segunda-feira, 14 de junho de 2010

Do ser

Desde pequeno é assim. Na primeira vista, é bonzinho, doce, cordial, simpático até. Mas é só no começo. Depois não sei, as coisas ficam estranhas. Ele não é bonzinho. Ele não é doce. Nem cordial, nem simpático, nem nada. Ele não tem muitos amigos. Quatro? Três... Dois? Sua mãe e sua irmã, as mais duras algozes: ainda escuta em flashback as verdades sobre si mesmo. Essas que ninguém gosta de escutar - saia da sua bolha, você é egoísta, você é arrogante, você vai ficar sozinho. Você vai ficar sozinho. Primeiro foi o "melhor amigo", ainda na adolescência. Nunca entendeu muito bem por que, mas tinha algo a ver com o excesso de loucura. Mas ele não se achava louco, só achava que tinha um senso de humor diferente das pessoas com quem convivia. Ele lia muito (por que era muito sozinho), e era muito impressionável. O que ele lia tinha a mesma dimensão das coisas da vida real. Mas ele só se deu conta disso bem mais tarde. E sofria por que não podia reescrever os caminhos que a vida tomava. Se podia, não sabia como, o que era a mesma coisa que não poder. Talvez fosse louco mesmo. Depois, um amigo que se afastou. Também tinha algo a ver com o excesso de loucura, e também o excesso de malice. Ele é chato. Sempre teve problemas no trabalho. Começava uma coisa, desistia, começava outra, implicava com alguém e desistia, por isso ele acha que o melhor é trabalhar sozinho mesmo. O detalhe, que ele parece nem suspeitar, é que não há como trabalhar sozinho. A menos que comece a falsificar dinheiro. Talvez a contravensão seja mesmo o melhor caminho para ele. Por que a contravensão é para os solitários. Os inadequados. E ele era exatamente um inadequado. Assim como existe o não-lugar, ele é uma não-pessoa. Não consegue se relacionar com todos de maneira harmoniosa. Só com poucos, muito pacientes, que o toleram apesar da sua não-existência. Ah, que baboseira. Antes fosse mesmo uma não-existência. Mas não, ele existe, ele realmente existe. E não se sabe por que, mas faz questão de existir. Faz questão de estar presente. De comparecer. Quer dizer, não sei se de fato existe esse "fazer questão". Talvez não seja uma questão de fazer questão, talvez ele seja só intrometido. Talvez ele não saiba qual é o seu lugar afinal. Como julgá-lo? Nós sabemos? Sei que às vezes ele se sente como quem tem como lugar os sete palmos abaixo da terra. Às vezes ele quer morrer. Para que as pessoas não o mandem mais para a puta que o pariu, para que as pessoas não o chamem mais de louco, de chato, de mala. Bem, eu lhe digo que para isso não é preciso morrer. Basta se conter. E ele me diz que não consegue se conter. E eu lhe digo, então você vai continuar sofrendo.
E ele me diz que eu, assim, como tdos os outros, não o entendo; eu concordo. E peço desculpas. Me desculpe por não entendê-lo. Vou me esforçar mais. E ele fica bravo comigo, achando que estou sendo irônica. Mas não estou.
Enfim... Até a mulher o largou. Agora está fazendo terapia. Mas no quesito "social", ele não melhorou muito não. É um estranho. Causou estranhamento desde pequeno. Na escola era o estranho. Na faculdade era o velho estranho. E na vida... ainda é um ser estranho. Eu torço por ele.
Já falei que ele tem um filho? Pois tem. E adivinhem seu maior temor: o dia em que o filho descobrir que ele é um puta chato maluco e resolver dar no pé. É... Dias tristes ainda virão.
Talvez eu esteja sendo muita dura, talvez eu esteja sendo muito condescendente. Não sei. Por que ao longo da vida toda, quantas pessoas passam pela nossa vida, e de quantas nos aproximamos mais ou menos? Quantas pessoas importantes para nós são sumariamente limadas da nossa convivência, por um motivo ou outro? Sei que em alguns dias a tristeza dele me atinge em cheio. E não há o que eu possa dizer para acalmá-lo. Para ajudá-lo. Não sei se ele precisa de ajuda, ou de uns tapas na bunda. Não sei. Ele pensa em se mudar de cidade. Para fugir mesmo. Como quando saiu da cidade em que nasceu. Fugido, também, com a esperança de que na terra de malucos que é São Paulo, a loucura dele pudesse passar incógnita. Não adiantou. Ainda o chamam de louco. Até mesmo os loucos o chamam de louco. Não se sabe por que, mas a sua loucura não pode ser. Se sente quase tão repugnante com sua loucura como o homem que vive internado num sanatório. Eu digo não fuja, fique. Ele diz fico, mas sofro. Eu digo não sofra. Ele não me diz nada. Pegou seu livro, enfiou embaixo do braço, e foi embora. Ele com sua loucura. Com seu mundo paralelo. Com seu egoísmo, talvez? Acho que não. Ele é doce. Mas é um doce de limão. Alguns gostam. Muitos não.

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