sexta-feira, 11 de junho de 2010
fátima fez os pés para mostrar na choperia e priscila fez as mãs para lavar a louça da pia. baratas sabem nadar? debaixo do prato, uma barata morta, baratas não devem saber nadar então. morreu. tiro a barata com as mãos, não tenho nojo, as antenas ainda se mexem, da louça suja eu tenho nojo, da barata morta não. não. morreu. vejo uma outra subindo a parede, uma terceira perto do pé do fogão, a casa está cheia de baratas, a casa está cheia de teias de aranha, a casa está cheia de aranhas, a casa está cheia de cupins, a casa está cheia de ratos, a casa está cheia... vazia. pus botas, não devia ter posto essas botas, se alguma barata entrar na bota vai ser difícil tirar, arrepio, imagino as baratas andando em mim como andam pela casa, eu não sou essa casa, elas sabem a diferença? abro a porta do quintal, saio rápido, o mato cresceu, o velho morreu, o gato fugiu, as flores se abriram. estão mais bonitas agora. choveu. cheira terra molhada. melhor que o cheiro de podre lá de dentro. fumo um cigarro, tiro o mato, não quero voltar, mas já vão chegar. pelo menos a louça. levo tudo para um canto do quintal. depois vou trazer um saco pra jogar fora, não adianta lavar, por mais bonitas que já tenham sido um dia. não adianta varrer, não adianta limpar, eles já vão chegar, não vai dar tempo mesmo. foda-se. podiam muito bem vir amanhã, mas não, temos que estar presente neste momento tão triste. eu preferia que estivessem presentes nos momentos felizes, mas não, só momentos tristes unem. se eles viessem amanhã eu limpava a casa, arrumava tudo, ainda fazia um bolo, o preferido dele, pra ele saber que eu ainda me importo. mas agora é tarde, agora não dá mais tempo, eles quiseram vir hoje, ele quis ficar com ela, ele preferiu ela, claro, todo mundo preferiu ela. mas ela não pode te dar nenhum dos dois filhos que você disse que queria ter, nem um menino, nem uma menina. ela. eu não tenho os olhos azuis que ela tem, mas eu posso te dar quantos filhos você quiser. filhos, quem é louco de querer ter filhos? eu sou. você é. mas ela não, não quer nem adotar, senão não vai conseguir viajar a trabalho, foda-se ela, babaquinha, foda-se você, lambedor de babaquinha. fodam-se os dois. foda-se essa casa, foda-se o velho que fugiu e o gato que morreu. a barata que floriu, a planta que morreu, fodam-se. fico, vou, saio, entro, vou embora. sorriso amarelo da vizinha, volto, tropeço, chamo a dedetização. hoje é domingo, chama, chama, ninguém atende. hoje é domingo, ninguém vai te atender. ninguém vai te entender. enfio as mãos nos bolsos. uma coisa dura se mexe. não falei que elas iam andar em mim? não, eu não falei, não tem ninguém aqui com quem falar, tem a vizinha, mas vou falar o quê? ela não deixa ninguém falar, o seu pai era um velho sem vergonha, ficava me espionando pela janela enquanto eu trocava de roupa. quem manda ser gostosa, dona amélia? ah vá, é mais desajuizada que o pai. ela é engraçada até. tem uma mulher olhando com um casaco muito feio, tirou o tecido do sofá de 1970 e fez o casaco. que foi, quer comprar? daqui a pouco eles põem à venda. eu não vou ficar com nada, sou filha bastarda, tudo é deles, por isso ele não me quis. parecia incestuoso. mas não somos irmãos. mas crescemos juntos, é estranho. mas não foi estranho quando vc me comeu, foi? foi. desculpe, mas foi. mas eu amo você, e você disse que me amava. mas não pode, priscila. ok. dez anos? onze anos? parei de contar. mas ainda me importo. foda-se.
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