saudade de tudo e saudade de nada
saudade de andar pela cidade inteira e por lugar nenhum
saudade de ser surpreendida por uma chuva de verão
pelo menos era o que dizia quando chegava em casa completamente ensopada
não gosto dessa palavra
ensopada não
completamente molhada
molhada também não
a caminhada fazia com que a roupa fosse secando aos poucos
descabelada sim
tinha uma sandália de plástico
por isso nunca ficava com os sapatos encharcados
andava procurando
andava a procurar
não sei o que era que buscava
nem sei se já encontrei
sei que andei, e bastante
às vezes buscando, às vezes só andando
saudade do começo, nenhuma saudade do fim
que não é fim, é meio, por que ainda não acabou
é meio mas não é metade
por que ainda não se sabe o que é o inteiro
é outono ou inverno?
é agosto
daqui a pouco é setembro
daqui a pouco o ano acabou
daqui a pouco
acabou
e aí saberemos (ou não, talvez não haja tempo pra isso) o que é o inteiro e o que ficou pelo meio
anda por que não sabe se passa ou se fica
sabe que canta
mal
mas canta
a plenos pulmões
não é exatamente um canto, é um encanto
não por que encanta
mas por que é encantado
por que expulsa demônios muitos
exorciza diábolos
o coisa-ruim
o sem nome
o inominável
o impronunciável
o filho que por ter caído, tenho certeza que é também o mais querido
senão o mais querido, o mais invejado
mas eu não acredito mais nessas coisas
da minha infância cristã
eu não acredito mais nessas coisas, mas não me fale de Jesus se me vir embriagada
por que Jesus protege os bêbados, os loucos e as criancinhas
e às vezes conto com ele pra que nenhuma merda aconteça
é melhor falar bobagens que calar besteiras, já dizia Guimarães
nisso eu acredito, estando embriagada ou não
preciso arranjar outro sapato de plástico
pra voltar a ser surpreendida por chuvas de verão
e não ficar com os pés molhados
que andar descalça às vezes dói
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