o jardim quebrado com as pedras expostas a me lembrar das minhas próprias pedras, internas, por hora também reviradas ao ar livre. o subterrâneo, decomposto e exposto, me traz à superfície; me traga para a profundeza. eu: dois. é preciso terminar logo a reforma do que vai ser um jardim. pra ser só grama, flor, passarinho, cadeiras ao sol. sem pedras. sem pedras.
por hora. que mentira.
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
eu vejo minhas amigas pedindo por um amor. eu também já disse qualquer coisa parecida. mas eu não queria um amor. amor é pouco. eu queria era uma catarse, uma reviravolta, como chama mesmo, na estrutura da novela, o ponto de virada na vida de uma heroína?
tenho certeza de que o que o incomodava eram os sapatos apertados. já não bastava trabalhar de pé o tempo todo, com terno e gravata neste calor dos trópicos, cuidando da segurança de gente que nem de longe lembrava a sua, ainda precisava usar aqueles sapatos. a cunhada comprou numa promoção, olha, zé, pra você ir pro seu trabalho novo. se pelo menos desse pra trocar, esses bico-fino maldito tão me mastigando os dedos, mas sapato da liquidação não trocamos, senhor. melhor que sapato furado nesse dia de chuva, então vai assim mesmo. dia que não acaba, chegar em casa e tirar os sapatos. procurar outro emprego, esse não vai dar.
não, não é epifania. epifania é outra coisa, é quando se dá um momento de descoberta.
- outra stelinha?
- por favor.
- moça, tem um cinzeiro bem aqui.
- nossa, desculpa moço, não vi.
carne de segunda cheia de nervo, cê sente mesmo tando moída, mal dá pra comer sem interromper a mastigada. comi um pouco na cozinha sem que o cozinheiro visse, preço de primeira, bando de trouxa pagando caro só pra dizer que comeu fora. e queria que trouxesse ela aqui, zé, me leva no restaurante chique que vc tá trabalhando? não é chique, dira, é só um restaurante na rua. é chique sim, zé! vai, me leva, nem que seja um vez só, com seu décimo terceiro, me leva? dira, eu acabei de entrar, cê já tá pensando no décimo terceiro? é, ué. a gente tem que pensar a longo prazo.
a longo prazo, a longo prazo eu queria ter pensando quando te conheci, mas não disse nada, melhor ficar quieto, te levo, dira, se eu chegar a um ano e o dono não encrespar, te levo.
vai chegar, meu amor! nesse você vai ficar! e saiu pra fazer as unhas de sei lá quem, ganha até mais que eu em dia de natal e ano novo, sem falar das formaturas, dos casamentos, dos encontros de casais com cristo, do raio que parta, e vem me falar do meu décimo terceiro.
se eu pelo menos lembrasse o autor, ficava mais fácil procurar. aristóteles? será? não era aristóteles. e o professor, em que aula eu vi isso? introdução aos estudos literários, com a... a... esqueci o nome da professora. ou foi em literatura brasileira II, com o hansen? pode ser. procurar as anotações LBII.
yudith. o nome da professora era youdith. mas não foi com ela.
sexta-feira, 4 de maio de 2012
parei tudo o que estava fazendo. larguei mão, deixei pra lá, desencanei do tempo, pouco. depois limpei a mesa maior. fui empilhando cada coisa: o que já está quase pronto, o que ainda está só cortado, roll bag, alforje, bolsa de guidão, resto de tecido que ainda dá pra aproveitar, lona, nylon, algodão, plásticos. enchi a mesa de pequenos montes. esvaziei as caixas, esvaziei os lixos, arrumei a mesa de dentro. guardei os retalhos de couro, os zíperes, os botões, as garras, as fitas de nylon, os rolos de velcro e de viés. tirei tudo o que não era do ateliê. blusas, brinquedos, copos, coisas que já estavam prontas. depois tirei o pó das mesas e limpei as máquinas. voltei para as prateleiras os montes organizados. coloquei as cadeiras para o alto, arrastei as mesas e varri muito bem varrido o chão da oficina e uma parte do quintal. depois voltei tudo para o lugar. olhando agora, tudo faz sentido. eu sei exatamente o que devo fazer e por onde tenho que começar. nada como uma faxina.
quarta-feira, 2 de maio de 2012
fui na oficina de uma das costureiras, uma que eu não via há 3 anos.
tudo bem, tudo bem, nossa, priscila, como vc tá diferente.
é?
é...
parari, parará, preciso que faça assim, assado, e ela me olhando fixamente: mas vc tá muito diferente mesmo.
é? vai ver é o cabelo, eu fico com preguiça de pintar, a tinta velha desbota e eu fico meio grisalha, meio ruiva, meio castanha.
hum.
parari, parará, então amanhã eu trago tudo cortado e...
cê tá muito diferente mesmo.
nossa senhora, três vezes cê já me disse isso, eu fiquei com vontade de falar.
mas depois ela emendou: cê tá bem mais mulher.
hum. é que agora eu sou solteira, eu pensei. mas não falei nada, que mais uma costureira me dizendo que eu sou muito nova pra não ter namorado eu não aguento. são os trinta anos que se aproximam.
terça-feira, 1 de maio de 2012
futuro do pretérito
e o tempo se mostrou um grande causador de intrigas: a mim, dizia: insista mais um pouco. ainda há tempo. a ela, que o tempo já era passado, e que nada mais tinha jeito de ser, no de novo. e assim o tempo intrigueiro foi passando, passando, até que foi-se de vez embora pra longe, criar outras intrigas em outras histórias, com outros personagens. na divisão dos bens, ela ficou com o pretérito perfeito. eu fiquei com o futuro do pretérito.
domingo, 29 de abril de 2012
não chora.
não. não choro. mas é o que eu faço de melhor. então sim, eu choro. choro por que não sei mais o que fazer, por que tenho medo de insistir e não dar conta depois, medo, choro basicamente por medo. uma besteira sem tamanho. concentre-se no presente, ele disse, e no presente tudo vai bem. mas eu fiz uma confusão tão grande. também não vejo muita vantagem quando alguém se vangloria por não chorar. outra bobagem. por que não chorar? a inflexibilidade. nunca diga a uma mulher louca onde vc mora, onde seus pais moram, onde sua avó mora. como saber se uma mulher é louca ou não? não tem como saber, de antemão. mas acredite quando te digo, todas são. sem exceção. todas as que são assim como eu, pelo menos. ela continua linda.
não. não choro. mas é o que eu faço de melhor. então sim, eu choro. choro por que não sei mais o que fazer, por que tenho medo de insistir e não dar conta depois, medo, choro basicamente por medo. uma besteira sem tamanho. concentre-se no presente, ele disse, e no presente tudo vai bem. mas eu fiz uma confusão tão grande. também não vejo muita vantagem quando alguém se vangloria por não chorar. outra bobagem. por que não chorar? a inflexibilidade. nunca diga a uma mulher louca onde vc mora, onde seus pais moram, onde sua avó mora. como saber se uma mulher é louca ou não? não tem como saber, de antemão. mas acredite quando te digo, todas são. sem exceção. todas as que são assim como eu, pelo menos. ela continua linda.
sexta-feira, 23 de março de 2012
um escândalo sem tamanho, eu queria poder dizer vem cá, meu bem, me dê um beijo, me abrace, amo tanto você. fica comigo pra sempre. mas nada se diz, nada se escuta, nada se faz. um sonda o outro. mas nada, mais nada. quem é ele, eu me pergunto. o vento bate com força, em breve voltaremos às echarpes, penduradas há meses, esperando o verão acabar. e logo passaremos às grossas blusas de lã, e só no fim do ano teremos roupas leves de novo. uma ansiedade sem fim, logo ao fim. nada é mais inevitável do que aquilo que nós mesmos provocamos. por isso a certeza. não me interessa se faz sentido, interessa... me interessa desinteressar. então eu fecho tudo, desligo o fogo, desisto de comer, apago as luzes, saio de casa.
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