segunda-feira, 1 de novembro de 2010

maria tem quase trinta anos.
desce a rua com fones, ouvindo another one bites the dust, do queen. gosta de queen. usa uma saia vermelha justa e curta que marca sua bunda, é gostosa. entra no bar em que trabalha, fala bom dia, pega o avental e se serve de um copo de café.
josé, seu colega de trabalho, chega junto e fala no ouvido:
- tá bonita hoje.
ela diz:
- obrigada, vc tb tá lindo nesse avental que já foi branco um dia. não vai lavar não?
josé fica bravo, chateado, diz:
- poxa, eu tenho futuro, apesar desse avental, sabe? eu tenho talento, a mulher que ficar comigo vai ser de muita sorte. eu sei cozinhar, eu lavo e passo minha roupa, que homem que sabe cozinhar? eu sou prendado, até já costurei uma barra de calça uma vez.
- isso não é talento, josé, isso é necessidade, quando casar vc esquece que sabe cozinhar, lavar, passar, esquece tudo. vai esquecer até de trepar, vc vai ver.
- ah, não, isso não se esquece. isso não. eu nunca vou deixar de comparecer pra minha esposa, nunca.
- a gente nunca sabe o futuro, josé.
- isso eu sei. de trepar eu não vou deixar nunca.
- limpa o cardápio pra mim?
- pra vc eu faço tudo, broto.
- broto é foda.
- foda vai ser eu e vc junto, broto.
- não vai ter foda com eu e vc junto, gato. toma, limpa a pimenta tb.
- mas eu vou fazer tudo pra vc?
- ué, não quer me comer? tem que trabalhar pra isso.
- mas por que vc não bota um preço logo em dinheiro?
- por que eu não sou prostituta, amor, nunca cobrei nada de ninguém. tô te pedindo um favor, só isso.
- se é assim, eu faço. mas por que vc não vai dar pra mim?
maria canta: "dá pra mim, o seu amor, dá pra mim"
- não é seu amor que eu quero, gata. é sua buceta.
- e assim vc tá muito perto de conseguir, continue assim.
- tô mesmo, jura?
- ô. se tá.
- vc tá me zoando.
- imagina!
maria começa a lavar a louça, josé limpa os cardápios em silêncio, reclamando de vez em quando.


maria desce a porta de ferro e caminha até o ponto de ônibus. josé se aproxima de moto, pergunta se ela quer carona.
- tô de saia.
- melhor ainda.
- deixa de ser bobo, tá tarde, eu quero ir embora.
- vem comigo.
- hoje não.
- hoje não quer dizer que outro dia sim?
- hoje não quer dizer hoje não.

maria acende um cigarro

- voltou a fumar?
- vai embora josé, meu ônibus já vai passar.
- vc um dia vai se arrepender.
- é? por que?
- porque meu pau é enorme e ia rachar vc no meio.
- suas cantadas são irresistíveis, nossa! preciso me segurar pra não dar pra vc.

joão vai embora bravo.

maria acorda no meio da noite. sai no quintal com uma coberta, deita no chão e fica olhando a lua. joão senta do seu lado,
- que foi?
- não sei, acordei.
- pesadelo?
- não.
- tá tudo bem?
- não.
- que foi?
- não sei. triseza, só.
- triseza, só? joão passa a mão no cabelo dela, ela tira a mão dele.
- não quer carinho?
- seu, não.
- ah é? de quem vc quer?
- de ninguém.
- vem dormir.
- daqui a pouco eu vou.

continua.

2 comentários:

  1. triseza deve ser tristeza. e se repete.
    não sei se perdi algum fluxo narrativo ou voce perdeu o nome do personagem que de josé virou joão depois de aparecer na moto e falar do pau enorme.
    beijo. saudade. de novo...

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  2. hahaha!
    são três, josé, maria e joão. primeiro eu escrevo e depois (um dia, quem sabe) eu releio e organizo. é que as compras ficam horas no chão da cozinha...
    saudade de novo tb!

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Pode falar, eu não ligo.