito bem, me aqueço com sua camisa, então. inveja eu tenho também, de muitos casais. não morro de inveja de nenhum deles, como vc disse. acho mesmo que somos todos mais ou menos parecidos nas relações amorosas, nas desavenças, nas querelas. o que foi que vc disse mesmo? que eu sou mesquinha. e que isso é feio. é feio. não é nem que é errado: é feio.  concordo. é feio mesmo. o problema da humanidade tá todo aí, não tá? na mesquinhez. e aí a gente vê a pessoa que a gente diz que ama sendo mesquinha no amor: como vai ficar? será que vai me faltar amor? me falta amor? amor? vesti aquela camisa azul que vc gostava e vou dormir com ela. era só isso o que eu queria dizer.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

não caso


amassava os dentes de alho antes de descascá-los. amassa, tira a pele. amassa, tira a pele. pele. alho tem pele? pele tenho eu. picou tanto alho, achei que não fosse conseguir comer. uns oito dentes graúdos.

- eu gosto de macarrão com abobrinha ralada, bacon e molho branco.
- bacon não é uma opção.
- desculpa.
- tudo bem.

gengibre. um pedaço bom. tão bem picado. nunca vi um cozinheiro de verdade cozinhando na minha frente. eu podia casar com ele. mas não, não podia. muito alho, bastante gengibre,

- quero fazer um macarrão ao sugo, simples, com berinjela refogada.
- berinjela? - fiz cara feia, igual criança.
- por que não? você não gosta de berinjela?  - cara de decepcionado.
- não, gosto. é só que... tenho comido bastante berinjela ultimamente.
- tá bom. do que você gosta?
- de tudo.
- a mulher dos meus sonhos.
- fosse fácil assim - mas isso eu só pensei.

muito alho, bastante gengibre, umas oito abobrinhas pequenas (já que eu não queria berinjelas),

- eu gosto de escolher as mais brilhantes (reclamando da abobrinha sem graça que tinha nas mãos).
- então pegue as que estão mais no fundo. as que estão atrás sempre estão melhores.
- é, você tem razão (ligeiramente constrangido por não ter visto antes de mim que as abobrinhas do fundo estavam melhores, porque afinal, quem é o cozinheiro de verdade é ele, não eu).

muito alho, bastante gengibre, umas oito abobrinhas pequenas, dois tomates grandes,

- vai o yyyyy mesmo, o xxxx tá muito caro.
- nunca nem tinha visto esse xxxx.
- não? (tentou conter sua indignação ante meus parcos conhecimentos frutíferos para não me constranger. fofo. mas eu percebi mesmo assim).

muito alho, bastante gengibre, umas oito abobrinhas pequenas, dois tomates grandes, frita o alho primeiro,

- peraí, deixa eu gastar minhas moedas (contei: primeiro as de um real; depois as de cinquenta centavos; vinte e cinco centavos; dez centavos; por fim, as de cinco centavos. primeiro me desfaço dos modelos novos de valor mais alto; depois conto numa passada dos olhos o que se tem em maior quantidade, se modelos novos ou antigos. modelos novos tem preferência na partida. modelos antigos vão ficando).
- é impressão minha ou você escolhe as moedas para pagar a conta?
- deu pra ver?
- deu.
- já fui mais discreta.

muito alho, bastante gengibre, umas oito abobrinhas pequenas, dois tomates grandes, frita o alho primeiro, depois o gengibre, joga a abobrinha e o tomate, deixa refogar, a abobrinha não pode amolecer muito menos desmanchar, sal e pimenta calabresa.

- sensacional.
- gostou?
- muito. tá incrível.
- casa comigo?
- melhor não.
- por que não?
- desculpa. é que eu detesto que coloquem todo o molho de uma vez no macarrão.




amor é berinjela


Trinta anos, dois amores e meio e sempre berinjela.  Era um dia importante, ele vinha. Ele vinha e eu queria que ele ficasse. Não podia dizer não volta, não podia dizer estende sua viagem, não podia dizer fica. Era cedo, mal o conhecia. Mas queria vê-lo em outra situação que não festa, encontro, nós dois sozinhos no quarto. Chamei pra comer. Chamar pra comer às vezes equivale a tirar pra dançar. Pois tirei o moço pra dançar. Mas o que fazer? Uma coisa de se lambuzar. De comer de boca cheia, que é pra ver se existe gosto pela vida ali. Como se come é também como se ama, e eu evito os que comem sem poder se sujar. Dias inteiros na absoluta falta de criatividade. Até que um dia, numa embalagem de queijo ralado na casa de uma amiga, veja só: berinjela à parmegiana.  Perfeito! É rápido, é fácil, é gostoso, é suculento.  Berinjela à parmegiana é o que teremos. Um dia antes, confirmo nosso almoço: ele vem. Vem, e pergunta se pode trazer o irmão. Bom... Pode. Mais berinjelas, então. Berinjelas, mozarela, tomates bem maduros, cebola, alho, manjericão. Manjericão.  Amor é berinjela. Mas aí eu ainda não sabia disso, não, só ia saber dez anos depois. Enfim. Cortei as berinjelas em rodelas. Fui colocando numa travessa com água, pra berinjela não escurecer. Nunca mais fiz isso. Nessa época eu tinha medo de desobedecer às receitas, engraçado, hoje nem leio as receitas, quando vem em rótulos, então. Ah, não: primeiro eu fiz o molho de tomate. Sempre começo pelo molho.  Desde sempre. Frito primeiro o alho: gosto dele douradinho. Coloquei só um dente nesse dia. Sabe como é, alho não é lá uma coisa que a gente come e sai beijando os outros depois. Bom, amassei um dente de alho, cortei uma cebola bem picadinha, coloquei os tomates pelados pra refogar. Acertei o sal, um tico de açúcar, abri um vinho. Forrei a travessa com o molho, coloquei as rodelas de berinjela, cobri com mais molho, mozarela por cima, um pouco de parmesão também. Forno. Vinho. Manjericão. Comida na mesa. Casei com o irmão.

Nada é para sempre (pelo menos com esse não foi) e um dia eu me vi completamente apaixonada por um desconhecido. Um piquenique numa praça, de noite. Frio de junho, festa junina, eu acho. Cada um levava uma coisa. Ele ia. Ia ter fogueira. Eu saí do trabalho e levei pão, azeite, vinagre com alecrim, pimentas, orégano, berinjela e papel alumínio. Tudo comprado no mercado em frente, ali na hora. Até hoje ele nem desconfia. Ou desconfia? Não sei. Nunca tive coragem de dizer o que imaginava com ele. Tive um pouco de preguiça, também. Mas fiquei feliz quando ele parou a bicicleta exatamente em cima da minha. Ah, se ele soubesse. Se ele soubesse no que foi que pensei quando vi as duas bicicletas emparelhadas... Bom. Embrulhei as berinjelas com o papel alumínio e coloquei na fogueira. É complicado isso pra mim, confesso, estar a fim de alguém e saber a dose certa, a hora certa, a palavra certa. Vai ver eu sou tímida, quem diria. Pra não dar na cara, fico longe. Fico longe, mas não consigo tirar os olhos. Atrai, sabe? Já nos encontramos em outros piqueniques depois. Mas eu não acho que ele me dá bola. E eu não gosto de ouvir não. Então não pergunto nada. Mas naquele dia do piquenique, vê-lo lambendo os dedos depois de comer a berinjela que eu fiz me encheu de satisfação. Ah, se ele soubesse no que foi que eu pensei quando o vi lambendo os dedos... Tirei o papelote da fogueira, abri a berinjela ao meio. Tirei a polpa, misturei o azeite e o vinagre com especiarias, comemos com pão. Simples assim. Ele parado atrás de mim enquanto eu preparava a berinjela me dava mais calor do que a fogueira bem na minha frente. Mas eu acho que digo tudo com os olhos. Eu não queria que fosse assim, mas é assim que é. E se ele não me viu dizendo nada, bom... Que se há de fazer. Foi a berinjela mais gostosa que eu já fiz, assim sem nada.

Mas não foi a última. Como é a vida, não? Tem uma receita de antepasto de berinjela que eu fiz a vida toda que é assim: uma berinjela picada em quadradinhos, um pimentão verde, um vermelho e um amarelo, tudo em quadradinhos. Forno até murchar. Azeite, sal, geladeira, no dia seguinte fica melhor. Um dia uma amiga fez um antepasto que levava aceto balsâmico. Bem diferente do meu. Às vezes eu colocava uva passa, e o dela não tinha doçura nenhuma, era bem ácido. Uns meses depois eu fiquei com vontade de comer esse tal antepasto com aceto balsâmico. Não lembro bem a ordem das coisas qual foi, mas no finzinho do ano conheci uma moça e me apaixonei por ela. Bom, eu  sempre me apaixono pelas pessoas, homens ou mulheres. Só que dessa vez a paixão extrapolou a noção de admiração, era paixão mesmo. Dessas que eu só tinha sentido por homens. Passamos o ano novo junto. Eu dizia assim, junto. Ela dizia ficamos juntas. Eu achava esquisitíssimo. Ficamos juntas pra mim soava militância. E eu não queria militar, amar uma mulher já era novidade o suficiente. Acho que eu não queria mesmo era ver que sim, eu estava amando uma mulher. E eu amei. A dona do sorriso mais lindo que eu já vi. Foi com ela que eu descobri: amor é berinjela. Eu de pé no fogão, explicava: essa receita eu nunca fiz. Uma amiga fez, eu fiquei com vontade de comer de novo, então vou fazer pra gente hoje. Não sei se vai dar certo, pode ser que dê errado. Mas vou tentar mesmo assim. Ela sorriu e repetiu: é? Nunca fez? E vai tentar mesmo assim? É, era de amor que eu estava falando, não de berinjela. Insisti: cortei a berinjela em tiras finas.  Cortei uma cebola em tiras finas. Dourei a cebola no azeite, joguei as tiras de berinjela, um pouco de sal, açúcar mascavo, deixei refogando. No fim coloquei algo como um terço de xícara de aceto balsâmico. A berinjela ficou bem escura, desmanchando, como a que eu tinha comido. Coloquei mais azeite depois de esfriar. O resto eu não vou contar. Mas saibam disso: amor é berinjela. A gente vai tentando, mesmo sem nunca ter feito antes. Mesmo tendo feito tantas outras vezes antes. Nunca fica igual - sempre melhor.
toda vez que vejo o mar, lembro que meu ex-marido disse a uma amiga que ele teve que ir embora por que não dava conta de mim. segundo ele, eu sou uma força da natureza. bom, eu encaro como um elogio. e vendo agora a atual mulher dele, é impossível não reparar: ela fala baixo, é magrinha, educada, usa sempre roupas sóbrias de cores escuras. eu sou essa pessoa que cês tão acostumados (ou não): opulenta, que fala alto, usa vestido vermelho de bolinha com decote generoso e fenda até o meio da coxa, deixa o filho com cheiro de baba quando se despede, ri mostrando todos os dentes, anda cantando na rua e dando bom dia a desconhecidos. o que eu fico pensando é: como a gente pode casar tão errado? e mesmo sendo tão diferentes assim, como um filho pode dar tão certo? enfim. acho mesmo muito engraçado. 
é nesses dias assim que eu sinto uma vontade incontrolável de chorar, de pintar paredes e ouvir carlos gardel ou edith piaff. às veze me sinto tão ridícula. com tanta coisa pra fazer, olho pras paredes e nada mais importa, senão pintar paredes. e eu tenho isso desde sempre. desde criança. é que minha mãe não deixava, não tinha como pintar parede nenhuma. mas agora, adulta, com paredes disponíveis e tinta à mão, quando tudo parece insolúvel, eu largo tudo e vou pintar uma parede qualquer. eu fico pensando, mas que pessoa bizarra eu sou. tenho vontade de rir de mim mesma, imagine, largar tudo para passar os próximos dois dias pintando uma parede. pintando uma parede! virei motivo de chacota, e os mais próximos (que já sacaram minha bizarrice) me alertam (claro, em tom de deboche): só não vai me pintar nenhuma parede, hein? mas vejam bem, quem nunca passa por momentos de desatina de quando em vez? meu momento de desatino eu atravesso assim, cansando o corpo e arrumando a casa. muito sintomático do que representa a casa para mim, meu exoesqueleto. mas não, não vou pintar paredes. da última vez, pintei uma parede do meu quarto num tom de lilás. nem gosto muito de lilás, mas ficou bom mesmo assim. jurei pra mim mesma que era a última vez que levava a cabo tal sandice. então não vou pintar nenhuma parede. mas que dá vontade, céus, como dá.
aquela minha terapeuta, mais maluca que a paciente que vos escreve, disse uma vez, quase como se me jogasse uma batata quente nas mãos: tua mãe te ensinou a odiar os homens. eu fiquei muito brava, ninguém fala mal da minha mãe. minha mãe é a melhor mãe que eu poderia ter tido, é a melhor mãe do mundo. e ralou tanto com o pai que eu tenho, pra trinta anos depois vir uma terapeuta e me dizer que minha mãe me ensinou a odiar os homens. se eu odeio os homens, o mérito é todo deles. ora, a gente cresce numa cidade em que só os homens tem alguma chance de futuro. a gente vai à igreja, e se vc for mulher, não tem o direito sequer de tocar um instrumento que não seja o órgão: uma orquestra inteira para os homens, um só órgão para as mulheres. instrumento de dominação, claro. ficam lá as mulheres de picuinha, se revezando e se odiando por dentro, sim, a vaidade de ser organista é feroz. porque é para poucas. sabemos bem como funciona essa lógica do "para poucos". sabemos, não sabemos? talvez a igreja tenha me ensinado a odiar os homens. os homens com seus ternos no púlpito, no púlpito a mulher só sobe se for para encerar a tribuna. eu encerava a tribuna do ancião quando minha avó deixava. encerava os bancos da igreja. quase posso sentir o cheiro da madeira escura. o cheiro da igreja do bairro que eu não lembro o nome, tinha cheiro de naftalina com chuva e barro. às vezes tenho vontade de visitar esses lugares, pra ver como está agora. o tanque de batismo. o medo de entrar no banheiro sozinha - quantos exorcismos já aconteceram lá? não me lembro do demônio fazendo escândalo no banheiro masculino. só as mulheres, essas histéricas, dão passagem aos seres de baixa frequência. meu pai, sem dúvida, me ensinou a odiar os homens. desde pequena. mas e daí, não é? a gente cresce e descobre que não é lá muito melhor do que nosso próprio algoz. e tudo bem. paz-deus, minha mãe disse. a me lembrar de onde vim. não precisa, eu lembro bem. lembro bem que não concordo com quase nada. e isso não é culpa sua.