sexta-feira, 23 de julho de 2010

Eu queria contar umas coisas

Tem uns caras que moram dentro de mim. Uns caras e umas mulheres também. Estão espalhados no corpo todo, uns no baço, outros nos pés, alguns nos pulsos. Hilda, por exemplo, está no fígado. Não sou eu que escolho onde vão ficar. Eles entram e se acomodam onde bem entendem. Atrás dos olhos está o Pessoa. A Clarice fica ora no esôfago, ora no estômago. Não pára quieta nunca. A Florbela está perto do pulso da mão esquerda. Adélia e Cecília dividem os pulmões. Drummond, esse anda mais que Clarice. Quando fui sentir, saiu, já foi. Talvez porque a morada dele seja o sangue. Ainda não descobri. No coração estão o Bandeira e o Quintana. Mas o que eu queria dizer mesmo, é que agora tem mais gente em mim. É uma mulher. E essa foi direto pro timo. Aquele orgão pequeno acima do coração, dizem que o verdadeiro responsável pelas sensações e emoções, dizem também que foi se atrofiando porque já não o usamos mais. Bom, eu acredito em timos. Essa moça, primeiro eu vi, depois eu li. E olha, demorei pra ler, viu? Quer dizer, demorei pra começar a ler, porque depois que comecei fui num tapa só. Depois voltei. E gostei de novo. E ela escreve de um jeito, que primeiro eu achei que fosse parar na garganta (depois de um tempo de observação, eu gosto de adivinhar onde é que vão procurar parada). Mas que nada, passou direto. Aí achei que fosse pras pontas dos dedos, não sei por que me ocorreu que talvez fosse um bom lugar. Mas que nada. Tá aqui no meu peito, perto do coração, um pouquinho mais pra direita e mais pra cima, dizem. Eu sei que está ali porque eu sinto latejando, sabe? É quente, e nos primeiros dias só isso me ocupa. Eu vou colocar um trecho pra vocês sentirem comigo.

Abismo

então, de repente, você teria se voltado para ela, perguntando das possibilidades de chuva e inundação. ela seguiria pisando os paralelepípedos emersos, sem perder o equilíbrio. e você quereria ouvir o que o futuro lhe reservava naquela noite.
depois de tomarem banho e conseguirem uma cama seca, sairiam - regressando pelo mesmo caminho, até avistarem o lugar morno e iluminado. sentariam junto à porta, pediriam vinho, peixe e pão, como num ritual.
quando a luz apagasse, vocês já teriam comido e relembrado coisas antigas, viagens recentes e desejos. a chuva cairia forte outra vez, refrescando o sufoco da noite.
cada traço do rosto dela estaria iluminado sob a luz dos relâmpagos. a cada clarão, um outro jeito a confundir seus gestos: de dor, de tristeza. ou uma alegria distante.
ela, por sua vez, veria apenas um contorno de corpo recortado contra o fundo da porta. lá fora ela veria o céu iluminado pelos raios, a torre da igreja, as telhas brilhando.
a cada pausa, ela teria outras formas de pedir descanso da loucura que estava sendo viver.
você, como sempre, perderia a paciência: ao invés de reparar na magia, sentiria um ódio quase incontrolável da situação. e aí, entre vocês, estaria instalado o abismo.

Não consegui escolher um trecho, só.

Não sei como conseguir escolher um, ente tantas possibilidades:

Paulics, V.

Vejam:
www.andoape.blogspot.com

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