quinta-feira, 24 de junho de 2010
domingo, 20 de junho de 2010
quarta-feira, 16 de junho de 2010
Suruba
Mas veja, eu não gosto nem um pouco de gente sem imaginação. Não que eu me julgue lá muito criativa, não é disso que se trata, entende? É que gente sem imaginação parece que se reproduz mais fácil e mais rápido que gente com imaginação, por que o mundo tá cheio de gente apática. Blergh! Dedo na garganta pra vocês. Eu não tenho nada pra narrar que não seja eu mesma. E eu mesma não tem lá muita graça. Então eu invento. Tudo bem tudo. Tudo bem tudo. É isso: tudo se for bom, neca se for ruim. É, eu gosto de viver em grupo. Em bando. Em dupla. Em trio. Em quartetos, quintetos, sextetos, nonetos. Promíscua? Não. Apaixonada. Apaixonada, sim. Pela vida. Que ser nós somos? Eu sei que ele acha ruim que uma mulher se exponha como eu me exponho. Assim como minha mãe, meu pai, meus avós, e todas as outras pessoas conservadoras que eu conheço. Se tem uma coisa que eu ouvi nessa minha vida foi: "nossa! como vc tem coragem de se expor assim?".
Olha, eu não sei. Não sei o que é que acontece, quando eu vejo tá todo mundo olhando pra mim. E eu estou vestida, não estou bêbada nem falando palavrão.
Estou apenas sendo. Sendo eu. Sendo como eu acho que eu sou. Como eu acho que devo ser. Cá comigo, eu e eu, entende? Ah, ele também me disse pra ser concisa. "A síntese é fundamental". Enfia tua síntese no cú. Eu sou rococó. Eu sou barroca. Retorcidamente boa, retorcidamente má. Alegria e tristeza. Maniqueísta? Não. Promíscua. Nesse caso sim. E é tanta promiscuidade, mas tanta, que tudo se embaralha, e não dá mais pra ver o que é braço, o que é perna, o que é mão, o que é cabeça. Isso me soa contraditório, a bem da verdade. Se gosto tanto de viver em bando, por que também gosto tanto de eu com eu mesma? A ponto de não ter medo de me abrir, de ser inteira, de me "expor". Eu me exponho. Sem medo de retaliações. Mas as retaliações sempre vem, e nem por isso eu resolvo me fechar. A ponto de vomitar tudo isso aqui, e publicar. Deixar que os outros leiam. A troco de que eu faço isso?
Bem, como eu disse, eu não tenho nada de interessante para narrar senão eu mesma. Então eu me narro. Mas como eu também já disse, eu mesma não sou lá muito interessante. Então eu invento. Me invento. Cuidado.
Olha, eu não sei. Não sei o que é que acontece, quando eu vejo tá todo mundo olhando pra mim. E eu estou vestida, não estou bêbada nem falando palavrão.
Estou apenas sendo. Sendo eu. Sendo como eu acho que eu sou. Como eu acho que devo ser. Cá comigo, eu e eu, entende? Ah, ele também me disse pra ser concisa. "A síntese é fundamental". Enfia tua síntese no cú. Eu sou rococó. Eu sou barroca. Retorcidamente boa, retorcidamente má. Alegria e tristeza. Maniqueísta? Não. Promíscua. Nesse caso sim. E é tanta promiscuidade, mas tanta, que tudo se embaralha, e não dá mais pra ver o que é braço, o que é perna, o que é mão, o que é cabeça. Isso me soa contraditório, a bem da verdade. Se gosto tanto de viver em bando, por que também gosto tanto de eu com eu mesma? A ponto de não ter medo de me abrir, de ser inteira, de me "expor". Eu me exponho. Sem medo de retaliações. Mas as retaliações sempre vem, e nem por isso eu resolvo me fechar. A ponto de vomitar tudo isso aqui, e publicar. Deixar que os outros leiam. A troco de que eu faço isso?
Bem, como eu disse, eu não tenho nada de interessante para narrar senão eu mesma. Então eu me narro. Mas como eu também já disse, eu mesma não sou lá muito interessante. Então eu invento. Me invento. Cuidado.
terça-feira, 15 de junho de 2010
Na copa
Foi no jogo de estréia da seleção. Brasil versus Coréia do Norte. Assistiu com eles os vinte primeiros minutos de jogo, mas logo foi para a cozinha terminar de preparar a janta. Comprou milho em conserva para por no empadão de frango que ia fazer (era o que ele mais gostava de comer, e o que ela fazia melhor), mas se lembrou que tinha milho fresco na geladeira. Resolveu cozinhá-los. Abasteceu as cumbucas com amendoim, tirou as cervejas do freezer para que não congelassem, levou as iscas de carne quentinhas para que se servissem.
-Alguém quer mais cerveja?
-Eu.
-Eu.
-E eu.
-Você não, João?
-Não, obrigada.
Esse João era o mais estranho dos amigos dele. Mas ela adorava ver a casa cheia, não se importava que um outro fossem um pouco estranhos.
Desfiou o frango, fez o molho de tomate, picou o cheiro verde, e a panela com o milho começou a pegar pressão. tchq-tchq-tchq-tchq-thcq-tchhhhhhhhhq-tchq-tchq.
-Mãe, que barulho é esse agora?
-Ah, estou cozinhando milho pro empadão, filho.
-Agora é hora, mãe?
-Ué, por que não?
-Por que tá atrapalhando, mãe, desliga essa droga aí.
-Ah, desculpa, só mais dez minutinhos e já tá pronto, filho.
O João levantou, levou a senhora pra cozinha, pegou no seu braço e falou:
-Se ele mandou desligar, desliga.
Segurou ela pelo cabelo e enfiou a cara na panela de molho de tomate.
Pegou a faca suja de franco e deu uma estocada no abdomen. A panela de pressão caiu no chão e explodiu. E ninguém ouviu ela gritando. Foi gol do Brasil. Pelo Maicon, no começo do segundo tempo.
João voltou para a sala com mais quatro cervejas nas mãos. E uma mancha vermelha na camisa, que ninguém viu se era sangue ou molho de tomate.
-Alguém quer mais cerveja?
-Eu.
-Eu.
-E eu.
-Você não, João?
-Não, obrigada.
Esse João era o mais estranho dos amigos dele. Mas ela adorava ver a casa cheia, não se importava que um outro fossem um pouco estranhos.
Desfiou o frango, fez o molho de tomate, picou o cheiro verde, e a panela com o milho começou a pegar pressão. tchq-tchq-tchq-tchq-thcq-tchhhhhhhhhq-tchq-tchq.
-Mãe, que barulho é esse agora?
-Ah, estou cozinhando milho pro empadão, filho.
-Agora é hora, mãe?
-Ué, por que não?
-Por que tá atrapalhando, mãe, desliga essa droga aí.
-Ah, desculpa, só mais dez minutinhos e já tá pronto, filho.
O João levantou, levou a senhora pra cozinha, pegou no seu braço e falou:
-Se ele mandou desligar, desliga.
Segurou ela pelo cabelo e enfiou a cara na panela de molho de tomate.
Pegou a faca suja de franco e deu uma estocada no abdomen. A panela de pressão caiu no chão e explodiu. E ninguém ouviu ela gritando. Foi gol do Brasil. Pelo Maicon, no começo do segundo tempo.
João voltou para a sala com mais quatro cervejas nas mãos. E uma mancha vermelha na camisa, que ninguém viu se era sangue ou molho de tomate.
segunda-feira, 14 de junho de 2010
Do ser
Desde pequeno é assim. Na primeira vista, é bonzinho, doce, cordial, simpático até. Mas é só no começo. Depois não sei, as coisas ficam estranhas. Ele não é bonzinho. Ele não é doce. Nem cordial, nem simpático, nem nada. Ele não tem muitos amigos. Quatro? Três... Dois? Sua mãe e sua irmã, as mais duras algozes: ainda escuta em flashback as verdades sobre si mesmo. Essas que ninguém gosta de escutar - saia da sua bolha, você é egoísta, você é arrogante, você vai ficar sozinho. Você vai ficar sozinho. Primeiro foi o "melhor amigo", ainda na adolescência. Nunca entendeu muito bem por que, mas tinha algo a ver com o excesso de loucura. Mas ele não se achava louco, só achava que tinha um senso de humor diferente das pessoas com quem convivia. Ele lia muito (por que era muito sozinho), e era muito impressionável. O que ele lia tinha a mesma dimensão das coisas da vida real. Mas ele só se deu conta disso bem mais tarde. E sofria por que não podia reescrever os caminhos que a vida tomava. Se podia, não sabia como, o que era a mesma coisa que não poder. Talvez fosse louco mesmo. Depois, um amigo que se afastou. Também tinha algo a ver com o excesso de loucura, e também o excesso de malice. Ele é chato. Sempre teve problemas no trabalho. Começava uma coisa, desistia, começava outra, implicava com alguém e desistia, por isso ele acha que o melhor é trabalhar sozinho mesmo. O detalhe, que ele parece nem suspeitar, é que não há como trabalhar sozinho. A menos que comece a falsificar dinheiro. Talvez a contravensão seja mesmo o melhor caminho para ele. Por que a contravensão é para os solitários. Os inadequados. E ele era exatamente um inadequado. Assim como existe o não-lugar, ele é uma não-pessoa. Não consegue se relacionar com todos de maneira harmoniosa. Só com poucos, muito pacientes, que o toleram apesar da sua não-existência. Ah, que baboseira. Antes fosse mesmo uma não-existência. Mas não, ele existe, ele realmente existe. E não se sabe por que, mas faz questão de existir. Faz questão de estar presente. De comparecer. Quer dizer, não sei se de fato existe esse "fazer questão". Talvez não seja uma questão de fazer questão, talvez ele seja só intrometido. Talvez ele não saiba qual é o seu lugar afinal. Como julgá-lo? Nós sabemos? Sei que às vezes ele se sente como quem tem como lugar os sete palmos abaixo da terra. Às vezes ele quer morrer. Para que as pessoas não o mandem mais para a puta que o pariu, para que as pessoas não o chamem mais de louco, de chato, de mala. Bem, eu lhe digo que para isso não é preciso morrer. Basta se conter. E ele me diz que não consegue se conter. E eu lhe digo, então você vai continuar sofrendo.
E ele me diz que eu, assim, como tdos os outros, não o entendo; eu concordo. E peço desculpas. Me desculpe por não entendê-lo. Vou me esforçar mais. E ele fica bravo comigo, achando que estou sendo irônica. Mas não estou.
Enfim... Até a mulher o largou. Agora está fazendo terapia. Mas no quesito "social", ele não melhorou muito não. É um estranho. Causou estranhamento desde pequeno. Na escola era o estranho. Na faculdade era o velho estranho. E na vida... ainda é um ser estranho. Eu torço por ele.
Já falei que ele tem um filho? Pois tem. E adivinhem seu maior temor: o dia em que o filho descobrir que ele é um puta chato maluco e resolver dar no pé. É... Dias tristes ainda virão.
Talvez eu esteja sendo muita dura, talvez eu esteja sendo muito condescendente. Não sei. Por que ao longo da vida toda, quantas pessoas passam pela nossa vida, e de quantas nos aproximamos mais ou menos? Quantas pessoas importantes para nós são sumariamente limadas da nossa convivência, por um motivo ou outro? Sei que em alguns dias a tristeza dele me atinge em cheio. E não há o que eu possa dizer para acalmá-lo. Para ajudá-lo. Não sei se ele precisa de ajuda, ou de uns tapas na bunda. Não sei. Ele pensa em se mudar de cidade. Para fugir mesmo. Como quando saiu da cidade em que nasceu. Fugido, também, com a esperança de que na terra de malucos que é São Paulo, a loucura dele pudesse passar incógnita. Não adiantou. Ainda o chamam de louco. Até mesmo os loucos o chamam de louco. Não se sabe por que, mas a sua loucura não pode ser. Se sente quase tão repugnante com sua loucura como o homem que vive internado num sanatório. Eu digo não fuja, fique. Ele diz fico, mas sofro. Eu digo não sofra. Ele não me diz nada. Pegou seu livro, enfiou embaixo do braço, e foi embora. Ele com sua loucura. Com seu mundo paralelo. Com seu egoísmo, talvez? Acho que não. Ele é doce. Mas é um doce de limão. Alguns gostam. Muitos não.
E ele me diz que eu, assim, como tdos os outros, não o entendo; eu concordo. E peço desculpas. Me desculpe por não entendê-lo. Vou me esforçar mais. E ele fica bravo comigo, achando que estou sendo irônica. Mas não estou.
Enfim... Até a mulher o largou. Agora está fazendo terapia. Mas no quesito "social", ele não melhorou muito não. É um estranho. Causou estranhamento desde pequeno. Na escola era o estranho. Na faculdade era o velho estranho. E na vida... ainda é um ser estranho. Eu torço por ele.
Já falei que ele tem um filho? Pois tem. E adivinhem seu maior temor: o dia em que o filho descobrir que ele é um puta chato maluco e resolver dar no pé. É... Dias tristes ainda virão.
Talvez eu esteja sendo muita dura, talvez eu esteja sendo muito condescendente. Não sei. Por que ao longo da vida toda, quantas pessoas passam pela nossa vida, e de quantas nos aproximamos mais ou menos? Quantas pessoas importantes para nós são sumariamente limadas da nossa convivência, por um motivo ou outro? Sei que em alguns dias a tristeza dele me atinge em cheio. E não há o que eu possa dizer para acalmá-lo. Para ajudá-lo. Não sei se ele precisa de ajuda, ou de uns tapas na bunda. Não sei. Ele pensa em se mudar de cidade. Para fugir mesmo. Como quando saiu da cidade em que nasceu. Fugido, também, com a esperança de que na terra de malucos que é São Paulo, a loucura dele pudesse passar incógnita. Não adiantou. Ainda o chamam de louco. Até mesmo os loucos o chamam de louco. Não se sabe por que, mas a sua loucura não pode ser. Se sente quase tão repugnante com sua loucura como o homem que vive internado num sanatório. Eu digo não fuja, fique. Ele diz fico, mas sofro. Eu digo não sofra. Ele não me diz nada. Pegou seu livro, enfiou embaixo do braço, e foi embora. Ele com sua loucura. Com seu mundo paralelo. Com seu egoísmo, talvez? Acho que não. Ele é doce. Mas é um doce de limão. Alguns gostam. Muitos não.
sexta-feira, 11 de junho de 2010
fátima fez os pés para mostrar na choperia e priscila fez as mãs para lavar a louça da pia. baratas sabem nadar? debaixo do prato, uma barata morta, baratas não devem saber nadar então. morreu. tiro a barata com as mãos, não tenho nojo, as antenas ainda se mexem, da louça suja eu tenho nojo, da barata morta não. não. morreu. vejo uma outra subindo a parede, uma terceira perto do pé do fogão, a casa está cheia de baratas, a casa está cheia de teias de aranha, a casa está cheia de aranhas, a casa está cheia de cupins, a casa está cheia de ratos, a casa está cheia... vazia. pus botas, não devia ter posto essas botas, se alguma barata entrar na bota vai ser difícil tirar, arrepio, imagino as baratas andando em mim como andam pela casa, eu não sou essa casa, elas sabem a diferença? abro a porta do quintal, saio rápido, o mato cresceu, o velho morreu, o gato fugiu, as flores se abriram. estão mais bonitas agora. choveu. cheira terra molhada. melhor que o cheiro de podre lá de dentro. fumo um cigarro, tiro o mato, não quero voltar, mas já vão chegar. pelo menos a louça. levo tudo para um canto do quintal. depois vou trazer um saco pra jogar fora, não adianta lavar, por mais bonitas que já tenham sido um dia. não adianta varrer, não adianta limpar, eles já vão chegar, não vai dar tempo mesmo. foda-se. podiam muito bem vir amanhã, mas não, temos que estar presente neste momento tão triste. eu preferia que estivessem presentes nos momentos felizes, mas não, só momentos tristes unem. se eles viessem amanhã eu limpava a casa, arrumava tudo, ainda fazia um bolo, o preferido dele, pra ele saber que eu ainda me importo. mas agora é tarde, agora não dá mais tempo, eles quiseram vir hoje, ele quis ficar com ela, ele preferiu ela, claro, todo mundo preferiu ela. mas ela não pode te dar nenhum dos dois filhos que você disse que queria ter, nem um menino, nem uma menina. ela. eu não tenho os olhos azuis que ela tem, mas eu posso te dar quantos filhos você quiser. filhos, quem é louco de querer ter filhos? eu sou. você é. mas ela não, não quer nem adotar, senão não vai conseguir viajar a trabalho, foda-se ela, babaquinha, foda-se você, lambedor de babaquinha. fodam-se os dois. foda-se essa casa, foda-se o velho que fugiu e o gato que morreu. a barata que floriu, a planta que morreu, fodam-se. fico, vou, saio, entro, vou embora. sorriso amarelo da vizinha, volto, tropeço, chamo a dedetização. hoje é domingo, chama, chama, ninguém atende. hoje é domingo, ninguém vai te atender. ninguém vai te entender. enfio as mãos nos bolsos. uma coisa dura se mexe. não falei que elas iam andar em mim? não, eu não falei, não tem ninguém aqui com quem falar, tem a vizinha, mas vou falar o quê? ela não deixa ninguém falar, o seu pai era um velho sem vergonha, ficava me espionando pela janela enquanto eu trocava de roupa. quem manda ser gostosa, dona amélia? ah vá, é mais desajuizada que o pai. ela é engraçada até. tem uma mulher olhando com um casaco muito feio, tirou o tecido do sofá de 1970 e fez o casaco. que foi, quer comprar? daqui a pouco eles põem à venda. eu não vou ficar com nada, sou filha bastarda, tudo é deles, por isso ele não me quis. parecia incestuoso. mas não somos irmãos. mas crescemos juntos, é estranho. mas não foi estranho quando vc me comeu, foi? foi. desculpe, mas foi. mas eu amo você, e você disse que me amava. mas não pode, priscila. ok. dez anos? onze anos? parei de contar. mas ainda me importo. foda-se.
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