sexta-feira, 3 de abril de 2015

ontem cortei o babado de um vestido e guardei o retalho pra fazer um vestido de boneca com a sofia. puro reflexo, automático. hoje de manhã vi o retalho sobre a mesa e me dei conta de que era bobagem guardar, ela não vai voltar. e ele nem sabe atrás do que exatamente partiu. perguntei se ele tinha saudade de casa. disse que não. que o reencontro com ele mesmo está intenso. que a casa do amigo é acolhedora. que ele nem tem tido tempo de sentir saudade. doeu tanto de ouvir. espero nunca ter que passar por isso. espero nunca ter que abandonar meus filhos porque preciso me reencontrar. espero nunca ter que dizer adeus a quem eu amo porque preciso me reencontrar. mas eu não acho mais que ele me ame. diz ele que sim. mas eu não tô a fim desse amor que não sabe o que quer. que toda hora foge. que toda hora joga tudo pro alto e diz "isso não é bom pra mim". eu quero um amor que saiba que os conflitos são inevitáveis. e, sendo inevitáveis, que importância eles têm quando se sabe que existe amor entre a gente? a questão é que eu não sei mais. entende? não sei mais onde pisar. não sei mais se dá pra confiar. enquanto isso, enquanto ele se reencontra com ele mesmo, nossa familiazinha que se formava em volta da mesa se desfez. as crianças dele acham que a culpa pelo seu sofrimento é minha. e da categoria grande amor da vida, de pessoa por quem nunca se sentiu nada nem parecido, de repente a gente passa a pessoa com quem não dá mais. é triste isso. é muito transitório isso de amor. quase um não lugar. um supermercado, uma praça abandonada, uma via de passagem rápida. não chegou a um ano.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

sabe assim, essas coisas pequenas que fazem parte das conversas cotidianas de um casal? o acendedor era um tópico relevante. hoje, pela primeira vez em seis meses, consegui acender o fogo no primeiro clique, e não no décimo quinto. só porque ele não está aqui pra ver, aposto.
não sei mais cozinhar. o bolo de banana feito enquanto o marido arrumava as malas ficou seco. esqueci do leite. mas também, como lembrar do leite? que ideia, fazer bolo enquanto quem vc ama se prepara para ir embora. o suflê de queijo do jantar de ontem, que fracasso. a massa pesada, pesada. consistente demais. forte demais. tinha que ter sido leve. aerada. permeável. a massa e eu.

segunda-feira, 30 de março de 2015

e se eu pichasse a moto dele? com sprays multi-coloridos, em letras grandes eu chamava ele de tudo quanto é nome. cachorro, canalha, cretino, babaca. em vermelho, amarelo e azul claro. a roupa não consigo mais picar, já dobrei e guardei, com carinho e cuidado, numa mala que tinha aqui. já veio buscar. já chorou. já chorei. já saiu de novo sem falar nada. já encaixotei o que ficou na mesa do escritório. toda uma vida pra encaixotar. eu queria tanto arrumar a casa, pois então. as roupas de cama, talheres, panelas, etc, talvez fosse melhor vc separar, ou a gente faz junto, porque vc sabe melhor que eu o que é de quem, ele me escreveu. e eu guardando o que de roupa ficou aqui. ok. eu separo. 
Fico pensando, da próxima vez sou eu que minto, da próxima vez não deixo ninguém ser importante assim, da próxima vez não vai ter próxima vez. aí eu fico com saudade, com uma tristeza imensa e choro. fim.
dobrei meticulosamente cada roupa que ficou aqui. arrumei organizadamente na mala. separei os sapatos, os cabides, as meias, as cuecas que eu adorava ver nele. guardei as blusas de lã, as jaquetas, os cintos. tudo que estava na cômoda e no armário: luvas, bolsas, como eu vou viver sem reclamar que janela de madeira não é lugar de pendurar toalha molhada? os ternos e casacos deixei em cima da mesa do escritório, não cabia tudo na mala. é difícil, isso. não lavei a roupa suja que ficou aqui. coloquei tudo no cesto que era dele. também não escondi nenhuma camiseta pra mim. acariciei o cachecol xadrez que ele mais usava. fiquei com saudade do futuro que não chegou. de tudo que era pra ser e que não foi. podia ouvir o álbum branco no repeat por horas e horas sem parar. quem era ele? quem eu era para ele?
copos vazios ficaram espalhados pela casa toda. os cinzeiros estão cheios de cigarros onde ele costumava ficar. a cama ficou desarrumada. tem roupa dele no chão do quarto, ao lado da cama. ainda não sei como as crianças vão ficar com isso tudo. não sei como eu vou ficar com tudo isso.
toda vez que ele dizia que ia embora, eu pedia que ele não fosse. no começo, eu achava que ele não queria realmente ir embora. só estava bravo, ia passar. mas essa conversa sempre se repetia. agora foi a gota d'água; agora chega; agora eu vou embora. e eu dizia: não diga isso, por favor. qualquer dia, isso vai entrar em mim, e eu vou começar a acreditar que o melhor mesmo é que vc vá de uma vez. sem falar que eu me acho muito boa nisso de ficar sozinha. a vida não anda, a vida galopa, quando estou sozinha. vai de vento em popa. e agora estou aqui, deixando de fazer o que gosto porque estamos invariavelmente brigando. por favor, não me lembre de como eu gosto de estar sozinha. vai que eu acredito nisso de novo. então hoje, quando discutimos por bobagem mais uma vez, e ele mais uma vez fez as malas, eu não disse nada. apenas esperei.
o problema de quando vc mente é que vc tira da pessoa pra quem vc mentiu o direito de existir. se vc mente, ela não pode lidar com o mundo como o mundo é. ela não pode lidar com as situações do modo que as situações realmente são. e, fatalmente, ela não poderá lidar com vc da maneira que vc realmente é. então, não sabendo com quem estamos de fato lidando, como estabelecer uma relação de confiança? como acreditar, se acredito no que não conheço? fé? mas e depois, quando tomo conhecimento, quando passo a saber? depois, não existe mais. não existe mais confiança, não existe mais relação, não existe mais a própria pessoa que mentiu. porque não há nada que garanta que essa pessoa não era mais do que um punhado de algumas versões. esse é o grande problema da mentira. ela corrompe o que há de verdade.

domingo, 29 de março de 2015

falei que ninguém mais me derrubava, eu menti. derrubaram lindamente.
ismália se apaixonou; se casou; enlouqueceu outro marido e ele, cansado, foi embora.
toda vez que ele dizia que ia embora, eu pedia que ele não fosse. no começo, eu achava que ele não queria realmente ir embora. só estava bravo, ia passar. mas essa conversa sempre se repetia. agora foi a gota d'água; agora chega; agora eu vou embora. e eu dizia: não diga isso, por favor. qualquer dia, isso vai entrar em mim, e eu vou começar a acreditar que o melhor mesmo é que vc vá de uma vez. sem falar que eu me acho muito boa nisso de ficar sozinha. a vida não anda, a vida galopa, quando estou sozinha. vai de vento em popa. e agora estou aqui, deixando de fazer o que gosto porque estamos invariavelmente brigando. por favor, não me lembre de como eu gosto de estar sozinha. vai que eu acredito nisso de novo. então hoje, quando discutimos por bobagem mais uma vez, e ele mais uma vez fez as malas, eu não disse nada. copos vazios ficaram espalhados pela casa toda. os cinzeiros estão cheios de cigarros onde ele costumava ficar. a cama ficou desarrumada. tem roupa dele no chão do quarto, ao lado da cama. eu ainda não sei como vai ser. ainda não sei como as crianças vão ficar com isso tudo. não sei como eu vou ficar com tudo isso. mas a gente fica. a gente sempre fica, de um jeito ou de outro.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

aí a imobiliária me manda o boleto do aluguel um dia antes do vencimento, e porque eu mandei um e-mail cobrando! minha resposta: foi por má fé ou por pura distração mesmo? me recuso a pagar essa multa!

obs.: tudo bem, voltar às pequenas desimportâncias cotidianas? tô falando sozinha, né? ok.

nessas horas eu queria ser jornalista, qualquer coisa assim. é que a máquina de costura não transmite informações em tempo real. mas não, quis ser costureira. ah, a beleza de dominar o meio de produção.... ah, a beleza de ser artífice em meio à produção em massa... xé. queria mesmo era estar no olho do furacão. e se eu estivesse lá, ia pensar: ah, como seria bom viver do que consigo produzir com minhas mãos... nóia eterna de quem nasceu pra artesã.

ah, a beleza da insatisfação crônica...

a vida tá boa trabalhando fora de casa. uma vez por semana fico dando voltas e mais voltas pelos quarteirões da vila madalena, tentando lembrar onde foi que estacionei o carro. não, não tenho ido trabalhar de bicicleta. me deprime demais, pedalar no jaguaré. eu, scânias, ônibus... mas nem.

abandonei definitivamente as aulas de violão.

a yoga tem me fascinado. pela primeira vez encontrei um professor que te corrige botando o teu corpo no lugar. não é fundamental isso? eu acho. fez toda a diferença.

ontem fez um mês que meu namoro acabou. definitivamente. no começo, chorava a toda hora. depois, três vezes por dia. agora uma vez por dia, pelo menos. daqui a pouco paro de contar. se tudo der certo, quem sabe, paro até mesmo de me importar.

me perguntaram assim: então vc é mãe? sim. tem namorado? não.

lembrei do que? sim: da campanha "namore uma mãe solteira". quem sabe, mais pra frente.

a vantagem de ser costureira, e não jornalista, é que daqui do alto de toda minha desinformação, sei muito bem o que está acontecendo. a desinformação é uma benção na vida do ser humano pós-contemporâneo.



terça-feira, 30 de abril de 2013

talvez o gato esteja entrando aqui durante a noite e comendo a ração da gata. eu queria assistir novela. eu gostava tanto de você. gostava. gostar tem doído. então eu gostava. mentira, ainda gosto. gosto tanto, tanto. queria você aqui, agora. mas vai doer, então é melhor não. me incomodava pensar que eu pudesse ter desistido por medo. por que não deu certo? - me perguntariam. porque eu tive medo, eu teria que responder. e isso não é resposta que se dê, nem motivo pra que coisa qualquer se acabe. me pergunto se não é por medo que agora encerro tudo. não. não é. é auto-preservação. o que pode parecer balela, mas não, uma coisa é muito diferente da outra. dessa vez eu insisti. o quanto pude. a roseira está cheia de botões. só a cor-de-rosa sobreviveu. a branca e a amarela logo morreram.
achei uma foto perdida, uma foto que eu tirei pouco antes da gente se separar. ele de pijama na cozinha, lavando a louça do café. nem lembrava mais dessa foto, foi a última que eu tirei. e eu sabia que ia ser a última, engraçado. foi antes da cirurgia, eu intuí que era das últimas vezes que eu via meu marido lavando a louça e assoviando. mas eu, muito ingênua, achei que fosse medo de que ele não resistisse à cirurgia. ele assobiava o tempo todo. o leo faz a mesma coisa. eu nunca consegui aprender a assobiar. tirei quatro fotos. em agosto vai fazer quatro anos que nos separamos. continuei aqui, na mesma casa. e vendo a foto, vi outra casa. uma casa bem cuidada. tinha uma avenca em cima da geladeira. violetas na janela. a superfície do armário era branca, não se escondia debaixo de uma crosta preta e gordurosa e eu não tinha o hábito de empilhar coisas. arrumava-as ordenadamente em potes variados. costumava usar panos de prato com barrados de crochê, de tecido ou de ponto cruz. fazia as toalhas de mesa em patchwork. deixava um pano de prato no puxador da geladeira. no vidro do fogão sempre tinha uma toalha bonita. em cima da mesa também. daqui onde estou agora, vejo 3 bananas (houve um tempo em que eu mantinha as frutas numa fruteira em cima da mesa, mas agora), uma caixa de chocolate em pó, mel, potes de vidro vazios, sacos de pão velho, potes vazios de manteiga e uma caixa de sabão em pó. sim, sabão em pó. e bananas, no mesmo armário. às vezes acho que não vou aguentar. tá difícil isso de viver sozinha. sabe o que eu queria? queria casar. mas não consigo. não consigo nem namorar. imagine casar. ninguém mais me pega de surpresa, sabe? ninguém vai me derrubar de novo. endureci. quatro anos depois, eu sou uma fortaleza. fortaleza que verte água. a rodo. nem tão fortaleza assim.

terça-feira, 16 de abril de 2013

sabe aquela sua camisa azul, que vc estava vestindo no nosso primeiro encontro? aquela, que vc gostava. coloquei pra dormir. isso mesmo. estou dormindo com ela. não durmo com vc, muito bem, durmo com sua camisa então. comprei uma camisola nova. vc diria que eu fiquei gostosa. e fiquei mesmo.  mas é de alcinha, hoje faz frio. não tem ninguém aqui. mas eu queria me ver gostosa. coloquei sua camisa pra me aquecer. não tem vc, muito bem, me aqueço com sua camisa, então. inveja eu tenho também, de muitos casais. não morro de inveja de nenhum deles, como vc disse. acho mesmo que somos todos mais ou menos parecidos nas relações amorosas, nas desavenças, nas querelas. o que foi que vc disse mesmo? que eu sou mesquinha. e que isso é feio. é feio. não é nem que é errado: é feio.  concordo. é feio mesmo. o problema da humanidade tá todo aí, não tá? na mesquinhez. e aí a gente vê a pessoa que a gente diz que ama sendo mesquinha no amor: como vai ficar? será que vai me faltar amor? me falta amor? amor? vesti aquela camisa azul que vc gostava e vou dormir com ela. era só isso o que eu queria dizer.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

não caso


amassava os dentes de alho antes de descascá-los. amassa, tira a pele. amassa, tira a pele. pele. alho tem pele? pele tenho eu. picou tanto alho, achei que não fosse conseguir comer. uns oito dentes graúdos.

- eu gosto de macarrão com abobrinha ralada, bacon e molho branco.
- bacon não é uma opção.
- desculpa.
- tudo bem.

gengibre. um pedaço bom. tão bem picado. nunca vi um cozinheiro de verdade cozinhando na minha frente. eu podia casar com ele. mas não, não podia. muito alho, bastante gengibre,

- quero fazer um macarrão ao sugo, simples, com berinjela refogada.
- berinjela? - fiz cara feia, igual criança.
- por que não? você não gosta de berinjela?  - cara de decepcionado.
- não, gosto. é só que... tenho comido bastante berinjela ultimamente.
- tá bom. do que você gosta?
- de tudo.
- a mulher dos meus sonhos.
- fosse fácil assim - mas isso eu só pensei.

muito alho, bastante gengibre, umas oito abobrinhas pequenas (já que eu não queria berinjelas),

- eu gosto de escolher as mais brilhantes (reclamando da abobrinha sem graça que tinha nas mãos).
- então pegue as que estão mais no fundo. as que estão atrás sempre estão melhores.
- é, você tem razão (ligeiramente constrangido por não ter visto antes de mim que as abobrinhas do fundo estavam melhores, porque afinal, quem é o cozinheiro de verdade é ele, não eu).

muito alho, bastante gengibre, umas oito abobrinhas pequenas, dois tomates grandes,

- vai o yyyyy mesmo, o xxxx tá muito caro.
- nunca nem tinha visto esse xxxx.
- não? (tentou conter sua indignação ante meus parcos conhecimentos frutíferos para não me constranger. fofo. mas eu percebi mesmo assim).

muito alho, bastante gengibre, umas oito abobrinhas pequenas, dois tomates grandes, frita o alho primeiro,

- peraí, deixa eu gastar minhas moedas (contei: primeiro as de um real; depois as de cinquenta centavos; vinte e cinco centavos; dez centavos; por fim, as de cinco centavos. primeiro me desfaço dos modelos novos de valor mais alto; depois conto numa passada dos olhos o que se tem em maior quantidade, se modelos novos ou antigos. modelos novos tem preferência na partida. modelos antigos vão ficando).
- é impressão minha ou você escolhe as moedas para pagar a conta?
- deu pra ver?
- deu.
- já fui mais discreta.

muito alho, bastante gengibre, umas oito abobrinhas pequenas, dois tomates grandes, frita o alho primeiro, depois o gengibre, joga a abobrinha e o tomate, deixa refogar, a abobrinha não pode amolecer muito menos desmanchar, sal e pimenta calabresa.

- sensacional.
- gostou?
- muito. tá incrível.
- casa comigo?
- melhor não.
- por que não?
- desculpa. é que eu detesto que coloquem todo o molho de uma vez no macarrão.




amor é berinjela


Trinta anos, dois amores e meio e sempre berinjela.  Era um dia importante, ele vinha. Ele vinha e eu queria que ele ficasse. Não podia dizer não volta, não podia dizer estende sua viagem, não podia dizer fica. Era cedo, mal o conhecia. Mas queria vê-lo em outra situação que não festa, encontro, nós dois sozinhos no quarto. Chamei pra comer. Chamar pra comer às vezes equivale a tirar pra dançar. Pois tirei o moço pra dançar. Mas o que fazer? Uma coisa de se lambuzar. De comer de boca cheia, que é pra ver se existe gosto pela vida ali. Como se come é também como se ama, e eu evito os que comem sem poder se sujar. Dias inteiros na absoluta falta de criatividade. Até que um dia, numa embalagem de queijo ralado na casa de uma amiga, veja só: berinjela à parmegiana.  Perfeito! É rápido, é fácil, é gostoso, é suculento.  Berinjela à parmegiana é o que teremos. Um dia antes, confirmo nosso almoço: ele vem. Vem, e pergunta se pode trazer o irmão. Bom... Pode. Mais berinjelas, então. Berinjelas, mozarela, tomates bem maduros, cebola, alho, manjericão. Manjericão.  Amor é berinjela. Mas aí eu ainda não sabia disso, não, só ia saber dez anos depois. Enfim. Cortei as berinjelas em rodelas. Fui colocando numa travessa com água, pra berinjela não escurecer. Nunca mais fiz isso. Nessa época eu tinha medo de desobedecer às receitas, engraçado, hoje nem leio as receitas, quando vem em rótulos, então. Ah, não: primeiro eu fiz o molho de tomate. Sempre começo pelo molho.  Desde sempre. Frito primeiro o alho: gosto dele douradinho. Coloquei só um dente nesse dia. Sabe como é, alho não é lá uma coisa que a gente come e sai beijando os outros depois. Bom, amassei um dente de alho, cortei uma cebola bem picadinha, coloquei os tomates pelados pra refogar. Acertei o sal, um tico de açúcar, abri um vinho. Forrei a travessa com o molho, coloquei as rodelas de berinjela, cobri com mais molho, mozarela por cima, um pouco de parmesão também. Forno. Vinho. Manjericão. Comida na mesa. Casei com o irmão.

Nada é para sempre (pelo menos com esse não foi) e um dia eu me vi completamente apaixonada por um desconhecido. Um piquenique numa praça, de noite. Frio de junho, festa junina, eu acho. Cada um levava uma coisa. Ele ia. Ia ter fogueira. Eu saí do trabalho e levei pão, azeite, vinagre com alecrim, pimentas, orégano, berinjela e papel alumínio. Tudo comprado no mercado em frente, ali na hora. Até hoje ele nem desconfia. Ou desconfia? Não sei. Nunca tive coragem de dizer o que imaginava com ele. Tive um pouco de preguiça, também. Mas fiquei feliz quando ele parou a bicicleta exatamente em cima da minha. Ah, se ele soubesse. Se ele soubesse no que foi que pensei quando vi as duas bicicletas emparelhadas... Bom. Embrulhei as berinjelas com o papel alumínio e coloquei na fogueira. É complicado isso pra mim, confesso, estar a fim de alguém e saber a dose certa, a hora certa, a palavra certa. Vai ver eu sou tímida, quem diria. Pra não dar na cara, fico longe. Fico longe, mas não consigo tirar os olhos. Atrai, sabe? Já nos encontramos em outros piqueniques depois. Mas eu não acho que ele me dá bola. E eu não gosto de ouvir não. Então não pergunto nada. Mas naquele dia do piquenique, vê-lo lambendo os dedos depois de comer a berinjela que eu fiz me encheu de satisfação. Ah, se ele soubesse no que foi que eu pensei quando o vi lambendo os dedos... Tirei o papelote da fogueira, abri a berinjela ao meio. Tirei a polpa, misturei o azeite e o vinagre com especiarias, comemos com pão. Simples assim. Ele parado atrás de mim enquanto eu preparava a berinjela me dava mais calor do que a fogueira bem na minha frente. Mas eu acho que digo tudo com os olhos. Eu não queria que fosse assim, mas é assim que é. E se ele não me viu dizendo nada, bom... Que se há de fazer. Foi a berinjela mais gostosa que eu já fiz, assim sem nada.

Mas não foi a última. Como é a vida, não? Tem uma receita de antepasto de berinjela que eu fiz a vida toda que é assim: uma berinjela picada em quadradinhos, um pimentão verde, um vermelho e um amarelo, tudo em quadradinhos. Forno até murchar. Azeite, sal, geladeira, no dia seguinte fica melhor. Um dia uma amiga fez um antepasto que levava aceto balsâmico. Bem diferente do meu. Às vezes eu colocava uva passa, e o dela não tinha doçura nenhuma, era bem ácido. Uns meses depois eu fiquei com vontade de comer esse tal antepasto com aceto balsâmico. Não lembro bem a ordem das coisas qual foi, mas no finzinho do ano conheci uma moça e me apaixonei por ela. Bom, eu  sempre me apaixono pelas pessoas, homens ou mulheres. Só que dessa vez a paixão extrapolou a noção de admiração, era paixão mesmo. Dessas que eu só tinha sentido por homens. Passamos o ano novo junto. Eu dizia assim, junto. Ela dizia ficamos juntas. Eu achava esquisitíssimo. Ficamos juntas pra mim soava militância. E eu não queria militar, amar uma mulher já era novidade o suficiente. Acho que eu não queria mesmo era ver que sim, eu estava amando uma mulher. E eu amei. A dona do sorriso mais lindo que eu já vi. Foi com ela que eu descobri: amor é berinjela. Eu de pé no fogão, explicava: essa receita eu nunca fiz. Uma amiga fez, eu fiquei com vontade de comer de novo, então vou fazer pra gente hoje. Não sei se vai dar certo, pode ser que dê errado. Mas vou tentar mesmo assim. Ela sorriu e repetiu: é? Nunca fez? E vai tentar mesmo assim? É, era de amor que eu estava falando, não de berinjela. Insisti: cortei a berinjela em tiras finas.  Cortei uma cebola em tiras finas. Dourei a cebola no azeite, joguei as tiras de berinjela, um pouco de sal, açúcar mascavo, deixei refogando. No fim coloquei algo como um terço de xícara de aceto balsâmico. A berinjela ficou bem escura, desmanchando, como a que eu tinha comido. Coloquei mais azeite depois de esfriar. O resto eu não vou contar. Mas saibam disso: amor é berinjela. A gente vai tentando, mesmo sem nunca ter feito antes. Mesmo tendo feito tantas outras vezes antes. Nunca fica igual - sempre melhor.
toda vez que vejo o mar, lembro que meu ex-marido disse a uma amiga que ele teve que ir embora por que não dava conta de mim. segundo ele, eu sou uma força da natureza. bom, eu encaro como um elogio. e vendo agora a atual mulher dele, é impossível não reparar: ela fala baixo, é magrinha, educada, usa sempre roupas sóbrias de cores escuras. eu sou essa pessoa que cês tão acostumados (ou não): opulenta, que fala alto, usa vestido vermelho de bolinha com decote generoso e fenda até o meio da coxa, deixa o filho com cheiro de baba quando se despede, ri mostrando todos os dentes, anda cantando na rua e dando bom dia a desconhecidos. o que eu fico pensando é: como a gente pode casar tão errado? e mesmo sendo tão diferentes assim, como um filho pode dar tão certo? enfim. acho mesmo muito engraçado. 
é nesses dias assim que eu sinto uma vontade incontrolável de chorar, de pintar paredes e ouvir carlos gardel ou edith piaff. às veze me sinto tão ridícula. com tanta coisa pra fazer, olho pras paredes e nada mais importa, senão pintar paredes. e eu tenho isso desde sempre. desde criança. é que minha mãe não deixava, não tinha como pintar parede nenhuma. mas agora, adulta, com paredes disponíveis e tinta à mão, quando tudo parece insolúvel, eu largo tudo e vou pintar uma parede qualquer. eu fico pensando, mas que pessoa bizarra eu sou. tenho vontade de rir de mim mesma, imagine, largar tudo para passar os próximos dois dias pintando uma parede. pintando uma parede! virei motivo de chacota, e os mais próximos (que já sacaram minha bizarrice) me alertam (claro, em tom de deboche): só não vai me pintar nenhuma parede, hein? mas vejam bem, quem nunca passa por momentos de desatina de quando em vez? meu momento de desatino eu atravesso assim, cansando o corpo e arrumando a casa. muito sintomático do que representa a casa para mim, meu exoesqueleto. mas não, não vou pintar paredes. da última vez, pintei uma parede do meu quarto num tom de lilás. nem gosto muito de lilás, mas ficou bom mesmo assim. jurei pra mim mesma que era a última vez que levava a cabo tal sandice. então não vou pintar nenhuma parede. mas que dá vontade, céus, como dá.
aquela minha terapeuta, mais maluca que a paciente que vos escreve, disse uma vez, quase como se me jogasse uma batata quente nas mãos: tua mãe te ensinou a odiar os homens. eu fiquei muito brava, ninguém fala mal da minha mãe. minha mãe é a melhor mãe que eu poderia ter tido, é a melhor mãe do mundo. e ralou tanto com o pai que eu tenho, pra trinta anos depois vir uma terapeuta e me dizer que minha mãe me ensinou a odiar os homens. se eu odeio os homens, o mérito é todo deles. ora, a gente cresce numa cidade em que só os homens tem alguma chance de futuro. a gente vai à igreja, e se vc for mulher, não tem o direito sequer de tocar um instrumento que não seja o órgão: uma orquestra inteira para os homens, um só órgão para as mulheres. instrumento de dominação, claro. ficam lá as mulheres de picuinha, se revezando e se odiando por dentro, sim, a vaidade de ser organista é feroz. porque é para poucas. sabemos bem como funciona essa lógica do "para poucos". sabemos, não sabemos? talvez a igreja tenha me ensinado a odiar os homens. os homens com seus ternos no púlpito, no púlpito a mulher só sobe se for para encerar a tribuna. eu encerava a tribuna do ancião quando minha avó deixava. encerava os bancos da igreja. quase posso sentir o cheiro da madeira escura. o cheiro da igreja do bairro que eu não lembro o nome, tinha cheiro de naftalina com chuva e barro. às vezes tenho vontade de visitar esses lugares, pra ver como está agora. o tanque de batismo. o medo de entrar no banheiro sozinha - quantos exorcismos já aconteceram lá? não me lembro do demônio fazendo escândalo no banheiro masculino. só as mulheres, essas histéricas, dão passagem aos seres de baixa frequência. meu pai, sem dúvida, me ensinou a odiar os homens. desde pequena. mas e daí, não é? a gente cresce e descobre que não é lá muito melhor do que nosso próprio algoz. e tudo bem. paz-deus, minha mãe disse. a me lembrar de onde vim. não precisa, eu lembro bem. lembro bem que não concordo com quase nada. e isso não é culpa sua.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

acho engraçado quando vc me pergunta se eu vou aguentar. como se eu tivesse opção. sabe? eu não tenho opção. não se trata de escolha a ser feita. por que se fosse escolha, desculpa falar, eu não escolhia vc. não. eu escolhia o mais fácil. escolhia um homem alto, forte e bonito. e rico. já que é pra escolher. sem choques. sem grandes sustos. sem grandes problemas. mas não. então não me pergunte se eu vou aguentar. eu tenho que. eu quero. quer dizer, agora não mais. agora já é sacanagem. por que sabe, eu já esperei uma pessoa uma vez, por dois anos. por dois anos eu não desisti. esperei, fiquei, insisti. então, quando vc diz - espera, eu preciso me recompor - eu entendo crueldade. é crueldade comigo. chega, né? chega de esperar alguém se recompor. prefiro ir junto estraçalhada mesmo. por que a gente sempre se estraçalha. então e daí o estraçalhamento, entende? não é? e daí? vc disse que vinha e não veio. nem ligou. não mandou e-mail, sinal de fumaça, pombo correio, telegrama. então vamos fazer assim: fica aí. se consuma na sua dor, se quiser. eu vou fingir que não me importo. até que vai passar tanto tempo, que um belo dia eu vou perceber que já não me importo mesmo. e fim.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

- vc tem que ser a parte leve.
- não vim pra te entreter.